Sou a Ludmila: o exército ucraniano disparou contra a minha casa, não me queixo disso

Sou a Ludmila: o exército ucraniano disparou contra a minha casa, não me queixo disso

Reportagem em Andriivka, Ucrânia Germano Oliveira

Um homem atado ao frio que ficou com sequelas de saúde. Civis mortos enquanto guiavam. Um pai assassinado ao tentar evitar a violação da filha - morta também. Um homem abatido porque não quis dar um trator, outro por causa de uma bicicleta. Um sniper perturbador que deixou danos psicológicos. Andriivka, uma pequena aldeia a 60 quilómetros de Kiev, esteve sob ocupação russa durante pouco mais de um mês - e estes são os relatos que se contam numa aldeia parcialmente destruída pelo armamento russo mas também pela artilharia ucraniana. Os procuradores que estão a recolher provas de crimes de guerra já lá estiveram

O telhado está destruído, os vidros das janelas explodiram, nas paredes dá para ver as consequências de vários tiros e nos muros lá fora também, as balas rasgaram aquela casa e os acessórios dela também: a antena parabólica está tão torta de tão morta pelas balas, as balas atingiram tudo, balas disparadas da rua em frente, balas russas, balas disparadas de ruas além, balas ucranianas, “ambos os exércitos destruíram casas mas não questiono o que o exército ucraniano fez, não me queixo disso”. 

O portão vermelho da entrada tem as mesmas cicatrizes do resto da casa, há furos maiores e furos menores feitos pela guerra que ali chegou a 24 de fevereiro e que dali saiu a 29 de março, aquele portão tem ainda um círculo amarelo pintado no canto superior esquerdo, “quer dizer que já vieram ver se há minas aqui em casa e têm a certeza de que não há”, teriam pintado um ponto de interrogação amarelo se a vistoria não tivesse sido feita ou se ainda houvesse dúvidas mesmo com a vistoria já realizada porque há minas tão escondidas que são mais traiçoeiras que as outras - antes e depois daquela casa veem-se muitas interrogações pintadas a amarelo.

Em cima do portão vermelho há uma bandeira intacta, está tão assertiva de tão viva aquela bandeira bicolor de azul símbolo do céu e amarelo representativo do trigo, afinal as balas não atingiram tudo, as balas disparadas da rua em frente e das ruas além não rasgaram o orgulho ucraniano de Ludmila Olekshenko, 70 anos, por isso a única coisa verdadeiramente em pé para quem vê a casa de fora é aquela bandeira, ainda não sabemos nada sobre Ludmila mas já sabemos o que ela sente - uma bandeira viva diante de uma parabólica morta, um sentimento de reconstrução perante um símbolo de destruição.

Ludmila imita a bandeira e decide levantar-se, estava sentada num longo banco de madeira junto ao seu portão, tem à venda um saco de batatas doces: o tradutor que está com a CNN Portugal pergunta quanto é, são dois euros e meio, o tradutor dá-lhe vinte euros, Ludmila está grata mas acha que tem de dar mais coisas, “vou lá atrás buscar uns ovos e uma fruta”, o tradutor diz que não é preciso, que vai pôr aquelas batatas na grelha para comê-las com carne no fim de semana, a família dele vai regressar da Polónia para onde fugiu da guerra e de onde agora vai regressar porque Kiev está mais segura, “20 euros não é nada”, justifica o tradutor, Ludmila guarda o dinheiro, 20 euros é muito para ela, sobretudo agora que cultivar o campo é um ato de coragem - Ludmila aponta para o círculo amarelo no portão, “quer dizer que não há minas na casa mas no campo é diferente, as pessoas têm medo de cultivar o campo porque ainda pode haver minas e tirá-las de lá é um trabalho em curso”, é um trabalho longo, as equipas do Governo estão em Andriivka a desminar as casas mas os campos ainda são território em que a morte se pode fazer detonar aleatoriamente, os russos deixaram minas em todo o sítio e as gentes de Andriivka têm medo de ir cuidar dos seus legumes e cereais naquela terra transformada em roleta russa de explosivos.

Andriivka fica a 60 quilómetros de Kiev, é uma pequena vila situada num enorme descampado, é um gigantesco terreno aberto, foi por lá que uma enorme coluna de russos vindos da Bielorrússia entrou a 24 de fevereiro, “eram 350 veículos”, é o número que Ludmila diz, “350”, depois Ludmila diz mais, “algumas das pessoas daqui ainda pensaram atirar cocktail molotovs mas a coluna militar deles era tão grande, tão grande, eles estavam muito armados”, Ludmila usa os braços e as mãos para fingir que segura uma espingarda, “estavam tão armados que ninguém atirou cocktails molotovs, não dava mesmo”, e os russos continuaram a chegar, “houve quatro ou cinco momentos em que chegou mais gente deles, eram tantos”, tantos soldados e tantos veículos, “depois eles estacionaram os tanques junto às casas daqui”, Ludmila volta-se para trás e aponta para dentro do que foi um quintal que tinha dentro do portão vermelho, “estacionaram ali um tanque também”, do quintal dela resta um pedaço de terra que na verdade é um pedaço de lama, “eles puseram os tanques deles junto às nossas casas e dispararam dali contra o exército ucraniano”, os soldados de Zelensky foram cercando a zona, “e por isso os nossos soldados tiveram de ripostar, teve de ser, os nossos soldados começaram a disparar”.

A disparar contra quê, Ludmila?, contra a sua casa?, “sim”, a disparar contra as casas dos seus vizinhos?, “sim”: Ludmila, vestida com uma espécie de túnica castanho-psicadélica sobre uma camisola rosa e calçada de chinelos floridos em cima de meias azuis, fala com a segurança de um militar experiente, “isto é a guerra”, a casa dela destruída pelas balas de trás e da frente e do lado e de além, “isto é a guerra”, Ludmila sabe quem lhe destruiu a casa, “ambos os exércitos, foi uma batalha, parte do meu telhado ficou destruída, as janelas explodiram, depois choveu muito e como eu não tinha telhado ficou tudo inundado por dentro, ambos os exércitos atingiram as casas daqui”, Ludmila fala serenamente, “ambos os lados atacaram e destruíram mas o exército ucraniano não tinha alternativa, tinha de expulsar os russos daqui, por isso compreendo que eles tenham disparado nesta direção, que tenham atingido as nossas casas”, Ludmila não perdoa é os russos, “estacionaram os tanques junto às nossas casas”, não lhes perdoa terem usado a sua casa como escudo, “era preciso expulsar os russos, os russos é que estacionaram os tanques nos nossos quintais”, há pró-russos que acusam o exército ucraniano de estar a disparar contra casas ucranianas e Ludmila diz que no caso dela foi isso mesmo e ainda bem, “não questiono o que o exército ucraniano fez, não me queixo disso, é normal, compreendemos, eles não tinham alternativa, era preciso expulsar os russos”, ela diz que o Governo vai pagar os danos, já a visitaram para isso.

Os soldados russos escondiam-se no meio das casas e provocavam os soldados ucranianos, conta Ludmila

Ludmila viveu os dias de ocupação na cave, ela e o marido, os russos ordenaram que escrevessem no portão vermelho “aqui há gente”, os russos espalharam-se por Andriivka, ocuparam casas, “uma delas ali”, Ludmila aponta para o outro lado da estrada onde está uma casa queimada, “eles deitaram-lhe fogo ao sair”, quando Ludmila precisava de água ou pão tinha de ir à rua com um pano branco no braço e outro na perna, foi o que os russos ordenaram, Ludmila pedia então o que queria e regressava depois para a cave, “tínhamos batatas, cenouras, ovos, galinhas, muitas conservas, ninguém na minha casa passou fome, isto é uma vila, temos comida, porco, comida congelada, frangos”, só precisou mesmo de pedir pão e água. 

E os russos trataram-na bem, Ludmila?, “sim, ali em frente estavam só russos, não estavam chechenos nem soldados do Kadyrov, ninguém me tratou mal”, e trataram bem os seus vizinhos, Ludmila?, ela não responde logo e depois aponta para o outro lado da rua, para outra casa em frente, “um dos vizinhos foi preso pelos russos, não sei porquê, sei é que ele começou a ficar congelado, sobretudo as pernas e as mãos, ele ficou preso na rua, estava frio, muito frio, ele acabou por ser libertado, ele vive ali, ficou com problemas de saúde, tem cerca de 60 anos”, Ludmila volta a apontar para a casa do vizinho doente. 

Este não foi o caso pior entre os vizinhos de Ludmila: ela aponta para outra das casas em frente, ”eles mataram este vizinho, ele tinha outra casa ali ao fundo”, Ludmila aponta para trás, “ele ficou lá quando os russos chegaram, então ele decidiu sair da casa ali do fundo e veio até esta para ver como estava e eles simplesmente dispararam, depois os russos foram buscá-lo e nunca mais o vimos, quando o exército ucraniano derrotou os russos e os expulsou daqui encontraram o corpo dele perto da vila”, houve outras mortes, “pessoas que passaram por aqui de carro foram assassinadas pelos russos, eles mataram civis que passaram por aqui a guiar”, Ludmila explica que eram civis que não moravam na aldeia, civis porventura em fuga de outros locais, gente que ela não conhecia mas que morreu na estrada dela, mas há mais: “os russos mataram muitos civis no centro, pessoas de Andriivka, os russos tinham uma sede na escola, que fica no centro, era lá que eles prendiam as pessoas e que as matavam, ide lá ao centro, ide lá ver, falem com as pessoas e elas dizem-vos o que aconteceu”, Ludmila despede-se.

Não há quase ninguém nas ruas de Andriivka, o centro está deserto, “os russos mataram muitos civis no centro, ide lá ver, falem com as pessoas”, não há ninguém com quem falar porque as pessoas que se veem estão dentro dos seus muros a reconstruir as casas mas nem todas as casas resistiram com a mesma firmeza, umas morreram mesmo: há casas em estado irrecuperável porque já não são casas mas destroços, os muros caídos e as cinzas tristes são a única memória das casas que foram, mas há casas que aguentaram quase de pé, são nessas que há gente a pintar por cima dos Z e V que os russos grafitaram, são nessas casas que há gente a fazer cimento e a consertar os telhados ou a refazê-los de raiz, Andriivka está agora sob ocupação da reconstrução civil.

No caminho de regresso do centro de Andriivka o tradutor pára o carro junto a um edifício que tem à porta uma foto de Putin com um alvo na cara, tiro ao Putin, um grupo de homens com calças militares afasta-se quando vê o carro do tradutor chegar, o carro não é discreto, o tradutor mandou pintar PRESS à frente e atrás e nos lados e no capô, entretanto uma mulher atravessa a rua, é Iryna Kushnirenko, 50 anos, os óculos dela embaciam e desembaciam enquanto fala, os homens afastam-se, uns para dentro do edifício e outros para dentro de uma carrinha com vidros fumados, arrancam, “ele é muito bom, nunca saiu daqui durante a ocupação, ele ficou aqui", Iryna está a apontar para um dos homens que se afastaram, “ele tentou defender os civis, tentou fazê-lo sem armas, ninguém aqui tinha armas, ele tentou unir as pessoas para elas sobreviveram durante a ocupação, agora ele está a ajudar as pessoas a reconstruir as casas”, ele é o líder político local, não quis falar sobre o que se passou em Andriivka durante a ocupação mas Iryna quer, “muita gente morreu aqui”.

  • Os óculos de Iryna embaciam e desembaciam enquanto fala. Foto: Germano Oliveira
    Os óculos de Iryna embaciam e desembaciam enquanto fala. Foto: Germano Oliveira
  • Um portão tem uma fotografia de Putin com um alvo na cara. Foto: Germano Oliveira
    Um portão tem uma fotografia de Putin com um alvo na cara. Foto: Germano Oliveira
  • Ucranianos e russos destruíram as casas de Andriivka. Foto: Germano Oliveira
    Ucranianos e russos destruíram as casas de Andriivka. Foto: Germano Oliveira

Iryna conta o mesmo que Ludmila descreveu, que os russos ordenaram que ficassem nos abrigos, que usassem panos brancos nos braços e nas pernas e que escrevessem nas portas das casas “aqui há gente”, Iryna fez isso tudo, “depois os russos começaram a roubar coisas, bicicletas e outros pertences das pessoas, muitas pessoas morreram aqui, sobretudo gente nova”, quantas pessoas, Iryna?, “pelo menos 18”, um homem que estava sentado com ela do outro lado da rua já a tinha atravessado e está a ouvir a conversa, “morreram muitas pessoas aqui", diz ele também, “a informação que temos do Governo é que são pelos menos 50", acrescenta ele antes de Iryna retomar os seus factos, "os russos entravam nas casas e matavam, matavam por nada, um dos homens daqui recusou-se a dar o trator e foi morto, outro não deu uma bicicleta e foi morto", Iryna começa a emocionar-se, "há uma rapariga que foi violada e o pai dela tentou intervir, os russos mataram-no a ele e depois a ela, tinha 17 ou 18 anos, eles não eram naturais daqui, vieram morar para aqui um ano antes da guerra, estavam cá só os dois", os mortos ficavam à vista de todos, “durante quatro ou cinco dias não podiam ser enterrados, os russos não deixavam, agora estão todos enterrados no cemitério mas na altura havia cadáveres nos jardins, nas entradas das casas, tudo visível, depois os russos permitiam que os corpos fossem enterrados junto às casas, agora estão todos no cemitério", Iryna explica que os procuradores que estão a recolher provas de crimes de guerra já estiveram na aldeia, “não falaram comigo mas falaram com algumas pessoas".

Iryna vira-se para trás, aponta para longe, “havia um sniper por ali, avisaram-nos que havia um sniper a controlar as nossas casas, eu tinha tanto medo dele”, as lágrimas estão a embaciar-lhe os óculos, “os russos avisaram que este sniper controlava toda a gente, que disparava se nós saíssemos de casa”, Iryna conta ainda que foi criado um sistema de recolher obrigatório, “sempre que escurecia ninguém podia sair, sempre que clareava podíamos sair desde que cumpríssemos as regras - pano branco no braço e na perna”, havia um método para anunciar o início e o fim do recolher obrigatório, “eles disparavam para anunciar que já não podíamos sair e quando amanhecia disparavam de novo”, estes tiros deixaram sequelas em Iryna, "desenvolvi um problema nervoso nos olhos”, não conseguia dormir à espera daqueles tiros, “um problema nervoso nos olhos”, nos olhos quer dizer na saúde mental dela, “estou a ter ajuda psicológica”, aqueles tiros ao escurecer e ao amanhecer fizeram danos mas o sniper também, “tinha tanto medo daquele sniper", os óculos estão embaciados de novo, “tanto medo”, ela continua a sentir-se sob aquela ameaça invisível, ainda vive como um alvo permanente, “estou a ter ajuda”, Iryna emociona-se, vai-se embora.