MUNDIAL 2026

Saiba tudo aqui
Mais sobre o Mundial 2026

O "doublet" que arrasou a Venezuela pode afinal ter sido apenas um grande sismo. Eis porque isso importa

CNN , Kasha Patel
26 jun, 08:00
Equipas de resgate retiram uma pessoa ferida de um edifício que ruiu após um sismo em Caracas, a 24 de junho de 2026 (Manaure Quintero/AFP/Getty Images via CNN Newsource)
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

Tudo pode ter acontecido como um efeito dominó

Na noite desta quarta-feira, a Venezuela foi atingida pelos maiores tremores em mais de um século, derrubando edifícios e provocando mais de 230 mortos. O evento, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), foi um fenómeno raro chamado "doublet", que consistiu não num, mas em dois grandes sismos.

Os "doublets" ocorrem quando dois sismos de magnitude semelhante acontecem em rápida sucessão, podendo causar mais danos do que um único sismo. Neste caso, um sismo de magnitude 7,2 atingiu o norte da Venezuela e foi seguido por um sismo de magnitude 7,5 apenas 39 segundos depois.

"Os sismos duplos são muito destrutivos", diz Raul Perez-Lopez, sismólogo do Instituto Geológico e Mineiro de Madrid, em Espanha. "A principal diferença é que os sismos duplos têm uma energia semelhante, enquanto um único sismo e os seus tremores secundários [menores] têm uma energia mais baixa."

No entanto, alguns investigadores especulam que dados adicionais nos próximos dias poderão revelar que o evento foi causado por um único grande sismo, e não por dois. A diferença entre um sismo longo e um par de sismos gémeos pode não ser relevante em termos de consequências para a humanidade, mas pode ensinar muito aos cientistas sobre este fenómeno invulgar e sobre a previsão da intensidade dos sismos.

“Provavelmente, serão necessários alguns dias, ou até mais, para que os sismólogos consigam realmente analisar o evento”, admite Judith Hubbard, cientista especializada em sismos da Universidade de Cornell, que analisou a recente atividade sísmica. “E, mesmo assim, talvez não cheguem a uma conclusão definitiva sobre se foi um ou dois sismos.”

Os sismos duplos são raros, embora não sejam incomuns nesta região. Um sismo duplo mais fraco - de magnitude 6,2 e 6,3 - atingiu a região em setembro de 2025, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS).

“Não temos uma noção clara de quais as falhas que produzem sismos duplos e quais não produzem - ou mesmo se existe algum tipo de falha que os produza”, nota Hubbard. “Não ocorrem com frequência suficiente para que possamos estabelecer uma regra prática”.

Os sismos ocorrem quando duas placas tectónicas em movimento ficam presas, acumulam tensão e, subitamente, libertam a energia acumulada. Os tremores desta quarta-feira ocorreram na fronteira entre as placas das Caraíbas e da América do Sul, que têm deslizado a um ritmo de cerca de 20 milímetros por ano. O norte da Venezuela costuma sofrer sismos de grande magnitude e com danos consideráveis, mas, ao longo do último século, a região registou apenas sete sismos de magnitude 6 ou superior.

Devido à rápida sucessão dos tremores desta quarta-feira, Hubbard afirma que confirmar a ocorrência de dois sismos pode ser difícil com os dados preliminares - e existem outras explicações possíveis para o que os cientistas observam atualmente nos sismógrafos.

Equipas de resgate assistem a um edifício danificado em Los Palos Grandes após um sismo de magnitude 7,2 ter atingido a Venezuela e outras regiões das Caraíbas na quarta-feira, em Caracas, Venezuela (Jesus Vargas/Getty Images via CNN Newsource)
Equipas de resgate assistem a um edifício danificado em Los Palos Grandes após um sismo de magnitude 7,2 ter atingido a Venezuela e outras regiões das Caraíbas na quarta-feira, em Caracas, Venezuela (Jesus Vargas/Getty Images via CNN Newsource)

Para começar, um grande sismo de magnitude 7,5 normalmente não acontece de uma só vez, indica a especialista. Um sismo tão grande começa num local e propaga-se ao longo da falha, rompendo diferentes partes em diferentes momentos. No caso da Venezuela, o primeiro pulso - responsável pelo sismo de magnitude 7,2 - pode ter desencadeado um efeito dominó de pulsos que culminaram no tremor subsequente, de magnitude superior.

Hubbard refere que um sismo geralmente demora 30 a 40 segundos a completar-se, mas “como este pulso maior ocorreu durante o tremor do primeiro, foi muito difícil detetá-lo” nos dados atuais.

Se estes foram dois impulsos de uma única rotura, Hubbard diz que o evento poderia ser equivalente a um sismo de magnitude 7,6.

Nos relatórios preliminares até à data, o USGS descreveu dois sismos distintos a cerca de 5 a 10 quilómetros de distância um do outro - o que levanta a possibilidade de um ter desencadeado o outro. Apesar da proximidade, a agência propôs que as falhas por detrás dos sismos deslizaram com movimentos opostos.

“Os dados sísmicos são ambíguos”, lembra Hubbard. “Não é possível distinguir entre estas duas orientações de falha e direções de deslizamento” até que mais dados sejam obtidos.

Vários abalos, de menor intensidade, ocorreram perto de Caracas desde então, o que pode esclarecer a situação. Se os sismos se estiverem a propagar em padrões semelhantes aos dos sismos iniciais, isso poderá confirmar se as orientações propostas estão ou não corretas.

Confirmar o que aconteceu no solo pode ser complicado no meio dos danos. Especialmente na área em redor de Caracas, os sedimentos subterrâneos podem ter abrandado e amplificado as ondas sísmicas, levando a um aumento do poder destrutivo. Além disso, o afundamento do solo pode causar danos adicionais nas fundações dos edifícios. A região carece de extensas redes sísmicas, e a falta de energia nos grandes centros urbanos pode atrasar ainda mais os esforços. Os dados de satélite, que deverão estar disponíveis nos próximos dias, podem revelar os movimentos das falhas e oferecer mais pistas sobre as falhas que se romperam.

Apesar de serem raros, os sismos duplos chamam a atenção quando acontecem. Em 2023, um par de sismos de magnitude 7,8 e 7,7 atingiu a Turquia e a Síria. Ocorreram com nove horas de intervalo e causaram danos generalizados.

Hubbard acredita que este evento será amplamente estudado pela comunidade científica e poderá ajudar os cientistas a estimar melhor a magnitude que um sismo pode atingir apenas nos primeiros segundos após a rutura.

"Tudo o que sabemos sobre sismos vem de estudos de caso de grandes sismos como este", completa Hubbard. "Mesmo com poucos dados disponíveis, conseguimos aprender muito."

Relacionados

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Mundo

Mais Mundo