Um surto de infeções associadas ao consumo dos hambúrgueres Quarter Pounders do McDonald's (os McRoyal Cheese em Portugal) fez soar os alertas nos Estados Unidos e deixou muitas pessoas preocupadas com a exposição à perigosa bactéria E. coli.
Ainda não se sabe qual o ingrediente alimentar específico nestes hambúrgueres que foi contaminado, mas dezenas de pessoas ficaram doentes após contraírem a infeção por E. coli em pelo menos 10 estados norte-americanos, de acordo com o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC), que adianta ainda que foi registada uma morte associada à infeção por esta bactéria.
O tipo de bactéria implicada neste surto que aconteceu nos Estados Unidos é a E. coli O157:H7, um sorotipo da espécie bacteriana Escherichia coli e um dos tipos de E. coli produtores de toxinas semelhantes à toxina Shiga.
“Com este tipo específico de E. coli que tem aparecido nas notícias – chamado O157:H7 –, os grupos mais vulneráveis tendem a ser adultos idosos e crianças muito pequenas”, começa por explicar James Gaensbauer, médico infeciologista pediátrico do Centro Infantil da Clínica Mayo em Rochester, Minnesota.
Embora a E. coli seja muito comum e possa causar uma série de problemas de saúde, incluindo infeções do trato urinário e gastroenterites, “esta cepa em particular causa principalmente sintomas gastrointestinais, incluindo cólicas abdominais, vómitos e, mais importante, um diarreia dolorosa que, às vezes, pode tornar-se sanguinolenta”, adianta, numa resposta enviada por e-mail, Marcus Pereira, médico e professor assistente de Medicina na Faculdade de Medicina da Universidade de Columbia.
“Algumas pessoas também podem desenvolver febre e eventualmente ficar desidratadas por não comer ou beber muito enquanto têm diarreia”, continua Pereira, acrescentando: “A boa notícia é que, embora às vezes possa ser grave, a maioria das pessoas com E. coli O157:H7 recupera sozinha”.
Quem comeu o hambúrguer Quarter Pounder e desenvolveu sintomas de infecção por E. coli foi aconselhado pelas autoridades norte-americanas a procurar um aconselhamento médico. Este surto não foi identificado em mais nenhum país.
Quais são os sintomas de infeção por E. coli e como é tratada?
As notícias do surto que aconteceu nos Estados Unidos correram o mundo e fizeram aumentar os alertas sobre esta bactéria, mais comum do que o imaginado.
A E. coli, ou Escherichia coli, é um tipo comum de bactéria que vive nos intestinos de pessoas e animais, mas algemas cepas (ou variantes) de E. coli podem causar doença. As pessoas podem ser infectadas após ingerir E. coli presente em alimentos ou água contaminados ou através do contacto com animais, ambientes ou outras pessoas onde esta bactéria está presente.
“Além disso, [a infeção por E. coli] ocorre em grupos que podem estar perante uma exposição específica ou face a um risco específico, e isso pode acontecer, talvez, a cada poucos anos”, adianta Gaensbauer. “É relativamente comum e algo que provavelmente trato ainda algumas vezes por ano”.
As pessoas infectadas com a E. coli mais agressiva podem começar a notar sintomas até nove dias após a exposição à bactéria, de acordo com a Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos. É possível determinar a presença de E. coli em análises laboratoriais a fezes.
Os sintomas da infecção incluem diarreia, especialmente com duração de mais de três dias, e febre acima dos 39 graus Celsius. Algumas pessoas também podem ter cólicas estomacais severas e vómitos. No entanto, a maioria das pessoas saudáveis pode nem sequer desenvolver sintomas, garante o médico Gaensbauer.
Mas, “na maioria das vezes, o sintoma ao qual as pessoas devem ficar atentas é a diarreia”, esclarece, adiantando que “os tipos graves de diarreia que têm origem na E. coli podem frequentemente começar com fezes soltas, um tipo de diarreia aquosa, mas ocasionalmente poderá progredir para a diarreia sanguinolenta”.
A maioria das pessoas recupera sem tratamento após cerca de uma semana, mas algumas podem desenvolver sérios problemas de saúde e precisar de hospitalização.
“Há um tipo particular de E. coli conhecido como E. coli produtora de toxina Shiga, ou STEC, que tem sido implicado em surtos mais sérios de doenças transmitidas por alimentos [contaminados]. Os indivíduos expostos podem ter diarreia sanguinolenta e até mesmo insuficiência renal”, alerta Leana Wen, médica de emergência e professora de Política e Gestão de Saúde na Escola de Saúde Pública do Instituto Milken da Universidade George Washington.
“O tratamento consiste em cuidados de suporte para os sintomas e fluidos para hidratação”, acrescenta Wen.
O Centro de Controlo e Prevenção de Doenças norte-americano estima que haja cerca de 265.000 infeções por E. coli produtora de toxina Shiga nos Estados Unidos todos os anos.
A infeção com STEC pode levar ainda a uma condição de saúde séria chamada síndrome hemolítica urémica, na qual pode ocorrer insuficiência renal ou até mesmo a morte. E o O157:H7 é um desses tipos de bactérias que pode estar na origem destes cenários.
“Para as fases iniciais da infecção por E. coli, com diarreia, a hidratação é o tratamento mais importante, por isso, as pessoas infetadas devem beber bastantes líquidos se os conseguirem tolerar. As crianças correm mais risco de desidratação”, escreve Pereira no e-mail, acrescentando que há produtos com eletrólitos que “são frequentemente recomendados nesta situação”.
“Às vezes, os pacientes precisam de hidratação intravenosa numa unidade médica quando estão mais gravemente desidratados. Para a E. coli O157:H7, o uso de antibióticos é controverso e, por norma, não são recomendados, pois, com base em algumas evidências, podem realmente aumentar o risco de síndrome hemolítica urémica”, continua Marcus Pereira, médico e professor assistente de Medicina na Faculdade de Medicina da Universidade de Columbia. O próprio Controlo e Prevenção de Doenças norte-americano alerta contra o uso de antibióticos em infecções por STEC por este mesmo motivo.
“A outra coisa com a qual realmente devemos passar a ter cuidado é que, às vezes, há medicamentos que as pessoas tomam para desacelerar os seus intestinos quando têm diarreia e esses medicamentos não são recomendados”, alerta Gaensbauer. “A ideia é que talvez não se queira manter as bactérias e a toxina dentro – por isso, talvez seja melhor ter diarreia. Ou seja, as pessoas devem realmente consultar o seu médico antes de tomar qualquer medicamento antidiarreico se estiverem preocupadas com a possibilidade de ter contraído uma infecção por E. coli.”.
Como prevenir a infeção por E. coli
As melhores formas de prevenir infeções por E. coli implicam manter as mãos limpas, lavando-as com frequência, preparar os alimentos com segurança e beber água potável, de acordo com o CDC .
“Carne mal cozida é um problema comum e sério. Os organismos infecciosos podem não morrer a temperaturas mais baixas”, esclarece Wen. Dito isto, cozinhar completamente a carne a uma temperatura interna de 70 graus Celsius ou mais mata a E. coli O157:H7, de acordo com o Departamento de Agricultura dos EUA. Outra forma de prevenir doenças é lavar bem vegetais e frutas antes de usá-los.
“Mesmo que vá descascá-los, deve lavá-los primeiro com água corrente. Não é necessário ou aconselhável usar sabão, detergente de louça, desinfetantes ou outras soluções”, continua Wen, que deixa ainda outros conselhos. “Esteja consciente de quais os recipientes e utensílios que estão em contacto com a carne crua. Não coloque itens de salada ou carne cozida nesses recipientes” e “além disso, não lave outras carnes cruas ou peixes e mariscos crus na pia”, pois “isso pode espalhar bactérias e pode inadvertidamente contaminar outros alimentos”, adverte a médica.
O CDC diz ainda que escolher leite e sumos pasteurizados pode reduzir o risco de exposição à E. coli, uma vez que o processo de pasteurização mata germes nocivos, incluindo E. coli.
