Teletrabalho: os benefícios e as empresas onde veio para ficar

24 set, 22:00
Teletrabalho
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O confinamento deixou muitas empresas sem outra escolha e o mundo laboral readaptou-se. Agora, há quem o assuma como um ponto sem retorno e permita aos seus funcionários escolherem de onde querem trabalhar. Até porque o mercado é cada vez mais competitivo e, para segurar "talentos", é preciso "mais flexibilidade"

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A pandemia empurrou o país, e o mundo, para o teletrabalho. O confinamento deixou muitas empresas sem outra escolha e o mundo laboral readaptou-se. Agora, há quem o assuma como um ponto sem retorno e permita aos seus funcionários escolherem de onde querem trabalhar. E a boa notícia? É que a produtividade não baixou. E, em alguns casos, aumentou. A Feedzai, a Doutor Finanças e a New Work Portugal são disso um bom exemplo.

Antes do confinamento, algumas empresas já tinham alguns funcionários em trabalho remoto, como é o caso da empresa tecnológica Feedzai, com cerca de 500 funcionários e escritórios espalhados por diferentes países.

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Apesar de ter sido necessário fazer “pequenos ajustamentos”, antes do Governo decretar o confinamento geral e o teletrabalho ser obrigatório, a Feedzai já tinha todos em casa. “Fomos nós que controlámos o nosso tempo, nos nossos termos, e a forma”, explica Dalia Turner, vice-presidente com a área dos Recursos Humanos.

Mas nem todos estavam preparados: “Algumas companhias previram o que ia acontecer, como nós, e tiveram tempo de se prepararem e testarem, outros foram apanhados desprevenidos e, de um momento para o outro, tiveram de perceber como iriam funcionar”, acrescenta.

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Todavia, esta responsável não tem dúvidas: “Do ponto de vista dos objetivos que era preciso alcançar, nós atingimos os nossos objetivos. Se acho que a produtividade das pessoas foi afetada? Sim, acho que sim, mas de diferentes formas”.

Entre os que trabalharam mais horas e os que demoraram a encontrar o ritmo, principalmente quem tinha crianças em casa, “à medida que a pandemia durava, as pessoas foram descobrindo o que precisavam de fazer para manter a produtividade e houve um foco maior no que precisavam de alcançar, por oposição ao número de horas que precisavam de trabalhar". "O que é uma mentalidade diferente…”, explica Dalia Turner. E é no “resultado” que a empresa quer que os funcionários se foquem.

Atualmente, de seis em seis meses, os funcionários da Feedzai podem escolher a sua fórmula de trabalho: “Primordialmente estar no espaço de escritório, primordialmente em remoto ou numa fórmula flexível, na qual vêm ao escritório 2/3 vezes por semana”. E, numa primeira ronda de escolhas, a vice-presidente da Feedzai admite que “uma maior percentagem” do que esperava “escolheu trabalho remoto”.

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Também na consultora Doutor Finanças a flexibilidade dos modelos de trabalho é uma realidade. A pandemia trouxe “um novo mundo e uma nova forma de trabalhar", que "passou a ser o nosso dia a dia e que, provavelmente, vai pautar o nosso futuro”, assume Irene Rua, diretora dos Recursos Humanos da empresa, que, mesmo assim, acrescenta: “Não tenho certeza que este modelo veio para ficar na maioria das empresas, o que me entristece”.

Defensora do conceito “máxima liberdade, máxima responsabilidade”, Irene Rua não tem dúvidas que “gerir de forma estratégica é gerir em benefício das pessoas”. E é isso que tenta todos os dias, sem perder o foco nos seus 150 funcionários.

“Dificilmente teremos empresas sustentáveis se não colocarmos as pessoas no cerne das empresas”, conclui, deixando uma espécie de apelo a uma tomada de consciência conjunta: “Continuamos a trabalhar 40 horas semanais, continuamos a trabalhar de uma forma tão inflexível e não é por isso que somos mais produtivos”.

De alguma forma, os últimos meses demonstraram a Irene Rua que o trabalho a partir de casa, “mesmo não sendo um conto de fadas”, não significa perda de produtividade. “De nenhuma forma a nossa produtividade foi beliscada e isso só veio reforçar esta convicção que eu tinha, que temos que nos focar muito mais em objetivos do que no ‘presentismo’”, justifica.

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“Cada vez existe mais uma valorização daquilo que é a flexibilidade” e num “mercado tão competitivo, e onde a retenção de talento está na ordem do dia, eu receio que isso seja mesmo um tiro nos pés, dito de uma forma muito simplista, para essas empresas”, conclui.

Também Miguel Garcia, diretor-geral da consultora New Work Portugal, defende este caminho: “Acreditamos que, quanto mais confortáveis as pessoas estiverem, também mais produtivas elas conseguem ser”.

Apesar de “a pandemia ter colocado o pé no acelerador”, a empresa também já tinha muito trabalho remoto. Diariamente desenvolvem soluções de equilíbrio entre o trabalho e a vida familiar para outras empresas e acabam sempre por aplicá-las “em casa”. Na verdade, “sempre esteve definido que um dia por semana as pessoas podiam trabalhar de casa”, por isso, a fórmula não era estranha. A escolha do dia e a organização era decidida pelas diferentes equipas.

Também na New Work Portugal a produtividade não foi um problema: “De facto, com toda a gente em casa, o que observamos foi que grande parte das equipas tiveram ganhos de produtividade”, assume. A empresa identificou alguns pontos determinantes para este ganho. 

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O primeiro era “o foco e a concentração". "Fazemos desenvolvimento de software, que tipicamente é uma coisa bastante focada e solitária, portanto, removendo as distrações do escritório, isto permitia que as pessoas de facto rendessem mais”. Além disso, o commuting (deslocações): “o não terem que ir de um lado para o outro". "Eram ganhos praticamente invisíveis, mas que permitiam que as pessoas arrancassem o dia mais cedo e não houvesse tantos atrasos”. Por fim, “a capacidade das equipas se organizarem sincronamente". "Há pessoas que são mais de manhã, pessoas que são mais notívagas. Este setup remoto permitia acomodar melhor estas diferenças e todos conseguiam produzir no seu máximo”.

Apesar de não conseguir adivinhar o futuro, Miguel Garcia acredita que “de uma forma geral, e nos setores de mais inovação e tecnologia" deverá chegar "uma nova realidade”, a que chama de “híbrida”.

Porque há realidades muito diferentes, elas também são um retrato das pessoas dentro das empresas, com “comportamentos e vontades diferentes”.

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“Temos pessoas que definitivamente gostaram desta experiencia de remoto e querem continuar remotas, até porque mudaram o próprio estilo de vida, e não querem voltar atrás. Temos outras pessoas que acham que a coisa vai ser exatamente como era antes, vamos voltar para o escritório, gostam de estar no escritório, nem têm condições para trabalhar de casa. Mas também existem outras que têm uma perspetiva muito mais híbrida, ou seja, que não veem no escritório um local para trabalhar, mas um local para trabalhar com um propósito. Ou seja, se eu tenho uma atividade de grupo, se eu tenho uma atividade altamente criativa, em que preciso de estar com a minha equipa, o escritório é o local para isso”, conclui.

E a mudança do local de trabalho não se vai ficar pelas pessoas e no que é melhor para cada um. O próprio espaço, perante a nova realidade de uma pandemia que ainda não terminou, terá que sofrer alterações. “Até o espaço do escritório precisa de ser diferente. Antes as pessoas juntavam-se numa sala pequena para uma reunião. Uma sala para quatro pessoas, tinha quatro pessoas. Isso não pode acontecer agora”, alerta Dalia Turner, da Feedzai.

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Três empresas diferentes, com realidades únicas, que acabam por ter em comum visões sobre o valor da flexibilidade laboral, o peso das necessidades de cada um e a importância determinante que vão ter no futuro. Um futuro que pode trazer também a semana de trabalho de quatro dias.
 

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