Carlos Ceia, professor universitário e responsável pela formação de muitos dos futuros docentes, sente-se ele próprio "ofendido" com as declarações de Fernando Alexandre e de Luís Montenegro ao longo de todo este processo. Defende que “devia haver um pedido de desculpas aos professores” e fala em “amadorismo” na implementação da digitalização dos exames. A maioria dos docentes defende a continuação do ministro, “até para que assuma os erros”, mas o S.TO.P! já veio pedir deliberadamente a sua demissão
Carlos Ceia foi professor de Português no Ensino Secundário entre 1985 e 1989. Enveredou pela carreira académica e é hoje professor universitário e responsável pela formação de muitos dos novos docentes. Está “indignado” com a polémica em torno do processo de classificação dos exames nacionais e diz-se “ofendido” com as declarações que o primeiro-ministro, Luís Montenegro, e o ministro da Educação, Fernando Alexandre, têm feito, no sentido de responsabilizarem as escolas e os professores pelos atrasos na classificação.
“Desde o princípio que a comunicação tem sido desastrosa. Tão desastrosa como o processo. Em vez de se colocarem do lado daqueles que serão a solução do problema - os professores -, optaram, desde o início, por hostilizá-los”, sublinha Carlos Ceia.
“O primeiro-ministro veio dizer que os professores são resistentes à mudança. Não há classe profissional que tenha dado mais provas de estar disposto à mudança do que os professores. Basta ver as mudanças de currículo nos últimos anos. Basta ver as mudanças na liderança das escolas de ano para ano. Só quem não conhece a escola pública é que pode dizer uma coisa dessas. Eu, como professor, embora de outro nível de ensino, fico também ofendido”, assume.
O especialista em Educação adivinha que o “desastre” não se extinga tão depressa. Fala mesmo em “primeira temporada de uma série que não vai acabar” hoje: “Acho que isto é só uma temporada de quatro temporadas. A primeira é esta, a segunda começa para a semana, com os pedidos de reapreciação e a segunda fase, a terceira vai ser a da análise dos resultados e a quarta é a da entrada no ensino superior”.
“Nós, nas universidades, não sabemos quando vamos começar o ano letivo no primeiro ano. Temos um calendário, mas já nos convencemos que, também nós, vamos ter de adiar”, admite.
"Dúvidas sobre a qualidade" das classificações
Uma fonte conhecedora do processo, que preferiu manter o anonimato, mostra também indignação e diz que “todos os problemas que estão a acontecer já se adivinhava que fossem acontecer”. “O presidente do Júri Nacional de Exames demitiu-se porque avisou o Governo que isto ia correr mal e ninguém lhe deu ouvidos”, assegura.
A mesma fonte diz ter “dúvidas sobre a qualidade das correções”, não por desconfiar da competência dos professores, mas porque “os professores classificadores estão a trabalhar sob pressão e sem condições”. Condena também o “passar de culpas”: “Foi o agrafador, foram as escolas, foram os professores. Não houve a humildade de assumir que as coisas não estão a correr bem porque este processo, como está desenhado, não resulta”.
“E há outra questão: quando era em papel, as provas eram guardadas num cofre, nas escolas e ai de quem abrisse o cofre sem estar devidamente autorizado. Agora, vemos as imagens de provas ali espalhadas, num armazém, onde entraram membros do ministério, jornalistas, os técnicos da Deloitte…”, diz ainda em conversa telefónica com a CNN Portugal.
Responsabilidade política
Carlos Ceia considera que, mais tarde ou mais cedo, Fernando Alexandre tem de assumir a “responsabilidade política” pela decisão que tomou de avançar com o processo já este ano. “Quem é que decidiu optar por este caminho? Quem é que decidiu optar por uma empresa de marketing ad hoc para tomar conta do processo? Quem é que decidiu avançar de uma experiência desastrosa no ano passado com Filosofia para um processo desta dimensão? Esta responsabilidade política tem de ser assumida”, defende o especialista, sublinhando que “não pede a demissão de ninguém”.
“Fernando Alexandre ignorou o relatório da experiência que foi feita no ano passado com Filosofia e decidiu avançar para a generalização do processo em todas as disciplinas já este ano. França demorou 15 anos a implementar o processo generalizado de classificação digital dos exames. Inglaterra teve três plataformas até ao ano passado e agora avançou para uma plataforma única de uma grande empresa tecnológica, não contratou uma empresa de marketing caseira, sem qualquer conhecimento no processo”, acrescenta ainda Carlos Ceia.
Carlos Ceia não pede a demissão de ninguém, mas já houve quem o fizesse deliberadamente. Esta quinta-feira, o S.TO.P! manifestou-se junto ao Centro de Congressos de Lisboa, onde o ministro da Educação, Ciência e Inovação (MECI) participava numa conferência, pedindo a sua demissão.
“Nós não aceitamos jogar ao casino com a vida dos nossos alunos. Não aceitamos jogar ao casino com a vida dos professores. Como tal, o senhor ministro tem de garantir duas coisas: uma é que os alunos vão ser equitativamente avaliados para acederem equitativamente ao ensino superior; duas, tem de se ir embora, porque isto representa um falhanço da sua política de desinvestimento na Educação”, defendeu Daniel Martins, dirigente nacional do S.TO.P!, durante a manifestação, à CNN Portugal.
O dirigente sindical insistiu mesmo que “isto não é uma digitalização”. “Isto é um processo em que se gastou mais papel do que nunca. Esta ‘digitalização’ significa destruir organismos da escola pública e entregá-los a empresas privadas como temos visto”, acrescentou.
Cenas dos próximos capítulos
O ministro Fernando Alexandre admitiu, esta quinta-feira, que há "riscos" de nem todas as notas dos exames nacionais serem publicadas esta sexta-feira e apelou aos professores classificadores que aceitem mais itens para corrigir. Admitiu ainda que o maior problema se regista nas disciplinas de Português e Matemática, onde o volume de exames é maior e, consequentemente, o atraso também.
Carlos Ceia mostra-se “muito preocupado” com a segunda fase dos exames nacionais que arranca já na próxima terça-feira. Sobretudo depois de o ministro ter assegurado que o sistema de classificação vai ser o mesmo. “Estou muito preocupado com adoção do mesmo sistema na segunda fase. O ministro não vai ter o mesmo número de alunos na segunda fase que tem tido nos últimos anos. Vão ser muito mais. Os alunos têm de se defender. Pensam ‘eu não sei o meu resultado, não sei o resultado da reapreciação, vou à segunda fase não vá a minha nota não ser suficiente. Muitos alunos estão a estudar para a segunda fase mesmo sem saber as notas”, observou o professor universitário.
“E quem é que o ministro vai chamar para corrigir os exames da segunda fase? Vai chamar os mesmos professores que estão exaustos desta primeira fase e de todo este caos para classificar os exames da segunda fase?”, questiona.
O especialista considera ainda que o MECI tem de se precaver para um aumento dos pedidos de reapreciação, porque, “depois de tudo o que tem sido tornado público, é óbvio e compreensível que os estudantes queiram ver o seu exame”.
“É o caos absoluto. Neste momento em que estamos a falar [11:55 de quinta-feira], os diretores ainda não sabem como proceder amanhã. Falei com alguns diretores e eles ainda não sabem como vão disponibilizar os exames aos alunos, se vão ter um Excel ou se vão ter de fazer tudo à mão. Depois o primeiro-ministro vem dizer que os professores são resistentes à mudança. Não é resistência à mudança, é resistência à falta de planeamento. Tudo isto é de um amadorismo muito grande”, considera Carlos Ceia.
O docente adivinha ainda que o Governo não irá analisar os resultados dos exames e tirar daí ilações: “Se houver muito bons resultados, não vamos avaliar porque é que houve bons resultados. Se houver maus resultados, também não vamos avaliar. Assim como não vamos avaliar os modelos de exames, que ando há anos a dizer que não são adequados”. “Para mim, a forma como se faz a avaliação está totalmente errada. Dou a cara, porque vou receber alunos na universidade que depois não estão preparados para o ensino superior. Testes de escolha múltipla, um modelo de avaliação que está a diminuir a capacidade de raciocínio dos alunos, um modelo de avaliação que limita a capacidade de escrita de um aluno a 350 palavras”, diz, sem esconder a indignação.
Os exames nacionais de fim de ciclo deste ano estão envoltos em polémica, muito por causa do modelo de classificação adotado, que implica a realização de exames em papel, a posterior digitalização e centralização concentrada no edifício da Imprensa Nacional Casa da Moeda, em Sintra, e divisão em itens para serem distribuídos pelos professores classificadores. Houve sucessivos atrasos na distribuição dos itens pelos professores, que implicaram também sucessivos adiamentos dos prazos para conclusão da classificação e afixação de notas. Além disso, registaram-se problemas com o acesso à plataforma e sucederam-se relatos de problemas com a digitalização, incluindo falta de folhas de continuação e respostas à mesma pergunta com duas caligrafias diferentes.
