A Reserva Estratégica de Petróleo (SPR) dos EUA está agora no ponto mais baixo desde que a administração Reagan começou a abastecê-la em 1983
Três semanas de paz frágil deram ao presidente dos EUA, Donald Trump, algum tempo e influência sobre o Irão. Mas não muito.
Depois de Trump ter assinado o Memorando de Entendimento com o Irão, a 18 de junho, os preços do petróleo caíram a pique, situando-se abaixo dos níveis pré-guerra na semana passada. O mercado petrolífero reagiu positivamente à reabertura parcial do Estreito de Ormuz e ao início gradual do fluxo de crude para fora do Golfo Pérsico, após meses de bloqueio. Os preços da gasolina também têm vindo lentamente a regressar aos níveis normais.
Contudo, três semanas com o estreito parcialmente reaberto não foram suficientes para ultrapassar o maior choque de oferta de petróleo que o mundo já viu. Não ofereceram tempo suficiente para repor os stocks de emergência e comerciais necessários para o abastecimento de combustível dos Estados Unidos – e evitar a iminente “catástrofe económica” que Trump temia que lhe valesse comparações com o presidente Herbert Hoover, da época da Grande Depressão.
Ninguém sabe se esta recente troca de ataques no Médio Oriente é um mero pormenor ou um regresso à guerra total. Trump ameaçou na quarta-feira retomar o bloqueio naval americano do estreito – mas, até agora, o estreito continua aberto aos navios dispostos a correr o risco de entrar e sair.
Mas, se voltar a fechar, a economia dos EUA poderá sofrer um golpe indesejável.
Barris de tempo
Cerca de 200 milhões de barris de petróleo escaparam do Estreito de Ormuz nas últimas três semanas, de acordo com Andy Lipow, presidente da Lipow Oil Associates. Isto equivale a dois dias de procura global.
Outro pormenor importante: grande parte deste petróleo – cerca de 60 milhões de barris – é iraniano, país que a administração Trump voltou a sancionar na terça-feira, dando aos compradores apenas 10 dias para se apoderarem dele antes de ser novamente proibido.
Ainda assim, o estreito continua aberto, com um prémio de risco significativo. Para contratar um navio-tanque para transportar petróleo de fora do estreito para a Ásia, serão necessários cerca de 4 a 5 milhões de dólares. Contratar um navio para transportar petróleo de dentro do estreito para a Ásia custa entre 8 a 10 milhões de dólares – o dobro do custo, segundo Lipow.
O tráfego tem-se mantido consistentemente a cerca de um terço do normal nas últimas três semanas, e as travessias continuavam esta quinta-feira, mesmo depois de pelo menos quatro navios-tanque de petróleo e gás terem voltado para trás após tentarem atravessar o Estreito de Ormuz durante a manhã, noticiou a Reuters.
É por isso que o petróleo subiu acentuadamente – mas estando ainda abaixo do nível em que estava a ser negociado pouco depois de Trump ter assinado o memorando de entendimento. Os contratos futuros do petróleo Brent estavam a ser negociados pouco abaixo dos 78 dólares, uma subida de 4%, o nível mais elevado desde o dia a seguir à assinatura do memorando. Por outras palavras, o mercado está a comportar-se como se o estreito estivesse menos aberto do que ontem – mas o petróleo continua a fluir.
O problema de inventário
Se o fluxo de crude parar, isso poderá criar problemas significativos para o mercado petrolífero americano.
A Reserva Estratégica de Petróleo (SPR, na sigla em inglês), o stock de emergência de petróleo dos Estados Unidos, foi significativamente reduzido desde o início da guerra para ajudar a repor todos os barris de petróleo perdidos no estreito. A SPR está agora nos 319,5 milhões de barris, uma queda de 23% em relação ao seu nível pré-guerra e no seu ponto mais baixo desde que a administração Reagan começou a abastecê-la em 1983.
Isto coloca os Estados Unidos numa posição precária caso enfrentem condições meteorológicas severas ou outro encerramento total do Estreito de Ormuz.
Talvez ainda mais crucial, os stocks comerciais permanecem em níveis críticos. Os stocks em Cushing, no estado de Oklahoma, o cruzamento de oleodutos dos Estados Unidos, continuam abaixo dos níveis de stress operacional. Os stocks em Cushing recuperaram em cerca de 700 mil barris na semana passada, mas ainda estão abaixo dos 20 milhões de barris, nível a que a instalação tem dificuldades em transportar crude para as refinarias de todo o país.
Isto levou Trump a alertar que os baixos stocks de petróleo poderiam prejudicar a economia dos EUA e fazer com que fosse comparado a Hoover.
"Não queria ver uma catástrofe económica", disse Trump numa reunião do G7 no final de junho. "Se continuássemos assim, isto poderia ter acontecido."
Os investidores estavam cautelosos: as ações norte-americanas não reagiram muito na abertura, mas o mercado obrigacionista sim – a yield dos títulos do Tesouro norte-americano a 10 anos subiu para 4,57%, o seu nível mais elevado desde o final de maio, quando o petróleo atingiu o seu pico em tempo de guerra e parecia que o cessar-fogo tinha sido suspenso.
Como Trump demonstrou ao longo do seu segundo mandato, quando as yields das obrigações se tornam "excitantes", ele ouve os mercados.
