Especialistas perspetivam uma situação "muito pior" do que aquela que percecionamos neste momento, já que várias "gerações de transmissão" podem ter passado despercebidas antes de o surto ser efetivamente confirmado
O chefe da saúde da ONU afirmou estar “profundamente preocupado com a dimensão e a velocidade” do mortal surto de Ébola na República Democrática do Congo (RDC) e no Uganda, enquanto os trabalhadores humanitários enfrentam dificuldades para chegar a centenas de milhares de refugiados de guerra em zonas cercadas da região.
Até agora, foram confirmados 30 casos na província nordeste de Ituri, na RDC, segundo o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus.
Até terça-feira, registaram-se 131 mortes ligadas ao surto, com mais de 500 casos suspeitos, segundo o ministro da Saúde da RDC, Samuel Roger Kamba.
O surto, impulsionado pelo vírus Bundibugyo - um dos vários vírus conhecidos como Orthoebolavírus que podem causar a doença Ébola - está a afetar principalmente a remota província de Ituri, afirmou Tedros.
Entretanto, no vizinho Uganda, também foram registados dois casos confirmados em laboratório na capital, Kampala, segundo a OMS.
O Ébola tem uma taxa média de mortalidade de 50%, de acordo com a organização. A doença propaga-se através do contacto direto com os fluidos corporais de uma pessoa infetada, segundo os Centros Africanos de Controlo e Prevenção de Doenças (Africa CDC). Também pode ser transmitida através do contacto com materiais contaminados ou com uma pessoa que tenha morrido da doença.
Atualmente, não existem tratamentos ou vacinas aprovados especificamente para o vírus Bundibugyo. Os profissionais de saúde estão a tentar desenvolver uma terapia com anticorpos monoclonais como potencial tratamento, disse na segunda-feira aos jornalistas o Dr. Satish Pillai, diretor-adjunto da Divisão de Preparação e Infeções Emergentes dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC), sem indicar um prazo.
A ronda inicial de deteções foi atrasada porque os testes locais em Bunia - onde morreu o primeiro paciente que se pensa ter contraído a mais recente estirpe de Ébola - apresentaram resultados negativos para a estirpe mais comum do vírus, a estirpe Zaire, segundo a representante da OMS na RDC, Anne Ancia.
Com base nas explicações do CDC dos EUA, a impressão genética do atual surto “é semelhante” à dos surtos anteriores de 2007 e 2012, o que significa que os profissionais de saúde já dispõem do equipamento de diagnóstico necessário para “detetar esta estirpe do vírus Ébola”.
Guerra e deslocações dificultam esforços de ajuda
Responsáveis regionais da ajuda humanitária e da saúde afirmam que anos de guerra, cortes severos na ajuda e desnutrição aguda em partes da RDC dificultaram os esforços de resposta ao surto, enquanto o mais recente foco viral se espalhava pelas comunidades da província de Ituri.
Um trabalhador humanitário alertou que as crianças são “as mais vulneráveis” na sequência do surto. Philippe Guiton, diretor nacional da organização sem fins lucrativos britânica World Vision na RDC, afirmou que estas já estão “fortemente afetadas pelo conflito e pela insuficiência da assistência humanitária devido à falta de recursos”.
O diretor da zona leste da World Vision, David Munkley, acrescentou que “Ituri já enfrenta uma situação alarmante de desnutrição aguda, o que enfraquece ainda mais os sistemas imunitários das pessoas, combinado com um acesso extremamente limitado aos cuidados de saúde nas áreas remotas”.
Mais tarde, na terça-feira, Tedros destacou também a província de Ituri como altamente insegura. “O conflito intensificou-se desde o final de 2025, e os combates agravaram-se significativamente nos últimos dois meses, resultando em mortes de civis”, disse o responsável da OMS a um comité de emergência.
Mais de 100 mil pessoas foram “recentemente deslocadas”, afirmou, acrescentando que “os elevados níveis de movimentação populacional” podem “aumentar o risco de maior propagação”.
Em Ituri, 11 mil refugiados do Sudão do Sul necessitam de “assistência preventiva”, informou esta terça-feira a agência da ONU para os refugiados. Noutras zonas, na província da RDC de Kivu do Norte, na cidade de Goma, controlada por rebeldes, mais de 2 mil refugiados ruandeses e burundeses necessitam de produtos sanitários, acrescentou a agência.
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, reconheceu que as áreas do Congo onde os casos foram registados “são um pouco difíceis de alcançar”. “É numa zona rural, por isso está relativamente confinada a um local de difícil acesso num país devastado pela guerra, infelizmente”, disse o diplomata a um grupo de jornalistas no Departamento de Estado, esta terça-feira, nas suas primeiras declarações desde o início do surto.
Outros manifestaram preocupação pelo facto de as autoridades terem demorado tanto tempo a identificar e rastrear os casos iniciais, após uma série de surtos de Ébola nos últimos anos. O maior surto ocorreu na África Ocidental entre 2014 e 2016, quando morreram 11.325 pessoas e mais de 28.600 foram infetadas, segundo a OMS.
“Tenho dito que a coisa mais preocupante para mim é o quanto aprendemos e quão rapidamente o aprendemos”, afirmou na segunda-feira à CNN Craig Spencer, médico que sobreviveu a uma infeção por Ébola em 2014. “Não há dúvida de que isto é provavelmente muito pior do que pensamos neste momento. Suspeito que o número real de casos seja muito superior ao que está a ser reportado.”
Em resposta à crescente epidemia, os EUA invocaram na segunda-feira uma lei de saúde pública para limitar a entrada de pessoas no país a partir da região afetada, precisamente quando um cidadão norte-americano testou positivo para esta estirpe na RDC. O cidadão americano está a ser transportado para a Alemanha para tratamento no Hospital Universitário Charité, em Berlim, informou o ministério da Saúde alemão esta terça-feira.
As autoridades do Uganda procuraram tranquilizar os seus visitantes, insistindo que não houve transmissão local no país, apesar dos dois casos, que, segundo o Conselho de Turismo do Uganda, envolveram cidadãos congoleses “que entraram no Uganda vindos da RDC”.
O Africa CDC criticou as restrições de viagem impostas pelos EUA, afirmando que “proibições amplas de viagens podem perturbar vidas e economias”.
Mais tarde, esta terça-feira, o Departamento de Estado norte-americano aconselhou os cidadãos americanos a evitarem todas as viagens para a República Democrática do Congo, Sudão do Sul e Uganda, e a reconsiderarem viagens para o Ruanda devido ao surto na região.
Quando começou a epidemia?
O primeiro caso suspeito conhecido foi o de um profissional de saúde, cujos sintomas começaram a 24 de abril, segundo a OMS. A pessoa acabou por morrer num centro médico em Bunia, capital da província de Ituri.
Depois, a 5 de maio, a OMS recebeu um alerta sobre uma “doença desconhecida” com elevada mortalidade na província, informou a agência. Após uma investigação realizada por uma “equipa de resposta rápida” a 13 de maio, o surto foi confirmado como sendo causado pelo vírus Bundibugyo no dia 15 de maio.
Jeremy Konyndyk, antigo responsável pela resposta à COVID e ajuda em desastres na Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID), afirmou que várias “gerações de transmissão” terão passado despercebidas antes de o surto ser confirmado, o que classificou como “um problema muito, muito grave”.
No domingo, a agência de saúde da ONU declarou a epidemia uma “emergência de saúde pública de preocupação internacional” e afirmou que a elevada taxa de positividade e o número crescente de casos e mortes apontam para “um surto potencialmente muito maior”.
Tedros afirmou que esta é a primeira vez que um diretor-geral declara uma emergência deste tipo antes de reunir o comité mais tarde na terça-feira.
Anne Ancia, representante da OMS na RDC, confirmou esta terça-feira que o surto também se espalhou para a província de Kivu do Norte, que faz fronteira direta com Ituri, mas acrescentou que ainda existe “incerteza significativa” quanto ao verdadeiro número de infeções.”
