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O Dubai parece estar de volta à normalidade. Mas, por baixo da superfície, a história é outra

CNN , Melanie Swan
7 jun, 19:00
dubai pós-ataques
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À superfície, o Dubai parece ter recuperado o ritmo: há trânsito, restaurantes cheios e voos a operar. Mas os avisos de viagem, a quebra na procura e os descontos pouco habituais nos hotéis mostram que a confiança dos turistas ainda está longe de voltar ao normal.

O trânsito está a aumentar novamente no Dubai, as mesas dos restaurantes começam a encher e os voos foram, em grande parte, retomados. À superfície, a vida na potência turística do Golfo parece estar perto da normalidade.

Mas, por trás dessa aparente normalidade, a cidade enfrenta uma realidade mais difícil - embora a infraestrutura esteja de pé e a funcionar, a confiança não acompanhou. E agora hotéis, companhias aéreas e empresas de hotelaria e restauração estão a trabalhar mais do que nunca para convencer os visitantes a regressar.

Durante décadas, o Dubai construiu a sua marca turística global assente numa promessa que poucos destinos no Médio Oriente conseguiam igualar: estabilidade. Mesmo quando conflitos eclodiam na região, o Dubai mantinha-se como um refúgio luxuoso e seguro e um ponto de trânsito global eficiente para visitantes internacionais.

Mas, meses depois de o conflito envolvendo o Irão ter perturbado o espaço aéreo em todo o Golfo e levado ataques com drones a alguns dos marcos mais reconhecíveis do Dubai, a cidade enfrenta um dos testes mais significativos da sua história moderna, enquanto procura restaurar a confiança dos turistas e reanimar um setor turístico que há muito é uma pedra angular da sua economia.

Para muitos residentes, a vida quotidiana voltou. Os ataques com drones aos Emirados Árabes Unidos continuam a ocorrer esporadicamente, mas os alertas generalizados dos primeiros tempos do conflito terminaram - tal como a ansiedade que lhes estava associada. Os bons tempos estão a regressar, dizem.

O regresso dos festeiros

Pessoas patinam no gelo no primeiro dia do feriado do Eid al-Adha no Dubai Mall. (Fatima Shbair/AP)

No Zuma, um dos espaços de referência da habitualmente movimentada vida social do Centro Financeiro Internacional do Dubai, parte do público mais festivo já regressou, a dançar ao som de DJs e a beber cocktails caros. Mas a existência de uma promoção noturna de comida e bebida ilimitadas sugere que ainda há margem para melhorar.

As pessoas estão a sair menos, uma vez que muitos viram os salários reduzidos, e o custo de vida continua a subir com o encerramento do Estreito de Ormuz. Os preços dos alimentos e da gasolina registaram aumentos significativos.

Vários governos ocidentais mantêm avisos de viagem em vigor. A Austrália aconselhou os seus cidadãos a não fazer escalas em países como os Emirados Árabes Unidos, enquanto o Canadá continua a desaconselhar todas as viagens para os EAU, e os Estados Unidos recomendam aos viajantes que reconsiderem deslocações ao país. Embora os voos tenham sido, em grande parte, retomados, especialistas do setor dizem que reconstruir a confiança poderá revelar-se muito mais difícil do que reabrir rotas aéreas.

Há turistas, mas já não são os mesmos.

Visitantes de países como a Rússia e o Líbano parecem não se deixar abalar pela situação, sendo os EAU um refúgio relativo em comparação com os seus países de origem. Nos últimos dias, famílias de toda a região afluíram aos centros comerciais do Dubai durante a pausa do Eid al-Adha, enquanto salões de beleza terão registado um fluxo constante de mulheres russas em busca de uma escapadinha glamorosa.

Fatma Ammar vive em Beirute e veio à cidade visitar os dois filhos durante o feriado islâmico do Eid al-Adha. “O Dubai continua a parecer-me um lugar muito mais seguro do que Beirute”, disse. “A forma como os EAU lidaram com a guerra é muito tranquilizadora e sinto-me extremamente segura aqui, em comparação com casa, mas, infelizmente, estou habituada à guerra, por isso algo assim não me impediria de ver os meus filhos.”

Ainda assim, o conflito regional deixou a sua marca. Enquanto o Fairmont The Palm já reparou pequenos danos causados por ataques com drones e está agora a tentar atrair visitantes com ofertas especiais, outros pontos de referência, como o Burj Al Arab, fecharam para “renovações”.

No Aeroporto Internacional do Dubai, mais de 40 companhias aéreas continuam a operar, com os passageiros em trânsito a manterem o movimento naquele que foi o hub aéreo mais movimentado do mundo, embora em menor número. O aeroporto também foi alvo nas fases iniciais do conflito iraniano, mas já não há danos visíveis para os passageiros.

O Aeroporto Internacional Zayed, em Abu Dhabi, também está movimentado, com passageiros a encher as lojas duty-free. Mas, mais uma vez, algumas grandes companhias aéreas estão visivelmente ausentes.

‘Menos movimento’

Muitos restaurantes e resorts têm vindo a lançar ofertas para atrair de volta os clientes. (Altaf Qadri/AP)

Naim Maadad, fundador e CEO da Gates Hospitality, que inclui marcas de resorts e restaurantes como o Six Senses Zighy Bay, em Omã, e o Ultra Brasserie, no Dubai, disse que os avisos de viagem levaram os turistas a pensar duas vezes sobre a situação.

“Acho que isto criou hesitação, mais do que prejudicou fundamentalmente a confiança nos próprios EAU”, disse. “O público internacional olha muitas vezes para o Médio Oriente como uma grande região única, em vez de distinguir entre países, e essa perceção influencia naturalmente as decisões de viagem. Os EAU, porém, continuam a demonstrar estabilidade, força das infraestruturas e continuidade operacional.

“Aeroportos, hotéis, restaurantes e atrações continuam plenamente funcionais. O maior desafio é psicológico. Avisos de viagem, limitações dos seguros e manchetes internacionais influenciam inevitavelmente o comportamento dos consumidores, mesmo que a realidade no terreno seja muito diferente. Por isso, a indústria tem de trabalhar mais para transmitir segurança, transparência e confiança, sem parecer indiferente às sensibilidades regionais mais amplas.”

Maadad disse que o impacto afetou tanto o negócio doméstico como o internacional, resultando numa “menor afluência”.

“Ao mesmo tempo, os residentes tornaram-se mais cautelosos nos gastos não essenciais, por isso a pressão faz-se sentir dos dois lados.”

Aleksandr Supinski, proprietário da TicToc Travel, uma empresa de turismo fotográfico sediada no Dubai, disse que “há uma grande diferença entre a forma como a situação é por vezes apresentada nos media ocidentais e o que está realmente a acontecer no terreno no Dubai”.

Disse que as notícias sobre um colapso da indústria turística do Dubai estavam erradas e que a cidade estava a funcionar como habitualmente, com atividades como parques temáticos e visitas guiadas abertas. Admite que há um “abrandamento” devido à guerra e ao encerramento do espaço aéreo. Isto será agravado pela próxima época de verão - normalmente mais calma por causa do calor.

Disse que deu férias mais longas a alguns funcionários devido à redução da procura, mas mostrou-se otimista quanto a uma recuperação total da situação turística até outubro.

Victor Abou-Ghanem, CEO da STORY Hospitality, também disse que os avisos de viagem estavam a afetar o regresso dos turistas. “Para uma família a planear férias, um aviso do Governo, uma restrição do seguro ou o receio de perturbações nos voos podem ser suficientes para adiar uma viagem, mesmo que o destino em si esteja a funcionar normalmente”, disse.

O dinheiro também é um fator, acrescentou, com os preços do petróleo a afetarem os bilhetes de avião.

“Em períodos de incerteza, muitos turistas tornam-se mais sensíveis ao preço. Alguns vão privilegiar destinos mais baratos, voos mais curtos ou lugares mais perto de casa.”

‘Encerramento efetivo’

Os visitantes internacionais estão a regressar ao Dubai, mas alguns países continuam a desaconselhar a visita à região. (Fadel Senna/AFP/Getty Images)

A perturbação foi além dos hotéis e das atrações. A Arabian Travel Market, a maior feira de comércio de viagens e turismo do Médio Oriente, foi adiada para setembro, para dar aos organizadores mais tempo, enquanto companhias aéreas, empresas de viagens e redes regionais de espaço aéreo trabalhavam para repor as operações normais.

Economistas alertam que o impacto poderá prolongar-se muito depois de qualquer cessar-fogo sustentado. A ocupação hoteleira no Dubai deverá cair para apenas 10% no segundo trimestre, face aos 80% antes do conflito, segundo a empresa de serviços financeiros Moody’s. “Isto representa um encerramento efetivo de grandes partes do setor hoteleiro”, afirmou.

A liderança do Dubai respondeu com um ambicioso pacote de medidas de apoio destinado a acelerar a recuperação.

Estas incluem a suspensão da taxa hoteleira noturna cobrada em propriedades de gama mais alta, a eliminação da taxa municipal de 7% aplicada às contas de hotéis e restaurantes, o adiamento de taxas de vendas relacionadas com a hotelaria e a isenção de taxas de adiamento e cancelamento de licenças para eventos.

As autoridades também permitiram que hotéis, aparthotéis e alojamentos de férias adiassem por três meses o pagamento de taxas de vendas sobre alojamento e operações de comida e bebida, numa tentativa de aliviar a pressão sobre os operadores enquanto o número de visitantes recupera.

Por toda a cidade, as empresas responderam com promoções e incentivos raramente vistos durante o boom turístico pós-pandemia do Dubai.

Um designer de moda árabe que vive no Dubai há quase 20 anos, e que pediu para não ser identificado, disse que a escala dos descontos atualmente oferecidos em todo o emirado é diferente de tudo o que viu fora da pandemia de Covid-19, sobretudo na zona turística de J1 Beach. “Muitos destes lugares que costumavam estar cheios estão a fazer estes superdescontos”, disse.

“Muitos destes sítios onde antes era impossível entrar estão agora a esforçar-se para atrair clientes. A cidade continua a funcionar, as pessoas continuam a sair, mas as empresas têm de trabalhar mais por cada cliente.”

Algumas grandes empresas de hotelaria têm vindo a redistribuir funcionários para fora da região para atenuar o impacto da redução de clientes, mesmo afirmando uma recuperação do negócio desde a quebra inicial no início do conflito.

Yannis Stanisière, diretor de operações do destino gastronómico internacional COYA, que tem espaços tanto em Abu Dhabi como no Dubai, disse que a empresa enviou funcionários para unidades em Barcelona e Ibiza para “manter o talento dentro da rede”. A LEVA Hotels, que gere uma propriedade com 178 quartos e suites no Dubai, também disse que manteve toda a sua força de trabalho.

Descontos em hotéis de luxo

O Mandarin Oriental Jumeira está entre os hotéis que continuam abertos ao público. Outros encerraram para obras de remodelação. (Mandarin Oriental Jumeira)

Ainda assim, os hotéis tiveram de competir de forma agressiva pelos hóspedes, o que significa que há promoções a aproveitar. O Ritz-Carlton Dubai, em Jumeirah Beach Residence, está a promover pacotes de chá da tarde dois por um, enquanto o Mandarin Oriental Jumeirah oferece descontos de até 20% aos hóspedes que fiquem duas noites ou mais. A LEVA disse estar a aplicar preços mais dinâmicos para responder ao mercado.

Outras propriedades viraram-se para o mercado do trabalho nómada. A Rove Hotels, que opera uma série de unidades no emirado, lançou recentemente um pacote de “workation”, juntamente com quartos a preços acessíveis. O Marina Byblos Hotel anunciou estadias de um mês a partir de 3.800 dirhams dos EAU, o equivalente a 1.035 dólares, uma tarifa que teria sido difícil de imaginar durante o boom turístico da cidade.

Os resorts de luxo introduziram alguns dos incentivos mais generosos. Durante o período do feriado do Eid, o Fairmont The Palm ofereceu aos hóspedes crédito no resort equivalente a 100% do custo do quarto, permitindo, na prática, que os visitantes recuperassem o valor do alojamento através de gastos em restaurantes, tratamentos de spa e instalações de lazer. O resort também promoveu tarifas especiais para estadias longas e residentes a partir de 595 dirhams dos EAU por noite, o equivalente a 162 dólares, incluindo créditos utilizáveis em restaurantes, bem-estar e instalações recreativas.

Apesar das promoções, há sinais de que partes do setor hoteleiro começam a estabilizar. Alguns residentes dizem que têm beneficiado recentemente de descontos ou que está mais fácil conseguir mesas normalmente difíceis de reservar em espaços exclusivos como o Zuma, mas estas oportunidades começam a ser mais difíceis de encontrar.

Ainda assim, muitas empresas continuam a debater-se com uma procura mais fraca e alguns espaços, como os prestigiados locais Atlantis, fecharam estrategicamente para renovações, preparando-se para tempos melhores.

Analistas do turismo dizem que o desafio que o Dubai enfrenta vai além das taxas de ocupação ou das reservas em restaurantes. O emirado conseguiu atravessar crises anteriores, da crise financeira global à pandemia de Covid-19, em grande parte graças à força financeira, ao investimento em infraestruturas e a respostas políticas rápidas. O rescaldo da guerra com o Irão apresenta um teste diferente, porque atinge diretamente a perceção de segurança que sustenta o apelo da cidade junto de milhões de visitantes internacionais.

A cidade continua fortemente dependente do turismo internacional e do tráfego de passageiros em trânsito, com o setor da aviação a funcionar como porta de entrada entre a Europa, a Ásia e África.

E, embora as previsões a longo prazo continuem robustas, a prioridade parece ser reconstruir a confiança de um mercado que via os EAU como um refúgio intocável numa região assolada por conflitos.

“Os EAU continuam a manter uma reputação muito forte a nível global como um dos destinos mais estáveis e mais bem conectados da região”, disse JS Anand, fundador da LEVA Hotels.

“O que estamos a notar não é necessariamente uma perda de confiança nos próprios EAU, mas antes uma mudança no comportamento dos viajantes, em que as pessoas estão a reservar mais perto das datas de viagem e a adotar uma abordagem mais cautelosa até que as condições globais se tornem mais previsíveis.”

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