A aldeia raiana de Rio de Onor, em Trás-os-Montes, foi um dos poucos sítios onde o eclipse foi visível na sua totalidade. Vieram os familiares, os amigos e muitos turistas. E foi uma festa
O que seria capaz de fazer para ver um eclipse total? Carla e António Mota vieram do Algarve. Planearam a viagem há meses, marcaram hotel em Bragança e têm aproveitado para visitar a região. “É a primeira vez que vimos para esta zona, estamos na ponta oposta do país”, diz ele. Élvio, que é homem do mar, desembarcou há dois dias e nem sabia que ia haver um eclipse. Percebeu de manhã e, num impulso, decidiu vir de Aveiro na mota, chegou um pouco antes e foi-se embora um pouco depois. Fernando Albano Nunes mora em Rio de Onor há 85 anos e não sabia muito bem o que era um eclipse, mas estava disposto a descobrir e por isso subiu o morro a pé, apoiado na bengala. A subida é íngreme e o sol ainda queima a pele, mas não se lhe ouviu um queixume. “Vai ser mais difícil descer do que subir”, sentencia.
Estão todos no campo de futebol de Rio de Onor quando, por volta das 19:30, a Lua tapa o Sol e, por apenas 26 segundos, é possível tirar os óculos de cartão e encarar o Sol, a olho nu, observando a beleza da coroa solar – afinal, este é um dos poucos locais em Portugal onde o eclipse é visível na sua totalidade.
Uma pequena multidão foi-se juntando no campo ao fim da tarde. Vêm devagar, parando de vez em quando na subida para retomar o fôlego. José Luís, membro da União de Freguesias de Aveleda e Rio de Onor, transporta várias pessoas na sua carrinha de caixa aberta. Anda para lá e para cá, ajudando os mais fracos e garantindo que ninguém perde o espetáculo. Há quem traga merendas, quem se prepare para filmar, quem só queira desfrutar. Vão-se instalando. E depois é esperar e ir vendo - lentamente - a Lua a tapar o Sol. Só isso, visto através dos óculos especiais, já seria uma pequena maravilha. Mas há mais. “Está quase, está quase, está quase. Já está.”
Há um “oooohhhh” coletivo e palmas de entusiamo. Já não se sente o calor abrasador da tarde, o céu escurece, não chega a ser noite cerrada, é tudo demasiado rápido, mas está mais escuro do que num crepúsculo normal. E ainda mal estamos a apreciar – Olhamos para o Sol? Olhamos em volta? Olhamos uns para os outros? – e já a Lua se começa a afastar e o dia volta outra vez a ser dia e já tudo acabou. “Valeu a pena?” “Valeu muito a pena”, responde António Mota, sem hesitar. Ninguém sabe muito bem o que dizer. Dizem: "Incrível", "Lindo", "Uau". "É um cliché, mas é verdade", admite Ana Paula. “Foi bonito, sim senhor, nunca tinha visto nada assim”, concorda Fernando, já a pôr-se em marcha com a sua bengala.
Nuno conseguiu fotografar o eclipse. “Estas são especiais”, diz, mostrando as imagens à família e aos amigos. São um grupo grande. Subiram ao campo da bola logo às 17:00, instalaram-se com cadeiras e toalhas no chão, os miúdos a jogar às cartas, Raquel até trouxe o bordado de ponto de cruz para se entreter até ao eclipse. Vão aproveitando todas as fases. Desde quando ainda só se vê um bocadinho da Lua a "mordiscar" o Sol, até quando o Sol fica completamente oculto. “Foi muito fixe”, dizem os rapazes. “Foi melhor do que estava à espera.” “Valeu a pena, sim.”
Campismo lotado: “Não marcámos as férias de propósito, mas decidimos aproveitar"
Quando os conhecemos, horas antes, Marco e Nuno estavam a lavar a loiça. Pratos e copos de plástico de cores diversas, muitos talheres, o tacho da massa da noite passada. “Pedimos aos miúdos para lavarem a loiça do jantar, mas não ficou nada de jeito”, justificam-se, entre risos. Era quase uma da tarde e a temperatura já tinha passado há muito dos 30 graus. Marco, fiscal da Câmara do Porto, de 45 anos, e Nuno, de 47 anos, engenheiro de software de Vialongo, são amigos há muito tempo, “há muitas luas”. São “amigos do campismo”. Todos os anos juntam as famílias e vão por aí. Já estiveram em Góis, em Mogadouro, em muitos outros parques de campismo no meio de serras e junto a barragens ou rios. Este ano, por causa do eclipse, decidiram vir para Rio de Onor, no cocuruto de Portugal, mesmo junto à fronteira com Espanha. “Não marcámos as férias de propósito, mas decidimos aproveitar.”
São campistas experientes. Montam as tendas uma frente da outra e no meio fica uma espécie de sala de estar conjunta. “Fazemos a nossa própria sombra”, conta Marco. “Trazemos tudo o que precisamos, quando nos falta alguma coisa desenrascamos, é esse o espírito de campista.” Ao contrário dos turistas do eclipse, que estão aqui de passagem, Marco e Nuno chegaram ao parque de campismo municipal de Rio de Onor no sábado e vão ficar uma semana. “Quando chegámos só havia meia dúzia de tendas.” Agora o parque está cheio, muitas tendas e autocaravanas, encaixadas em todos os buraquinhos.
Os miúdos - são cinco, com idades entre os 6 e os 16 – adoram esta semana de liberdade e natureza. “É soltá-los e eles entendem-se”, diz Marco. Fazem caminhadas, dão mergulhos no rio, à noite jogam Uno e perdem-se em conversas. “Hoje é um dia especial porque temos o eclipse e à noite temos a chuva de estrelas. Ficámos com o melhor spot do parque para ver as perseidas”, assegura Nuno.
O grupo tinha vindo agora mesmo do rio. Raquel, a mulher do Marco, está a preparar o almoço, umas alheiras de Mirandela (estamos na terra delas), hambúrgueres para os miúdos mais esquisitos, arroz e salada. Helena, a mulher do Nuno, põe a mesa. Os miúdos jogam às cartas. Rafael, o mais velho, faz truques com cartas, com trejeitos de ilusionista profissional, arrancando interjeições de surpresa e aplausos. “Nós divertimo-nos sempre, com ou sem eclipse”, diz Helena. “Mas já que estamos aqui vamos aproveitar. Ao menos, quando for velhinha, posso dizer aos netos que vimos.”
“Uns morreram, outros foram-se embora": em Rio de Onor moram 43 pessoas
Rio de Onor é uma pequena aldeia do distrito de Bragança com pouco mais de 40 habitantes (oficialmente são 43), todos eles já com uma idade avançada. Nos dias de semana, não há crianças a brincar no rio e a escola há muito tempo que fechou. Anda-se na rua e não se vê vivalma. Mas nem sempre foi assim. “Havia muita gente, muita lavoura, era tudo tão bonito”, conta Maria Júlia Rodrigues, 84 anos, “não, mãe, 88, vai fazer 89”, “ah é?, já estava a fazer-me mais nova”, ri-se Maria Júlia Rodrigues, 88 anos, assim é que é, que nasceu e viveu sempre em Rio de Onor, ali teve dois filhos, um deles nasceu já morto, o outro é o José, de 63 anos, que está aqui, a ajudá-la no que é preciso e a emendar-lhe as memórias para garantir que as histórias são bem contadas. “Era a mais bonita, boa mulher, educada”, nisso a memória não a atraiçoa, assegura. Maria Júlia veste-se de negro desde que o marido morreu, as pernas cobertas pelas meias, mesmo no pino do verão. Está sentada no degrau à porta de casa, encostada ao cajado, a aproveitar a sombra e o movimento que o eclipse trouxe à sua rua cheia de casas vazias, umas com as janelas entabuadas, outras com as varandas de madeira e as paredes de xisto já a cair aos bocados. “Somos cada vez menos”, lamenta-se. “Uns morreram, outros foram-se embora.”
Também o seu filho José se foi embora, à procura de uma vida melhor, e só cá vem por causa da mãe; também os netos moram longe, a Érica está em França e o Tiago, de 23 anos, está a estudar em Lisboa, mas hoje está de visita à avó. Hoje em Rio de Onor até parece natal, os familiares estão quase todos por cá, uns vieram de Bragança, outros vieram de Lisboa, param os carros à porta de casa, trazem sacos com comida, trazem abraços e animação, as ruas enchem-se de netos e de sobrinhos e de amigos. O eclipse já serviu para alguma coisa.
Leonel Preto, de 61 anos, mora em Bragança e não está aqui por causa do eclipse. Está a recuperar as casas da família, gosta de vir aos fins de semana, de juntar a família na terra que foi a dos seus pais e dos seus avós. Leonel ainda fez a primeira classe na escola de Rio de Onor e tem boas memórias desses tempos, apesar da pobreza. “No inverno, cada miúdo levava uma latinha com brasas para pôr na braseira”, recorda. Para escapar à pobreza, a aldeia aprendeu a viver em comunidade.
“As pessoas perceberam que se uma pessoa tinha três ou quatro ovelhas ou cabritos e outra pessoa tinha mais meia dúzia de ovelhas, era mais fácil se se juntassem e tomassem conta das ovelhas em conjunto, se não ninguém fazia mais nada”, explica José. Todos juntos, à vez, levavam o gado a pastar, plantavam as hortas, semeavam o centeio, faziam a malhada nas eiras comunitárias, levavam as vacas para os coutos, as mulheres coziam o pão, os homens faziam as queimadas do restolho no inverno para que na primavera rebentasse a urze e alimentasse as ovelhas, a vida no campo é um ciclo interminável, e a vida em Rio de Onor era marcada por uma imensidão de tarefas. “Era uma agricultura de subsistência e primária, mas ninguém passava fome”, recorda José. Quando o sino tocava, juntava-se o conselho composto pelos homens chefes de cada casa (ou a mulher, se fosse viúva). A cada primeiro de janeiro elegia-se o mordomo, que decidia quando tinham de ir todos abrir um caminho, tratar das lameiras, fazer um qualquer trabalho. “Tocava o sino e iam todos.” José era miúdo e muitas vezes o seu trabalho era dar de beber aos homens reunidos no conselho. “Cada um trazia a merenda, mas o vinho era do conselho, comprado com o dinheiro das multas”, recorda. José carregava a cântara e ia servindo as canadas de vinho. “Só havia um copo, bebia toda a gente do mesmo.”
"Aqui toda a gente se conhece": a aldeia sobrevive
Maria Júlia e José falam português, mas têm uma maneira de cantar as palavras que as põe a dançar ao ritmo de Espanha. A verdade é que a fronteira fica logo ali, depois da curva. No lado de lá, fica a aldeia Rihonor de Castilla, onde se fala espanhol. Mas por aqui nunca se ligou muito à fronteira. Há casamentos que juntam famílias, gente que se muda para lá, primos que moram por cá. E alguns dos mais antigos ainda falam “rionorês”, o dialeto local, que é uma mistura do português e do castelhano, mas com palavras muito próprias. “Sou capaz de ainda entender um bocadinho”, arrisca Leonel, que culpa esta confusão de três línguas pelos erros que dava na escola e pelas palmatoadas que por causa disso levou.
Podíamos ficar aqui o dia inteiro a contar histórias. “Era outro tempo”, conclui Maria Júlia. Não sobrou ninguém para plantar a terra, já não há gado nas lojas do rés-do-chão das casas de pedra, típicas desta região. Mas, na aldeia que foi eleita uma das sete Maravilhas de Portugal em 2017, ainda sobrou um certo espírito comunitário. “Aqui toda a gente se conhece”, garante Maria, 76 anos, que andou 24 anos emigrada em Paris, a trabalhar nas limpezas, mas acabou por voltar à terra em 2004 quando os pais ficaram velhotes. Foi mais ou menos por essa altura que “os rapazes” fundaram a Associação Cultural de Rio de Onor. “Não tinham aqui nada, então fizeram isto.” A Junta de Freguesia cedeu-lhes o espaço, onde antes funcionava o posto da guarda fiscal, e a associação gere um dos poucos estabelecimentos da aldeia. Os rapazes, que agora já não são tão rapazes, criaram a associação, mas é Maria que está todos os dias ao balcão a servir cafés e minis. “Eu e mais três e quatro, todos voluntários. Organizamo-nos. Quando podemos abrimos, quando não podemos não abrimos.” Hoje tinha de abrir e até tem a ajuda de Telmo, de 53 anos, um dos tais "rapazes" que foi trabalhar para fora, mas continua a vir a Rio de Onor sempre que pode, ou que há festa.
A associação acaba por ser também uma maneira de juntar todos os filhos de Rio de Onor. Organizam as festas do 13 de maio e do São João, que é o padroeiro da terra. No primeiro sábado de julho, juntam-se todos, os que ainda aqui moram e os que já se foram embora, trazem os filhos e os amigos para limpar o rio. Já não é preciso tocar o sino, combina-se tudo por WhatsApp, e no fim há um lanche comunitário. E a meio de agosto têm a “famosa sardinhada”, que chega a reunir mais de 700 pessoas. “São 300 quilos de sardinha e 100 litros de água”, diz, orgulhosa, Maria, que sabe de cor as contas da sardinhada, mas não estava preparada para esta enchente do eclipse e não tem mãos a medir para tanta gente que aparece no café. Ao balcão, durante toda a tarde, saem cervejas, gelados e muita água, mas não há muito que se coma. “Só temos um restinho de queijo e enchidos, chega?”
Não é possível saber ao certo quantas pessoas vieram a Rio de Onor neste dia. Terão sido perto de 1.500, espalhadas por toda a região de Rio de Onor e Guadramil, menos do que as que inicialmente se previu, uma vez que, devido ao risco de incêndio, as autoridades fecharam os acessos ao Parque Natural de Montesinho a partir das 15:00 e deslocaram as atividades de observação para o aeródromo de Bragança. Mas, mesmo assim, houve muita gente que veio antes. O parque de campismo ficou lotado, os três restaurantes da terra não tinham lugar para mais pessoas, os carros ficaram estacionados em fila pela berma da estrada muito para além do fim da aldeia. Rio de Onor está um reboliço.
No campo de futebol, enquanto a Lua cobre o sol, ouve-se falar português e espanhol, mas também francês e inglês. Num dos carros, com o porta-malas aberto, um grupo de amigos aproveita a fase final do eclipse. “Foi curto, mas muito intenso”, diz Carlos. “É mesmo um acontecimento único.” Carlos e Josep são espanhóis, mudaram-se há um ano de Málaga para a aldeia de Rihonor de Castilla, onde vivem apenas 12 pessoas. “Queríamos mudar de vida, estávamos fartos da cidade grande”, conta Carlos. Queriam viver na natureza, sem pressas. Durante o verão, a filha, Sara, de 7 anos, brinca no rio com as crianças que vêm de férias, no inverno vai à escola em Puebla de Sanabria. “Vêm buscá-la de autocarro, a ela e a mais dois rapazes mais velhos”, conta Carlos. “A aldeia não tem nada, não tem café, nada. Nem sequer temos rede telefónica, temos de usar a Nos, que é portuguesa.” E, no entanto, estão felizes. Recebem amigos e estendem largos sorrisos.
Findo o eclipse total, já ninguém quer olhar para o Sol. A Lua ainda dá um ar da sua graça, afastando-se vagarosamente, mas já estão todos a descer dos montes e a voltar às suas casas, os óculos guardados no bolso. Raquel pensa nos cachorros-quentes que vai fazer para o jantar. Nuno vai preparar a câmara para fotografar as perseidas. Maria já foi para casa, descansar, mas Telmo continua a servir cervejas na associação, a música de baile parece imparável e o movimento promete continuar pela noite fora. "É uma noite de festa, não é?" Os algarvios Carla e António garantem que vão voltar, que perceberam que afinal o Norte não fica assim tão longe. Mas Carlos e Josep têm outros planos: no próximo ano, outro eclipse será visível em Málaga. “Já viram a sorte?” Afinal, pode muito bem ser que este não tenha sido o único eclipse total das suas vidas.
