Edmundo González, vencedor reconhecido pela oposição nas eleições venezuelanas de 2024, mantém-se em silêncio e exilado em Espanha, afastado das decisões enquanto María Corina Machado assume a liderança política e a visibilidade internacional da oposição. Embora continue a representar a legitimidade eleitoral, González tornou‑se sobretudo uma figura simbólica, preso entre facções divergentes da oposição e sem ambição real de assumir a presidência
Nas semanas que se seguiram à captura militar do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, a atenção mundial voltou-se para quem estaria melhor posicionado para governar um país que passou 13 anos sob o seu regime autoritário.
Desde a destituição abrupta de Maduro às mãos das forças especiais norte-americanas, a 3 de janeiro, o direito de lhe suceder foi reivindicado por: Delcy Rodríguez, antiga vice de Maduro, atualmente empossada como presidente interina com o aparente apoio do presidente dos EUA, Donald Trump; o próprio Trump, que anteriormente afirmou estar "no comando" da Venezuela; e a oposição venezuelana, com a líder María Corina Machado a declarar, no mês passado, que a sua coligação deveria liderar o país. Machado venceu o Prémio Nobel da Paz de 2025 por enfrentar uma eleição tumultuosa que a colocou no topo da lista dos mais procurados de Maduro.
No entanto, uma voz-chave tem estado ausente do centro das atenções: Edmundo González Urrutia - o homem que substituiu Machado nas eleições presidenciais de 2024, depois de esta ter sido impedida de concorrer e que, segundo a oposição e vários países ocidentais, incluindo os Estados Unidos, venceu efetivamente a votação.
Desde essa eleição contestada, o perfil internacional de Machado disparou - graças não só à sua ousada saída da Venezuela para viajar até à Noruega e receber o seu Prémio Nobel, mas também à posterior oferta do galardão a Trump, quando se reuniu com ele na Casa Branca, em janeiro. É ela quem tem mantido contacto direto com responsáveis norte-americanos, enquanto a oposição tenta garantir a sua posição numa Venezuela pós-Maduro.
González, por sua vez, tem permanecido largamente fora da esfera pública. Então, o que lhe aconteceu?
Um homem de poucas palavras
A viver exilado em Espanha desde o final de 2024, González manteve-se praticamente em silêncio desde a operação norte-americana que afastou Maduro do poder. Divulgou um comunicado no dia seguinte ao ataque - quando Machado ainda não se tinha pronunciado - afirmando que o momento era "um passo importante, mas não suficiente" e apelando à libertação dos presos políticos.
Desde então, tem dito pouco sobre as transições de poder na Venezuela, concentrando-se antes na libertação desses prisioneiros - uma questão que lhe é próxima, já que o seu genro, Rafael Tudares, foi detido e condenado a 30 anos de prisão pelas autoridades venezuelanas durante a presidência de Maduro.
Após a libertação de Tudares, juntamente com dezenas de outros presos políticos, por ordem de Rodríguez, num gesto que o governo venezuelano classificou como sendo de "paz", González fez um dos seus raros comentários públicos sobre as eleições de 2024, numa entrevista à Fox Noticias, na qual afirmou: "Mais de 7 milhões de venezuelanos votaram na nossa candidatura, e é dessa realidade que deve partir o processo de normalização democrática na Venezuela."
De resto, desde as eleições, tem sido um homem de poucas palavras - como, aliás, sempre foi.
Diplomata aposentado que serviu como embaixador da Venezuela na Argélia e na Argentina, sente-se muito mais à vontade a negociar nos bastidores. Na verdade, não foi a primeira, segunda, nem sequer a terceira escolha da coligação da oposição conhecida como Plataforma Unitária Democrática. Depois de o regime de Maduro ter barrado Machado, tanto a académica Corina Yoris como o antigo candidato presidencial Manuel Rosales foram considerados como possíveis substitutos.
González tornou-se o último recurso da oposição para apresentar candidatura dentro do prazo eleitoral.
"O facto de ele ter tido este perfil discreto foi, na verdade, algo muito positivo para a oposição. E foi por isso que foi escolhido, porque não era polarizador e era muito menos provável que fosse bloqueado", afirmou Rebecca Bill Chavez, presidente e CEO do Inter-American Dialogue. "Foi uma qualidade que ajudou a oposição. Mas é também uma das razões pelas quais é hoje menos visível."
Quem está próximo do círculo de González sabe que ele nunca quis verdadeiramente a presidência - como o próprio já reconheceu em várias ocasiões. "Nunca imaginei encontrar-me nesta situação", disse aos meios de comunicação venezuelanos no final de abril de 2024, pouco depois de a sua candidatura ter sido formalizada.
Pouco depois desse comentário, um retrato da fotógrafa da Bloomberg Gaby Oraa tornou-se viral, mostrando-o a alimentar araras coloridas conhecidas na Venezuela como guacamayas. Assim, a última esperança da oposição transformou-se rapidamente na imagem de um avô querido para os eleitores.
Especialistas dizem que há uma estratégia política por trás do facto de González se manter à margem. "Os movimentos políticos, em geral, tendem a projetar uma voz política clara. E neste momento, é Machado", afirmou Chavez.
"O facto de ela ter vencido o Prémio Nobel é uma parte importante disso. Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que ele é central para a legitimidade democrática da oposição. É ele quem detém o mandato eleitoral."
Esse raciocínio explica presumivelmente por que razão Machado utiliza tantas vezes o "nós" nas suas declarações, embora isso não seja suficiente para impedir que alguns eleitores se questionem sobre porque ouvem tão pouco o homem que consideram o verdadeiro presidente eleito.
E não é apenas González que se mantém em silêncio; até os principais protagonistas por vezes agem como se ele não existisse. Veja-se Trump, por exemplo. O presidente norte-americano tem tido muito a dizer tanto sobre Rodríguez como sobre Machado - desde afirmar que a laureada com o Nobel não era "suficientemente respeitada" na Venezuela para assumir o poder, até declarar, mais tarde em janeiro, que estava a considerar envolver a oposição venezuelana "de alguma forma" na liderança do país.
Mas Trump tem sido notavelmente silencioso em relação a González, e continua por esclarecer quais serão os próximos passos na transição de poder na Venezuela. Numa entrevista à NBC News divulgada a 12 de fevereiro, Rodríguez afirmou que a Venezuela terá eleições "justas e livres", mas não apresentou um calendário.
Uma oposição dividida
Apesar da aparente preferência de González por se manter afastado dos holofotes, essa opção tem um preço.
"A oposição tem estado basicamente dividida há cerca de duas décadas em dois grupos. A diferença essencial não tem sido ideológica; tem sido estratégica", afirmou à CNN Phil Gunson, analista da Venezuela no International Crisis Group, que vive em Caracas há mais de duas décadas e conhece pessoalmente González.
Os que como Machado defendem uma ação política mais agressiva - como mobilizações de massas e protestos - e têm menos fé nas eleições, enquanto moderados como González preferem aproveitar quaisquer aberturas políticas existentes, incluindo eleições.
"Politicamente, Edmundo é moderado. Não pertence à mesma ala da oposição que (Machado)", afirmou Gunson. Depois de González ter ido para o exílio e Machado se ter escondido na sequência da votação de 2024, essa relação tornou-se mais complicada.
"É ela quem toma todas as decisões. É ela quem dá as ordens. É ela quem divulga os comunicados. E muitas vezes divulga comunicados em nome dele ou em nome dos dois, e ele só sabe depois de esses comunicados já terem sido publicados. Ela é bastante autocrática no seu estilo político."
Segundo Gunson, que foi vizinho de González, Machado gosta que todas as decisões sejam tomadas por si e pelo seu círculo restrito. "E ele simplesmente não faz parte desse círculo restrito", contou à CNN.
Em Washington, onde Machado é bem conhecida em ambos os lados do espectro político, o centro oficial de informação sobre a Venezuela apresenta os nomes de Machado e González. "Dizem representá-lo, mas não o fazem. Não o consultam", afirmou Gunson.
Entretanto, do outro lado do mundo, em Madrid, González está rodeado por muitos exilados venezuelanos que defendem uma ação política mais agressiva. "A sua posição não é confortável", acrescentou Gunson. "Está geograficamente isolado do centro de decisão. Está, em certa medida, prisioneiro do tipo de declarações que (Machado) faz."
Para Gunson, é pouco provável que esta dinâmica mude. Alguém que nunca quis verdadeiramente a presidência encontra-se agora a desempenhar discretamente o papel que lhe foi atribuído: o de figura simbólica que confere à oposição um sentido de legitimidade.
"Devemos ver isto como um sacrifício que ele fez por sentir que era o seu dever fazê-lo".
"Mas mesmo agora, provavelmente não sonha sequer vir a ser presidente."