Bem-vindos ao Dubai, "o parque de diversões para adultos" onde o dinheiro não é tão fácil como parece

12 abr, 22:00

É uma espécie de novo 'El Dorado' para os portugueses. Há cada vez mais a mudarem-se para o Dubai. Vêm atrás dos desafios, mas sobretudo dos salários altos, em média acima dos 4.000 euros. São promessas que trazem um revés: a competitividade é extrema. Três portugueses, em diferentes fases das suas vidas, contam-nos como é viver neste emirado em permanente transformação

“O Dubai é um parque de diversões para adultos, mas também implica muito trabalho. Podemos escolher o nosso estilo de vida. Se queremos um estilo de vida ótimo e luxuoso, podemos ter. Se quisermos uma vida mais calma, também conseguimos ter.”

A descrição é de Mafalda Magalhães, de 28 anos, natural do Porto, que nos recebe no terraço de um dos hotéis mais luxuosos do Dubai, o One&Only One Za'abeel, bem no centro do Dubai. Aqui uma noite custa bem mais do que 500 euros. Mafalda é responsável pela área de marketing dos restaurantes deste grupo hoteleiro.

Mafalda Magalhães, de 28 anos (DR)
Mafalda Magalhães, de 28 anos (DR)

Está no Dubai há três anos. Veio para um estágio num mercado tido como referência nesta área. Voltou depois da pandemia. Conta-nos quanto ganha, mas pede para que não divulguemos. Mas uma coisa é certa: em Portugal, com esta idade e com esta função, jamais conseguiria levar o mesmo para casa.

“Há o salário, mas não é apenas isso que conta. Sentimos que andamos mesmo para a frente e aprendemos. Este é um mercado extremamente rápido, as coisas mudam de um dia para o outro. Isso dá-nos uma experiência que em Portugal não temos”, assegura. No horizonte, nas costas de Mafalda, a piscina, com vista para vários arranha-céus. “Toda a gente que está a trabalhar aqui está melhor do que no seu país de origem”, garante.

Mafalda durante um momento de trabalho (DR)  ​
Mafalda durante um momento de trabalho (DR)

Portugueses: há cada vez mais

Mafalda Magalhães é um dos cerca de cinco mil portugueses que se estima que vivam no Dubai. Números oficiais, atualizados, não há. A 31 de dezembro de 2024 existiam 6.287 cidadãos nacionais com morada no cartão de cidadão nos Emirados Árabes Unidos, país a que pertence o Dubai. Inscrições consulares na embaixada em Abu Dhabi, a mais próxima, são 4.618. O Ministério dos Negócios Estrangeiros reconhece uma “tendência de crescimento da comunidade”.

“Os meus amigos são quase todos portugueses. Temos vidas normais, jantamos em casa uns dos outros, vamos comer a sítios baratos”, descreve Mafalda, sempre de sorriso rasgado, sempre de telemóvel na mão a despachar assuntos pendentes.

À custa do futebol, foi criado um grupo de WhatsApp que reúne os portugueses no Dubai. “Aquilo cresceu, cresceu, cresceu. Já somos cerca de mil pessoas. Há uma lista de espera, porque não dá para adicionar mais gente. E de vez em quando encontramo-nos para uma festa”, conta.

É por esse grupo que se confirma também o interesse crescente no Dubai. Há cada vez mais portugueses interessados em trabalhar neste emirado, onde se multiplicam as promessas de salários altos, nem sempre tão fáceis como o anunciado por tantas redes sociais. Há quem partilhe currículos, há quem peça informações práticas para passar a conhecidos, há quem queira saber como se leva a gata para o outro lado do mundo. “E as pessoas estão sempre dispostas a ajudar. Já conseguimos trazer algumas pessoas para cá.”

É neste imponente hotel que trabalha a portuguesa Mafalda Magalhães (DR)
É neste hotel que trabalha a portuguesa Mafalda Magalhães (DR)

Também Hugo Narciso, português a viver no Dubai há 11 anos, confirma este cenário de um interesse cada vez maior. E revela que o perfil dos emigrantes portugueses para este território está a mudar. “Quando vim para cá, eram sobretudo pessoas jovens e solteiras a vir. Hoje em dia há cada vez mais famílias a mudar-se.” Vamos conhecer a história de Hugo em pormenor mais à frente.

Antes, fazemos apenas umas comparações, para perceber porque motivo o nível de vida no Dubai parece tão superior ao português. Se o salário médio em Portugal está nos 1.200 euros antes de impostos, no Dubai esse indicador está nos 4.000 euros limpos. Não são raros os casos de funções especializadas a receber 6.000 ou 7.000 euros mensais.

Como as rendas tendem a ser caras, a compra de casa é uma opção a ter em conta. Mas se em Lisboa os dados da Confidencial Imobiliário mostravam que a média dos T2 vendidos em 2024 se fixava nos 400 mil euros, basta uma pesquisa nos sites de imobiliário para perceber que não faltam opções no Dubai a metade do preço.

Já agora, como os portugueses são um povo que valoriza a sua bica, aqui vai outra comparação: em Lisboa, um expresso custa à volta de um euro, no Dubai são cinco vezes mais.

Dubai Frame, um dos ícones do Dubai (DR)
Dubai Frame, um dos ícones do Dubai (DR)

Vida dentro de portas: a resposta possível ao calor extremo

No Dubai não há o estado social como o conhecemos em Portugal. Os estrangeiros a trabalhar neste emirado que não descontam impostos sobre os seus rendimentos têm de pagar pelos cuidados de saúde ou pela escola dos filhos. Por isso, além do contrato de trabalho, é obrigatório um seguro de saúde. Há cada vez mais empresas que integram estes benefícios, pagando o alojamento aos funcionários, por exemplo, para garantirem mão de obra especializada.

Quando Maria Inês Amaral, agora com 54 anos, chegou ao Dubai, foi para trabalhar numa empresa do grupo Emirates. Hoje, 12 anos depois desse passo, é dona da sua própria agência de marketing e comunicação para o setor do turismo e dirige uma associação que promove Portugal no Médio Oriente. Escolhe a zona de Alserkal Avenue, uma área alternativa da cidade, comparável à lisboeta Lx Factory, cheia de lojas, galerias de arte e restaurantes, para a entrevista com a CNN Portugal. Quando aqui veio pela primeira vez, era “deserto” e alguns barracões.

Maria Inês Amaral é dona de uma agência de viagens (DR)
Maria Inês Amaral é dona de uma agência de viagens (DR)

“Cheguei numa altura complicada, no início do verão. O impacto foi logo aquele calor intenso. Não sabia bem como ia aguentar.” No verão pode-se contar com mais de 40 ºC. Mas a vida continua porque o Dubai está preparado para isso. Há ar condicionado em todo o lado, as deslocações fazem-se de carro, trata-se de tudo dentro de portas.

“A vida no Dubai é muito mais fácil do que em Portugal, em vários aspetos. E isso também porque o salário o permite. Aqui um jovem de 20 e poucos anos consegue, com um salário relativamente normal, pagar um apartamento, ter carro, fazer férias, tudo aquilo que, infelizmente, em Portugal não é o caso. As oportunidades são infindáveis, mas é preciso ter muita vontade de trabalhar. É o mercado mais competitivo que conheço. Há luxo, há ostentação, mas é uma percentagem pequena da população. Nós, portugueses, vivemos uma vida bastante normal e simples.”

Estas embarcações típicas também fazem parte da paisagem (DR)
Estas embarcações típicas também fazem parte da paisagem (DR)

Liberdade e segurança: pratos da mesma balança?

Quando se pergunta quais as principais diferenças entre Portugal e o Dubai, as respostas recaem sempre nas coisas mais simples, mais corriqueiras. O bom tempo permanente, os serviços de entrega em casa de bens inesperados como gasolina, a carta de condução que dá para renovar numa aplicação e que chega pelo correio em apenas dois dias, a facilidade em contratar uma ama que cuide dos filhos, os elevadores que são espaçosos.

Nunca se fala de política. “Não existe”, simplifica Hugo Narciso durante uma viagem de carro. É como se o Dubai fosse uma bolha. Quem vive nele, não o critica. Comentam-se rumores de eventuais penalizações, num território muito criticado pelas organizações internacionais pela falta de uma imprensa livre, pela inexistência de partidos ou pela proibição de manifestações.

Hugo Narciso vive no Dubai há 11 anos (DR)
Hugo Narciso vive no Dubai há 11 anos (DR)

Os portugueses que aqui vivem vincam sempre como o governo do país está orientado para resolver problemas. E que, na balança, acaba sempre por ser isso a pesar mais. Essa qualidade de vida, essa sensação de segurança. “Nunca senti nenhuma limitação. Este país é muito seguro. Se quiser ir ao supermercado às duas da manhã, posso ir sozinha. Não tenho qualquer problema. Se estou numa festa e quero ir embora sozinha num táxi, vou”, exemplifica Mafalda Magalhães.

“Aqui o metro tem uma carruagem só para mulheres. E nos hospitais há sempre uma zona de espera só para senhoras. Há muito respeito pelas mulheres aqui”, junta Maria Inês Amaral. E esse respeito alimenta, na resposta, um outro respeito pela postura e tradições do povo emirati: apesar de nunca se terem sentido limitadas em relação à roupa que utilizam, estas portuguesas reconhecem que há sempre adaptações que são feitas quando se dirigem, por exemplo, a um serviço público.

Ao andar pelas ruas do Dubai, vê-se muita pele à mostra. Mulheres e homens envergando as mais diferentes roupas. Aqui, mais de 90% da população é estrangeira. E isso contribuiu para um melting pot, uma mistura, onde a tolerância é o principal valor. “O país ficou menos conservador. Um turista, ou alguém que se mude para cá, vai encontrar poucas diferenças em relação a uma grande cidade, seja europeia ou não”, resume Hugo Narciso.

Cidade está em constante desenvolvimento (Pixabay)
Cidade está em constante desenvolvimento (Pixabay)

Há dinheiro sim, mas a competição é tremenda

No escritório de Hugo Narciso, em Al Barsha, já numa zona mais periférica do Dubai, acumulam-se os troféus de prémios ganhos em concursos internacionais de criatividade. “Quando saí de Portugal foi na perspetiva de encontrar uma carreira melhor, uma vida diferente. A minha irmã, que se tinha mudado para o Dubai uns meses antes, convenceu-me a vir. Eu larguei tudo, despedi-me e vim.” Foi há 11 anos. Era assistente de produção num canal de televisão. Hoje, este lisboeta de 36 anos é sócio de uma empresa na área do audiovisual.

Hugo está habituado a estar atrás das câmaras. Quando as luzes se ligam para a entrevista, o corpo dele bloqueia com o nervosismo, o desconforto. E também com a dificuldade em recuperar a língua materna, já que o inglês tornou-se a sua principal ferramenta de trabalho. “Este é um mercado bastante dinâmico. Há muitas oportunidades para alguém na minha indústria. Há vários filmes de Hollywood a serem produzidos bem, bem como anúncios para o mercado árabe. São oportunidades a uma escala que em Portugal não temos, nem mesmo na Europa se calhar”, descreve.

Hugo Narciso a trabalhar no escritório da sua empresa, a What If (DR)
Hugo Narciso a trabalhar no escritório da sua empresa, a What If (DR)

Mas o dinheiro, diz, “não é fácil em lado nenhum”. Na véspera da entrevista, Hugo Narciso ficou “até às tantas” a terminar um projeto. “É um mercado bastante competitivo, mas se és bom no que fazes, se queres construir qualquer coisa, ter uma carreira, vem.”

O mesmo realça Maria Inês Amaral, na hora de explicar qual a maior aprendizagem que leva destes anos no Dubai: “A concorrência é muito grande. Não há horários, se tiver de ficar até às três da manhã a trabalhar num projeto, tenho de ficar acordada. Portanto, muita resiliência.” Porque, se não for assim, há sempre outro disposto a agarrar a oportunidade.

Onde está a burocracia?

Maria Inês Amaral e Hugo Narciso abriram as suas primeiras empresas no Dubai. “Foi aqui que encontrei todos os aspetos que esperava”, diz ela. “Há bastantes incentivos ao investimento, é fácil aqui”, completa ele.

Uma das coisas que mais contribui para darem esse passo foi a reduzida burocracia. O Dubai, sendo um território relativamente recente, não padece de muitos vícios do velho continente nesta matéria. E o facto de se juntarem aqui pessoas vindas de todo o mundo obriga também a que os processos sejam simples e intuitivos.

“Aqui não há papel para nada. É tudo online, com aplicações no telemóvel. Os serviços funcionam muito bem. Rapidamente tratas de qualquer assunto, seja governamental ou não”, refere Hugo Narciso.

Uma das formas de atrair investimento no Dubai são as chamadas “free zones”, uma espécie de zona franca onde é possível aos estrangeiros abrirem as suas empresas sem a necessidade de um parceiro local. A isto junta-se o dinamismo da própria mão de obra. “Há esta cultura de as pessoas se juntarem e quererem construir qualquer coisa, ter ideias novas, ter experiências novas, fazer produtos novos”, junta Hugo Narciso

Captação de investimento é uma prioriadade (Pixabay)
Captação de investimento é uma prioriadade (Pixabay)

Cuidados de saúde e reforma: quem não prepara, não tem

No Dubai, não há estado social como estamos habituados em Portugal. É preciso aprender a distribuir o salário - que não é taxado - por diferentes rubricas, separar para as emergências e para o futuro. Além disso, para os expatriados, o seguro de saúde é obrigatório na hora de entrarem neste emirado como trabalhadores.

“A saúde aqui é bastante cara, os hospitais são todos privados. Não temos assistência social aqui. Tudo tem de ser pago pelo utente. É absolutamente necessário ter um seguro de saúde”, conta Maria Inês Amaral.

Contudo, esta portuguesa sabe, melhor do que ninguém, que às vezes nem o melhor seguro é suficiente. Há um ano e meio teve um problema de saúde e tinha de ser operada. Fez os exames todos. Mas, na hora de marcar a cirurgia, o seguro bloqueou. Maria Inês Amaral entrou em “desespero” porque a janela de oportunidade era reduzida.

“No desespero, resolvi abordar no LinkedIn um dos membros do Dubai Health Authority, a autoridade para a saúde aqui. Mandei uma mensagem a uma pessoa que nunca tinha visto na vida. Tive uma resposta. Disse-me para não me preocupar, que ia tratar do meu problema. Dias depois, estava a ser operada”, recorda esta lisboeta. “Acho que isto não acontecia em mais nenhum lugar do mundo.”

Dubai Mall, uma catedral de compras, onde se comprova que no Dubai existem mesmo impostos (DR)
Dubai Mall, uma catedral de compras, onde se comprova que no Dubai existem mesmo impostos (DR)

Como já leu, os salários no Dubai não são taxados. Mas isso não quer dizer que não existam impostos no Dubai. Há um, similar ao IVA, de 5% que se aplica aos produtos comprados. E um outro, de 9%, para as empresas com lucros acima de 100 mil euros. Quem vive por aqui, já antecipa que, mais cedo ou mais tarde, também os salários seguirão no mesmo caminho.

“Já se fala um pouco sobre isso, mas acho que vai ser sempre uma percentagem muito mais pequena do que aquilo que se paga no resto do mundo. Eles sabem que uma das razões pelas quais as pessoas vêm para aqui trabalhar é o facto de não haver impostos sobre o rendimento pessoal”, junta Maria Inês Amaral.

O Dubai é terra de trabalho, mas dificilmente o destino de reforma para muitos daqueles que vivem por estes lados. Até porque as regras para deixar de trabalhar também têm as suas especificidades: é preciso ter um rendimento fixo mensal acima dos 4.500 euros, poupanças acima dos 270 mil euros ou investimentos imobiliários.

Nos mercados tradicionais, é preciso saber regatear (DR)
Nos mercados tradicionais, é preciso saber regatear (DR)

O paraíso das compras (e da ostentação)

Podíamos dizer que a vida no Dubai gira em volta do Burj Khalifa, o edifício mais alto do mundo, com 828 metros. É o ponto de referência a partir de, praticamente, todas as partes da cidade. Contudo, estaríamos a mentir. A vida no Dubai gira mesmo à volta do dinheiro, ou melhor, do ato de gastar dinheiro. Lojas atrás de lojas, atrás de lojas.

E há várias formas de o fazer. Primeiro nos mercados típicos, em tons de terra, onde é preciso ir com vontade – e disponibilidade mental – para regatear. Há vestes tradicionais, malas, camelos em porta-chaves e peluches, perfumes, candeeiros, especiarias, chás e frutos secos. É uma explosão de cores.

Num desses mercados, Al Fahidi, na zona antiga do Dubai, depois da hora de jantar, as ruas do souk estão praticamente vazias. Pode-se comprar com calma, sem sobressaltos. A contrastar com aquilo que se vive, à mesma hora, no Dubai Mall, considerado o maior centro comercial do mundo. Sim, no Dubai é mesmo tudo à grande.

​  Burj Khalifa, o grande ponto de referência no Dubai (Pixabay)  ​
Burj Khalifa, o grande ponto de referência no Dubai (Pixabay)

Há uma zona do centro comercial dedicada às marcas de luxo. Desde que a carteira permita, é só escolher. E não faltam clientes, pelos corredores, a ostentar as suas mais recentes aquisições.

Mesmo com corredores amplos, é um mar de gente, com filas para descer nas escaladas rolantes, até mesmo para entrar nas lojas. Quando a hora certa chega, há quem se desloque para o exterior. Afinal, vai começar um dos espetáculos mais desejados. O Burj Khalifa ilumina-se a rigor para um espetáculo de luzes, onde as fontes mostram com que força é possível levar a água quase, quase, até ao céu. No meio, turistas asiáticos assistem deslumbrados em balsas tradicionais. Filmam tudo como se não houvesse amanhã.

Estado de coisas: em permanente construção

Um barco antigo balança nas águas que recortam o bairro onde nasceu o Dubai, Al Shindagha. As torres eólicas, que permitem refrescar as casas nos dias tórridos, multiplicam-se. Foi a partir destas ruelas que o Dubai viu a sua economia a evoluir. Primeiro veio a exploração das pérolas, a partir da década de 1960 o petróleo transformou tudo. Agora é o turismo a principal fonte de receitas.

A cidade corre pelo seu desejo de futuro. Tem até um museu com esse nome, o Museu do Futuro, onde é possível antecipar como será a corrida espacial e como se irá regenerar a Terra depois de um apocalipse climático. São transformações intensas. Há outras mais fáceis de reconhecer por aqui.

O Museu do Futuro é um dos ícones do Dubai (DR)
O Museu do Futuro é um dos ícones do Dubai (DR)

Basta olhar para o céu, para as gruas. “Há mais construção, há mais casas a serem construídas. A cidade está também a evoluir para fora do centro”, conta Hugo Narciso. Este português comprou recentemente uma casa fora do centro, uma moradia numa zona mais calma – é, aliás, uma tendência entre os portugueses no Dubai: primeiro procuram o centro, depois começa-se a alargar o perímetro. “A comunicação dos bancos é muito mais agressiva aqui, até porque o pessoal tem mais dinheiro”, conta acerca do crédito à habitação.

O ritmo rápido da construção também alimenta o conforto de que, existindo um problema, como engarrafamentos no trânsito, ele será resolvido rapidamente. “Estão a tratar disso, a construir estradas novas, a abrir estradas”. O trânsito, durante a reportagem da CNN Portugal, era compacto, mas avançava. O maior risco são os condutores que se aventuram em espaços apertados para mudar de faixa. Há algumas buzinadelas, mas nada a que um lisboeta não esteja habituado. “Não é pior do que a Segunda Circular. Levava uma hora a ir e vir. Isso não acontece aqui”, não resiste Hugo a comparar.

Vista aérea da rede viária no Dubai (DR)
Vista aérea da rede viária no Dubai (DR)

Voltar não está nos planos

Os pés de Mafalda Magalhães tocam a areia de Ninive Beach, um dos mais recentes “spots”, inaugurado em dezembro do ano passado. Tira da mala um livro, poucos minutos depois tem uma bebida fresca para acompanhar a leitura. Mesmo para quem trabalha, o Dubai também é isto. Essa possibilidade de, depois de muito trabalho, descansar. Nem que seja apanhando um dos muitos aviões da Emirates para visitar os países que estão à volta. Há ligações, literalmente, a todas as horas.

Mas a Portugal, apesar das saudades, só se volta quando é necessário, incontornável. “Por muito que a família e os amigos possam vir cá, há sempre coisas que perdemos, como aniversários e momentos importantes. Gostava de voltar a Portugal, mas não está nos meus planos agora”, conta Mafalda Magalhães.

Maria Inês Amaral admite que também não tem planos para deixar o Dubai. Comprou uma casa no Alentejo, investiu numa outra na Tailândia. E, por isso, o emirado serve na perfeição como o ponto de ligação entre as duas localizações. Confessa que tantos anos fora de Portugal, sobretudo a promover o país como destino turístico, alimentaram um espírito saudosista. “Odiava fado, mas desde que passei a viver no estrangeiro, comecei a gostar de fado. Procuramos uma identidade cultural, uma ligação com o nosso país, porque estamos fora.”

Hugo Narciso também não sabe se o Dubai será a longo prazo. “Quando vim para aqui não pus prazos. Estou a construir algo que quero que dure. Gosto de estar aqui, as oportunidades que tenho são aqui. Se um dia aparecer algo melhor, mesmo que em Portugal, talvez vá.” Porque, mais do que Portugal, foi ele próprio quem mudou.

Pormenores de um mercado tradicional (DR)
Pormenores de um mercado tradicional (DR)

 

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