Em pouco mais de um ano de guerra já ajudaram a destruir mais de mil milhões de euros em equipamento militar russo
Enquanto centenas de milhares de soldados combatem em terra, uma autêntica revolução está a acontecer nos céus da Ucrânia, que se tornaram num autêntico laboratório para o desenvolvimento de tecnologia de drones. No centro desta revolução estão os drones da empresa portuguesa Tekever, que operam desde o primeiro ano da guerra e que se tornaram “os olhos” de muitas unidades ucranianas no campo de batalha, sendo responsáveis pela destruição de milhões em equipamento russo na linha da frente.
Prova disso são os militares ucranianos da 15.ª Brigada de Reconhecimento de Artilharia, também conhecida como “Floresta Negra”, para quem o drone AR3 da Tekever se tornou um instrumento crucial para travar os avanços russos. Este drone, que é lançado pelos militares da unidade através de um sistema de catapulta e é capaz de voar 16 horas seguidas, é utilizado para detetar e identificar alvos militares russos de alto valor, como centros de comando, sistemas de defesa antiaérea ou radares.
Assim que os homens que operam o AR3 detetam um alvo russo, entram em contacto com o comando de unidades de artilharia e transmitem as coordenadas dos alvos. Depois, as unidades de artilharia escolhem o tipo de arma a utilizar, dependendo da distância e da importância do alvo. Alvos mais próximos, como veículos blindados ou infantaria, são atacados com artilharia. Mas os alvos mais valiosos, como os centros de comando ou os radares, são atacados com os “pesos pesados” da engenharia ocidental: os mísseis de HIMARS e os Storm Shadow.
“Houve um grande boom e um grande buraco no chão. Não sobrou ninguém a mexer-se”, afirma o tenente Kostyantin, comandante de um pelotão da 15.ª Brigada, ao recordar o ataque a um centro de comando com os mísseis britânicos Storm Shadow, numa entrevista ao Times.
Foi o resultado de dias de uma perseguição e de vigilância atenta com estes drones portugueses, fornecidos pelo Reino Unido à Ucrânia. Desde 2023 que as aeronaves portuguesas operam com sucesso nos céus da Ucrânia, tornando-se uma peça essencial nas operações ucranianas. Pouco mais de um ano depois de terem chegado ao teatro de operações, já são responsáveis pela destruição de mais de mil milhões de euros em equipamento militar russo.
Isto só é possível devido ao avançado software da empresa portuguesa, que é apoiado por Inteligência Artificial, permitindo que o AR3 opere em ambientes bastante hostis. Na frente de batalha na Ucrânia, onde opera um número cada vez maior de aeronaves não-tripuladas, são empregados milhares de sistemas de guerra eletrónica com o objetivo de cortar o sinal entre o drone e o operador. Só que os drones da Tekever são capazes de operar sem precisar de sinal de GPS ou comunicações, o que lhes permite evitar algumas das contramedidas russas.
"São incrivelmente resistentes, por exemplo, tendo a capacidade de navegar em segurança em condições climáticas difíceis e voar até 20 horas de cada vez, o que os torna capazes de efetuar reconhecimentos complexos de longo alcance. Uma caraterística adicional crucial num contexto de conflito é o facto de serem autónomos - podem voar em situações em que não existe um sistema GPS ou em ambientes sem comunicações, utilizando a IA para melhorar a orientação, a navegação e o controlo", explica a empresa tecnológica portuguesa à CNN Portugal.
Recentemente, a unidade militar do tenente Kostyantin utilizou um AR3 para identificar um radar Nebo-M, um sistema considerado muito poderoso e raro, capaz de identificar alvos num raio de 3.800 quilómetros. Estima-se que a Rússia tenha apenas dez unidades destes sistemas, que têm um custo avaliado em 100 milhões de euros. Em menos de uma hora, o drone português que se tornou “os olhos” do exército ucraniano encontrou e identificou à distância o Nebo-M e a equipa pediu imediatamente a autorização para um ataque com mísseis ATACMS, que devastou por completo o radar.
In October, his platoon located a powerful Nebo-M radar station in Russian-held eastern Ukraine, capable of scanning the skies hundreds of miles west in Ukrainian-held territory. Russia is only believed to have ten of the systems, each of which costs an estimated $100 million. 5/ pic.twitter.com/lKEAgWFX6G
— Maxim Tucker (@MaxRTucker) December 15, 2024
Não são só as características dos drones da Tekever que os tornam úteis para a Ucrânia, a mentalidade da empresa também está a encaixar na perfeição nas necessidades ucranianas. Apesar de o CEO da empresa portuguesa, Ricardo Mendes, garantir que a empresa não quer desenvolver armas, o foco na criação de software tornam-na particularmente útil num cenário de guerra como a Ucrânia. Isto porque a startup portuguesa é capaz de criar soluções a uma velocidade muito rápida para responder a problemas concretos que aparecem no campo de batalha. É possível aplicar alterações ao software em dias ou até mesmo horas, dependendo das necessidades, que estão em constante mudança.
"Este conflito tem sido menos sobre quem tem tecnologia superior e mais sobre quem é mais ágil e consegue ultrapassar o outro. Por exemplo, tivemos de encontrar formas de garantir que os nossos drones podem funcionar na presença de interferência de sinal avançada russa, que limita as comunicações e baralha os sinais GPS", refere a Tekever.
Para atingir essa agilidade, a empresa fundada por três antigos alunos do Instituto Superior Técnico aplica um modelo de “desenvolvimento vertical”. Isto significa que é responsável por quase todos os elementos dos seus produtos. Desde o software, até aos chips dos sensores, bem como o próprio design e a fuselagem das aeronaves. Tudo isto é desenvolvido pela empresa com o objetivo de serem “os mais ágeis do mercado”, de acordo com o seu diretor. Isto permite à Tekever implementar rapidamente os seus desenvolvimentos sem depender de fornecedores.
Recentemente, a empresa recebeu uma injeção de capital de 74 milhões de um grupo de investidores que inclui o Fundo de Inovação da NATO. Além do AR3, que é considerado um drone de pequenas dimensões, a Tekever opera ainda o AR5, uma aeronave com maior capacidade. Este ano, a empresa desvendou um novo produto, o ARX, um sistema capaz de destacar e coordenar enxames de drones. Este veículo só estará disponível em 2025 - promete “reforçar significativamente as capacidades de vigilância e de salvamento de vidas humanas, quer em organizações civis, quer em militares”, com mais autonomia, maior velocidade, capacidade de transportar mais tecnologia e “captar mais informação”.
O objetivo desta nova aeronave - que será a maior no catálogo da empresa - é ser capaz de transportar e operar um “enxame” de drones mais pequenos, de forma a estender as suas capacidades operacionais. A empresa classifica este novo produto como “o Santo Graal da vigilância”, capaz de combinar a velocidade, a capacidade de transporte de um grande número de sensores de todos os tipos e uma grande adaptabilidade.
Apesar dos drones portugueses terem ajudado a Ucrânia a obter uma vantagem crítica no reconhecimento de alvos estratégicos e a ajudar a coordenar ataques precisos contra as forças russas, resultando em perdas avultadas e irreparáveis para Moscovo, a situação no terreno está cada vez mais difícil para a Ucrânia. Na região de Donetsk, um dos principais objetivos de Vladimir Putin para a guerra, a Rússia tem feito avanços consideráveis a uma velocidade que está a impressionar os analistas.
A situação é mais grave nos arredores da cidade de Pokrosvk, Kurakhove e Velyka Novosilka. Todas elas fundamentais para a defesa da região ucraniana. Caso conquiste aquelas três cidades, a Rússia controlará três grandes autoestradas que vão dar diretamente à cidade de Dnipro, capital da região onde as forças russas nunca estiveram (Dnipropetrovsk), e que é crucial para manter as operações numa linha da frente de quase mil quilómetros.