Valentyn atirou quatro granadas, fugiu para o WC e no fim virou as costas aos russos: é herói, dizem. Quem é ele?

Valentyn atirou quatro granadas, fugiu para o WC e no fim virou as costas aos russos: é herói, dizem. Quem é ele?

Reportagem em Bucha Germano Oliveira

Aviso: este artigo contém linguagem explícita eventualmente ofensiva

Um dos primeiros vídeos conhecidos da guerra na Ucrânia foi filmado por este homem, Valentyn Didkovskyy. Antes de pegar no telefone para documentar a destruição ele mesmo destruiu um blindado russo. Aconteceu na terra-mártir Bucha, onde Valentyn abriu à CNN Portugal o seu portão furado pelos tiros

Há vestígios de tiros em todo o sítio, tiros no portão e na garagem da casa, tiros nas janelas e nas paredes, são tiros que fizeram furos pequenos mas também buracos enormes, parte do portão foi mesmo rasgada pelas balas daquelas metralhadoras russas, "parecia o Armagedão", diz Valentyn Didkovskyy. Tem 64 anos, mora em Bucha, terra de crimes de guerra, de valas comuns, de casas destruídas, de carros carbonizados, terra triste mas agora terra mais limpa: os destroços estão lá mas só nas bermas, as bermas onde há tantas casas mortas pelas granadas e pelos disparos, casas caídas e o interior delas espalhado - banheiras entre tijolos partidos, camisolas e botas quase intactas entre objetos carbonizados -, mas a estrada já está realcatroada e refeita do horror, está perfeita mesmo, os tanques russos que a ocuparam foram colocados num cemitério de metal num descampado a poucos quilómetros da casa de Valentyn, casa onde a luz do sol passa por entre aqueles furos pequenos mas também buracos enormes e cria um espetáculo de luz como nos concertos de música mas isto aqui é o desconserto da guerra, guerra na qual Valentyn é nomeado herói pelos seus pares ucranianos - Valentyn agradece mas não se acha nada disso, "sou um homem normal, sou um homem simples, fiz o que qualquer pessoa faria", mas que fez Valentyn para ser chamado herói?

Filmagens em Bucha no dia 3 de maio, um mês depois da libertação da cidade pelas tropas ucranianas

Valentyn fez isto, segundo o seu relato: 27 de fevereiro, dois veículos militares russos entram por Bucha adentro, ele já os vê ao longe e depois começa a vê-los mais perto, cada vez mais perto, os dois veículos tornam-se mais veículos, "eles continuaram a chegar e a chegar e a chegar", Valentyn conhece gente no exército e por isso tinha cinco granadas em casa, "para proteção", diz Valentyn, a guerra já estava em curso há três dias, "para proteção", sublinha Valentyn, e naquele 27 de fevereiro ele atira quatro das cinco granadas em direção aos russos e uma delas destrói um dos veículos, a seguir Valentyn reentra em casa, fecha o portão, baixa-se e rasteja em direção à garagem, os russos já estão a disparar, rat-rat-rat rá-tá-tá ratataaá-tá, a garagem de Valentyn protege-o, ele tem a quinta granada com ele, "fiquei com ela porque tinha de me proteger de alguma maneira", enquanto os russos disparam contra Valentyn já há gente a disparar contra os russos, Valentyn conhece pessoas no exército, já se sabe, e tinha ligado para elas a avisar que os russos tinham entrado em Bucha, aquelas granadas de Valentyn atrasaram os russos e deram tempo ao exército ucraniano, entretanto Valentyn aproveita toda aquela confusão e sai da garagem em direção a um WC exterior que ele tem no quintal, é um WC ainda mais longe dos tiros russos e ele magoou-se na porta quando entrou no WC, trilhou o dedo do polegar, Valentyn tem a unha negra, o que resta da unha, aquilo já não é bem nem uma unha nem um dedo, é um amasso, "lá fora era o Armagedão". 

Os soldados ucranianos começam a disparar contra os russos, Valentyn olha para o telemóvel e tem uma mensagem de um dos combatentes de Zelensky, "sai daqui, foge", diz a mensagem, Valentyn pensa "fujo para onde, fujo como?", Valentyn ri-se enquanto conta isto, o tradutor está a rir-se também, Valentyn acha que ficou 40 minutos dentro do WC, não sabe exatamente se foi mais ou menos mas à volta disso, 40 minutos de fim do mundo, "ele perdeu a noção do tempo", explica o tradutor, "é normal, tantos tiros, tanto caos", acrescenta o tradutor e encolhe os ombros. Está um dia bonito de sol em Bucha enquanto Valentyn conta esta história sobre aquele dia sombrio em Bucha, Bucha veio a ter dias piores, dias de massacre, os tribunais hão de julgar isso, mas de regresso a dia 27: depois do Armagedão "aquilo acalma", explica Valentyn, "bem, acalma dentro do possível", corrige-se Valentyn, e portanto ele decide sair do WC para se aproximar do portão, ouve russos a saírem dos blindados e a falarem, Valentyn queria disparar sobre eles mas não tinha armas, "alistei-me no exército depois deste dia e por isso não estava cá quando foi o massacre, mas agora estou armado, agora sim, mas naquele dia não", Valentyn ainda quis atirar a quinta granada mas pensou "é demasiado perigoso", se os russos ripostassem já não havia sexta granada e Valentyn ficaria à mercê dos tiros todos, por isso Valentyn saiu à rua armado do seu telefone.

  • Marcas das balas no portão de Valentyn. Foto: Germano Oliveira
    Marcas das balas no portão de Valentyn. Foto: Germano Oliveira
  • Valentyn magoou-se quando tentava esconder-se dos russos. Foto: Germano Oliveira
    Valentyn magoou-se quando tentava esconder-se dos russos. Foto: Germano Oliveira
  • 53 mil pessoas viviam em Bucha antes da guerra. Foto: Germano Oliveira
    53 mil pessoas viviam em Bucha antes da guerra. Foto: Germano Oliveira
  • O governador da cidade diz que cerca de mil casas ficaram destruídas. Foto: Germano Oliveira
    O governador da cidade diz que cerca de mil casas ficaram destruídas. Foto: Germano Oliveira
  • Foto: Germano Oliveira
    Foto: Germano Oliveira
  • Foto: Germano Oliveira
    Foto: Germano Oliveira
  • Foto: Germano Oliveira
    Foto: Germano Oliveira
  • Foto: Germano Oliveira
    Foto: Germano Oliveira
  • Foto: Germano Oliveira
    Foto: Germano Oliveira

Valentyn é um homem baixo de tronco largo, veste calças militares e uma camisola escura de manga curta que deixa ver duas tatuagens pequenas no braço esquerdo, são duas tatuagens subtis a azul-caneta como as tatuagens do Amor de Mãe, os braços dele são espessos e as mãos densas, Valentyn tem corpo de militar, já tinha combatido antes de 2022 e volta a fazê-lo agora mas naquele dia 27 os russos não sabiam que homem-soldado era aquele, um homem que depois do Armagedão sai à rua e vê alguns russos a trocarem as fardas por roupas civis - esses russos que trocaram de roupa fugiram dali mas houve outros russos que ficaram, por isso Valentyn pegou na arma que é um telemóvel e disparou o play, rat-rat-rat rá-tá-tá ratataaá-tá, filmar pode ser um ato de agressão e aqueles russos acharam isso mesmo enquanto viam aquele homem de 64 anos a caminhar por entres os destroços a filmar e a falar coisas, “coisas brutais”, saberemos adiante. 

Os russos mandaram Valentyn parar de filmar, os vídeos de Valentyn são dos primeiros divulgados no início da guerra, estão no Youtube e isso, Valentyn haverá de os enviar mais tarde por Viber para a CNN Portugal mas antes disso conta que viu naquele momento do dia 27 dois soldados russos junto a um blindado e que um deles estava com listas amarelas, "é um sinal de identificação ucraniano mas ele era russo, é por isso que depois disto os soldados ucranianos mudaram a sua identificação de amarelo para azul - e entretanto para verde", contextualiza o tradutor, Valentyn tentou comunicar com estes soldados porque pensou inicialmente que eram ucranianos devido àquele amarelo mas eles responderam em russo com pronúncia muito acentuada, "uma pronúncia do este da Rússia", os russos estavam incomodados com aquele homem a filmar aquelas coisas, "pára de filmar, dá-nos o telefone e sai daqui", e que fez Valentyn?, Valentyn responde e o tradutor dá contexto antes de cumprir a sua missão de traduzir, "sabem, o Valentyn é um homem muito irritadiço", o tradutor ri-se, "o Valentyn virou-se para os soldados e disse-lhes palavras fortes", que palavras fortes?, "ide-vos foder, ide-vos foder", foi a resposta dele, "ide-vos foder, se me quiserem matar matem-me, ide-vos foder", Valentyn virou-lhes as costas e regressou a casa sempre a filmar e a dizer coisas, regressou vivo, o tradutor diz "eu já tinha visto este vídeo mas não sabia que tinha sido ele a gravá-lo", perguntamos ao tradutor que coisas está Valentyn a dizer continuamente naquele vídeo, "são mais palavras brutais", a seguir o tradutor replica o que Valentyn está a dizer, "isto é a minha casa, isto é a minha casa, ide-vos foder", o tradutor baixa o tom de voz sempre que diz "ide-vos foder", "tudo isto é Bucha, o exército ucraniano é o melhor, isto é a minha casa, isto é a minha casa, ide-vos foder", Valentyn é um homem irratadiço mas um homem vivo, "no início os russos eram mais pacíficos com os civis", garante o tradutor - e isto é algo que iremos ouvir de mais gente em Bucha, que houve uma primeira vaga de russos que tratavam melhor os civis mas "os seguintes vieram furiosos, foi vingança por os ucranianos estarem a vencer, os russos ficaram brutais", enquanto o tradutor conta isto Valentyn continua a mostrar no telemóvel um dos seus vídeos daquele dia, "isto é a minha casa, isto é a minha casa, ide-vos foder".

O vídeo de Valentyn que incomodou os soldados russos