9.º ano… e agora? Sete conselhos de profissionais para ajudar os nossos filhos a tomar decisões

24 set, 18:00
Jovens (Reuters)

Escolher a área académica a seguir pode parecer um bicho de sete cabeças para pais e filhos, provocando angústias em muitas famílias. Três profissionais ouvidos pela CNN Portugal dão dicas para tomadas de decisão sensatas e saudáveis. Sem dramas

Sandra é mãe de quatro filhos e, como tantos outros pais, chegada a altura de os adolescentes tomarem as primeiras decisões vocacionais, viveu as angústias desta fase de mãos dadas com eles. Com uma vida inteira ligada ao marketing e à comunicação, Sandra confessa que sentiu dificuldades em ajudar os filhos na hora da escolha.

“Acho que eles, no 9º ano, andam muito perdidos. Ou por excesso ou por falta de informação. Eles são tão novos quando têm de tomar estas decisões…”, confessa Sandra Alvarez Batista, em conversa com a CNN Portugal.

Quando o filho mais velho de Sandra estava no 9º ano e teve de decidir a área disciplinar a seguir no secundário, “estava na moda” a consulta a um psicólogo da empresa Modus Humanus, que tinha a fama de “adivinhar” a vocação dos jovens. “Várias amigas minhas já lá tinham ido com os filhos e diziam maravilhas. Não é que a vocação do meu filho fosse um grande mistério para nós. Sempre lhe reconhecemos algum jeito para a gestão. Mas achámos importante ouvir um profissional e toda a gente falava dele”, conta Sandra.

“Se calhar, fui muito influenciada pelo que se falava. Toda gente ia e eu também fui experimentar.”

“Ele fez uma bateria de testes, conversou com ele e no fim conversou connosco. Disse-nos duas coisas: aquilo para que ele tinha jeito e aquilo que o mercado procurava”, relata.

A verdade é que, no Secundário, o filho de Sandra seguiu a área de Economia, sugerida pelo psicólogo. Sempre disse que queria seguir Gestão, mas acabou por tirar Comunicação Social, na Universidade Católica, por falta de média para entrar no curso da sua verdadeira vocação. Aos 23 anos, já terminou a licenciatura, uma pós-graduação em Marketing Digital e, agora sim, está a fazer um mestrado em Gestão.

“O bruxo”

Também Sónia Morais Santos, autora do blogue Cocó na Fralda, sentiu necessidade de levar o filho mais velho, Martim, a um orientador profissional. E, de tão impressionada que ficou, escreveu sobre isso na sua página na internet.

“A minha amiga Rute me falou numa "cena" chamada Modus Humanus. Que era aquilo de que se falava no colégio dos filhos, que não sei quem tinha ido e que era espetacular, que era um psicólogo tão absolutamente assertivo que, depois dos testes, fazia dos miúdos uma tal análise que parecia que tinha vivido com eles na mesma casa desde tenra idade. Disse, de resto, que de ser tão analítico e certeiro há até quem lhe chame ‘o bruxo’”, escreveu.

A decisão de consultar o profissional recomendado foi tomada em janeiro de 2020, mas Sónia experimentou a dificuldade em conseguir vaga que muita gente lhe relatou. Conseguiu consulta para daí a mais de quatro meses, em plena pandemia de covid-19. E garante que os 410€ que pagou foram bem empregues.

“Não foi nada que eu ou o pai não lhe tivéssemos já dito mas, claro, uma coisa é o que dizem os nossos pais (blablabla Whiskas saquetas), outra coisa é o que diz um senhor com uns 80 anos, acostumado a analisar centenas de miúdos por ano.  O que ele também lhe disse foi que nenhuma potencialidade ou talento cresce sem trabalho, e que o terá de fazer no duro. Talvez esta parte não tenha sido lá assim tão boa de ouvir, mas em termos de autoestima e de certezas sobre o caminho a seguir (o curso a seguir foi-lhe dito em modo de certeza absoluta e não de sugestão), creio que este possa ter sido o volte-face de que ele precisava”, relatou.

Sónia teve melhor sorte que a CNN Portugal que tentou, várias vezes contactar a empresa, sem sucesso.

Tal como fez com o mais velho, Sandra consultou o psicólogo em causa para a segunda filha. A sugestão do psicólogo da Modus Humanus foi a mesma dada ao irmão: Economia. A jovem acabou por seguir a área sugerida no secundário, mas, no fim, “resolveu fazer o exame de filosofia e seguir Direito”. Aos 21 anos, já terminou o curso na Universidade Clássica e prepara-se para fazer um mestrado na área em Tilburg, na Holanda.

A filha mais nova de Sandra, Matilde, ainda está longe de ter de tomar decisões e o do meio, agora a frequentar o secundário, não necessitou de qualquer orientação, de tão evidente que era a sua vocação: o Desporto sempre foi a sua paixão e a sua vocação.

O segredo está muito além dos testes psicotécnicos

A psicóloga Marta Calado, da Clínica da Mente, reconhece que a ajuda profissional pode ser uma ajuda importante às famílias, mas alerta que o papel dos pais é muito mais relevante. “O processo de orientação vocacional pode provocar alguma ansiedade aos mais pequenos e também aos pais. Assume-se que os pais têm um papel fundamental neste percurso, porque, mais do que o psicólogo, colocam-se numa posição privilegiada para ajudar os filhos a tomar decisões, porque os conhecem melhor”, sublinha a psicóloga, em conversa com a CNN Portugal.

“O processo de orientação vocacional vai-se fazendo ao longo do percurso académico”, alerta.

A ideia é assinada por baixo pelo pediatra Sérgio Neves: “É um trabalho que tem de começar muito antes do 9º ano. Perceber como está a ser o rendimento escolar e se há alguma questão que está a prejudicar o rendimento escolar, como o défice de atenção, a dislexia ou a disgrafia é fundamental.”

“O treino de competências começa desde os dois ou três anos. Não podemos delegar tudo só na adolescência. Não é chegado o 9º ano que se vai resolver tudo”, alerta o pediatra do Hospital dos Lusíadas.

Graça Leitão é psicóloga educacional e orientadora vocacional na Escola Secundária de Camões e também ela subscreve a opinião da colega e do pediatra. Sublinha que, “um processo de orientação profissional passa sempre por duas grandes linhas. Uma delas é o autoconhecimento. O jovem tem de se conhecer a si próprio, conhecer as suas aptidões, as suas capacidades. O outro é o conhecimento das formações e das profissões. As duas linhas andam muito associadas.”

O autoconhecimento é fundamental na hora de tomar decisões como a área académica a escolher no 9º ano, defendem os especialistas. 

A orientadora vocacional sublinha a importância de fomentar o autoconhecimento na criança desde tenra idade. “Os pais devem ter um papel importante na vida dos filhos, mas não podem tomar decisões por eles. Podem observar os filhos desde pequenos, conhecê-los, observar o que gostam e o que não gostam, promover o diálogo com os filhos, mas sem uma atitude crítica. Se o jovem não se sente compreendido ou criticado, acaba por se fechar”, alerta Graça Leitão, sublinhando, também ela, que “não se pode reduzir a orientação vocacional a testes psicológicos”.

Sete conselhos de profissionais

E, se começar o trabalho muito antes é fundamental, há sempre atitudes que os pais podem adotar que ajudam os jovens. Os profissionais ouvidos pela CNN Portugal deixam sete conselhos fundamentais:

1 - Nenhuma decisão é definitiva.

É importante transmitir ao adolescente que nada na vida é para sempre e que mudar não tem nada de errado.

“Mudar de curso e de emprego é cada vez mais comum e os pais devem preparar os filhos para esta flexibilidade”, considera a psicóloga Marta Calado.

“Os caminhos também se fazem cada vez menos em linha reta. Os jovens têm direito a errar e se constatarem que se enganaram, mudam. Não há drama nisso”, corrobora Graça Leitão.

2 - Preparar os filhos para ganhar asas.

Cada vez é mais comum mudarmos de cidade ou de país por razões de estudo ou de trabalho e é importante que os jovens sejam preparados para isso ao longo do seu percurso académico. Ganhar competências emocionais e funcionais para um percurso de vida independente é de suma importância.

3 – Acima de tudo, ser feliz

Mais do que tomar uma decisão académica que traga sucesso e dinheiro ao jovem no futuro, é importante que este tome decisões que lhe tragam satisfação pessoal. “A escolha deverá ser sempre fundamentada nos gostos, nos interesses, nas aptidões e nos objetivos que o jovem quer atingir no futuro”, considera Marta Calado.

“Ainda há muitos alunos a irem para cursos que não têm tanto a ver com eles, por acharem que têm mais saídas. E isso acarreta desmotivações, angústias e problemas de saúde mental”, alerta Graça Leitão.

As psicólogas lembram que, nesta fase, mais do que tomar decisões acertadas, o importante é que o jovem se sinta bem consigo mesmo, com os seus pares e com o meio onde estão inseridos. “Nesta idade, muitas vezes ainda temos dificuldade em escolher a própria roupa ou a nossa música favorita. Ainda não há maturidade do sistema nevoso central que me permita escolher o meu futuro”, lembra Marta Calado.

4 – Tranquilidade

É fundamental, dizem os profissionais, que se proporcione um ambiente de tranquilidade aos jovens, sem pressões e sem amarras. A decisão é dos jovens, não é dos pais nem dos amigos.

5 - Dar-lhes referências.

Conhecer pessoas que tiraram determinado curso e que têm determinadas profissões ajuda e muito a tomar decisões. Também é importante, como lembra o pediatra Sérgio Neves, visitar escolas e pesquisar sobre as alternativas de cursos profissionais, por exemplo.

“No final do 9º ano é sempre importante promover nas jovens atividades para conhecer o mundo das profissões e das formações. Levar o jovem a locais de trabalho, a feiras, conversar sobre os aspetos positivos e negativos das profissões. Se o jovem manifestar interesse em trabalhar, fazer voluntariado… é importante incentivar esse interesse. O desenvolvimento de competências transversais é sempre importante nos jovens. Prepara-os para a carreira, mas prepara-os também para a vida”, lembra Graça Leitão

6 – Desmistificar

“A ideia de escolher o meu percurso de vida e o meu futuro profissional é aterrador e angustiante em qualquer idade. Então para um jovem que está a atravessar uma série de mudanças inerentes à idade… Muitos jovens chegam a consulta clínica, porque sentem que nos próximos três anos têm de trabalhar para a média para entrar na universidade. É preciso desmistificar a relevância de tudo isto, para que a decisão seja tomada com tranquilidade”, defende Marta Calado.

7 – Manter o diálogo com a escola

“Muitas vezes na adolescência, os pais não acompanham o rendimento escolar dos filhos de forma tão atenta e o contacto com a escola não é tão vulgar. É muito importante manter o diálogo com a escola para percebermos as áreas em que os adolescentes são melhores”, alerta o pediatra Sérgio Neves.

A importância da saúde

O pediatra Sérgio Neves lembra que boas decisões se tomam quando se goza de uma boa saúde. Por isso, há regras que é fundamental seguir: “Limitar o uso dos ecrãs, fomentar uma boa qualidade e quantidade de sono (um adolescente deve dormir entre 8 a 10 horas) e uma alimentação saudável e incentivar a prática de desporto.”

“Um erro que muitos pais cometem é retirar o filho do futebol, por exemplo, se tirar más notas. É o pior que se pode fazer. A razão das más notas dificilmente estará aí”, sublinha.

A promoção da saúde é fundamental para a uma sensata tomada de decisões. O pediatra Sérgio Neves sublinha a importância da prática de desporto.

O pediatra lembra ainda que há muita imaturidade natural num adolescente e que é preciso ter isso em conta na sua responsabilização pelas decisões que vão mudar a sua vida. “O cérebro dos adolescentes com menos de 16 anos não tem maturidade para o pensamento abstrato. No 9º ano, é um pouco difícil para o adolescente projetar-se no futuro e temos de o ajudar em relação a isso. Um professor ou um pai pode, por exemplo, ajudar a identificar aquilo em que o adolescente é melhor”, recorda.

Sérgio Neves lembra ainda que “a ansiedade e a depressão também existe na adolescência e, muitas vezes, manifestam-se não na tristeza ou no isolamento, mas em agressividade e impulsividade, sobretudo nos rapazes”. Estar atento a estes sinais é também fundamental.

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