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Carne selvagem, rituais e desinformação: juntaram-se os ingredientes perfeitos para um surto de ébola preocupante

CNN , Nimi Princewill
21 mai, 15:59
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República Democrática do Congo está com dificuldades em conter o avanço dos casos

Nas zonas rurais da República Democrática do Congo (RDC), uma estirpe letal do vírus ébola devastou as comunidades locais, causando mais de 100 mortes e desencadeando uma emergência de saúde global.

O vírus foi descoberto pela primeira vez na RDC em 1976 e continua a ser uma ameaça constante. O país da África Central registou 17 surtos, mais do que qualquer outro país - um surto grave entre 2018 e 2020 fez 2.299 mortos.

O ébola, um vírus frequentemente fatal que causa sintomas graves, incluindo febre alta e hemorragias internas e externas, tem origem em animais selvagens. É transmitido aos humanos através do contacto próximo com o sangue ou fluidos corporais de animais florestais infetados, como morcegos frugívoros, porcos-espinhos e primatas não humanos, como macacos, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Uma vez que o vírus entra numa comunidade, propaga-se rapidamente entre as pessoas através do contacto direto com fluidos corporais ou superfícies contaminadas.

O surto atual é causado pela estirpe Bundibugyo, uma forma rara do Ébola. Ao contrário da estirpe Zaire, mais comum, a variante Bundibugyo não tem atualmente vacinas ou tratamentos aprovados.

Os cientistas acreditam que os humanos contraíram o ébola pela primeira vez ao caçar, manusear ou consumir animais selvagens infetados, conhecidos coletivamente como carne de caça. Este tipo de alimentos - particularmente morcegos, macacos, ratos-do-mato e antílopes - continua a ser popular na RDC, apenas uma das razões pelas quais o ébola continua a ser um perigo atualmente.

O veneno na presa

Os surtos recorrentes na RDC estão ligados à sua geografia. Vastos e densos bosques cobrem mais de 60% do território do país (mais de 150 milhões de hectares), servindo de criadouro natural para o ébola.

Para muitos residentes rurais da Bacia do Congo - a segunda maior floresta tropical do mundo - onde a carne de caça fornece até 80% da ingestão local de proteínas, caçar animais selvagens é uma questão de sobrevivência, não de preferência.

No entanto, esta fonte vital de alimento serve como principal porta de entrada para a transmissão de vírus mortais de animais para humanos, de acordo com Eteni Longondo, antigo ministro da Saúde Pública da República Democrática do Congo.

Profissionais de saúde conversam num centro de tratamento de Ébola em Rwampara, República Democrática do Congo, no dia 19 de Maio (Dirole Lotsima Dieudonne/AP via CNN Newsource)
Profissionais de saúde conversam num centro de tratamento de Ébola em Rwampara, República Democrática do Congo, no dia 19 de Maio (Dirole Lotsima Dieudonne/AP via CNN Newsource)

Longondo diz à CNN que regular a caça nas densas florestas do país e impedir as comunidades de consumir animais selvagens, principalmente carcaças na selva, continua a ser um desafio significativo para as autoridades de saúde.

"Tudo começa na floresta, e não temos qualquer controlo sobre isso", acrescenta, referindo que os hábitos tradicionais de caça não podem ser alterados de um dia para o outro.

"Não se pode simplesmente dizer às pessoas para abandonarem a sua cultura e elas pararem imediatamente. Continuam a comer carne de animais selvagens porque não têm outra alternativa."

A República Democrática do Congo (RDC) é rica em minerais, mas mais de 80% dos seus 100 milhões de habitantes vivem em extrema pobreza. A situação é particularmente grave no leste, onde uma rebelião armada ativa permitiu a uma poderosa coligação rebelde controlar dezasseis vastos territórios, deslocando milhões de pessoas e mergulhando a região numa grave crise alimentar.

Esta quinta-feira, os rebeldes confirmaram um caso de ébola em Bukavu, cidade sob o seu controlo na província de Kivu do Sul. Informaram que o paciente, um homem de 28 anos, tinha falecido e sido sepultado em segurança. Além disso, os rebeldes anunciaram que foi identificado um caso separado de ébola em Goma, a maior cidade do leste da RDC, também ocupada pelo grupo.

Rumores e rituais

O atual surto de ébola afeta principalmente a província de Ituri, no leste do país, localizada na extremidade nordeste da Bacia do Congo. Segundo a OMS, a maioria dos casos concentra-se na capital provincial, Bunia, e nas cidades mineiras de Mongwalu e Rwampara.

O primeiro caso suspeito envolveu um profissional de saúde cujos sintomas começaram a 24 de abril e que faleceu posteriormente numa unidade médica em Bunia, informou a OMS. A 5 de maio, a organização foi notificada de uma “doença não identificada” associada a elevadas taxas de mortalidade na província. Após uma investigação levada a cabo por uma “equipa de resposta rápida” a 13 de maio, o surto foi identificado como o vírus Bundibugyo a 15 de maio.

Um agente de saúde fronteiriço na passagem de Busunga, entre o Uganda e a República Democrática do Congo, verifica a temperatura de um viajante através de um termómetro de infravermelhos em Bundibugyo, no dia 18 de maio (Badru Katumba/AFP/Getty Images via CNN Newsource)
Um agente de saúde fronteiriço na passagem de Busunga, entre o Uganda e a República Democrática do Congo, verifica a temperatura de um viajante através de um termómetro de infravermelhos em Bundibugyo, no dia 18 de maio (Badru Katumba/AFP/Getty Images via CNN Newsource)

O vírus chegou também ao vizinho Uganda, onde as autoridades de saúde confirmaram dois casos laboratoriais, incluindo uma morte, na capital Kampala. Ambos os casos envolveram indivíduos que viajaram separadamente da República Democrática do Congo, sem qualquer ligação entre eles, afirmou a OMS.

“As pessoas estão em pânico”, admite Valet Chebujongo, um mobilizador comunitário de Bunia. No entanto, garante à CNN que o terror provém menos do vírus em si, mas de uma onda de desinformação e superstição, que alimentam a propagação do vírus e prejudicam os esforços locais de contenção.

“Em Mongwalu, as pessoas estão a dizer que circula um caixão [fantasma] que causa morte instantânea só de olhar para ele”, diz, explicando que rumores como este estão a fazer com que alguns rejeitem ajuda médica em favor de orações, magia e práticas tradicionais.

Para agravar a crise, Chebujongo observa que um costume funerário local, que envolve os enlutados a tocar no falecido, pode ter contribuído para o aumento das infecções.

Baraka Nakashenyi, residente em Mongwalu, uma das zonas mais afetadas, confirma que esta prática continua a ser comum, apesar dos riscos.

“Tocar [no cadáver] pela última vez” é considerado “a despedida final” para os familiares enlutados, explica Nakashenyi.

Muitos outros têm agora “medo de consumir carne de caça fumada, independentemente da sua origem”, diz Junior Kambale Bawili, outro residente de Bunia. Bawili contou à CNN que é comum encontrar restaurantes especializados que servem carne de caça.

Cronologia sombria

A rápida propagação do vírus causou alarme internacional.

Jeremy Konyndyk, que anteriormente liderou os esforços de resposta à covid-19 e a desastres na Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), sugeriu que “múltiplas gerações de transmissão” devem “já ter passado despercebidas” antes de o surto ser oficialmente confirmado, descrevendo-o como “um grande, grande problema”.

A OMS alertou que a rápida propagação da estirpe Bundibugyo do ébola “motiva séria preocupação”, dado que o número de mortes subiu para pelo menos 139 esta quarta-feira, com quase 600 casos suspeitos. No entanto, a organização desvalorizou os receios de disseminação global, afirmando que o risco de transmissão é maior a nível nacional e regional.

Em resposta à ameaça de transmissão, os Estados Unidos impuseram restrições de viagem de emergência a viajantes não americanos provenientes de países afectados e do Sudão do Sul. Além disso, um americano infectado que testou positivo para o vírus na República Democrática do Congo foi levado para a Alemanha para receber tratamento médico.

Com base em décadas de aperfeiçoamento das suas estratégias de contenção, o Ministério da Saúde da República Democrática do Congo afirmou que o país tem "experiência comprovada" na gestão do ébola.

"Declarado dezasseis vezes, vencido dezasseis vezes. A décima sétima não será diferente", publicou o ministério no Facebook, demonstrando a sua resiliência.

No entanto, o antigo ministro da Saúde, Longondo, apresentou um calendário sombrio para a contenção da doença, citando a sua própria experiência na gestão de um surto anterior que durou semanas.

"O surto durará alguns meses", completa à CNN.

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