"Downburst" complicou - e muito - o combate aos incêndios em Pedrógão Grande, "impelindo" as chamas com violência "extrema". O calor que se aproxima pode trazer rajadas de ventos convectivos com algum "poder de destruição". Os fenómenos são parecidos, mas distinguem-se pelo seu grau de intensidade
O verão está a chegar mais cedo a Portugal com termómetros a registar temperaturas máximas acima da média em “oito a dez graus”. É caso para se manter atento à evolução dos avisos emitidos pelo IPMA, garante Miguel Miranda, antigo presidente do Instituto Português do Mar e da Atmosfera. Mas não só pela onda de calor que se aproxima.
Em entrevista à CNN Portugal, a meteorologista Maria João Frada antecipou a possibilidade de assistirmos a episódios de “rajadas de vento convectivas”, até com “algum poder destrutivo”. Numa altura fértil para incêndios, “isso não é bom”, sublinhou.
O termo “vento convectivo” pode fazê-lo recordar-se de um outro termo meteorológico: o “downburst”, responsável, em 2017, por grande parte das complicações nos incêndios de Pedrógão Grande, que causaram 66 mortos. Mas há diferenças entre ambos.
O que são ventos convectivos e quando se transformam num "downburst"?
De acordo com o meteorologista Carlos Câmara, as situações de instabilidade meteorológica, como quando existem regiões de baixas pressões, abrem espaço ao fenómeno convectivo.
“Se tivermos uma região com uma pressão muito baixa, o ar vai convergir para essa zona”, começa por explicar à CNN Portugal. A verificar-se essa convergência, “a única forma que o ar tem de continuar o seu movimento é subindo, porque tem ‘superfície dura’ por baixo, vendo-se obrigado a subir”, continua.
Nesse momento, o ar expande - como consequência da diminuição da pressão - e, ao aumentar o seu volume, empurra o ar que tem à sua volta, gastando energia e arrefecendo. É neste momento-chave que o vapor de água presente no ar se transforma em chuva, devido à descida de temperatura. “Isto é o processo convectivo normal”, esclarece o especialista.
Quando falamos de ventos, detalha, “quer dizer que se formam estas zonas em que o ar sobe” - e é precisamente aí que o fenómeno se pode complicar. “Se o ar está a subir, ele é acompanhado por descidas, em zonas vizinhas, e o que acontece em situações muito particulares, como em Pedrógão, é o ‘downburst’”.
Por “downburst” entendem-se ventos descendentes “extremamente violentos”, que podem facilmente ultrapassar os 100 quilómetros por hora. O seu padrão é intermitente, podendo durar segundos ou minutos durante períodos de 12 horas ou mais. Falamos, portanto, de um fenómeno de “relativa curta duração e extremamente intenso, sempre”, que pode estar associado ao calor.
Na prática, explica o especialista, o que acontece é que “o ar arrefece de tal maneira que fica pesado” ao ponto de “cair como se fosse uma pedra”.
“Esse ar está extremamente mais frio, fica muito mais pesado do que o ar à volta e vem por aí abaixo como um corpo em queda. Como vem lá de quilómetros de altura, vai aumentando a sua velocidade e chega ao solo com uma velocidade brutal”, resume, sublinhando que “este é o chamado vento convectivo de ‘downburst’”.
Quer isto dizer que uma rajada de vento convectiva não se trata necessariamente de um “downburst”, sendo que o termo se adequa a qualquer vento convectivo extremo.
Também à CNN Portugal, o antigo presidente do IPMA explica que um fenómeno convectivo é, ainda assim, difícil de prever, tendo em conta que “não são muito bem representados na maioria dos modelos numéricos”. O que está em causa, acrescenta, é a “identificação de condições de formação".
Carlos Câmara dá conta do mesmo defeito, acrescentando que só é possível identificar um “downburst” num momento mais próximo do acontecimento: “Este tipo de fenómenos, infelizmente, não são previsíveis a longo prazo. Eu não consigo prevê-lo, nem a 24 horas.”
Estamos longe de um novo Pedrógão Grande, mas "as coisas podem tornar-se complicadas"
Em Pedrógão Grande foi “exatamente” isto que aconteceu. “Por um lado, tinham-se células convectivas em que o ar era obrigado a subir com enorme violência e isso queria dizer que ele depois ia arrefecer brutalmente e vir por aí abaixo.” Em terreno fértil para incêndios isso “foi terrível”, diz Carlos Câmara, porque, “por um lado, alimentou o fogo, sendo que esse ar tem oxigénio e, por outro, com a velocidade que tinha, impeliu as chamas com imensa violência”.
A previsão é de muito calor e também de alguma instabilidade para os próximos dias, mas o meteorologista afasta um cenário parecido ao que assolou o centro do país em 2017.
Segundo o especialista, o país não reúne ainda todas condições que poderiam culminar num evento dessa dimensão. “A vegetação está a ficar muito stressada, porque tivemos um inverno e primavera chuvosos, mas os valores ainda não têm uma magnitude tão grande quanto a de Pedrógão”, afirma, referindo-se à vegetação como principal alavanca de incêndios com aquelas proporções.
Ainda assim, reconhece uma agravante na atualidade: a biomassa deixada para trás pela tempestade Kristin no início do ano.
“As coisas podem tornar-se complicadas lá mais para diante, se esta quantidade de vegetação se tornar extremamente seca. Com esta onda de calor que aí vem, já se começa a notar um aumento de predisposição para a vegetação começar a tornar-se em combustível”, conclui, antecipando apesar de tudo um ano “muito complicado”, caso o padrão de temperaturas elevadas se mantenha durante o verão.
