O que é um eclipse, onde poderá vê-lo, que óculos usar, o que acontece durante o eclipse e muitas outras dúvidas esclarecidas: um guia para o eclipse solar da próxima quarta-feira
Antigamente, as pessoas tinham medo porque não sabiam o que estava a acontecer. Hoje já sabemos muito, mas ainda há um certo mistério em volta dos fenómenos astronómicos e é normal que haja um fascínio. É a febre do eclipse. Os óculos de observação esgotam-se em poucas horas nas farmácias. Há eventos de observação e festas para celebrar o momento. Por todo o lado se fala do fenómeno - e é preciso ter muita atenção aos factos inventados e partilhados nas redes sociais. O eclipse solar poderá ser observado em todo território português ao final da tarde de quarta-feira. Isto é tudo o que precisa saber para ter a melhor experiência:
O que é um eclipse?
Um eclipse solar ocorre quando a Lua se interpõe entre a Terra e o Sol, ocultando (eclipsando) o disco solar durante um algum tempo. Nesta altura, a coroa solar, que é a camada mais externa e rarefeita da atmosfera do Sol e que normalmente é ofuscada pela sua intensa luminosidade, torna-se visível.
O eclipse só pode acontecer quando estamos em lua nova, ou seja, quando a trajetória da Lua se situa entre a Terra e o Sol e, por isso, geralmente não a vemos a olho nu, explica o astrónomo José Augusto Matos à CNN Portugal. A face iluminada da Lua fica voltada para o Sol, enquanto o lado virado para a Terra permanece escuro.
No entanto, para haver um eclipse é preciso que a Terra, a Lua e o Sol estejam perfeitamente alinhados, o que acontece, geralmente, entre duas e cinco vezes por ano em pontos diferentes do planeta, embora nem sempre sejam eclipses totais.
O que é um eclipse total?
Além de ser necessário um alinhamento perfeito entre a Terra, a Lua e o Sol, o eclipse total ocorre quando a Lua está mais próxima da Terra. A menor distância faz com que a Lua pareça maior no céu, cobrindo todo o disco do Sol. Por isso, quando a Lua se interpõe entre a Terra e o Sol vai bloqueá-lo completamente e durante algum tempo - podem ser alguns segundos ou alguns minutos - não há luz solar.
No dia 12 de agosto, haverá um eclipse total do Sol visível na Península Ibérica, ao longo de uma faixa que vai das Astúrias a Málaga. Nos municípios espanhóis de Bilbau e Burgos a taxa de ocultação será de 100%, enquanto em Madrid e Barcelona rondará os 99%. Em Espanha, o eclipse total dura entre 1 e 2 minutos, dependendo do local onde se esteja.
Em Portugal, apenas numa pequena zona junto à fronteira, no distrito de Bragança, a Lua cobrirá completamente o Sol e o eclipse será total. É um evento muito raro e especial: a última vez que foi possível observar um eclipse total em Portugal foi em 1912. O próximo será apenas em 2144.
Onde é que se pode ver o eclipse total em Portugal?
A totalidade do eclipse será visível durante 26 segundos numa pequena área nas aldeias de Rio de Onor e Guadramil, no distrito de Bragança, que integram o Parque Natural de Montesinho. Inicialmente, estava prevista uma atividade de observação naquele local, mas, devido às elevadas temperaturas e ao alerta de risco de incêndio, a atividade foi deslocada para o aeródromo de Bragança. Aí, a ocultação máxima será de 99,8% a 99,9%. Não será um eclipse total, mas o disco solar ficará quase todo coberto: trata-se tecnicamente de um eclipse parcial profundo.
"Em Portugal, ninguém vai ver o eclipse total, porque o único sítio onde se via vai estar vedado", lamenta o astrónomo José Augusto Matos. "Há, de facto, alguma desilusão, era uma oportunidade única."
O Parque Natural de Montesinho estará interdito ao público, mas Clotilde Nogueira, diretora do centro Ciência Viva de Bragança e coordenadora do programa do Eclipse Solar 2026, garante que serão feitos registos do eclipse total.
Onde será possível, então, ver o eclipse parcial?
O fenómeno será visível em todo o país, do Algarve a Trás-os-Montes, embora de formas diferentes.
Em Faro a ocultação será de 93%, em Lisboa chegará aos 95%, nas regiões autónomas dos Açores e da Madeira ficar-se-á pelos 74% e 77%, respetivamente.
Existem vários eventos de observação do eclipse em todo o país, tanto de entrada livre como mediante inscrição. A agência Ciência Viva tem várias ações planeadas para esse dia - geralmente com possibilidade de observação com telescópio e acompanhadas pelas explicações de especialistas e outra programação. Mas a verdade é que o eclipse é um evento bastante democrático e está acessível a todos.
Para observar o eclipse deve escolher um local onde consiga ver o Sol. Como o eclipse vai ocorrer perto da hora do pôr-do-sol, quando o Sol já vai estar muito baixo, o ideal é escolher locais elevados e sem obstáculos, onde tenha uma boa visão para poente, aconselha José Augusto Matos. Pense nos locais onde habitualmente se pode desfrutar do pôr-do-sol: praias, miradouros ou até rooftoops, desde que voltados para Ocidente.
Para uma melhor experiência, verifique antecipadamente as previsões meteorológicas e a ocorrência de incêndios no local, uma vez que as nuvens e o fumo perturbam a observação.
A que horas ocorre o eclipse? Quanto tempo demora?
O eclipse começa por volta das 18:30 em Portugal continental.
"Lentamente, a Lua vai ocultando o Sol, de forma gradual", explica José Augusto Matos. Cerca das 19:30 (com alguns minutos de diferença, dependendo do local onde se esteja) atinge o seu auge e depois a Lua começa a afastar-se.
Pelas 20:30 tudo terá terminado.
Pode saber a que horas exatamente será o eclipse na sua zona no site oficial do evento em Portugal.
O que acontece durante um eclipse?
Durante a fase de totalidade, quando a Lua oculta completamente o Sol, o dia transforma-se em noite e a coroa solar revela-se em todo o seu esplendor. O céu escurece e a temperatura fica subitamente mais baixa. Poderá até ser possível observar outros planetas e algumas estrelas, avisa José Augusto Matos.
Levanta-se uma brisa, o chamado vento do eclipse, que surge porque no cone de sombra fica mais escuro e mais frio do que no ar à volta. É esta diferença de temperatura que gera o vento.
Podem também verificar-se alterações na ondulação do mar e no comportamento de alguns animais, que se recolhem, julgando já ser noite.
Na zona de total ocultação, durante aqueles segundos ou minutos que dura o eclipse, não é preciso usar óculos especiais nem filtros, pode-se olhar livremente para o Sol. Mas - atenção! - isso não é possível quando o eclipse é parcial. "Quando há uma ocultação de 99%, ou menos, o Sol ainda emite luz suficiente para manter o dia claro. Mas tudo fica diferente. O ambiente ganha uma luz prateada e estranha, semelhante a um crepúsculo, mas o céu não fica escuro", explica o astrónomo. "Neste caso, vamos ter de usar os óculos de observação para poder ver o eclipse. Nunca vamos poder tirá-los", sublinha José Augusto Matos.
O astrónomo nunca viu um eclipse total, mas já observou vários eclipses parciais e, mesmo não se tratando da "emoção completa", garante que se trata de "uma experiência fora do comum", que para algumas pessoas pode até ser comovente. Por ser um evento tão raro, impactante e, apesar de tudo, ainda um pouco misterioso, os eclipses geram sempre uma enorme curiosidade e expectativa.
Porque é que não podemos olhar diretamente para o eclipse?
A observação de um eclipse do Sol sem proteção adequada pode causar danos irreversíveis nos olhos. Embora a luz solar direta não provoque dor no momento, pode causar queimaduras na retina, resultando em manchas escuras na visão, visão distorcida ou até perda permanente da visão.
Por isso, o eclipse nunca deve ser observado à vista desarmada, nem mesmo durante poucos segundos, mesmo que o Sol esteja quase totalmente coberto pela Lua e a luz pareça suportável. A diminuição da luz não significa que a radiação tenha deixado de ser perigosa. Esta regra aplica-se a todas as fases do eclipse parcial, sublinha José Augusto Matos.
Então, como é que posso ver o eclipse?
Tem de se usar os óculos de observação com um filtro especial. Nas últimas semanas, a agência Ciência Viva disponibilizou óculos gratuitamente, mas estes têm-se esgotado rapidamente. Se não conseguiu os óculos gratuitos pode comprá-los em farmácias, supermercados ou lojas online por um valor que ronda os três euros, mas sempre verificando se são certificados.
Os óculos certificados estão identificados com a norma ISO 12312-2 [certificação para observar o Sol], a marca CE visível [indica que um produto cumpre os requisitos estabelecidos nas regras da União Europeia (UE)] e o Regulamento (UE) 2016/425.
Não é aconselhável o uso de óculos antigos, que tenha de eclipses anteriores. Os filtros deterioram-se com o tempo e os óculos podem perder a capacidade de proteção quando são dobrados, riscados ou armazenados de forma inadequada.
Não basta colocar uns óculos de sol normais?
Não. "Os óculos de sol comuns, mesmo os mais escuros ou polarizados, não bloqueiam a radiação solar em quantidade suficiente para proteger a retina", explica à CNN Portugal a oftalmologista Sara Vaz-Pereira, sublinhando: "Como reduzem apenas a sensação de encandeamento, podem até aumentar o risco, levando a pessoa a olhar para o Sol durante mais tempo, aumentando o tempo de exposição".
"Os óculos de sol comuns, vidros fumados, radiografias (raios X), películas fotográficas, CDs ou qualquer outro método improvisado não protegem a retina da radiação solar. Embora reduzam a intensidade da luz visível e o encandeamento, não bloqueiam a radiação em quantidade suficiente para tornar a observação do Sol segura", alerta a médica.
A única alternativa aos óculos certificados, segundo o astrónomo José Augusto Matos, é o filtro dos óculos de soldar. As máscaras de soldadura, usadas por alguns profissionais, têm um filtro que protege os olhos dos raios solares.
Pode-se fotografar o eclipse?
Sim, mas com cuidados. Os óculos de eclipse não devem ser usados em conjunto com câmaras, telemóveis, binóculos, telescópios ou outros instrumentos óticos. Estes equipamentos concentram a radiação solar, e podem provocar lesões oculares imediatas. Por isso, existem filtros próprios para colocar à frente das lentes, que podem ser adquiridos nas lojas de fotografia.
Quanto tempo posso olhar para o Sol?
Mesmo com proteção adequada, faça observações curtas e espaçadas, em vez de manter o olhar continuamente fixo no Sol. Não se deve olhar continuamente para o Sol mais do que uns 10 ou 15 segundos.
José Augusto Matos sublinha que, como em Portugal temos um eclipse parcial, é preciso ter ainda mais cuidado: "A pessoa pode ser enganada porque como há menos luz julga que não é tão perigoso. A verdade é que o Sol pode estar 99% tapado, mas aquele 1% que sobra é igualmente perigoso".
Já que está a olhar para o céu, veja a chuva de estrelas
As Perseidas podem ser observadas todos os anos em agosto. O auge ocorre precisamente nas noites de 11 e 12 de agosto, o que, este ano, coincide com o eclipse solar.
Uma vez que estamos na fase de lua nova, a chuva de estrelas será particularmente visível, desde que esteja numa zona escura, longe da iluminação urbana. Não precisa de binóculos nem telescópios e para ver a chuva de estrelas nem sequer precisa de óculos especiais. Por isso, se está a participar em algum evento de observação do eclipse, deixe-se ficar para além do pôr-de-sol e, depois da meia-noite, prepare-se para um outro espetáculo.
Vai perder o eclipse? Não se preocupe, terá outras oportunidades
Estamos na "década de sorte" para os "caçadores de eclipses" em Portugal, diz o astrónomo José Augusto Matos. Depois do eclipse de 12 de agosto, teremos mais dois eclipses visíveis na Península Ibérica nos próximos anos.
A 2 de agosto de 2027, poder-se-á observar um eclipse total no sul de Espanha (Cadiz e Málaga, Ceuta). Visível parcialmente em Portugal, este “vai ser um bom eclipse parcial no Algarve”, avisa o astrónomo. "Será um eclipse parcial extremamente profundo no Algarve, atingindo uma magnitude de cerca de 0,988 (com uma ocultação do disco solar entre 97,5% e 98%, dependendo da concelho)."
"Este será um dos melhores eclipses do século XXI em termos de duração. No Egito e na Tunísia vai chegar aos 6 minutos, o que é muito raro."
No ano seguinte, a 26 de janeiro de 2028, teremos um eclipse anular, que é em tudo semelhante ao eclipse total, mas como a Lua está mais distante da Terra, parece menor e, por isso, não cobre o Sol inteiro. Isso cria um círculo brilhante no céu que parece um anel de fogo.
Este eclipse será total no Alentejo e no Algarve, assim como no sul de Espanha (Sevilha). E será também um "bom parcial" em Lisboa. Mas nunca deixará a Terra mergulhada na noite porque haverá sempre luz.
