Tarek tem um bilhete para o futuro. Entrou na universidade em Lisboa, mas não consegue sair de Gaza. "O nosso corpo está a apodrecer"
Tarek

Tarek tem um bilhete para o futuro. Entrou na universidade em Lisboa, mas não consegue sair de Gaza. "O nosso corpo está a apodrecer"

A carta de aceitação na Universidade Nova de Lisboa é o bem mais precioso que Tarek Al-Farra, de 23 anos, tem. Um bilhete para o futuro, entre escombros, pó e o calor sufocante de uma tenda improvisada em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza.
No papel, a vida dele já deveria estar a mudar. No próximo 16 de setembro, começam as aulas do mestrado em Estudos Ingleses e Norte-Americanos. Na prática, está preso num território cercado, onde cada passo para fora da tenda pode ser o último

O calor acorda Tarek Al-Farra antes das nove. Não é a luz que entra por entre as costuras gastas da lona, nem o ruído da vizinhança comprimida em tendas iguais à sua. É o ar espesso, abafado, que cola à pele e impede o descanso. No céu, o zumbido grave e contínuo de um drone mantém-se como um alarme sem fim. Mesmo quando não atacam, é impossível esquecê-los, confessa, durante uma conversa telefónica com a CNN Portugal.

Dentro de um campo improvisado no sul da Faixa de Gaza, o jovem de 23 anos espera ansiosamente por um carimbo no passaporte que pode mudar a sua vida. Tarek foi aceite no mestrado em Estudos Ingleses e Norte-Americanos da Universidade Nova de Lisboa.

“É a minha saída”, afirma. “É o que me mantém de pé.”

A vida de Tarek Al-Farra, de 23 anos, mudou radicalmente em 2023

No próximo 16 de setembro, as aulas começam. Na teoria, Tarek vai sentar-se numa sala de aula em Lisboa, ouvir professores falarem de literatura, linguística, tradução. Vai estudar para se tornar professor ou tradutor, como tanto deseja, e usar as palavras como pontes entre mundos.

“Quero levar a voz palestiniana ao mundo e às pessoas através das línguas”, afirma.

Na prática, está preso em Khan Younis, onde partilha a tenda com os pais, dois irmãos e uma irmã. Entre ele e Lisboa há poucas centenas de quilómetros e um muro de obstáculos que não pode escalar sozinho.

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Um labirinto de fronteiras

Para entrar em Portugal como estudante, Tarek precisa de um visto emitido por um posto consular português. O mais próximo fica em Ramallah, na Cisjordânia. Outro está no Cairo, no Egito. Ambos exigem sair de Gaza, algo impossível sem coordenação com Israel.

E sendo palestiniano de Gaza, essa coordenação não pode ser feita diretamente.

“O meu futuro depende de decisões que não estão nas minhas mãos. É exaustivo e desgastante viver com a incerteza de não saber quando posso sair.”

Do lado português, o Ministério dos Negócios Estrangeiros diz estar atento ao caso e a “procurar alternativas”. A Universidade Nova confirma que tem pressionado o Governo. A Associação de Estudantes exige soluções urgentes. Mas as palavras ainda não abriram caminho.

Enquanto isso, o calendário avança.

O resto da manhã de Tarek não é sobre Lisboa. É sobre sobrevivência. A água é medida e dividida entre beber, cozinhar e manter alguma higiene. A eletricidade vem de pequenos painéis solares, usados para carregar telemóveis e ligar pontos de acesso à internet.

O almoço será o que houver. Os preços mudam todos os dias, e sempre para cima, conta. Um quilo de tomate pode custar 20 dólares; uma embalagem de leite, 60. Carne? Mais de 100 dólares o quilo. "É um sonho", ironiza.

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Acordar com drones no lugar do despertador

A vida de Tarek, antes de 2023, cabia em rotinas simples: aulas na universidade, tardes a ajudar a mãe no estúdio de maquilhagem, saídas com amigos, planos para o futuro. Nos tempos livres, ensinava inglês às crianças da vizinhança. O bairro onde cresceu era barulhento e cheio de vida. Vendedores de rua, crianças a correr entre as casas, vizinhos a cumprimentarem-se ao fim da tarde.

Havia bombardeamentos ocasionais, sim. Restrição de movimento, claro. Mas nada que impedisse de sonhar. O diploma de Línguas e Tradução estava a poucos meses de distância, e Tarek já pensava em fazer um mestrado no estrangeiro.

  • Tarek a caminho das aulas, na Universidade Al-Azhar de Gaza
    Tarek a caminho das aulas, na Universidade Al-Azhar de Gaza
  • A universidade de Tarek antes dos bombardeamentos
    A universidade de Tarek antes dos bombardeamentos
  • A turma de Tarek antes dos bombardeamentos
    A turma de Tarek antes dos bombardeamentos
  • A universidade de Tarek antes dos bombardeamentos
    A universidade de Tarek antes dos bombardeamentos
  • A universidade de Tarek antes dos bombardeamentos
    A universidade de Tarek antes dos bombardeamentos

A 7 de outubro de 2023 acordou para uma realidade que não conhecia. Sons de explosões mais próximas, fumo no horizonte. A notícia de que a guerra tinha recomeçado com uma violência inédita correu de casa em casa.

Horas depois, o bairro de Tarek estava irreconhecível.

"As boas memórias matam. É muito doloroso."

A partir desse dia, tudo piorou. A mãe perdeu o negócio. O irmão mais novo ficou gravemente ferido no braço, atingido por estilhaços durante um ataque aéreo. Sobreviveu, mas carrega dores crónicas e precisa de fisioterapia. O 22.º aniversário de Tarek foi passado num hospital, a cuidar dele.

Da casa só sobram destroços.

O momento em que a casa de Tarek Al-Farra é atingida por um bombardeamento

"Não são apenas paredes e um teto. É o calor, o conforto e a vida que conhecia. Desde esse dia, tenho andado deslocado, como qualquer outra pessoa aqui. De lugar em lugar. A perseguir o cheiro de um lar que já não existe. À procura do abraço de um quarto que me acolhia, do cheiro da comida da minha mãe na cozinha, das gargalhadas dos meus irmãos. A minha casa era simples, mas era o único lugar no mundo que sentia verdadeiramente como meu".

Com os ataques a intensificarem-se, a família começou uma série de fugas: de bairro em bairro, de abrigo em abrigo, cada vez com menos bens.

"Deixei de dar aulas, parei a minha paixão, porque não queria que os meus alunos fossem bombardeados".

Por esta altura, Tarek começou uma angariação de fundos nas redes sociais. Estava decidido a "não esperar para perder mais" do que tudo aquilo que já tinha perdido desde o início da guerra. Foi com este dinheiro que conseguiu pagar metade das propinas do mestrado em Lisboa - 1.800 euros - e cobrir despesas básicas da família: comida, água e medicamentos para o irmão.

“No dia em que tive de deixar a minha casa chorei de dor e impotência. Não conseguia decidir nada. Para onde vou? O que levo comigo? Como posso carregar toda a minha casa num saco e fugir com a minha família? Como posso deixar o meu gato para trás e simplesmente ir?”

  • As imagens da destruição da casa de Tarek
    As imagens da destruição da casa de Tarek
  • As imagens da destruição da casa de Tarek
    As imagens da destruição da casa de Tarek
  • As imagens da destruição da casa de Tarek
    As imagens da destruição da casa de Tarek
  • As imagens da destruição da casa de Tarek
    As imagens da destruição da casa de Tarek

Abandonaram tudo e mudaram-se para uma tenda. O campo onde se instalaram fora pensado para uso temporário, talvez uma semana. Já passaram meses.

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Cinco meses numa tenda

De dia, 40 °C transformam o interior num "forno". À noite, o frio "corta". A entrada é coberta com um cobertor preto para reduzir o pó e impedir olhares curiosos.

Ali, as doenças multiplicam-se. A sarna passa de pele em pele. Infeções bacterianas crescem em cortes minúsculos. Fungos multiplicam-se no calor e na humidade, descreve. “O nosso corpo está a apodrecer. Vivemos num ambiente cheio de insetos, moscas e lixo. Não temos comida saudável. Só conservas ou alimentos cheios de aditivos, totalmente insalubres. E mesmo assim, são caríssimos.”

A tenda que Tarek partilha com toda a família

Chegar até à comida é tão perigoso quanto caro.

"A ajuda que entra em Gaza é extremamente limitada. Estamos a falar de 50 camiões para mais de dois milhões de pessoas. O que podem fazer 50 camiões num lugar onde todos têm fome, estão deslocados e lutam para sobreviver? A maior parte da ajuda entra sem proteção e sem um sistema adequado de distribuição. Imagine querer pão e a única forma de o conseguir é lutar com facas ou arriscar ser baleado".

"Tentar conseguir comida é tão perigoso que é quase uma missão suicida, até para ir aos pontos de distribuição de ajuda. Por vezes compro comida, mas a que há nos mercados é limitada e caríssima. Ninguém aqui consegue comprar comida regularmente. Não quero ir aos pontos de ajuda para morrer. Cada passo que dou fora da minha tenda para encontrar comida é um risco para a minha vida. Ninguém deveria arriscar a vida apenas para comer".

A água é um dos bens mais escassos em Gaza

O som das bombas nunca fica longe.

“Cada cessar-fogo é apenas uma pausa entre funerais. Quando reconstruímos, eles destroem. Quando plantamos, eles queimam. Quando sonhamos, eles matam”.

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Um sonho construído entre bombas

Quando a guerra começou, as universidades de Gaza fecharam. Muitas foram destruídas por bombardeamentos. A solução encontrada foi o ensino remoto, mas, num território com energia intermitente e internet instável, essa opção transformou-se numa prova de resistência.

Para concluir a licenciatura em Línguas e Tradução, Tarek improvisou. Começou a subir ao sexto andar de um edifício, no escuro da madrugada, para captar sinal de internet através de um e-SIM e descarregar as aulas gravadas. “Enquanto isso, drones e quadricópteros voavam sobre a minha cabeça. Eu sabia que era arriscado, mas estava no último ano da licenciatura. Não podia desperdiçar a oportunidade".

"Tentava manter-me motivado e lembrar-me do meu sonho de me formar e criar uma vida melhor para a minha família. Mas é difícil quando todos os dias nos lembram que podemos não viver para ver o dia seguinte".

O mesmo caminho em Khan Younis, Gaza, feito de bicicleta antes e depois dos bombardeamentos

A ideia de estudar em Portugal nasceu em abril deste ano, no meio do caos. Tarek conheceu, online, uma amiga brasileira que já tinha estudado em Lisboa e que lhe falou das oportunidades para estudantes internacionais. Juntos, começaram a pesquisar programas de mestrado.  

Em junho, foi chamado para uma entrevista online. No dia seguinte, recebeu a resposta: aceitação imediata.

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O bilhete para outra vida 

A carta da Universidade Nova é mais do que uma admissão académica: é a possibilidade de, pela primeira vez, viver fora de Gaza, longe do som constante dos drones.

“O meu sonho de estudar em Lisboa não é apenas sobre educação. É a minha oportunidade de reconstruir a minha vida depois de perder a minha casa e tudo o que tinha. Quero estar num lugar seguro, concentrar-me nos estudos e construir o meu futuro sem o medo constante de bombas ou deslocações."

Tarek nunca saiu do enclave. Tudo o que conhece no mundo é a realidade de Gaza.

Na sua imaginação, Lisboa não é o destino final, mas o ponto de partida para reconstruir a vida - e talvez ajudar a família.

"Quando a minha família soube que poderia ter a oportunidade de sair de Gaza, ficaram muito felizes. Viram nisso uma esperança de que talvez eu consiga ajudá-los também no futuro.”

No papel, Tarek é estudante de uma das mais prestigiadas universidades portuguesas. Na realidade, é um deslocado interno num campo improvisado.

O que separa um mundo do outro é um carimbo no passaporte. E decisões políticas que não controla.

Enquanto espera, partilha vídeos no Instagram: mostra as ruas destruídas, explica como improvisam para fazer café sem gás, denuncia preços impossíveis e o risco de ir buscar comida. “Quero que as pessoas saibam que não somos apenas estatísticas que veem nas televisões. Somos seres humanos com sonhos, famílias e vidas interrompidas.”

O semestre começa daqui a um mês. A cada dia que passa sem visto, a linha entre sonho e perda fica mais ténue. Mas, no meio da incerteza, Tarek segura-se a um pensamento simples, que repete quase como um mantra: “Nada dura para sempre. Isto vai acabar. E eu vou sobreviver."

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