Economia portuguesa escapa à recessão em 2023, mas dá um (enorme) trambolhão

22 set, 15:00
Nazaré Cabral da Costa

Crescimento do PIB vai chegar aos 6,7% em 2022, mas no próximo ano apenas atinge 1,2%. País escapa à recessão, segundo as previsões do Conselho de Finanças Públicas, mas famílias arriscam somar à perda de poder de compra de 2022 nova perda em 2023

A economia portuguesa vai crescer este ano ao ritmo mais forte em mais de 20 anos, com o Produto Interno Bruto (PIB) a atingir uma variação de 6,7%. No próximo ano regista, no entanto, uma enorme desaceleração e apenas deverá crescer 1,2%, segundo as Perspetivas Económicas e Orçamentais divulgadas hoje pelo Conselho de Finanças Públicas (CFP) para o período 2022-2026.

No relatório divulgado pela entidade liderada por Nazaré da Costa Cabral explica-se que o crescimento que se deverá registar este ano resulta de “uma forte contribuição das exportações e do consumo privado” e que para tal contribuíram de forma decisiva “as poupanças acumuladas nos anos de pandemia” e os planos feitos, mas adiados, por portugueses e estrangeiros, referentes ao “consumo de bens e serviços” ou de “turismo”.

O resultado foi um primeiro semestre do ano suportado por um “forte desempenho (…) das exportações de serviços [turismo] e do consumo privado, beneficiando de um quadro de poupança ainda acima da média histórica”. E os números mostram esta realidade. O consumo das famílias em 2022 terá crescido 5,1% e as exportações, onde se inclui o turismo, aumentaram mais de 17%.

Tudo somado, foi possível que “a economia portuguesa retomasse os níveis de atividade de 2019, ou seja, anteriores à pandemia”, sublinha-se no relatório do CFP.

Um enorme trambolhão que (até) pode ser um cenário otimista

E se é verdade que o relatório do CFP mostra que a economia portuguesa vai crescer este ano a um nível que não verificava desde 1990, quando o PIB aumentou 7,9%, também é verdade que parece ser uma vez sem exemplo: até 2026 o melhor resultado em perspetiva é um crescimento de 2% em 2024 e no próximo ano a economia apenas crescerá 1,2%.

Um trambolhão que é explicado pelas pressões inflacionistas e por “um forte abrandamento da procura externa” devido ao conflito na Ucrânia e consequentes implicações nos mercados alimentares e energéticos, mas também por “uma política monetária mais restritiva”, leia-se a subida de taxas de juro já iniciada pelo Banco Central Europeu (BCE).

Mais uma vez os números apresentados dão conta desta realidade. O consumo das famílias cai a pique: de um crescimento de 5,1% este ano para apenas 0,5% em 2023. As exportações a pique caem: de um crescimento de 17,8% para 3,6%.

Na enorme desaceleração que se vai verificar em 2022 a boa notícia é que Portugal deverá escapar a uma recessão. Mas este é ainda um cenário que envolve muitos riscos.

“Esta fraca taxa de crescimento pode, na verdade, ser considerada algo otimista, pois poder-se-ão materializar perspetivas menos animadoras que ainda não se refletem nos cenários quantitativos avançados pelas instituições de referência”, explica-se no documento do CFP. Ou seja, “não se pode excluir a hipótese de recessão nalguns dos nossos principais parceiros comerciais, o que teria implicações inevitáveis em Portugal”.

Emprego resiste. Poder de compra volta a cair

Apesar da forte desaceleração da economia em 2023, a boa notícia para as famílias é que esta travagem não deverá ter efeitos negativos ao nível da taxa de desemprego. O CFP antevê que a taxa de desemprego feche 2022 nos 5,6% e que desça para os 5,3% no próximo ano, estabilizando a partir daí.

Mas se esta é a boa notícia para as famílias, a má notícia é a repetição de uma elevada taxa de inflação. Para 2022, o CFP antevê que a subida dos preços atinja os 7,7% e no relatório explica em que é que este número se traduz para as famílias.

“No limite, para um consumidor que não viu os seus rendimentos atualizados, a perda de rendimento real é aproximadamente equivalente à variação do índice de preços no consumidor, que se prevê seja no ano de 2022 de 7,7%, ou seja, sensivelmente o mesmo que prescindir de um vencimento para quem aufere catorze meses de ordenado”.

E se este mesmo consumidor não vir o seu salário aumentar em 2023, pode preparar-se para somar à perda de um salário em 2022 a perda de quase outro, isto porque a inflação vai desacelerar, mas apenas para 5,1%.

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