Álvaro Santos Pereira. “É fundamental que as famílias se preparem para a subida das taxas de juro. O orçamento vai 'encolher'”

26 set, 18:00
Álvaro Santos Pereira (Lusa/Mário Cruz)

O antigo ministro da Economia e atual diretor na OCDE deixa também um conselho ao Governo liderado por António Costa. “Manter a prudência orçamental é absolutamente fundamental para um país como Portugal.”

O abrandamento económico que se perspetiva um pouco por todo o mundo vai “obviamente” chegar a Portugal. O alerta é do economista Álvaro Santos Pereira que, em entrevista à CNN Portugal, diz que é fundamental que as famílias portuguesas se preparem “para um período difícil” em que à perda de poder de compra devido à inflação se vai somar a subida das taxas de juro.

No dia em que a OCDE reviu em baixa as suas estimativas de crescimento para a economia mundial em 2023, colocando, por exemplo, a Alemanha em recessão, o antigo ministro da Economia do Governo liderado por Passos Coelho diz que não há outro caminho a seguir: são precisas políticas restritivas. “O ajustamento é natural e é necessário para conseguirmos dominar a inflação nos próximos tempos”, sublinha.

A OCDE divulgou hoje as suas previsões económicas para a economia mundial. São previsões que nos devem deixar preocupados?

Estamos a falar de perspetivas económicas bastante desafiantes, com a economia mundial a crescer cerca de 2,2% no próximo ano.

É muito pouco…

Quando está em velocidade de cruzeiro, habitualmente, a economia mundial cresce entre 3,5% e 4%, portanto, é um crescimento bastante abaixo desse nível. E há algumas áreas da economia mundial que vão ter taxas de crescimento muito baixas. Os Estados unidos vão crescer 0,5%, a zona euro 0,3%, com alguns países em recessão. E a China vai ter este ano o pior crescimento desde os anos 70, com exceção do pico da pandemia. Estamos a falar numa perspetiva económica bastante difícil.

As coisas ainda podem ficar piores? 

Assumimos um cenário em que é possível que haja alguma disrupção ao nível do fornecimento de gás à Europa e à Ásia e fazemos uma estimativa do que é que aconteceria. E, nesse caso, com um aumento de 50% dos preços do gás, teríamos a Europa certamente em recessão porque haveria um crescimento de 1,3 pontos percentuais abaixo do que já está previsto e com mais inflação, certa de 1,4 pontos. Vamos ter certamente meses difíceis pela frente.

 

Estamos a caminho de um cenário de taxas de inflação altas e ausência de crescimento, o que se costuma designar de estagflação?

O nosso cenário principal ainda é um cenário em que há algum crescimento, quase estagnação, mas em que algumas partes do mundo continuam relativamente dinâmicas. Estamos a falar da Índia, da Indonésia, que ainda vão ter crescimentos apreciáveis. A China vai começar a recuperar um pouco, embora com crescimento ainda baixo... A grande questão é o ajustamento que é preciso fazer neste momento para diminuir a inflação. A inflação atingiu valores muito elevados em muitos países e a maneira mais fácil e mais eficiente de conseguirmos baixar a inflação é termos políticas monetárias restritivas.

Mas com custos muito elevados…

Tivemos mais do que uma década de juros ultrabaixos. Não era uma situação normal e estamos a voltar a uma situação mais normal. Mas obviamente o período de transição é um período difícil em que a subida das taxas de juro vai fazer com que muita gente que tem empréstimos bancários vai certamente sentir no seu orçamento esse maior peso. Vamos ter alguns meses difíceis de ajustamento, mas é preciso pensar qual é a alternativa.

E não há alternativa?

A alternativa é pior. Um cenário de inflação sem ser controlada ainda por mais tempo, o que iria fazer com que os rendimentos reais das pessoas baixassem ainda mais. E isso é muito pior. O ajustamento é natural e é necessário para conseguirmos dominar a inflação nos próximos tempos.

E como se ajudam as pessoas nesse período? A OCDE pede equilíbrio entre essas ajudas e a necessidade de os países manterem as finanças públicas sustentáveis…

É fundamental. Neste momento, com mais este choque pela frente, a solução não é voltarmos a ter estímulos como os que tivemos na pandemia, quando tivemos estímulos monetários e fiscais [orçamentais] muito fortes. Estímulos monetários certamente não podemos ter e mesmo fiscais também não convém por vários motivos.

Porquê?

Se tivermos uma política fiscal muito expansionista o que essa política vai originar é uma procura maior, que colocará mais pressão nos preços, mais pressão na inflação. E essa pressão vai fazer com que os bancos centrais tenham de seguir políticas ainda mais restritivas do que as que já estão a seguir e por mais tempo. Isso não é desejável. Por outro lado, é importante ser prudente a nível fiscal porque temos níveis de dívida muito elevadas em muitos países. E avançar com políticas fiscais neste momento que levem a estímulos substanciais seria um erro que iríamos pagar muito caro no futuro. Certamente teria de haver ajustamentos bem mais onerosos no futuro.

Portugal é uma economia aberta, não vai passar pelos pingos da chuva neste processo de abrandamento geral...

Obviamente. Se há recessão nalgumas partes da zona euro, nomeadamente na Alemanha e um abrandamento, por exemplo em França, isso quer dizer que a economia portuguesa vai ser afetada. Temos um nível de comércio bastante elevado com esses países e se nesses países a economia não está a evoluir bem isso vai ter um impacto na economia portuguesa de certeza absoluta. 

E para as famílias?

É fundamental que as famílias, que agora estão a passar por um período difícil por causa da inflação, se preparem para a subida das taxas de juro. Estamos a prever que na zona euro os juros possam chegar aos 4%. Estamos a falar em aumento de taxas bastante significativos nos próximos tempos. E, portanto, o orçamento das famílias vai 'encolher'. Estamos a falar numa situação em que é importante que as pessoas se possam precaver e planear bem para os tempos que aí vêm: abrandamento da economia e subida de juros, com um reflexo enorme no bem-estar. Mas não fazer nada ainda seria pior. Muitas famílias portuguesas, europeias e de outras partes do mundo estão a sentir todos os meses que estão a perder poder de compra exatamente por causa da inflação. Portanto, controlar a inflação tem de ser a prioridade absoluta neste momento.

E o Estado português está em condições de apoiar estas famílias tendo em conta que tem uma dívida pública muito elevada?

A prudência é a palavra principal neste momento. A curto prazo a inflação ajuda quem está endividado, inclusivamente o Estado. A dívida em percentagem do Produto Interno Bruto (PIB) vai baixar, não só pela prevenção orçamental, mas principalmente por causa da inflação. Agora, a longo prazo, como as taxas de juro aumentam os encargos com a dívida vão aumentar. E, portanto, é importante manter a prudência. Manter a prudência orçamental é absolutamente fundamental para um país como Portugal até porque esta prudência vai ter de ser mantida durante muito tempo. Não é uma questão de um ou dois anos, já é mantida há cerca de dez anos e vai ter de continuar a ser mantida pela simples razão de que temos um nível de dívida bastante elevado.

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