Nunca deve olhar diretamente para o Sol, mesmo quando, como acontece durante o eclipse, a luz pareça suportável. Conheça os riscos e o que deve fazer para evitar lesões na retina
Não podemos olhar para o Sol, dizem-nos as mães desde que somos pequeninos - e têm razão. "Nunca devemos olhar diretamente para o Sol, com ou sem eclipse. A exposição direta ao Sol pode provocar uma queimadura da retina, a zona do fundo do olho responsável por transformar a luz em imagens", explicou à CNN Portugal a médica oftalmologista Sara Vaz-Pereira.
"Olhar diretamente para o Sol pode provocar uma lesão da retina, designada retinopatia solar", afirma a especialista em Retina Médica e professora na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Isto acontece "mesmo que o tempo de exposição seja curto", alerta.
"Durante um eclipse, o risco aumenta porque a diminuição da luminosidade faz com que as pessoas sintam menos encandeamento e permaneçam a olhar para o Sol durante mais tempo", avisa Sara Vaz-Pereira. Não se deixe enganar. Durante um eclipse parcial, como aquele que vamos ter em Portugal, a quantidade de luz solar diminui, mas, mesmo que o Sol esteja quase totalmente coberto pela Lua e a luz pareça suportável, a diminuição da luz não significa que a radiação tenha deixado de ser perigosa. O Sol até pode estar 99% tapado, mas aquele 1% que sobra é igualmente perigoso.
A maneira correta de ver um eclipse é usando os óculos especiais de eclipse, certificados, que têm sido disponibilizados gratuitamente pela agência Ciência Viva ou que estão à venda em lojas de ótica ou supermercados.
Posso ver o eclipse com óculos de sol normais?
Não. A NASA e a Sociedade Astronómica Americana e a Direcção-Geral de Saúde (DGS) são categóricas: nenhuns óculos de sol, por mais escuros que sejam, servem para observar diretamente um eclipse solar.
"Os óculos de sol comuns, vidros fumados, radiografias (raios X), películas fotográficas, CDs ou qualquer outro método improvisado não protegem a retina da radiação solar. Embora reduzam a intensidade da luz visível e o encandeamento, não bloqueiam a radiação em quantidade suficiente para tornar a observação do Sol segura", alerta Sara Vaz-Pereira.
Como saber quais os óculos certos para ver o eclipse?
Os óculos certificados estão identificados com a norma ISO 12312-2 [certificação para observar o Sol], a marca CE visível [indica que um produto cumpre os requisitos estabelecidos nas regras da União Europeia (UE)] e o Regulamento (UE) 2016/425.
A agência Ciência Viva recomenda que, ao comprar os óculos, verifique que:
- Não têm furos, riscos ou estão danificados
- Possuem a marca CE visível
- Mencionam o Regulamento (UE) 2016/425
- O nome e o endereço do fabricante/importador estão impressos
- É possível ver o número de lote para rastreio
- As instruções são fornecidas em idiomas da UE
- Existe uma Declaração de Conformidade (um código QR ou link).
- O tempo máximo para observação contínua com os óculos está indicado
Verifique sempre se os óculos são certificados. Em Espanha, as autoridades ordenaram a retirada de seis modelos de óculos para observar o eclipse solar devido ao risco de lesões oculares.
Não é aconselhável o uso de óculos antigos, que tenha de eclipses anteriores. Os filtros deterioram-se com o tempo e os óculos podem perder a capacidade de proteção quando são dobrados, riscados ou armazenados de forma inadequada.
Quanto tempo posso olhar para o eclipse?
Mesmo com proteção adequada, faça observações curtas e espaçadas, em vez de manter o olhar continuamente fixo no Sol. Não se deve olhar continuamente para o Sol mais do que uns 10 ou 15 segundos.
Deve colocar os óculos próprios para eclipse solar antes de olhar para o Sol e desviar o olhar antes de os retirar, aconselha ainda a DGS.
As crianças podem ver o eclipse?
"As crianças podem correr mais perigo porque são curiosas e não percebem o risco, devendo ser supervisionadas", avisa a oftalmologista.
A DGS aconselha mesmo a que não se exponham "bebés e crianças pequenas à observação direta do eclipse", mesmo usando os óculos para o efeito.
Mesmo que “uma criança utilize óculos certificados para eclipse deve estar sempre sob vigilância de um adulto, que confirme que os óculos permanecem corretamente colocados durante toda a observação", afirma a Direção-Geral de Saúde.
E se não tiver óculos do eclipse?
Se não se tiver óculos certificados, a alternativa mais segura consiste em nunca olhar diretamente para o Sol.
A única alternativa aos óculos certificados, segundo o astrónomo José Augusto Matos, é o filtro dos óculos de soldar. As máscaras de soldadura, usadas por alguns profissionais, têm um filtro que protege os olhos dos raios solares.
Pode também recorrer a métodos de projecção, permitem acompanhar o fenómeno sem qualquer risco. Por exemplo, usando uma câmara estenopeica (pinhole), que é uma máquina fotográfica artesanal sem lentes, que tem apenas uma caixa fechada sem luz com um pequeno furo num dos lados.
Ou então pode construir o seu próprio projetor, com um coador de cozinha ou um cartão furado, de forma a projetar a sombra do Sol no chão ou numa parede.
A que sintomas devo estar atento depois do eclipse?
O ideal é que nunca olhe diretamente para o Sol, nem mesmo só uma espreitadela. A retina não sente dor. Por isso, os sintomas nem sempre surgem de imediato e podem aparecer horas ou até um ou dois dias depois. Os mais frequentes são visão desfocada, uma mancha escura ou uma distorção no centro da visão e dificuldade em ler ou distinguir detalhes.
Estes são os principais sinais de alerta, de acordo com a DGS:
- Visão distorcida ou turva
- Visão com manchas/pontos negros
- Alteração da perceção das cores
- Diminuição ou perda súbita de visão
- Dor ocular intensa
Se tiver algum destes sintomas deve ir ao médico. Em alguns casos, a visão recupera parcialmente, mas a lesão pode ser permanente.
