As famílias portuguesas poupam hoje mais de 11% do rendimento disponível. É uma grande subida que veio com a pandemia — e a tendência será para continuar. Mas são também estas famílias que têm o dinheiro em depósitos à ordem, com baixas taxas de remuneração. O que fazer com a poupança? Este analista financeiro deixa-lhe pistas
Dados oficiais ainda só há relativos ao terceiro trimestre de 2024 — e são do Instituto Nacional de Estatística (INE). E aí se diz que a taxa de poupança das famílias subiu para 10,7% do rendimento disponível.
É o valor mais alto desde 2021, altura em que a taxa de poupança das famílias fora de 10,9%.
Mais diz o INE: a subida “é consequência do aumento de 2,3% do rendimento disponível bruto”. Ou seja, os portugueses ganharam mais e gastaram menos — neste terceiro trimestre o consumo privado também cresce, mas andou pelos 1,6%, abaixo dos ganhos no rendimento.
O que mais se sabe a propósito das poupanças dos portugueses é retirado do Boletim Económico de dezembro do Banco de Portugal (BdP). Assumindo a instituição que somos mais poupados, essa poupança refletirá “o impacto das taxas de juro elevadas, motivos de precaução e a reposição do valor real do património financeiro, para além do efeito da composição do aumento do rendimento favorável à poupança”.
Assim, o BdP faz a seguinte previsão: a taxa de poupança em percentagem do rendimento disponível será de 11,5% em 2024, mantendo-se elevada em 2025 (11,3%), 2026 (11,3%) e 2027 (11,1%). Em 2023, por exemplo, foi de 8%, tendo no período pré-pandemia (ou seja, em 2019) ficado em 7% — os anos de “chumbo” do vírus, 2020 e 2021, revelaram poupanças elevadas que chegaram aos 12%.
Sabemos, pois, que poupamos. Mas poupar (ou melhor, não gastar), por si só, representa pouco sobre “literacia financeira”.
Um inquérito do Conselho Nacional de Supervisores Financeiros, publicado ainda recentemente, revela indicadores pouco abonatórios sobre o que as famílias fazem ao que ganham e não gastam. Segundo este inquérito, só metade planeia (como tomar notas das despesas ou separar o dinheiro para gastos do dia-a-dia) o orçamento familiar — sendo os jovens (16 a 24 anos) quem parece mais “despreocupado”.
Outro dado muito significativo do inquérito do Conselho Nacional de Supervisores Financeiros é o que nos diz que 84% dos portugueses simplesmente coloca o poupado na conta de depósito à ordem. Ou seja, com taxas de remuneração realmente baixas: quase no final do ano, em outubro, tínhamos 189 mil milhões de euros em depósitos à ordem, sendo a taxa de juro dos depósitos de 2,4%.
O caminho é, podem alguns dizer, “iletrado” do ponto de vista financeiro, mas não é caso para alarme.
Outros dados agora revelados, neste caso pelo Banco de Portugal, dizem-nos que as poupanças aplicadas em depósitos a prazo têm aumentado desde há 20 meses. Entre abril de 2023 e novembro de 2024, as famílias reforçaram estas aplicações em perto de 25 mil milhões de euros, aproveitando a escalada das taxas de juro — a política monetária do Banco Central Europeu para controlar a inflação levou a banca a subir a remuneração dos depósitos a prazo, mas isso tem mudado desde o Verão, precisamente face ao alívio da política monetária, levando à diminuição da taxa de juro média dos novos depósitos a prazo.
À CNN Portugal, o analista financeiro António Ribeiro, da Deco Proteste, pede “atenção” a quem “pretenda capital garantido”, pois, como agora vimos, "as taxas estão em queda”. “E, sendo os depósitos a prazo o produto de poupança favorito dos portugueses, é necessário procurar depósitos com rendimento líquido superior à inflação esperada para este ano [2%], ou seja, deverá aplicar em depósitos com taxa bruta superior a 2,8%”, explica.
“Apenas dessa forma garante que o rendimento conseguido com os juros supera a subida do custo de vida. Caso contrário, o dinheiro irá perder valor”, garante António Ribeiro, lamentando que “a maior parte dos portugueses se esqueça desta regra”, e deixe o dinheiro aplicado "em depósitos de baixo rendimento, sobretudo nas grandes instituições financeiras”.
Ainda segundo o analista, existem “dezenas de depósitos” com uma taxa bruta acima de 2,8% (2% líquida), “mas são sobretudo em bancos de menor dimensão e bancos online e bancos de capitais estrangeiros”. E releva os que são os três melhores depósitos a 12 meses: no Bison Bank (3,5% bruta/2,5% líquida), no Banco BNI Europa (3,4 bruta/2,4% líquida) e no banco BAI Europa (3,35% bruta/2,4% líquida).
Mas fica um aviso: “Esperam-se descidas nas taxas dos depósitos ao longo de 2025, pelo que deverá aplicar em depósitos de médio prazo, de forma a garantir a taxa durante um prazo mais longo”.
O que o analista financeiro da Deco Proteste não parece recomendar são os Certificados de Aforro, que, diz, são um produto que “deverá perder ainda mais interesse”. Porquê? “Porque o rendimento [taxa-base] depende da Euribor a três meses. Esta taxa está em queda e muito próximo dos 2,5% [taxa base máxima dos Certificados e que se mantém desde o lançamento da série]. Esta taxa deverá começar a descer já nos próximos meses. É um produto que está a render abaixo da inflação e, portanto, o rendimento real que proporciona é negativo”, explica.
Uma sugestão de investimento de António Ribeiro é “continuar a aplicar uma parte das poupanças em produtos que beneficiem da valorização das bolsas”. Como é o caso dos fundos de investimento, “criando uma carteira diversificada de fundos, repartida por diferentes setores e mercados e numa ótica de longo prazo”. Ou seja, sugere o analista, aplique na carteira de fundos aquele montante “que não vai necessitar nos próximos cinco anos”.
“Os fundos de investimento não têm garantia de capital, mas só dessa forma poderá conseguir um rendimento superior aos produtos de curto prazo”, realça.
A terminar, o analista financeiro da Deco Proteste recomenda (ver acima) três carteiras, consoante o perfil de risco (defensiva, equilibrada ou dinâmica), ou seja, “consoante a proporção aplicada em ações”. “Por exemplo, a carteira equilibrada ganhou 9,4% nos últimos 12 meses, até final de novembro”, conclui.