REPORTAGEM || Moram em Portugal e, com a ajuda de portugueses, estão a criar uma rede de solidariedade, que constrói drones FPV que voam diretamente para a resistência ucraniana na linha da frente. O grupo abriu as portas à CNN Portugal
Havia algum secretismo. A localização muda constantemente e só é enviada por mensagem privada um dia antes, porque os russos continuam atentos. Desta vez, o encontro foi na sala de um edifício discreto, perdido nos arredores de Lisboa. Nas paredes, as bandeiras da Ucrânia e do Regimento Phoenix ofereciam pistas sobre o que estava por vir. O espaço, transformado numa autêntica oficina, viria a ganhar vida com pequenas nuvens de fumo, barulhos mecânicos e o som de várias línguas misturadas no ar. Cerca de duas dezenas de pessoas compunham o espaço, a maioria ucranianos que vivem na capital e arredores, mas também alguns portugueses que responderam ao apelo. Iam construir e aprender a pilotar drones FPV, para serem enviados para a linha da frente na Ucrânia. Mas apenas a olho nu, porque o que está prestes a acontecer é muito mais do que isso.
Ninguém pode tirar fotografias às caras de quem está a participar na DroneAid Lisbon, essa é uma das principais regras de segurança. Para a comunidade ucraniana em Portugal, nem sempre a distância da linha da frente é sinónimo de estar a salvo da ameaça russa. Ainda os voluntários estavam a tentar organizar uma das primeiras edições do evento, quando as informações sobre o projeto começaram a circular em grupos da comunidade russa em Portugal. "No Telegram, começaram a publicar imagens das nossas stories, descobriram as nossas caras, as nossas matrículas e sugeriram que deviam incendiar o local", recorda Andrii, um web developer ucraniano que ajuda a coordenar a iniciativa. Alguns chegaram mesmo a receber ameaças nas suas contas privadas das redes sociais. Foi o suficiente para o grupo mudar a forma de fazer as coisas e deixar de revelar a localização dos eventos.
No interior da sala, há cadeiras para todos e mesas meticulosamente preparadas com todos os equipamentos necessários para transformar um amontoado de peças num drone FPV de 25 centímetros, capaz de voar longas distâncias a alta altitude, durante 15 a 20 minutos, e a uma velocidade que pode atingir os 200 quilómetros por hora. As oito aeronaves que aqui vão ser montadas vão para duas unidades: seis rumam para a região de Sumy, para o 66.º Batalhão de Defesa Territorial, e os outros dois vão para o 138.º Batalhão de Defesa Territorial, que combate no eixo de Mariupol, em Donetsk. Se estas unidades vão utilizar os drones que aqui vão ser construídos para reconhecimento, intercepção ou ataque, ninguém sabe, a decisão é de quem está no terreno. "O volume de drones que a Ucrânia precisa é de loucos. Não é justo sermos nós a escolher o que é certo e errado. Eles [os militares] podem abater drones, levar água ou atingir inimigos que os vieram matar no território do seu país", defende Andrii.
Todos partilham esta visão, desde os voluntários aos organizadores. "Não tenho qualquer problema ético em ajudar a causa ucraniana", explica Hugo, um voluntário de 48 anos, enquanto faz scan do QR Code para abrir o manual de construção do drone. No workshop da DroneAid Lisbon, os voluntários como ele pagam 360 euros por um kit de drone FPV, que pode ser dividido por um grupo de até três pessoas, aprendem a soldar e pilotar em simuladores, guiados minuciosamente por ucranianos. Não é a primeira vez que Hugo participa neste evento, nem a primeira que monta um drone. No passado, construiu drones com americanos, franceses, lituanos e brasileiros. Só que desta vez o voluntário português foi motivado pelo apelo urgente da unidade militar que tentava travar a mais recente invasão russa em Sumy, doando 800 euros para três drones. "Senti que o incentivo para ajudar era forte", admite.
Nas várias estações de trabalho, portugueses e ucranianos estão prontos para transformar as peças que são postas à sua frente em máquinas de resistência ucranianas. Quando as portas da sala fecham, o workshop começa com uma apresentação em inglês, que introduz a equipa e explica os passos do dia. "A Ucrânia não tem o luxo de ter tempo a perder", lamenta Olya, uma ativista ucraniana que pertence à organização da DroneAid e também trabalha no setor tecnológico. Mas o processo de montagem só começa quando a sala estremece com o grito patriótico ucraniano, proferido com a convicção de quem sabe que o seu país luta pela sobrevivência: "Slava Ukraini! Heroyam slava! Slava natsii! Smert voroham!" (Glória à Ucrânia! Glória aos Heróis! Glória à Nação! Morte aos inimigos!).
Este grito enche a sala de vida. Toda a gente coloca os olhos nas mesas e nos manuais e começa a montar cuidadosamente o esqueleto daquilo que vai ser um drone. "Parecemos colegas de universidade, numa aula de laboratório", descreve Hugo com um sorriso na cara, enquanto vai separando os componentes do drone, sob o olhar de Sasha, o "génio técnico" responsável por ajudar os voluntários. Ao contrário de outros projetos de solidariedade à causa ucraniana, aqui os participantes sentem o alívio de poder ver, montar e saber exatamente para onde vai a sua ajuda. "Não são aqueles financiamentos em que nós não sabemos quem é que recebeu, são muito transparentes", garante Hugo.
Apesar de parecer uma pequena empresa tecnológica com processos tão bem oleados que parecem desafiar a natureza voluntária, a DroneAid Lisbon não é feita para fazer qualquer lucro. O preço cobrado aos voluntários serve para pagar o kit do drone FPV com câmara e bateria, as ferramentas e a comida típica ucraniana que é disponibilizada durante os eventos. Todas as longas de trabalho de organização, promoção da iniciativa através das redes sociais, apoio técnico na montagem e preparação dos espaços é feito de borla pelos organizadores, de forma voluntária. Para participar, os voluntários têm de entrar em contacto com o grupo no Instagram. "Não tínhamos experiência de organizar eventos, mas automatizamos processos como faço no meu trabalho: é como uma pequena startup movida por paixão", diz Iryna, uma product manager ucraniana que se mudou para Portugal dez dias antes da invasão russa e a quem a restante equipa da DroneAid Lisbon dá o crédito de orquestrar detalhadamente a estrutura do projeto, que acontece todos os meses.
Ira, como lhe chamam a família e os amigos, não é estranha à defesa da causa ucraniana - o tridente do brasão de armas da Ucrânia que carrega orgulhosamente ao pescoço não a deixa mentir. Os olhos dela também não, quando os desvia ao recordar-se do pai. À semelhança de muitos outros homens ucranianos, o pai de Ira correu para um centro de alistamento logo após a invasão russa. Durante um ano e meio serviu no exército ucraniano, apesar de já não ter idade para o fazer. "Eu sei precisamente o que se sente quando um familiar próximo ou um amigo estão na guerra, respeito muito o seu sacrifício", diz em voz baixa. Durante três anos, manteve-se ativa, seguia as notícias, fazia doações e participava em eventos, mas nada disso lhe parecia bastar. "Senti sempre que não era suficiente. Mas com este projeto é diferente, sinto que não estou a contribuir apenas financeira e moralmente, mas sim com alguma coisa que eu faço com as minhas próprias mãos", confessa.
Entre os ucranianos que participam no DroneAid Lisbon, existe uma forte sensação de que este não é um projeto de solidariedade como os outros. Estas pessoas não se conheciam, mas a guerra juntou-os. Quase todos já viviam em Portugal antes de Vladimir Putin ter dado a ordem que mudou as suas vidas para sempre. Ao longe, lidaram como puderam com esses primeiros dias que pareciam um pesadelo. Uns "com muitos calmantes", outros a tentarem salvar a sanidade ao ajudar os outros. Foram a eventos de apoio, disseminaram notícias e lutam para que "a injustiça que se está a passar" não caia em esquecimento. Quase todos doam dinheiro, alguns metade do seu salário, outros "apenas" um quarto. Mas nem isso chega. Há sempre uma sensação "de que não é suficiente".
Andrii emociona-se ao recordar esses primeiros dias onde "o moral foi quebrado". Ele também vai a dezenas de eventos de apoio à Ucrânia, segura a bandeira e canta o hino até as lágrimas aparecerem. Tal como os outros, também doa dinheiro. Tal como os outros, isso nunca parecia ser suficiente. Mas algo mudou com o início deste projeto, que é muito mais do que ensinar pessoas a montar drones FPV. "Para mim, foi terapêutico", admite. E não está sozinho. Para todas estas pessoas, que vivem com o sufoco de saber diariamente aquilo que as suas famílias e os seus amigos atravessam, este projeto é uma forma de os transportar para a linha da frente e ajudar a travar os russos, apesar dos milhares de quilómetros de distância.
Ainda assim, para alguns, continua a não chegar. Foi o que aconteceu com um dos organizadores originais. Para ele, estar a mais de três mil quilómetros a construir drones, doar dinheiro, ir a eventos e mobilizar a comunidade deixou de ser suficiente. Não resistiu mais, voou em direção à Ucrânia e alistou-se no exército. Ele e a sua unidade vão ser um dos próximos grupos ajudados pela DroneAid Lisbon. "Ele já construía drones há um ano e meio e ajudou-nos a começar esta iniciativa, mas para ele não foi suficiente. Quando me ligou, soube logo do que se tratava", conta Olya, com emoção, ao recordar o amigo que agora está de frente para a ameaça russa, numa cidade no Donbass.
Olya e Ricardo, o seu companheiro, sabem bem do que a Rússia é capaz. Com cada vez mais frequência, a rotina do casal começa com o sufoco de ler as notícias ao acordar, descobrir que a Rússia voltou a disparar indiscriminadamente centenas de drones contra alvos civis e enviar mensagem a toda a família e amigos para descobrir se estão bem. A Rússia envia cada vez mais drones de longo alcance e cada vez mais civis perdem a vida na Ucrânia. No mês de julho, todos os recordes foram batidos. Quando a revolução chegou à Ucrânia, em 2013, eles estavam nas ruas em Kyiv. Os dois observaram com atenção aquilo de que o Kremlin é capaz quando a Crimeia e a cidade natal de Olya, Donetsk, foram capturadas pelos "pequenos homens verdes" de Putin. "Foi muito difícil viver esses momentos. Foi a inação do Ocidente perante esse evento que permitiu que os russos fizessem o que estão a fazer agora", recorda Ricardo com algum desânimo, enquanto observa um dos drones que está a acabar de ser montado.
O casal vive com a mesma determinação de Yana Rudenko, uma jovem ucraniana de 26 anos, cuja visão veio a dar origem ao DroneAid Colletive. A estudante universitária estava na cidade de Bucha quando os soldados russos entraram pelo seu país adentro. Como muitas pessoas, foi levada para uma cave, onde pôde testemunhar os horrores de que os russos são capazes contra a população civil que dizem ser "um povo irmão". Rudenko conseguiu escapar e refugiou-se nos Países Baixos. Mas recusou-se a ficar parada: criou o modelo para esta iniciativa sem fins lucrativos que envia drones para a frente de batalha e já se expandiu para países como Portugal, onde ganha forma em Lisboa e no Porto.
Nas mesas da sala, em Lisboa, oito drones estão numerados e praticamente prontos. Todos os voluntários soldaram os circuitos com sucesso. Enquanto isso, alguns participantes experimentam o simulador de voo, descobrindo que, afinal, controlar estas aeronaves é muito mais difícil do que os vídeos na internet fazem crer. O controlo parece o de uma consola de videojogos normal, mas a sensibilidade obriga o comando a estar numa superfície muito estável. É fácil perder o controlo da aeronave e destruir permanentemente o drone, por isso, quem os pilota passa por muitas horas de simulador. Sasha, que já trabalha com drones há anos, testa cada um dos sistemas dos drones, ligando-os ao seu portátil para ajudar todas as configurações do drone e calibrar os seus sensores - como as hélices e a câmara. "Estes são bons drones interceptores" para a Ucrânia, diz Sasha, que acredita que estes dispositivos, que combinam várias tecnologias, podem ser muito úteis para Portugal, especialmente em situações de emergência como foi o blackout.
Os voluntários portugueses concordam. Esta tecnologia vai estar cada vez mais presente e Portugal tem muito a ganhar em expandir o ensino desta tecnologia a um número cada vez maior de pessoas. "Pode-se criar equipamentos para alertar a população sobre a proximidade de incêndios ou para levar ajuda a pessoas isoladas pelas cheias", sugere Hugo, enquanto aguarda para que o seu drone acabe de ser programado. A ideia era ficar com "essa capacidade instalada na juventude", que poderia responder em caso de socorro. Para os criadores da DroneAid Lisbon, um dos objetivos é precisamente esse: transmitir conhecimento aos portugueses e ao mesmo tempo apoiar o esforço na linha da frente. "Os portugueses sabem o que é ter um país maior junto à sua fronteira, a tentar conquistá-lo e dominá-lo. Queremos que os portugueses tenham consciência desta tecnologia que vai ser amplamente utilizada", defende Olya.
À medida que o tempo passa, um a um, os drones perdem as suas hélices e são ordeiramente colocados dentro de uma caixa. Cada máquina carrega as suas histórias para a frente: a revolta de Ricardo, a esperança de Olya, a solidariedade de Hugo, a paixão de Iryna. São apenas oito, que se vão juntar aos 30 que este grupo já enviou. Eles sabem que é pouco, numa guerra que consome dezenas de milhares de drones todos os meses. Mas para quem os recebe, lá na linha da frente, estes oito drones são bem mais do que isso, são a certeza de que não lutam em vão. É um dos raros momentos de comunhão em que, por instantes, o esforço e o sacrifício das pessoas que estão em segurança na retaguarda sai em defesa daqueles que têm as suas vidas suspensas no interior de uma trincheira na vanguarda. "Às vezes duvidava um pouco de mim e sentia que não estava a fazer o suficiente, mas este projeto está a dar-me alguma paz de espírito", admite Iryna com um sorriso tão grande que, por instantes, o peso da guerra deixou de existir.