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"Parece semiapocalíptico": o que um centro comercial quase vazio em Moscovo revela sobre a economia russa

CNN , Zahra Ullah e Ana Archen
2 mai, 19:35
mosc

O extenso centro comercial Goodzone abriu portas em 2014 com grande pompa. Apesar de continuar aberto sete dias por semana, as lojas estão vazias e os clientes são poucos

Música pop energética ecoa pelo átrio de um reluzente centro comercial num subúrbio de classe média de Moscovo. Mas aquilo que deveria ser a banda sonora da azáfama dos clientes acaba por tocar para lojas vazias, muitas delas fechadas com tábuas nas montras — um sinal marcante do mal-estar económico da Rússia.

O extenso centro comercial Goodzone abriu portas em 2014 com grande pompa. Inclui um cinema multiplex com oito salas, agora deserto, com as luzes do átrio apagadas. Apesar de continuar aberto sete dias por semana, o espaço, no sul de Moscovo, parece estar lentamente a definhar, com poucas lojas abertas e ainda menos clientes.

Após a invasão em larga escala da Ucrânia, a saída de empresas ocidentais e as sanções sem precedentes impostas pelo Ocidente, a economia russa contrariou expectativas, apoiando-se num aumento maciço da despesa militar e em maiores exportações de petróleo para a China e a Índia.

Lojas vazias no centro comercial Goodzone, em Moscovo, Rússia, a 23 de abril de 2026. CNN
Funcionários no centro comercial Goodzone, em Moscovo, Rússia, a 23 de abril de 2026. Maksim Kataev/CNN

No entanto, a economia começa a dar sinais de pressão crescente, com o PIB a contrair 1,8% nos primeiros dois meses de 2026. O presidente russo, Vladimir Putin, reconheceu o problema numa reunião governamental sobre assuntos económicos em meados de abril.

“As estatísticas mostram que o crescimento económico tem, infelizmente, abrandado há dois meses consecutivos”, afirmou Putin, exigindo explicações sobre “porque é que a trajetória dos indicadores macroeconómicos está atualmente aquém das expectativas”.

O líder do Partido Comunista da Rússia, Gennady Zyuganov, criticou mais tarde aquilo que descreveu como falta de respostas competentes às perguntas de Putin na reunião, classificando a situação como “triste e preocupante”.

Num discurso na Duma Estatal (parlamento russo) na semana passada, Zyuganov alertou que o país poderá enfrentar uma revolução ao estilo bolchevique se o governo não travar o enfraquecimento da economia.

Sem criticar diretamente Putin — como é habitual na oposição controlada pelo Kremlin —, apontou, ainda assim, falhas ao governo.

“Já vos avisámos repetidamente: com este rumo, a economia irá inevitavelmente falhar”, afirmou Zyuganov.

Centro comercial vazio com cenário "semiapocalíptico"

Apesar de não haver sinais de protestos sociais em massa na Rússia, e de outros centros comerciais — como o gigantesco Aviapark, no noroeste de Moscovo — parecerem manter boa atividade, vários trabalhadores do Goodzone descrevem à CNN, com preocupação, a escassez de clientes.

Um deles é Ivan, caixa numa loja de uma das maiores cadeias de retalho da Rússia, que pediu anonimato. Este é o seu segundo emprego e diz não poder arriscar perdê-lo no atual contexto.

Uma loja fechada no centro comercial Goodzone, em Moscovo, Rússia, a 23 de abril de 2026. Maksim Kataev/CNN

“Bem, em termos de situação económica, isto diz alguma coisa sobre o estado do país”, observar Ivan, apontando para o ecrã da caixa registadora.

O monitor mostra 13 transações ao longo do dia — um total de apenas 3.417 rublos (cerca de 42 euros). É uma tarde de quinta-feira no final de abril, e Ivan diz que, em tempos melhores, o número estaria mais próximo das 300.

“O (Goodzone) parece semiapocalíptico”, descreve. “O centro comercial é tão grande que se pode perder e cansar a andar. Parece ter sido construído para um fluxo enorme de pessoas, mas eu nunca o vi assim.”

A CNN contactou a administração do centro comercial para obter comentários. O site indica que partes do espaço estão em remodelação e que novos operadores estão a ser introduzidos — algo que a CNN não conseguiu confirmar no local. O mesmo site anuncia espaços comerciais para arrendamento a preços extremamente baixos, desde apenas 1 rublo (cerca de 0,01 euros) por metro quadrado. Muitas das lojas vazias pertenciam anteriormente a marcas ocidentais que entretanto saíram.

Duas funcionárias de uma loja de recordações, que também pediram anonimato, dizem que quase já não entram clientes.

Montra da Profarmy, retalhista russo especializado em vestuário e equipamento militar e tático, no centro comercial Goodzone. Maksim Kataev/CNN
Manequins e caixas abandonados na loja Profarmy encerrada, no Goodzone, a 23 de abril de 2026. Maksim Kataev/CNN

“Basicamente, estamos a usar esta loja como armazém”, afirma uma delas. Acrescenta que, após a pandemia de covid-19, muitas empresas passaram para o comércio online, mas o negócio acabou por recuperar — até à invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022.

“Depois de 2022, o poder de compra diminuiu”, explica. “Já não acreditamos que vá melhorar. Só esperamos que não piore.”

A colega concorda: “É o único desejo que temos, porque os preços estão a subir todos os dias, mas os salários não aumentam.”

As duas dizem ainda que o patrão enfrenta dificuldades com o aumento dos impostos. “O dono anda desesperado porque os impostos subiram este ano e agora tem dificuldade em juntar o dinheiro para pagar. Está muito difícil para os empresários”, refere uma delas.

"O ciclo de crescimento terminou"

Para aumentar receitas, a Rússia subiu no ano passado os impostos sobre o rendimento e sobre as empresas, com o IVA a aumentar para 22% desde 1 de janeiro de 2026.

Ruben Enikolopov, professor investigador na Barcelona School of Economics, explica que, no início da invasão da Ucrânia, o Kremlin tinha baixa dívida pública e grandes reservas, canalizando dinheiro para a economia através da despesa militar.

“Funciona durante algum tempo, mas não pode continuar indefinidamente. A despesa pública ajudou a economia, mas agora o ciclo de crescimento terminou. As reservas diminuíram e é preciso encontrar receitas, daí o aumento de impostos”, esclarece.

Segundo o economista, apesar de Moscovo ter beneficiado dos preços elevados da energia durante a guerra no Médio Oriente, os ataques ucranianos à cadeia de abastecimento russa — sobretudo a refinarias — reduziram a quantidade de petróleo disponível para venda.

No mês passado, o ministro do Desenvolvimento Económico, Maxim Reshetnikov, reconheceu publicamente que as recentes alterações fiscais tiveram impacto nas empresas.

A Rússia recorreu às suas reservas, acrescenta, mas “agora vemos que estão em grande parte esgotadas e que a situação macroeconómica é muito mais complexa”. A principal tarefa do governo, diz, é ajudar as empresas a adaptarem-se.

Ricos mais ricos, pobres mais pobres

Mas isso não será simples — em parte devido às falhas de internet e de rede móvel impostas pelo Estado, que têm afetado Moscovo e outras grandes cidades nos últimos meses.

Oksana, de São Petersburgo, diz que essas restrições dificultam a comunicação com clientes na empresa de reparação automóvel onde trabalha, bem como a realização de encomendas. Putin defende estas medidas como necessárias para a segurança pública.

“Sou gestora de vendas e preciso de me reunir com clientes, mas às vezes os cortes de internet obrigam-me a trabalhar a partir de casa para ter acesso ao Wi-Fi”, conta, pedindo anonimato. “Hoje em dia, tudo se faz online, e há dias em que os clientes simplesmente não conseguem fazer encomendas.”

Apesar das restrições e da carga fiscal crescente, os bilionários russos viram a sua riqueza conjunta aumentar 11% no último ano, apesar das sanções, segundo a Forbes Rússia.

Alexandra Prokopenko, investigadora do Carnegie Russia Eurasia Center, em Berlim, diz que isto “não é segredo”: “A guerra aumentou a desigualdade na população russa. Estamos a ver os ricos ficarem mais ricos e os pobres mais pobres.”

Habitantes de Golitsyno, uma cidade na região de Moscovo, dizem sentir o impacto da subida dos preços devido à guerra na Ucrânia. Maksim Kataev/CNN
Lyubov Sergeevna, residente em Golitsyno, mostra-se pessimista quanto à descida dos preços. Maksim Kataev/CNN

Esse impacto sente-se de forma particularmente dura em Golitsyno, uma pequena cidade na região de Moscovo, onde a maioria vive com baixos rendimentos. Lyubov Sergeevna diz à CNN que os preços estão a disparar devido à guerra.

Ela e o marido vivem das suas pensões, que somam cerca de 64.000 rublos por mês (aproximadamente 790 euros). Diz sentir-se grata por não estar sozinha: “Assim conseguimos gerir. Se estivesse sozinha, só a renda é 8.200 rublos… É mais difícil.”

“Estou pessimista quanto aos preços”, acrescenta, acreditando que continuarão a subir até ao fim da guerra.

Ainda assim, mesmo perante dificuldades, manifesta apoio àquilo que a Rússia designa como “operação militar especial”: “Vamos aguentar pela causa. Não há outra opção.”

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