Droga altamente aditiva reaparece em Portugal após virar moda nos EUA. Especialistas preocupados

3 nov, 07:00

Uma droga altamente aditiva que está a gerar preocupação um pouco por todo o mundo, parece estar a ganhar terreno também em Portugal. Dados da PJ revelam novas apreensões após sete anos sem registo de situações. Peritos sublinham que a codeína está a assumir presença no mercado ilícito, receiam que o seu consumo se torne generalizado e pedem que a comunidade médica e farmacêutica esteja alerta pois é comercializado em xaropes para tosse.

As  apreensões policiais de um opióide altamente aditivo - a codeína -, feitas nos últimos tempos em Portugal, estão a alertar os especialistas para a chegada ao País de uma nova tendência no consumo de droga. O último alarme soou em março deste ano quando um homem de 37 anos foi apanhado no aeroporto de Ponta Delgada com 850 gramas desta substância. “Já não há dúvidas de que há difusão no mercado ilícito, é irrefutável”, afirma Ricardo Dinis-Oliveira, presidente da Associação Portuguesa de Ciências Forenses e um dos maiores investigadores nacionais sobre substâncias psicoativas e toxicologia .

Segundo dados a que a CNN Portugal teve acesso junto de fonte da Polícia Judiciária, nos últimos anos e até outubro deste ano foram apreendidos mais de 70 quilos de codeína. Os mesmos dados revelam ainda que durante este ano foi registado um reaparecimento das tentativas de entrada desta substância no País depois de vários anos sem situações. O último tinha sido em 2015, quando as autoridades confiscaram 4,01 gramas. Já a maior apreensão registada ocorreu uns anos antes, em 2013, atingindo as 72 mil gramas.    

O assunto assume agora mais importância, avisam os especialistas, por as redes sociais estarem a ter um papel potenciador desta substância. Por um lado, adianta Carlos Cleto, técnico superior da Divisão de Prevenção e Intervenção Comunitária do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), as redes estão a impulsionar a procura desta droga, fazendo com que chega a muitos jovens.

Por outro, as redes sociais, sublinha Carlos Cleto, têm igualmente um papel na oferta. “Neste momento, o que temos encontrado é alguma facilidade em conseguir comprá-la (codeína) em situações que estão vedadas diretamente ao consumidor” - ou seja, “através da internet, da deep web e da dark net”.

Um dos problemas atuais, que o especialista destaca é o facto de nas redes surgirem várias pessoas a divulgar a possibilidade de se ter acesso a esta substância através de um xarope para a tosse, que se vende em Portugal com receita médica, e que tem codeína na sua composição. “Há uma maior procura por este fármaco, impulsionada pelas redes sociais”, afirma Carlos Cleto, referindo-se aos casos de consumidores que usam este xarope em altas doses misturado com refrigerantes, o que cria um efeito semelhante ao da heroína, mas mais lenta.  

Xarope à base de codeína “varia entre os 70 e os 85 euros" no mercado ilícito online

A CNN Portugal falou com o criador de uma página no Twitter especializada na entrega através da internet de vários tipos de opióides e de benzodiazepinas sem que, para tal, seja preciso mostrar uma receita médica. Segundo explica, o preço de um xarope à base de codeína “varia entre os 70 e os 85 euros, dependendo do tamanho da encomenda (comparativamente, nas farmácias portuguesas, o xarope custa 4,15 euros)”. “A maior parte dos nossos clientes portugueses costuma encomendar entre cinco a dez garrafas”, diz. Após o pagamento, é enviado um código para o cliente vigiar o envio até casa. 

O uso recreativo de codeína tem observado uma tendência crescente a nível global. Segundo um estudo recente patrocinado pelo Parlamento Europeu, a procura por este opióide subiu aproximadamente 27% desde a última década e tem sido também muito associada à “cultura rave, de festas, e ao ambiente de clubes e de discotecas”, afirma Ricardo Dinis-Oliveira, especialmente nos Estados Unidos, onde “já é uma moda muito vincada na sociedade”. 

E, se já é moda nos Estados Unidos, o mais provável é que Portugal seja também contagiado em larga escala por esta tendência, acrescenta o investigador. “Na evolução das substâncias psicoativas, a história tem-nos mostrado que há apenas um delay (um atraso) até estas modas chegarem a Portugal”. O país, “já terá essa realidade instalada”, só que é "ainda desconhecida" e "não há tanta sensibilização para o seu efeito nocivo".

Este efeito nocivo, que Ricardo Dinis-Oliveira descreve, pode levar em alguns casos à morte. Isto porque a codeína, como a heroína, produz morfina no organismo e, em doses elevadas, pode causar uma depressão respiratória mortal. Só no Reino Unido, entre 2020 e 2021, o número de mortes causadas por overdose de codeína subiu 25%. “Altas doses de codeína levam a paragens cardiorrespiratórias e à morte por subsequente. Além disso, é um opióide com um elevado processo de criação de dependência e com tudo aquilo que vem com isso, nomeadamente o síndrome de abstinência”, afirma, por sua vez, Carlos Cleto, do SICAD.

Tanto Carlos Cleto, como Ricardo Dinis-Oliveira pedem, por isso, que haja uma maior consciencialização na comunidade médica e farmacêutica para este tipo de fenómeno. “É preciso alguma sensibilização de toda a classe para a utilização indevida de codeína”, diz Ricardo Dinis-Oliveira.

Uma porta de entrada para a droga mais potente do mundo

A urgência deste alerta está também relacionada com o facto de o consumo indevido de codeína ser uma porta de entrada para aquela que é a droga mais potente da atualidade, o krokodil. Uma droga “canibal” feita com produtos domésticos e codeína, que recebeu o seu nome pelo efeito devastador que tem na pele, tornando-a escamosa e descolorada. 

“À luz daquilo que se conhece, o krokodil é de longe a droga mais perigosa do mundo, com todas as outras a ficarem muito para trás. E a codeína é a substância essencial para que ela seja fabricada”, afirma Ricardo Dinis-Oliveira, que fez parte da equipa que desenvolveu o único método existente para detetar o krokodil no sangue e na urina.

De acordo com a Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde (Infarmed), medicamentos à base de codeína só estão indicados em crianças “com idade superior a 12 anos”, no “tratamento da dor aguda de curta duração e moderada” e apenas nos casos em que outros analgésicos, não sejam eficazes. Nos últimos anos, segundo disse à CNN Portugal fonte do Infarmed, foi detetado uma suspeita de “efeito indesejável” pela autoridade. “A notificação refere-se a um adulto que apresentou mal-estar geral, eritema e edema da face, hipotensão e vómitos”, afirma.

Relativamente ao acesso à codeína sem receita médica com o intuito de produzir drogas, fonte do Infarmed garante que, quando isso ocorre em farmácias, desencadeia a instauração de um processo de contraordenação à entidade. “Caso o Infarmed recolha indícios no âmbito das suas inspeções, de que essas vendas podem estar associadas a tráfico de estupefacientes, a informação é remetida para as autoridades policiais competentes”, garante a mesma fonte. 

“Aquilo tornou-se muito aditivo”

Rafael*, um produtor de música de 24 anos, teve o seu primeiro contato com a codeína ao ouvir músicas e ver videoclipes dos seus artistas preferidos. Ouvia falar do opióide, mas tratava-o por outro nome. “Lean” ou “Purple Drank”, uma bebida amplamente divulgada nas redes sociais à base de uma mistura entre refrigerantes e um xarope para a tosse à base de codeína. “É daquelas drogas que a música vangloria muito”. Tal como o xanax, ou o haxixe, diz, agora “há a cultura da codeína”. “Vemos uns copos grandes cheios de uma bebida roxa e tudo o que é famoso a beber e isso cria curiosidade em nós”.

O jovem, que aceitou falar com a CNN Portugal sob condição de anonimato, experimentou pela primeira vez essa bebida roxa durante o princípio do verão de 2020 e, imediatamente, sentiu “um relaxamento extremo do corpo”, quase ao ponto de se “querer levantar um braço e demorar imenso tempo”. Estava consciente, mas era como se estivesse num vácuo temporal e, de olhos bem abertos, percebeu que “o cérebro flutuava para outro sítio qualquer”. “Quando dei por mim, a cabeça pesava, queria levantar-me, mas não conseguia”.

Rafael diz que é muito difícil parar. “Aquilo tornou-se muito aditivo”, ao ponto de já não conseguir produzir e escrever músicas da mesma forma. Confessa também que foi criado um hábito entre os amigos de beber “uma garrafa quando estão no estúdio” e que isso criou uma dependência no seu processo criativo. “No meu caso, muitas vezes, senti deixar de ter vontade de fazer música sem isso. Uma pessoa quer escrever e sente que sem isso a minha música já não soa bem”.

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