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Economista; Professor Associado e Coordenador na Universidade Europeia; Investigador Integrado no CETRAD

Economia russa atinge "ponto de viragem"

28 jun 2025, 19:05
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O Banco Central da Rússia reduziu este mês a taxa de juro pela primeira vez desde 2022. A decisão foi apresentada como um “ponto de viragem” pelas autoridades monetárias russas. No entanto, os dados atuais da economia levantam dúvidas sobre se esta decisão se baseia numa avaliação técnica ou resulta de pressões políticas.

A inflação continua elevada, em torno dos 10%, muito acima da meta oficial de 4%. O Banco Central russo justifica o corte com a redução progressiva das pressões sobre os preços. Ainda assim, a tendência desinflacionária não é suficientemente sólida para justificar, por si só, uma alteração da política monetária. A própria instituição bancária vinha afirmando que só atuaria com sinais claros de estabilização da inflação.

O crescimento económico russo está a desacelerar. Em 2024, a economia cresceu 4,3%, mas no primeiro trimestre de 2025 o ritmo caiu para 1,4%, segundo dados oficiais. Esta quebra segue-se a um período de crescimento suportado por um forte aumento da despesa pública em defesa, impulsionado pela campanha militar. O Governo injetou fundos no setor militar e na produção de armamento, o que sustentou temporariamente a atividade económica.

Atualmente, essa dinâmica está a perder força. O próprio Ministro da Economia, Maxim Reshetnikov, reconheceu uma desaceleração em vários setores da economia real, incluindo engenharia, transporte de mercadorias e produção de veículos comerciais. Defendeu também a necessidade de uma flexibilização da política monetária para garantir a meta de crescimento de 3%, definida pelo Presidente Vladimir Putin. Esta declaração pública gerou expectativa sobre a atuação do Banco Central.

A decisão de cortar taxas de juro surge pouco tempo depois dessas declarações, o que levanta dúvidas sobre a autonomia do Banco Central. A governadora Elvira Nabiullina resistiu durante meses à redução das taxas, alegando a necessidade de prudência. O corte atual pode ser interpretado como uma resposta às crescentes pressões políticas, mais do que uma decisão baseada exclusivamente em critérios económicos.

Apesar dos desafios internos, a Rússia tem procurado adaptar a sua economia ao novo contexto internacional. As sanções ocidentais levaram a uma reorientação comercial para a Ásia e o Sul Global. Hoje, cerca de 60% das exportações russas têm esses destinos. As exportações para a Índia aumentaram significativamente. Depois, a utilização do yuan nas trocas comerciais cresceu de forma rápida. Antes de 2022, o yuan representava apenas 3% a 4% das importações russas. Em 2025, estima-se que represente cerca de 40% tanto nas importações como nas exportações.

O corte nas taxas de juro pode ser interpretado como um sinal de tentativa de normalização económica. No entanto, a inflação ainda elevada, o abrandamento do crescimento e as pressões políticas levantam questões sobre a sustentabilidade dessa decisão. A verdade é que a inflação já andou a tocar os 18% e, nesta fase, ronda os 10%. Depois do choque inicial das sanções, aparentemente, não faltará muito para a economia russa chegar a uma nova normalidade, que inclui a Ásia e o Sul Global.

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