Oito conselhos e cinco regras para um ano letivo sem sobressaltos

18 set, 11:00
Regresso às aulas (Foto:  Marta Fernandez Jara/Europa Press via Getty Images)

Todos os pais querem um ano letivo tranquilo, sem surpresas desagradáveis e sem grandes precalços. Mas consegui-lo nem sempre é fácil. Acompanhámos o regresso à escola de uma família e ouvimos as principais angústias da mãe. Depois, questionários três especialistas de diferentes áreas que nos deixaram alguns conselhos

Em casa dos Saraiva não há manhãs calmas. Três filhas com idades muito díspares provocam um saudável caos matinal, seja qual for a época do ano. O cenário agudiza-se no início de cada ano letivo. Foi assim também na última quarta-feira, quando foi preciso deixar as mais novas, Alice, de 11 anos, e Marta, de sete, nas respetivas escolas. E há ainda Inês, de 21 anos, que também vive lá em casa, mas está prestes a iniciar um mestrado.

O corre-corre matinal não rouba, ainda assim, os sorrisos e o entusiasmo das mais novas lá de casa. E nem roubou tempo para a tradicional foto de inicio de ano para publicar nas redes sociais. E nem a chuva, que era muita neste dia, atrapalhou o cenário.

Post publicado por Carla Romão Saraiva no Facebook no primeiro dia de aulas deste ano letivo. (Reprodução Facebook)

A mãe Carla, de 46 anos, sabe que terá de gerir espectativas, tempos, alegrias, tristezas e até algumas birras e frustrações de uma forma mais presente nos próximos nove meses.

“O tempo de aulas é também tempo de atividades extracurriculares. A Inês já é autónoma. Mas tenho de me desdobrar entre o karate da Alice e o karate da Marta. Depois, há também o clarinete que a Alice toca na banda da Assafora e o violino que ela também toca na orquestra da escola. Depois há a natação, que eu considero importante. No meio disto tudo, sinto que me falta tempo para estar com as minhas filhas. Quando eu penso no ano letivo e nas dificuldades que ele me traz, é nisso que penso”, confessa Carla Romão Saraiva, em declarações à CNN Portugal.

Tempo para descontrair

Carla sente-se sempre “numa correria” para cumprir horários: os seus, os delas e os deles: A minha vida começa às 07:00 e acaba sempre lá para as 01:00 e deito-me sempre a pensar se deixei as lancheiras todas prontas, se não me esqueci de rever nada.”

As atividades extraescola são um fator de stress para muitas famílias e muitos pais sentem que ocupam o pouco tempo livre que têm como motoristas dos filhos. A professora Lídia Teixeira, docente há quase 30 anos, deixa um alerta: “Paralelamente às competências académicas, é sabido que os jovens devem desenvolver competências transversais. No entanto, é importante não estarem sobrecarregados com atividades extracurriculares, terem tempo livre para descontrair, para atividades lúdicas, ou mesmo para não fazer nada.”

Tempo para ouvir

Se as manhãs são uma correria, os fins de tarde e as noites, já se viu pela descrição da mãe, não são melhores. Raramente se conseguem sentar os cinco à mesa para jantar. A vida de empresário de Vítor Saraiva não o deixa estar presente quanto gostaria e o trabalho de Carla na empresa do marido é mais absorvente do que as três filhas juntas.

Quando acontece a feliz conjugação astral de os cinco jantarem juntos, “há uma enorme disputa entre elas para terem voz. Todas querem contar tudo. Muitas vezes, tenho de pôr ordem na mesa e dizer ‘agora, falas tu e, depois, és tu’. É muito complicado porque sinto que não tenho tempo nem capacidade para as ouvir”.

A comunicação é, na verdade, uma dificuldade comum a muitos pais, sobretudo em período letivo. Por isso mesmo, a coach infantil e juvenil e terapeuta familiar Inês Sottomayor deixa alguns conselhos. “É importante saber transmitir aos nossos filhos, de forma clara e assertiva, porque é importante determinadas atitudes e, acima de tudo, escutar, ouvir o que os angustia, os seus receios e frustrações. É fundamental acolher para depois passar ao próximo nível”, sublinha.

Os pais são o melhor exemplo

E, se comunicar é fundamental, educar pelo exemplo não tem preço. Inês Sottomayor lembra que “os nossos filhos confiam mais nos nossos exemplos do que nas nossas palavras”. Sabendo nós que um ano letivo pacífico depende muito do modo como iniciou, é importante filtrar o nosso próprio stress e impedir que atinja os mais novos lá de casa. A coach infantil e terapeuta familiar lança, em declarações à CNN Portugal, várias provocações para reflexão: “Como é que eu tenho lidado com este regresso ao trabalho, às rotinas, será que estou em stress? Também não consigo estipular um horário de sono ou sem telemóvel? Que estratégias tenho utilizado?”

Assim, aconselha Inês Sottomayor, é fundamental “olhar para nós”, antes de olharmos para os nossos filhos.

Assumir responsabilidades

Marisa Carvalho, presidente do Conselho de Especialidades de Psicologia da Educação da Ordem dos Psicólogos lembra que o início do ano letivo é um ponto fundamental para os passos seguintes. É um “recomeço”, lembra. E é, por isso, também uma oportunidade de rever rotinas e adaptá-las á dinâmica familiar. A psicóloga lembra que “o início de ano letivo varia em cada família, por exemplo, em função da faixa etária dos filhos ou do modo como o período de férias das crianças e dos adultos aconteceu e foi organizado (veja-se, por exemplo, a situação de crianças que passam a maior parte do tempo de férias em atividades de campo de férias) ou da existência de transições mais marcadas como a entrada no 1.º ano ou mudança de ciclos”.

Por isso, é importante, defende Inês Sottomayor, “permitir que surjam maneiras diferentes de encarar as rotinas. “Todos somos diferentes e os nossos filhos não são exceção. Permitir que cada um encontre a sua forma de se lembrar das suas responsabilidades, descobrirem em conjunto como cada um pode contribuir para o bem-estar da família ajuda a sentirem-se pertença e respeitados na sua individualidade”, sublinha a terapeuta familiar.

A importância da imperfeição

Ao longo do próximo ano letivo, será inevitável, lembram os especialistas ouvidos pela CNN Portugal, que haja altos e baixos e é importante gerir expectativas.

“A verdade é que nenhum dia é igual ao outro. É importante ajustarmos as nossas expectativas e aceitar que não há perfeição. Nem nós somos pais perfeitos, nem é justo pedir isso aos nossos filhos. Sim, podemos errar como forma de aprender e de nos ajustarmos uns aos outros”, defende Inês Sottomayor.

Trabalhar por objetivos

Como em tudo, saber o que queremos para nós e para os nossos filhos é um ponto de suma importância. A terapeuta familiar Inês Sottomayor defende que é mais saudável “criar objetivos” do que expectativas.

“Que fique claro para todos o que cada um pretende atingir. Quais os sonhos de cada um. Pode ser para a semana, para aquele dia ou para o ano inteiro. O importante é ser para todos e adaptados às competências de cada um. E sempre desafiantes, pois é isso que nos motiva a sermos sempre melhores”, explica.

Gerir a pressão

As expectativas e os objetivos assumem um papel de maior relevância à medida que subimos nos graus de ensino. A professora do ensino secundário Lídia Teixeira revela, por experiência própria, que é nesta etapa académica que se cria “uma grande pressão nos alunos porque, como tradicionalmente se diz, ‘agora é que conta’”. “Temos somente a média do ensino secundário a determinar o acesso ao ensino superior e a decidir o futuro dos alunos”, lembra.

E se os alunos se sentem pressionados, de algum lado vem essa pressão. “Vem dos pais, da família, dos amigos, da sociedade em geral. E, por vezes, dos próprios alunos que, para concretizarem aquilo que acham que é o seu sonho, ou, muitas vezes, os sonhos dos seus pais, se auto pressionam, gerando em si ansiedade excessiva”, retrata a professora, sublinhando que o cenário “se agravou durante a pandemia”.

Lídia Teixeira sublinha que a ansiedade “se deve atender logo que surja para facilitar a aprendizagem e o bem-estar dos alunos na escola, assim como o despiste de outras situações”.

A aldeia que ajuda a criar o meu filho

Para o ano letivo correr de feição para todos, é necessária a participação de todos: alunos, professores… e pais! Se o provérbio diz que é necessária uma aldeia para educar uma criança, então “é necessário fomentar a cooperação, o relacionamento interpessoal entre os alunos e entre os alunos, os professores e os atores da escola, no sentido de promover a sua adaptação, o sucesso educativo e o bem-estar”. “Os pais e os encarregados de educação têm um papel fundamental na escola!”, lembra a professora Lídia.

“Devem acompanhar a vida escolar dos seus filhos e educandos, sem criar pressão, apoiá-los, quando necessário, promovendo, progressivamente, a sua autonomia. Paralelamente, devem participar na vida da escola e sentir a escola como parceira no processo formativo dos seus filhos e educandos. O trabalho articulado entre a escola, os pais e encarregados de educação e os agentes educativos é fundamental!”, resume a professora.

Em suma, cinco regras fundamentais para arrancar (e avançar) com o pé direito

A psicóloga Marisa Carvalho deixa à CNN Portugal algumas regras a implementar ainda antes do ano letivo arranca e que podem fazer a diferença:

1 - Preparar o início do ano letivo

"Um aspeto importante é conhecer antecipadamente o que se espera do ano letivo, os horários, como está preparada a sessão de acolhimento na escola ou no jardim de infância, os materiais necessários, entre outras. Ter esta informação permite à família organizar-se previamente e atempadamente de forma partilhada, envolvendo os filhos nesta preparação. A escolha e a preparação do material escolar pode ser uma tarefa prazerosa a realizar conjuntamente."

2 – Começar uma semana antes

"A antecipação de rotinas pode ser também um aspeto importante a considerar. Se possível, iniciar uma rotina aproximada da rotina escolar, pelo menos, uma semana antes da escola iniciar. Por exemplo, o deitar e o acordar, os horários das refeições ou a organização de tarefas do dia devem começar a cumprir-se antecipadamente de acordo com a rotina escolar. Deste modo, a transição será feita de forma menos abrupta."

3 – Suavizar transições

"Sendo possível, o início do ano letivo poderá ser progressivo, começando com uma visita à escola ou com uma sessão de acolhimento. Com as crianças mais pequenas, sugere-se que, nos primeiros dias, possam frequentar a escola apenas uma parte do dia. Esta possibilidade dará mais segurança e confiança às crianças e permitirá iniciar laços afetivos com os adultos e os pares."

4 - Acompanhar, em proximidade, os primeiros dias de escola

"Em particular nos primeiros dias de escola (que, por vezes, coincidem com os primeiros dias de trabalho dos pais ou família), é importante reservar algum tempo para um acompanhamento em maior proximidade. Os horários e as rotinas ainda se estão a estabilizar e novos desafios a iniciar, o que pode gerar maior ansiedade ou insegurança nas crianças. A possibilidade de acompanhar as crianças ao início do dia com maior calma ou a sua chegada a casa com tempo para conversar ou partilhar alguma atividade serão formas de aumentar a segurança, a confiança e o bem-estar associado ao início da escola."

5 – Atenção aos comportamentos

"O contacto com os profissionais que acompanham a criança bem como a atenção a eventuais alterações prolongadas no comportamento da criança são, ainda, duas sugestões a deixar aos pais e às famílias."

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