O design da caixa é imponente e tem dimensões aproximadas às de um autocarro urbano
Um aeroporto desativado na acidentada costa oeste da Tasmânia será, em breve, o local onde ficará instalada uma estrutura angular de aço com um propósito inquietante: registar “cada passo” que a humanidade dá em direção à “catástrofe”.
O impressionante monólito, conhecido como “Earth’s Black Box” (Caixa Negra da Terra), será instalado sobre a paisagem granítica do oeste da Tasmânia — uma ilha situada a cerca de 240 quilómetros da costa continental australiana — e deverá entrar em funcionamento até ao final do ano, se tudo correr conforme previsto.
O design da caixa é imponente. Com dimensões aproximadas às de um autocarro urbano e construída em aço com cerca de 7,6 centímetros de espessura, ficará rodeada por painéis de betão e coberta por um teto de vidro resistente, sob o qual serão instalados painéis solares.
Tudo foi concebido para proteger e alimentar o que acontece no interior. A caixa irá registar centenas de indicadores climáticos e informações contextuais, desde temperaturas e subida do nível do mar até discursos políticos e relatórios sobre o clima. Trata-se, “essencialmente, de um dispositivo de registo de dados indestrutível e autossuficiente”, afirmou Rob Beamish, fundador e diretor criativo da agência de comunicação ambiental Rouser Lab, uma das organizações responsáveis pelo projeto.
Num futuro imediato, a caixa estará “a comunicar com o mundo, divulgando os conjuntos de dados e as descobertas atuais”, explicou Beamish. As pessoas poderão consultar a informação online e os visitantes do local poderão ligar-se à caixa através dos seus telemóveis. A longo prazo, porém, a ideia é criar um registo destinado a futuras civilizações, caso as alterações climáticas levem ao desaparecimento da humanidade. Segundo o site do projeto, irá “fornecer um relato imparcial dos acontecimentos que conduziram ao fim do planeta”.
A caixa é, em simultâneo, uma instalação artística, um repositório de dados, uma cápsula do tempo de estilo tradicional e um gerador de medo. Para os responsáveis pelo projeto — entre eles a agência de publicidade Clemenger e o coletivo artístico Glue Society —, pretende ser um apelo à ação, despertando a atenção das pessoas para o agravamento da crise climática.
Alguns especialistas em clima, contudo, questionam a capacidade do projeto para ter um impacto duradouro e incentivar ações concretas. Existe também a difícil questão de saber como os descendentes da humanidade conseguirão aceder aos dados armazenados na caixa. “Como será a tecnologia do futuro numa sociedade devastada pelo clima? Não sabemos realmente”, afirmou Beamish.
A “Earth’s Black Box” recebeu o nome da caixa negra dos aviões, um dispositivo quase indestrutível que armazena dados de voo, incluindo as decisões dos pilotos, e ajuda os investigadores a reconstruir acidentes. Para este projeto, o planeta é o avião e a humanidade é o piloto.
A caixa pretende provocar medo — que Beamish considera “um enorme motor para a ação climática” —, mas também esperança. “O avião ainda está no ar… ainda há esperança de evitar verdadeiramente o pior das alterações climáticas”, afirmou.
A conclusão da caixa marcará o fim de um longo processo. O projeto foi anunciado pela primeira vez em 2021, durante a COP26, a conferência das Nações Unidas sobre o clima realizada em Glasgow, gerando de imediato grande repercussão mediática e sendo até mencionado no monólogo de abertura de Stephen Colbert no programa The Late Show. “Estamos condenados”, disse Colbert, aproximando o rosto da câmara.
Na altura, os responsáveis afirmaram que a caixa estaria concluída em 2022. Quatro anos depois, a construção ainda não começou, embora os seus componentes estejam atualmente a ser montados.
“É, de facto, um projeto muito audaz”, reconheceu Beamish, referindo a necessidade de desenvolver o design adequado, os planos de engenharia, obter as autorizações de construção e, sobretudo, garantir financiamento, proveniente maioritariamente de doadores. Os prazos são sempre “escorregadios”, disse, mas a expectativa é que tudo esteja operacional até dezembro.
Na Tasmânia, as autoridades locais parecem acolher favoravelmente a iniciativa. Shane Pitt, presidente da câmara da região da Costa Oeste, afirmou que a ilha foi escolhida por ser “uma das regiões mais estáveis do mundo, tanto do ponto de vista geológico como político”. Considera ainda que a caixa poderá atrair mais turistas para esta zona remota da ilha, onde vivem cerca de 4.600 pessoas.
Katharine Hayhoe, cientista atmosférica da Universidade Texas Tech e cientista-chefe da Nature Conservancy, afirmou que a caixa poderá “servir como um elemento de validação dos registos que a própria Terra já preserva”.
O planeta mantém a sua própria história climática, conservada em elementos naturais como os anéis das árvores, os núcleos de gelo e os corais, que permitem aos cientistas reconstruir o clima ao longo de milhares de anos. A Caixa Negra poderá ajudar a preservar registos com escalas temporais mais precisas, explicou Hayhoe.
No entanto, a investigadora questionou a ideia de que o medo seja suficiente para motivar a ação. Segundo disse, o medo é um fator importante para aumentar a consciencialização e incentivar a partilha de informação sobre o clima, mas não leva necessariamente à ação. “Porquê? Porque, se não souber o que fazer, não fará nada.”
Anthony Leiserowitz, professor de comunicação climática na Escola do Ambiente da Universidade de Yale, afirmou que o medo costuma desencadear uma resposta de luta ou fuga, muito eficaz quando alguém enfrenta uma ameaça imediata, como um tigre-dentes-de-sabre prestes a atacar.
Mas, acrescentou, não é uma emoção sustentável, “e as alterações climáticas não são como um tigre-dentes-de-sabre; são um problema crónico que se agrava progressivamente ao longo de décadas”.
Mesmo que o projeto consiga aumentar a consciencialização, acrescentou Leiserowitz, seriam necessárias histórias repetidas ao longo de vários anos para que permanecesse presente na memória das pessoas.
Beamish espera que a caixa continue a provocar reflexão e a mostrar que ainda existe tempo para influenciar o rumo das alterações climáticas. “Ela existe para trazer a realidade climática e o risco existencial das alterações climáticas para a consciência pública”, afirmou. “É para isso que ela existe.”
