Quem já viu não tem palavras para descrever, quem ainda não viu confessa o entusiasmo. Paulo é biólogo, João é fotógrafo do espaço, Pedro e Rui são astrónomos amadores. Às 19:30, vão estar todos, por motivos diferentes, com os olhos (devidamente protegidos com os óculos próprios) postos no eclipse solar
"É o maior espetáculo da natureza, nem tenho palavras para descrever." Pedro Ré não é um "caçador de eclipses", não se compara com aqueles que percorrem o mundo em função das voltas da Lua e já viram dezenas de eclipses, mas no seu modesto currículo tem já dois eclipses solares totais: na Roménia, em 1999, e no Egito, em 2006. E, se tudo correr bem, esta tarde estará em Espanha, na região de Valladolid, pronto não só para ver como também para fotografar mais um eclipse total.
Será a primeira vez, desde 1912, que um eclipse total do Sol é observável em Portugal, mas apenas num cantinho do Parque Natural do Montesinho. No resto do país, o eclipse será parcial, mas bastante profundo - com um nível de ocultação que vai dos 93% no Algarve aos 99% em Bragança. O eclipse começa por volta das 18:30, atingindo o seu auge pelas 19:30. Uma hora depois tudo terá terminado.
Saiba tudo o que precisa saber sobre o eclipse do Sol desta quarta-feira
Pedro Ré, 69 anos, biólogo marinho a um ano de se jubilar, é o fundador, sócio número 2 e agora presidente da Associação Portuguesa de Astrónomos Amadores. Ao longo da sua vida já viu vários eclipses parciais e está habituado a ver e a fotografar diversos fenómenos astronómicos. Mas nada se compara a um eclipse total, garante: "É uma experiência fantástica", diz, recordando a noite profunda que durou poucos minutos e a beleza da coroa solar, que se consegue observar à vista desarmada, com uma coloração esbranquiçada. E que Pedro conseguiu captar nas suas fotografias:
Durante as várias fases do eclipse, a luz é completamente diferente da luz habitual do crepúsculo, as sombras parecem mover-se, levanta-se um vento súbito e sente-se uma energia no ar que não tem comparação com nada que já se tenha experienciado. Podem estar milhares de pessoas juntas, mas naqueles segundos fica tudo silencioso. "Mesmo as condições meteorológicas alteram-se naquele momento", explica Pedro Ré. "Pode estar nublado e achamos que não vamos ver nada, mas, no momento, o vento do eclipse pode fazer com que as nuvens se dissipem. Por isso, nunca devemos desistir."
Pedro não desistiu. Quando percebeu que não iria poder ver o eclipse total em Portugal, tal como tinha planeado, rapidamente arranjou uma alternativa - irá a Espanha onde o eclipse total durará cerca de um minuto e meio. "Seria impensável ter um eclipse total aqui tão perto e não conseguir vê-lo." As pessoas até podem achar que quem já viu uma vez não precisa ver mais nenhuma, mas ele sabe que não é assim. "Cada eclipse é diferente, e cada um é espetacular à sua maneira. É por isso que queremos ver outra vez."
E é por isso que tantos o querem ver pela primeira vez.
O biólogo: "Podemos ter lobos a uivar, galos a cantar, morcegos confusos. Vamos ver que efeito o eclipse terá nas aves e nos outros animais"
Paulo Cortez tem 60 anos e nunca viu um eclipse total do Sol. Engenheiro florestal de formação, professor por vocação, acabou por se dedicar à ecologia, investigando sobretudo a relação entre os animais e o seu habitat. A sua atenção está na Terra, mais do que no espaço, mas, às vezes, estes dois mundos cruzam-se. O professor do Instituto Politécnico de Bragança costuma colaborar com a agência Ciência Viva, orientando algumas visitas no Parque Natural de Montesinho, por exemplo para observação de veados. E foi, precisamente, depois de uma dessas visitas que surgiu o desafio para desenvolver um projeto de observação da fauna durante o eclipse total do Sol. "Pareceu-me logo muito interessante", diz.
A região das aldeias de Rio de Onor e Guadramil, no Montesinho, na fronteira nordeste do país, é a única zona de Portugal onde, por apenas 26 segundos, será possível observar na sua totalidade o eclipse desta quarta-feira. Será, portanto, uma boa oportunidade para perceber como se comportam algumas espécies animais daquela região antes, durante e após o eclipse. Sabemos, de outros eclipses, noutros locais, que há animais que se recolhem, quando o eclipse começa, julgando já ser noite, e que depois, durante o período de clareamento, despertam, como se de uma alvorada se tratasse. "Vai ser breve, mais vai ser muito escuro. Ou no pré ou no pós eclipse deverá haver alguma alteração. Podemos ter lobos a uivar, galos a cantar, os morcegos podem ficar confusos, vamos ver que efeito o eclipse terá nas aves e nos outros animais", explica. Para isso, serão usados aparelhos de captação de som e de imagem.
O professor ainda ensinou muitos alunos a identificar os sons das diferentes espécies. "Fazíamos gravações e depois tínhamos de ouvir com atenção para fazer a leitura. É uma questão de treinar o ouvido, com o tempo já se torna fácil", conta. "Mas hoje em dia já há programas informáticos que identificam os sons, é muito mais fácil." É possível até pré-programar os aparelhos para captarem sons de tantos em tantos minutos, a determinadas horas e em determinados dias.
Da mesma forma, para captar imagens dos animais já não é preciso ficar escondido num qualquer recanto, sempre alerta, com a máquina fotográfica em punho. "Usamos fotoarmadilhagem, ou seja, colocamos no terreno as câmaras que são ativadas através de raios infravermelhos sempre que houver um movimento", explica o professor.
Na última semana, Paulo Cortez passou muito tempo no terreno a preparar tudo. O objetivo é recolher dados no período do eclipse, nos dois dias anteriores e nos dois dias seguintes, sempre à mesma hora, para ter um termo de comparação. Além disso, este projeto do Instituto Politécnico de Bragança está associado a um outro da Universidade do Porto e a mais duas universidades em Espanha, que também vão estar a observar os animais durante o eclipse. "Quantos mais dados recolhermos melhor. A ideia é ter uma base de informação que sirva para que outros investigadores continuem o trabalho." O professor sabe que há outros projetos de monitorização de animais em Portugal - por exemplo, do lince no vale do Guadiana, do lobo no Gerês, ou do abutre em Trás-os-Montes - que, não estando a trabalhar especificamente sobre o eclipse poderão também recolher dados interessantes.
Habituado ao trabalho de campo, Paulo Cortez não esconde o entusiamo por mais um projeto que lhe permite perceber um pouco melhor o mundo em que vivemos. A parte boa é que, com tanta tecnologia e a recolha informatizada de dados, não precisa estar no terreno e pode simplesmente desfrutar do eclipse: "Nem sei bem como vai ser. Posso ir para o Parque Natural de Montesinho porque tenho uma credencial, mas também posso ir um pouco mais longe e ir até Espanha. Mas não vou perder este momento, disso tenho a certeza."
O fotógrafo do espaço: "O céu é fascinante. E devíamos estar a aproveitar. Vamos ser a última geração a ver as estrelas"
Em pequeno João Moreira já gostava de andar de cabeça no ar. "Passava horas a olhar para o céu. Só ver a Lua já me fascinava", conta o técnico de informática de 34 anos. Perdia tempo a procurar as constelações, ficava contente quando via algum meteorito. Mas foi só há seis anos, durante a pandemia, que descobriu a astrofotografia. Preso em casa, começou a "viajar" pelos astros. "Uma pessoa pensa que é preciso um grande equipamento, caríssimo, um telescópio ou algo assim, mas na verdade, não é. Com um simples telemóvel pode-se começar a explorar os céus. O céu está cheio de cores, cheio de gases, tem muita coisa para fotografar. Basta fugir do centro da cidade e apontar a câmara para o céu para começar a ver coisas que antes não conhecíamos."
Foi assim que começou, com uma banal máquina fotográfica. "Li muito e vi muitos vídeos no Youtube, há imensos sites que explicam como se faz." Quando tirou a primeira fotografia, em 2021, nem sequer tinha um tripé, teve de colocar a máquina em cima de uma caixa de cartão: "Apontei para a galáxia Andrómeda e fotografei. Fiquei encantado. Não estava à espera de ver tudo com tanto detalhe. Olhando agora, acho que a fotografia está horrível. Mas na altura fiquei super feliz."
"Para fotografar a Lua já é necessária uma câmara com lente", explica João, que tem dedicado grande parte do seu tempo a este hobby e já comprou mais algum equipamento, como por exemplo uma "montagem equatorial", que é uma base para a máquina fotográfica que permite acompanhar o movimento dos astros. "Parece que os astros não se movem, mas movem-se. A Terra está sempre girar, por isso não podemos ter uma máquina fixa, se não as imagens das estrelas ficam arrastadas."
"Na astrofotografia, a foto não é instantânea, isso é a primeira coisa que tem de se perceber", esclarece. "A gente clica no botão, abre o sensor, começa a colecionar a luz e pode ficar ali 10 segundos ou 2 minutos. E só depois vamos ver o resultado. É uma coisa magnifica. Parece que não fica nada, mas quando se vê a imagem a aparecer no ecrã, é uma sensação mágica. É uma sensação quase de casa, um espetáculo."
Entretanto, criou um canal de Youtube onde mostra o seu trabalho e dá dicas a outros fotógrafos e, nos últimos meses, tem vindo a preparar-se para o eclipse. "Ainda não vi nenhum eclipse total por isso estou muito curioso", diz. "Para fotografar o espaço o ideal é verificar as condições meteorológicas 48 a 24 horas antes para perceber qual é o melhor local. Sei bem do que falo porque em Aveiro, onde estou, desde janeiro só tive 18 noites sem nuvens." Por isso, não fez grandes preparativos, mas tem um plano: "Meto-me no carro e vou a Espanha". Espanha é já ali, umas poucas horas de viagem e poderá desfrutar de um minuto e meio de eclipse total. Vai ser um banquete para os astrofotógrafos.
João sabe que esta pode ser uma oportunidade única para fotografar o eclipse tão perto da sua casa e não quer perdê-la, mas também não lhe dá uma importância excessiva. "Há tanta coisa no céu para fotografar. Muita gente pensa que é preciso ser cientista para entender o céu, mas não é. É algo fascinante. E devíamos estar a aproveitar. Vamos ser a última geração a ver as estrelas. Com o aumento da poluição luminosa, as luzes leds, brancas, apontadas para o céu e cada vez mais satélites, estamos em risco de perder o prazer de ver as estrelas. Um dia vamos olhar para o céu e apenas vamos conseguir ver a Lua."
O astrónomo amador: "Quando olhamos para o céu ficamos com a noção que somos tão pequeninos, somos mesmo insignificantes. Isso muda a perspetiva que temos da vida e do mundo"
"Do quintal para o universo." É assim, com sentido de humor, que Rui Miguel Fino fala do pequeno observatório espacial que construiu nas traseiras da sua casa na zona de Sintra. Construiu-o ele, com as suas próprias mãos e a ajuda do filho, porque queriam os dois ter um sítio em condições onde pudessem observar o céu. "Nos já tínhamos telescópios, mas montar e desmontar os aparelhos é uma coisa que demora algum tempo, era complicado fazê-lo depois de um dia de trabalho. E ao fim-de-semana nem sempre tínhamos céu limpo, estamos aqui numa zona com um microclima complicado. Por isso, decidimos construir um observatório, para termos sempre tudo a postos." O observatório tem até um teto que abre, para que os telescópios possam ser apontados ao espaço, tal e qual como os observatórios profissionais.
"Eu não sou cientista, a minha profissão não tem nada a ver com astronomia", ressalva. Rui Miguel Fino é dono de uma loja de materiais de construção, mas o interesse pela astronomia já vinha de trás. "Até tínhamos um telescópio em casa, vimos a Lua, alguns planetas, mas não nos dedicámos muito." Quando o filho, Mateus, ficou mais crescido, os pais quiseram oferecer-lhe um telescópio melhor. "Fomos a uma loja, a Astrofoto, onde havia vários eventos da Associação Portuguesa de Astrónomos Amadores e começámos a assistir a alguns encontros. Fomos a um evento de observação no Alqueva e foi uma porta que se abriu. Estarmos ali a ver o céu com alguém a explicar-nos fez toda a diferença. Olhar para o céu e ver as galáxias, as nebulosas, os enxames de estrelas, ver a Lua, o Sol, é tudo fabuloso."
Pouco tempo depois, houve um trânsito em Mercúrio, e Rui decidiu organizar um evento de observação com a escola onde o filho andava. O entusiamo dos miúdos confirmou aquilo que já pressentira: que se puser os jovens a ver o céu, em vez de apenas lhes dar matéria para decorar, eles vão aprender com muito mais alegria. Essa foi a génese do Grupo Astronómico de Colares, criado em 2021. A partir daí, Rui nunca mais parou de trabalhar com diferentes escolas e grupos de cidadãos, orientando atividades sobre astronomia, juntando-lhe a informática ou a robótica. "Mais do que um hobby, é uma realização pessoal. Dá-me um prazer enorme fazer com que a ciência seja o mais acessível possível. A ciência e o conhecimento têm de ser para todos", defende.
Rui não é cientista, mas aproveita todas as oportunidades para aprender com os cientistas. O mais importante é "ter curiosidade", diz. "Vamos procurar em livros, na internet, ouvindo os astrónomos profissionais." Pelo caminho descobriu a "Ciência Cidadã", que permite a pessoas comuns colaborarem em projetos científicos, e agora, no seu pequeno observatório no quintal, dedica-se a monitorizar o trânsito dos hexoplanetas para um projeto da Estação Espacial Europeia - quão extraordinário é isto?
Esta quarta-feira, Rui Miguel Fino vai estar num evento de observação do eclipse da recém-criada Associação Astronómica Horizonte Estelar na Enxara do Bispo, em Mafra. "Tenho pena de não ir para Espanha, mas quero viver este momento na minha região. Já vi outros eclipses parciais, mas nenhum tão espetacular como se espera que este seja. Estou entusiasmadíssimo. É mesmo um evento extraordinário. Se pensarmos que a Terra, a Lua e o Sol têm de estar perfeitamente alinhados, se pensarmos que a faixa de ocultação total é de 200 quilómetros e nós somos um país tão pequeno, é tão raro que isto aconteça aqui, é impossível não ficarmos entusiasmados."
Quando, esta tarde, olhar pelo telescópio e vir, mais uma vez, as manchas solares, Rui vai com certeza emocionar-se. "Quando olhamos para o céu ficamos com a noção que somos tão pequeninos, tão pequeninos, somos mesmo insignificantes. E isso obviamente muda a maneira como pensamos, muda a perspetiva que temos da vida e do mundo. Começamos a relativizar mais as coisas. Vistas pelo telescópio as manchas solares são apenas um pontinho, parecem cabeças de alfinete. E a verdade é que são do tamanho da nossa Terra. Como é que nós nos podemos sentir importantes?"
