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"Senhor comissário, fala Duarte Lima": a chamada inédita que reacende o mistério da morte de Rosalina Ribeiro

19 mai, 21:06
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Quase 17 anos depois da morte de Rosalina Ribeiro, o Exclusivo da TVI teve acesso a uma gravação telefónica, que expõe incoerências na versão de Duarte Lima face às horas anteriores ao crime

Numa conversa de cerca de 50 minutos com Aurílio Nascimento, o comissário brasileiro que liderou a investigação, Duarte Lima, antigo deputado do PSD, apresenta uma narrativa que colide com os testemunhos, os registos de radar e as conclusões policiais no caso do homicídio de Rosalina Ribeiro de 74 anos, antiga secretária e alegada amante do empresário português Tomé Feteira.

Rosalina foi encontrada em dezembro de 2009, sem vida, numa estrada de terra batida, em Saquarema, no estado do Rio de Janeiro. Estava a mais de 100 quilómetros de casa.

Na noite em que viria a morrer, Rosalina saiu do apartamento onde vivia para se encontrar com Duarte Lima e nunca mais foi vista. O antigo deputado do PSD é o único suspeito deste homicídio, tendo sido acusado deste crime pelas autoridades brasileiras.

Foi quase mês e meio após a morte de Rosalina que Duarte Lima telefonou a Aurílio Nascimento, como havia ficado combinado com o comissário.

A conversa nunca foi utilizada judicialmente, porque a gravação não foi autorizada por um juiz. Ainda assim, serviu para as autoridades darem os primeiros passos na investigação.

Na conversa com Aurílio Nascimento, Duarte Lima, que aterrou em Belo Horizonte e fez uma viagem de mais de 400 quilómetros, ao longo de mais de seis horas, para depois chegar de carro ao Rio de Janeiro, onde estava Rosalina Ribeiro, garantiu que foi esta que lhe pediu um encontro.

“Quando ela soube que eu iria ao Brasil, pediu-me imediatamente que reservasse tempo para estar com ela”, disse o advogado português, por telefone, ao comissário que investigou o caso.

Mas esta versão colide com os depoimentos recolhidos junto de amigas próximas de Rosalina, que à época garantiram que terá sido Duarte Lima a solicitar o encontro.

Durante a conversa com o comissário, Duarte Lima não desvenda muitos pormenores sobre o que ia discutir com Rosalina Ribeiro e alega que é necessário um pedido de levantamento do sigilo à Ordem dos Advogados. 

Há, no entanto, muitos outros pormenores que não convenceram as autoridades brasileiras, nomeadamente o local do encontro, que Duarte Lima garantiu ter tido como finalidade discutir problemas por resolver em Portugal.

Duarte Lima relatou ao comissário naquele telefonema que o encontro com Rosalina Ribeiro aconteceu numa “lanchonete” próxima do apartamento da septuagenária, no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro.

Ao Exclusivo da TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal), o comissário brasileiro explica as dúvidas que essa versão lhe causou: “Uma senhora de classe, acostumada a frequentar lugares de luxo, vai para um botequinho?”

Mas há ainda outro detalhe como o facto de Duarte Lima ter garantido que estacionou facilmente no local. “Tinha lugares para estacionar, e estacionei ali ao lado”, disse a Aurílio Nascimento, segundo o qual, naquele bairro do Rio de Janeiro, há limitações para estacionamento devido à escassez de lugares.

Além disso, há outro enigma que ficou por resolver, nomeadamente a existência de uma mulher de nome Gisele com quem Rosalina teria marcado um encontro. Duarte Lima disse que a septuagenária lhe pediu boleia, alegando que se ia encontrar com Gisele para tratar de negócios em Maricá.

Segundo o advogado, tratava-se de uma pessoa com quem Rosalina já se reunira várias vezes e que inclusivamente teria visitado Portugal. Rosalina terá apresentado Duarte Lima a Gisele como um amigo de Portugal, e não como advogado, como deixou vincado o antigo deputado na chamada com o comissário. 

No entanto, as autoridades brasileiras nunca conseguiram encontrar qualquer rasto desta mulher.

Para o comissário Aurílio Nascimento, a conclusão é clara: Gisele não existe e foi um álibi usado por Duarte Lima.

“Era uma senhora de estatura mediana, (...) cabelos louros, lisos, vestia um casaco escuro, com uma calça, e uma camisa branca por baixo do casaco, e tinha um detalhe mais saliente, (…) ela tinha uns óculos com um aro grosso”, detalhou Duarte Lima ao comissário, que não ficou convencido.

“O melhor policial do mundo não teria detalhado tão assim exatamente uma pessoa”, garante Aurílio Nascimento, que sublinha que as suspeitas aumentaram quando descobriram que o advogado português tinha um blog de poemas intitulado precisamente “Gisele”.

Outro elemento da investigação e que contribuiu ainda mais para o facto de Duarte Lima ser o principal suspeito, assenta no registo das multas de velocidade. Duarte Lima foi apanhado em excesso de velocidade três vezes pelos radares.

Estes registos colocam em causa a versão de que deixou Rosalina em Maricá e regressou diretamente para o Rio de Janeiro.

A polícia concluiu que o percurso descrito pelo advogado não era compatível com os registos de circulação e sustenta que o veículo seguiu até à zona onde o corpo viria a ser encontrado.

“Nós concluímos (...) que ele não entrou em Maricá. Foi até o local do crime e voltou”, garante Aurílio Nascimento. Ou seja, o encontro de Rosalina com a mulher misteriosa, Gisele, nunca terá acontecido, de acordo com as autoridades brasileiras. 

Aliás, a investigação concluiu ainda que Duarte Lima terá percorrido o mesmo trajeto na véspera da morte de Rosalina para, precisamente, preparar a versão que viria a apresentar mais tarde às autoridades.

Também o veículo que o antigo deputado social-democrata usou para se deslocar no Brasil é um elemento importante na investigação.

Quando questionado sobre o nome da empresa onde alugou o Ford Focus, Duarte Lima, na conversa telefónica, disse o seguinte: “Tenho que ver nas minhas notas em Lisboa, neste momento não me lembro o nome da empresa.” Mas a resposta nunca chegou.

“Fomos carro a carro até encontrarmos o veículo de Belo Horizonte”, explica Aurílio Nascimento, sublinhando que o carro de uma rent-a-car foi subalugado a outra empresa do mesmo ramo.

O responsável pela empresa que falou com Aurílio Nascimento garantiu que o carro foi alugado a um português que fez várias multas e não as tinha pagado.

Outro pormenor foi o facto de Duarte Lima ter lavado o carro antes de o devolver.

Mais de 16 anos depois, persistem dúvidas, contradições e um conjunto de elementos que continuam a alimentar suspeitas que levaram as autoridades brasileiras a acusar Duarte Lima deste homicídio.

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