A aproximação económica entre a China e a Alemanha não é um gesto diplomático isolado. É um movimento estratégico calculado entre a segunda e a terceira maiores economias do mundo, num momento em que o comércio internacional é marcado por muita incerteza, tensões políticas, competição tecnológica e vulnerabilidades nas cadeias de abastecimento. A inauguração, pela Volkswagen, do seu primeiro centro completo de Investigação e Desenvolvimento fora da Alemanha, precisamente na China, é o símbolo mais recente desta reconfiguração.
Para Berlim, o racional é claro. Donald Trump é imprevisível. O Ocidente e a Europa poderão estar cada vez mais expostos às restrições chinesas à exportação de terras raras e matérias-primas críticas, indispensáveis para semicondutores, baterias ou equipamentos militares. Pequim domina entre 70% e 80% da produção mundial de terras raras e controla grande parte da refinação. Quem controla estes materiais controla o ritmo da inovação tecnológica global. A Alemanha leva essa ameaça a sério e decidiu antecipar o risco através de um pragmatismo económico que contrasta com a crescente incerteza geopolítica.
A China, por seu lado, não esconde o seu plano. Depois da escalada tarifária e hostilidade comercial por parte de Washington, reforçou controlos às exportações e voltou-se com determinação para o Sul Global. Ganha terreno no Médio Oriente, África, Sudeste Asiático e América Latina, reposicionando-se como o fornecedor industrial das economias emergentes. Agora, expande esse alcance ao Ocidente, focando-se na maior potência económica europeia.
Este movimento não começou agora. Desde 2024, são já mais de 20 os Estados-membros da União Europeia cujos cidadãos passaram a poder entrar na China sem necessidade de visto para fins de negócios. O investimento chinês avança pela Península Ibérica. Em Espanha, 2024 marcou um recorde de projetos chineses. Em Portugal, a mega-fábrica de baterias de lítio da CALB, um projeto avaliado em cerca de dois mil milhões de euros, promete 1.800 empregos diretos e poderá representar mais de 4% do PIB quando a unidade de produção atingir o pleno funcionamento. Num continente que depende ainda em mais de 90% do lítio importado da China, este tipo de investimento não é apenas económico. É estrutural.
A indústria automóvel europeia, responsável por cerca de 7% do PIB e 13 milhões de empregos, vive a sua transição mais difícil em décadas. Não surpreende que até a Volkswagen admita conversar com parceiros chineses sobre ativos em reestruturação. A China conhece essa fragilidade e sabe que pode ser parte da solução... ou parte do problema.
O que está em jogo é mais do que comércio. A China percebeu que o crescimento anémico europeu, o risco de isolacionismo norte-americano e a falta de consenso interno na União Europeia criam a oportunidade perfeita para aprofundar a sua influência. É poder económico, diplomacia ativa e cálculo geoestratégico. A aproximação sino-alemã não elimina todas as dúvidas sobre o futuro da ordem económica mundial, mas confirma uma tendência clara: a China está a ocupar cada espaço que outros deixam vago.