Grande parte da droga apreendida nos portos nacionais tem origem na América do Sul. Há mais droga a circular e mais apreensões. Escondida, em contentores, no meio de fruta e dos produtos que mais importamos daquele continente. A escolha da fruta não é inocente, já que o cheiro pode ajudar a ocultar a droga
Nunca houve tanta droga a circular. Há mais pessoas a consumir. E o tráfico voltou a ser um negócio lucrativo. Com a pandemia, as ligações de tráfico foram cortadas e a droga ficou parada. Agora é preciso escoar o produto. E os portos do mundo sempre foram uma das formas preferidas pelos traficantes para levar o produto além-fronteiras. Com mais quantidade a circular, há mais apreensões e os criminosos correm mais riscos. A droga vem dissimulada, escondida ou até transformada em líquido. Os métodos são cada vez mais inovadores, mas a fruta parece ser um dos bens eleitos para esconder o produto, principalmente bananas. E segundo informação recolhida pela CNN Portugal, essa não é uma escolha inocente: é importada em grandes quantidades e o cheiro mais ativo pode ajudar a ocultar a droga.
A operação da Polícia Judiciária desta terça-feira, em vários portos nacionais, apenas vem confirmar o que há muito se dizia. Artur Vaz, líder do combate ao narcotráfico em Portugal, numa entrevista à CNN Portugal já tinha admitido que havia uma tendência de recrutamento de trabalhadores precários pelas organizações criminosas nos portos nacionais. “Há cumplicidades de funcionários que prestam serviços em empresas nesses portos”. Artur Vaz explicou ainda que o modus operandi das organizações de tráfico de droga estão cada vez mais inovadores. "Já tivemos situações em que a droga chega e parece que é carvão, outras em que vem dissimulada em líquidos ou outros materiais".
No ano passado, fonte da Polícia Judiciária também assumiu à CNN Portugal que havia "um problema com a droga, mais ou menos mundial, que é um superavit de produção resultante da pandemia. Ou seja, a pandemia fez um blackout. O mundo parou de alguma forma. Parou em termos de comunicações. Deixaram de circular aviões, deixou de haver viagens. Portanto, uma quebra nos circuitos normais. Mas a produção continuou. Então há um excesso de droga que precisam de fazer escoar”.
Ainda não há números definitivos, mas 2024 poderá ser um ano recorde nas apreensões de droga. Os números provisórios da Polícia judiciária apontam para 22 toneladas e meia, o maior número dos últimos 15 anos, revelou coordenador da unidade de combate ao tráfico de estupefacientes da PJ ao Diário de Notícias.
Olhando para algumas apreensões efetuadas pela Polícia Judiciária, e não só, é fácil perceber as formas usadas pelos traficantes para ocultar a droga. Fruta, café, feijão, farinha. Até óleo. Vale tudo para esconder.
Esta segunda-feira, por exemplo, a Autoridade Tributária e Aduaneira (AT) apreendeu 264,4 quilos de cocaína no Porto de Sines. Estava dissimulada no interior de um contentor com sacos de feijão proveniente do Brasil. No total, 11 sacos com a cocaína foram colocados “atrás das portas do contentor” e “em cima da mercadoria legalmente declarada”, constituída por sacos de feijão. Esta modalidade é conhecida por 'rip-on/rip-off' e usa mercadoria legitima para dissimular o produto.
Em Leiria, por exemplo, no ano passado, foram encontradas e apreendidas "300 embalagens, vulgo ‘tijolos’ de cocaína, com o peso de mais de 300 quilogramas, que vinham acondicionadas e escondidas no interior de 95 caixas de bananas”. Valiam qualquer coisa como nove milhões de euros e o destino era o mercado europeu.
Quem decide que contentores são fiscalizados?
A investigação desta terça-feira tem debaixo de suspeita funcionários das alfândegas que terão deixado entrar toneladas de cocaína em carregamentos da América do Sul com destino à Europa. Estes funcionários estarão subornados e às ordens de poderosas associações criminosas internacionais, como o Primeiro Comando da Capital, do Brasil; ou cartéis colombianos. Em causa estão funcionários da Autoridade Tributária com o poder de definirem quais os contentores a fiscalizar e quais devem deixar sair dos portos por via terrestre, em camiões, sem qualquer incómodo por parte das autoridades do Estado.
Mas há casos em que fiscalização é aleatória e as autoridades utilizam equipamentos tipo ‘scanner’ para escolher as unidades que vão ser abertas.
No último mês de 2024, a PJ apreendeu cerca de três toneladas e meia de cocaína escondida em paletes de caixas de bananas num cargueiro, que habitualmente transporta fruta entre a Americana Latina e a Europa.
Também em dezembro foi desmantelada uma rede criminosa que usou um contentor que transportava legalmente yuca (uma planta nativa da América Central e do Sul) triturada e congelada e a cocaína encontrava-se escondida no gelo, no interior das embalagens da mercadoria lícita, envolta em película de plástico. Uma operação que juntou a Unidade Nacional de Combate ao Tráfico de Estupefacientes (UNCTE) e a Guardia Civil espanhola.
Em setembro do ano passado, por exemplo, um contentor foi selecionado para ser aberto e a droga encontrava-se dissimulada “numa carga convencional de óleos lubrificantes”. Entre os bidões foram encontrados "sacos de desporto escondidos". Um teste químico feito na hora permitiu, no entanto, classificar o produto como um estupefaciente, mais propriamente cocaína.
Em agosto foram apreendidas 6,5 toneladas de cocaína que entraram em território nacional por via marítima. A droga vinha dentro de um contentor de farinha de soja, proveniente de um país da América Latina.
Em junho de 2024 a PJ deu conta de ter desmantelado um grupo criminoso que introduzia grandes quantidades de cocaína no continente europeu, recorrendo aos portos. A droga chegou em dois contentores marítimos que entraram em território nacional através do Porto de Setúbal e estava escondida em "orifícios localizados na estrutura de madeira das paletes de carga que acondicionavam um carregamento de ananases, proveniente de um país da América Latina".
Quase cinco toneladas de cocaína, foram escondidas num contentor de bananas refrigeradas provenientes do Equador. A droga estava dividida em 4.352 placas.
Em 2022, uma das maiores apreensões de sempre encontrou 8,13 toneladas de cocaína no porto de Setúbal. Chegou por via marítima, dissimulada em contentores de bananas provenientes da Colômbia.
Apesar de a Polícia Judiciária não ter dados sobre os produtos mais usados pelos traficantes para ocultar a droga, várias fontes ouvidas pela CNN Portugal admitem que a fruta, principalmente as bananas, é o mais recorrente.
