Roe v. Wade: "Estou grávida de 25 semanas. A minha bebé é incompatível com a vida. Tenho de ficar grávida até que ela morra dentro de mim ou nasça sem vida"

1 jul, 15:10
Ecografia (Associated Press)

Decisão do Supremo Tribunal dos Estados Unidos fez com que várias clínicas fechassem portas e muitos médicos se vissem impedidos de prosseguir com as intervenções que já estavam agendadas. Chloe Partridge contou a sua história nas redes sociais: grávida de 25 semanas de um bebé que não vai sobreviver, procura agora uma solução fora do estado onde vive e onde já não lhe permitem abortar

A anulação da proteção do direito ao aborto, em vigor nos EUA desde 1973, pelo Supremo Tribunal dos Estados Unidos, teve efeitos imediatos para as grávidas no país. Mulheres com decisões tomadas e procedimentos agendados viram, de um momento para o outro, as intervenções serem canceladas.

Chloe Partridge foi uma dessas mulheres. Num post publicado no instagram na quarta-feira, a jovem natural de Phoenix, no Arizona, explica que está grávida de 25 semanas, mas que descobriu, há duas semanas, que a filha não vai sobreviver.

"Ela é incompatível com a vida. Descobri às 23 semanas que não vai sobreviver. Aí soube o que queria fazer, soube que queria abortar. A minha bebé está a sofrer dentro de mim, a ter convulsões várias vezes ao dia. Sinto-as todas, todos os dias. Soube que não queria que ela sofresse mais", escreve Chloe, no post que está a ser amplamente partilhado nas redes sociais. 

Publicação de Chloe Partridge no Instagram

A jovem terá então informado o médico que queria avançar com a Interrupção Voluntária da Gravidez, que foi marcada, mas, na sexta-feira da semana passada, o dia em que a maioria conservadora no Supremo Tribunal norte-americano reverteu o direito constitucional ao aborto, as clínicas que efetuam abortos no Arizona suspenderam as operações por receio de enfrentar processos criminais.

"Sexta-feira chegou e a reviravolta de Roe v Wade aconteceu. Pensei que ficaria tudo bem. Pensei que a lei não me iria afetar. Infelizmente, não foi o caso. Agora não tenho escolha. O meu médico ligou-me hoje e disse-me que tenho de ficar grávida até que ela morra dentro de mim ou nasça sem vida. Que tipo de país doente é este em que vivemos em que uma mãe é forçada a sentir o seu bebé a sofrer todos os dias até ele morrer? Não é justo. Isto nunca deveria acontecer. Agora estou completamente perdida, dividida e confusa", conta a jovem, acrescentando que "este não é o tempo para estar feliz" com a anulação da proteção do direito ao aborto. "Devíamos todos lamentar a perda dos direitos das mulheres".

Rapidamente, a publicação tornou-se viral nas redes sociais e foram muitos os que aconselharam Chloe a criar uma angariação de fundos para procurar ajuda fora do estado do Arizona. Depois de encontrar uma clínica onde conseguirá avançar com a Interrupção Voluntária da Gravidez, e onde terá de pagar 17.500 dólares (16.730 euros), mais viagem e alojamento, a jovem avançou com a criação da página. Em apenas 11 horas, o objetivo de 10 mil dólares da campanha foi ultrapassado e o valor angariado já rondava os 17 mil dólares.

Vários médicos norte-americanos têm alertado que o aborto por "anomalias fetais letais" passou a ser ilegal em vários estados, como é o caso do Arizona, Kentucky, mas também Ohio, entre outros.

David N Hackney, obstetra, escreveu no Twitter que "diagnostica defeitos de nascença" e que, com esta reviravolta, "a certo ponto" na sua carreira terá de dizer a uma grávida que "contra a sua vontade, terá de levar a gravidez até ao fim, submeter-se ao parto e depois ver o filho morrer".

Já Noelle LoConte, oncologista, revela que tem pacientes com cancro que precisam de terminar as gravidezes para conseguirem fazer os tratamentos contra a doença de forma segura, algo que deixou de ser permitido com a decisão do Supremo Tribunal.

"O aborto é absolutamente parte dos cuidados de saúde", escreve a oncologista de Madison, Wisconsin, estado em que o aborto é ilegal. 

A realidade pós-decisão

O caso de Chloe não é único. No Alabama, no Centro Feminino em Huntsville, no dia 25, já não era possível fazer abortos, conta a CNN Internacional.

Foi ali que Jenny, de 18 anos, se dirigiu precisamente na passada segunda-feira, acompanhada por uma amiga, depois de ter descoberto, há cerca de um mês, que estava grávida.

"Eu não devo ter o bebé. Não estou num bom lugar neste momento para ter o bebé", começa por se explicar.

Assim que descobriu que já não podia interromper a gravidez naquele estado, a jovem disse sentir-se perdida, sem saber quais eram as suas opções ou onde se deveria dirigir a seguir. 

"Penso apenas que não é justo. Não importa a situação, sinto que devíamos poder fazer um aborto", desabafa, acrescentando que provavelmente irá a um dos estados mais próximos - Georgia ou Florida - que, por enquanto, ainda permitem o aborto. 

"É como se tivesse os meios para ajudar as pessoas e escolhesse não as ajudar"

Yashica Robinson, médica responsável pelo Centro Feminino, revela que muitas pacientes não conseguiram segurar as lágrimas quando se dirigiram à clínica à procura de ajuda depois da decisão de 24 de junho. Isto porque o centro, tal como muitas clínicas, mudou os seus serviços para não enfrentar processos criminais.

"Como médica, senti-me impotente. Eu preocupo-me com estes pacientes. É como se eu tivesse os meios para ajudar as pessoas e escolhesse não as ajudar. E isso é duro para mim", afirma a clínica. 

Robinson conta ainda que os piores casos são os das mulheres que correm risco de vida. Apesar de no Alabama, especificamente, a maioria dos abortos ser proibida, com exceção apenas para os casos "para evitar risco grave à saúde da mãe do feto”, para gravidez ectópica e se o “bebé tiver uma anomalia letal”, a médica diz que é muito difícil de provar que a vida da gestante está em perigo.

"Não sei como vou provar que [ela corre risco] até que ela esteja num momento crítico. Uma coisa que não se faz enquanto médico é não se esperar até que a pessoa esteja em problemas e depois atua-se. Tentamos ser proativos. Penso que a única maneira que podemos provar isto é se começarmos a fazer exatamente o oposto à maneira a que fomos treinados, deixamos os pacientes ficarem críticos para que seja muito claro e então poder-se-á prosseguir, esperando que não seja tarde demais", explica a médica.

De acordo com as leis do Alabama, os médicos podem ser punidos com prisão perpétua caso realizem abortos. 

Clínicas fechadas no Texas

No Texas, logo na manhã dessa sexta-feira, a clínica de Serviços Reprodutivos Femininos da Alamo, em San Antonio, tinha dezenas de pacientes à espera para ser atendidos enquanto no Supremo Tribunal a decisão era tomada. Na sala de observação, estava uma paciente, de bata, à espera do médico.

Bastaram alguns minutos para que, segundo o jornal Texas Tribune, tudo mudasse. Quando a decisão foi tomada, o estado do Texas era um dos que tinha em cima da mesa a abolição total do aborto. 

Na sala de espera, os pacientes continuaram a esperar pela sua vez, aparentemente sem perceber o que tinha acontecido, enquanto a enfermeira Jenny e outros quatro membros da equipa ficaram paralizados no corredor até que uma mulher, que suspeitam estar ligada aos protestos anti-aborto, entrou a gritar na clínica, dizendo que a lei Roe v. Wade tinha sido anulada.

Enquanto a equipa falava com os pacientes à espera, Jenny falava com a paciente na sala de examinação e pedia-lhe que voltasse à sala de espera, explicando-lhe que, perante os acontecimentos, não a podiam consultar. 

O estado do Texas já tinha codificados “gatilhos” legislativos que poderiam tornar o aborto ilegal nos 30 dias a partir de uma decisão favorável do Supremo. No entanto, segundo o jornal, num comunicado divulgado na sexta-feira, o procurador-geral do Texas, Ken Paxton, disse que os provedores de aborto poderiam ser responsabilizados criminalmente porque o estado nunca revogou as proibições de aborto que estavam nos livros antes de Roe v. Wade ser aprovado em 1973.

Perante o comunicado, muitas clínicas do Texas pararam de realizar abortos ou fecharam mesmo portas. No entanto, esta sexta-feira, dia 1 de julho, numa consulta rápida ao site da clínica de Alamo, uma nota indica que um tribunal do Texas conseguiu um embargo temporário que permite que as clínicas voltem a realizar abortos. 

"Queremos que os pacientes saibam que isto provavelmente não vai durar muito, mas estamos aqui novamente para servir enquanto pudermos. Por favor, ligue-nos hoje para mais detalhes e para agendar. Os abortos ainda são legais no Texas", lê-se no aviso.

O Supremo Tribunal dos Estados Unidos anulou na sexta-feira a proteção do direito ao aborto em vigor no país desde 1973, permitindo que cada Estado decida se mantém ou proíbe a interrupção voluntária da gravidez. Os juízes do Supremo, com uma maioria conservadora, decidiram anular a decisão do processo “Roe vs. Wade”, que protegia como constitucional o direito das mulheres ao aborto.

Relacionados

E.U.A.

Mais E.U.A.

Patrocinados