"Se estiver aqui uma bomba, eu espero que ela expluda". Morreu Jorge Nuno Pinto da Costa
Pinto da Costa

"Se estiver aqui uma bomba, eu espero que ela expluda". Morreu Jorge Nuno Pinto da Costa

"Há uma coisa que jamais levarão do FC Porto: a dignidade". Morreu Jorge Nuno Pinto da Costa. Tinha 87 anos.

Em tempos houve quem dissesse que "é maior a Cedofeita que a Gaia toda". Mas houve um homem que conseguiu ser ainda maior que a antiga e pequena freguesia da baixa do Porto, cidade à qual Jorge Nuno Pinto da Costa deu uma dimensão internacional numa área em que não a tinha: do desporto..

Não é o futebol, é mesmo o desporto. Senão veja-se: hóquei em patins, hóquei em campo e boxe. À exceção da primeira, que tantas alegrias deu (e ainda dá) ao povo português, seria difícil de pensar nas outras duas secções como berço para o dirigente mais titulado da história do futebol mundial.

Pelo meio já tinha jogado de leão ao peito e ouvido o caso Calabote pela rádio. É verdade, o menino que viria a ser a figura maior do FC Porto teve uma breve passagem de jogador de futebol no Sporting... de Coimbrões. Pouco depois viria a testemunhar com os olhos no relvado e os ouvidos no rádio o que acontecia em Torres Vedras e no Barreiro.

No fecho da época de 1958/59, o FC Porto e o Benfica partiam empatados na liderança do campeonato, mas os dragões tinham vantagem no confronto de golos. Terminado o jogo em Torres Vedras, com uma vitória dos azuis e brancos por 3-0, no Barreiro o jogo estendeu-se, e estendeu-se... mas o jovem Jorge Nuno acabaria mesmo por festejar in loco o seu primeiro título. O primeiro de muitos, de tantos.

"[Calabote] é um exemplo dos obstáculos que o FC Porto tem de enfrentar, muitas vezes muito mais difíceis de ultrapassar do que o valor dos nossos adversários. Seis décadas depois não podemos dizer que as artimanhas sejam uma recordação longínqua, porque infelizmente os últimos anos mostraram como há quem persista em jogar por fora", havia de escrever Pinto da Costa num artigo publicado em 2019 na revista Dragões.

Apenas três anos depois desse campeonato, Pinto da Costa chega ao FC Porto como vogal da secção de hóquei em patins. Tinha 25 anos e ainda era solteiro. Tornou-se chefe de secção da modalidade de hóquei em campo três anos depoi,e, em 1967, assumiu a direção do boxe. Ascendeu a presidente do clube, sucedendo a Américo de Sá - que lhe proporcionou a subida, mas com quem acabou desavindo - em 1982 e, durante 42 anos, consolidou o título de eterno presidente do FC Porto. Este é o resumo simplista de um homem que, quer se goste ou se não goste, marcou o futebol português e transformou o FC Porto naquilo que é hoje.

Contudo, fica a dúvida sempre inerente a todo o resumo biográfico: quem era realmente e o que deixa Jorge Nuno de Lima Pinto da Costa, o homem que morreu como o presidente mais titulado e que mais anos esteve à frente de um clube no mundo? A resposta está espalhada pelas declarações provocatórias e nos icónicos discursos, que foi fazendo ao largo de mais de quatro décadas.

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"Se estiver aqui uma bomba, eu espero que ela expluda": o último baluarte do Norte

Quanto a quem era Pinto da Costa, a resposta é complicada, mas ficaram vestígios da sua essência a cada uma das suas intervenções, nas frases icónicas, na luta contra o centralismo e também, pelas inesquecíveis palavras, em março 1994, no velhinho pavilhão das Antas, completamente lotado. A massa associativa reuniu-se em peso, não para assistir a um importantíssimo jogo nas modalidades, mas porque a repartição das Finanças do Porto tinha emitido um auto de penhora do Estádio do Dragão.

Perante um pavilhão a abarrotar de adeptos azuis e brancos, contrapondo provavelmente as normas de segurança mínimas dos novos tempos, Jorge Nuno Pinto Costa começou por dizer: "Peço-vos a maior serenidade, porque acabo de ser informado de que vem a caminho do pavilhão do FC Porto a GNR com o pretexto de que estará aqui uma bomba e, por mim, se estiver aqui uma bomba, eu espero que ela expluda". Das bancadas, ouviram-se gritos, não de pânico ou terror perante um potencial explosivo, mas de multidão em apoteose em apoio incontestável ao presidente que uniu os portistas nos 12 anos que até aí tinham decorrido.

O caso ficou conhecido como a "penhora da retrete" porque, para além do Estádio das Antas, o auto das Finanças estendia-se a alguns anexos que incluíam balneários e a casa de banho dos árbitros. Pinto da Costa aproveitou o ímpeto da tensão entre Fisco e o futebol, depois dos principais clubes terem acumulado dívidas avultadas no início da década, para reforçar uma das suas maiores lutas: o centralismo.

As críticas tinham dois alvos claros - o Estado e a capital: "O que se pretende atingir é se calhar um dos últimos baluartes do norte do país. É se calhar um dos últimos que se nega a vergar a servis, ao poder do centralismo cada vez maior. Façam-no, levem o dinheiro e façam a Expo 98 e façam já a 99 e a mil. Façam-nas todas, mas há uma coisa que daqui nunca levarão, do Norte nunca levarão, da cidade do Porto nunca levarão e do FC Porto jamais levarão, que é a dignidade". 

Em entrevista à TVI, Pinto da Costa explicou, em agosto deste ano, que tinha oito anos quando foi pela primeira vez ver ao futebol. "Fui pela mão de um tio meu que era um grande portista e, a partir daí, ia com regularidade ver os jogos". Já aí sentia que o amor pelo símbolo do dragão ardia e na mesma entrevista atirou entre sorrisos de orgulho: "Nasceu comigo praticamente".

Aos 17 anos tornou-se sócio e oito anos depois virou dirigente dos dragões, depois de ser convidado para fazer parte do gabinete responsável pelo hóquei em patins. Passou ainda pelas modalidades de hóquei em campo e boxe e, em 1975, ascendeu a diretor do departamento de futebol do FC Porto. Em 1980 passou a fazer parte do conselho superior dos azuis e brancos e, dois anos passados, foi eleito presidente do FC Porto.

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"Homens como Pedroto fazem falta em Portugal": o difícil adeus ao "Zé do Boné"

Mas por que e como saltou de diretor do futebol para a cadeira de sonho? O processo ficou conhecido como a "guerra civil azul e branca". As relações entre Pinto da Costa e o então presidente do FC Porto Américo de Sá deterioram-se e Jorge Nuno acabou por ser afastado do clube, a justificação da demissão prendeu-se com o seu estilo agressivo e com os sucessivos ataques a Lisboa. Quem não gostou da decisão do dirigente foi o resto da nação portista, em que se incluía também o treinador e a equipa principal. José Maria Pedroto e o resto da equipa técnica abandonam o clube em solidariedade com Pinto da Costa e 14 jogadores optam por entrar em greve, recusavam meter pé nas instalações do clube e passaram a treinar sozinhos na praia. A solução foi contratar um novo treinador e despachar os líderes do balneário. Américo de Sá reforçou a sua posição como líder do FC Porto, mas, em dois anos, o treinador austríaco Hermann Stessl não foi além de uma conquista da Supertaça. Estamos em 1982 e Pinto da Costa retorna às Antas como 33.º presidente do FC Porto e com a difícil missão de reconstruir um clube de futebol.

No regresso pela porta grande, Pinto da Costa foi novamente buscar José Maria Pedroto e tinha a missão de reestruturar um clube que enfrentava sérios problemas financeiros. Passado um ano conquistou a Supertaça, passados dois, venceu a Taça de Portugal e, com um Pedroto já incapaz de acompanhar a equipa devido a um cancro, perdeu uma final da Taça das Taças. Ao início do terceiro ano de Jorge Nuno como presidente, a 7 de janeiro de 1985, o "Zé do Boné" - como também era conhecido Pedroto - morre.

A mágoa tomou conta da nação portista e do desporto nacional. Passados 30 anos deste dia, Pinto da Costa continuava a recordar o "Zé do Boné" como "um lutador incansável, até na doença que sofreu". "Tinha um lado humano e um enorme sentido de família", disse Pinto da Costa - citado pelo Maisfutebol -, até o embargar da voz o obrigar a parar por momento, para depois retomar: "Homens como Pedroto fazem falta em Portugal".

Nesse mesmo ano, o FC Porto conquista o primeiro campeonato da era Pinto da Costa. No seguinte, os dragões conquistam a Taça dos Campeões da Europa - antiga Liga dos Campeões -, a Supertaça Europeia e a Taça Intercontinental. A vontade de vencer sempre foi um dos principais traços de Jorge Nuno, depois de vencer a Liga Europa e em seguida a Liga dos Campeões, com Mourinho, dizia: “Fizemos do FC Porto o melhor clube da Europa, mas não queremos parar, queremos fazer dele o melhor clube do mundo”. E fizeram, o FC Porto acabou por vencer o campeonato do mundo de clubes.

No total foram sete, os títulos europeus, que pela mão de Jorge Nuno, chegaram ao Museu do FC Porto: para além de os três de 1987; houve a Taça UEFA, Liga dos Campeões e a Intercontinental de José Mourinho e a Liga dos Campeões de André Villas-Boas.

José Mourinho foi mais um golpe de génio de Pinto da Costa. No virar do século, Sporting e Boavista conquistam os primeiros campeonatos e, em resposta, Jorge Nuno, com uma visão distinta, contrata o jovem técnico que tinha sido demitido pelo Benfica e recusado em Alvalade, mas fazia furor no União de Leiria. O resto da história ainda é recente e a maioria deve lembrar-se, com Deco, Maniche, Ricardo Carvalho, Benny Mccarthy, Jorge Costa, Vítor Baía, Bosingwa e Costinha nas fileiras de Mourinho, o FC Porto ganha tudo o que havia para ganhar: Supertaça, Taça de Portugal, I Liga, Taça UEFA e Liga dos Campeões. Só falhou mesmo a Supertaça Europeia, que perdeu em 2003 com o AC Milan, por 1-0.

O dia em que Jorge Nuno Pinto da Costa foi eleito presidente do FC Porto.
  • 2 Taças Intercontinentais (1987, 2004)
  • 2 Liga dos Campeões / Taça dos Campeões Europeus (2004, 1987)
  • 2 Liga EuropaTaça UEFA (2011, 2003)
  • 1 Supertaça Europeia (1987)
  • 23 I Liga / Campeonatos de Portugal (1985, 1986, 1988, 1990, 1992, 1993, 1995, 1996, 1997, 1998, 1999, 2003, 2004, 2006, 2007, 2008, 2009, 2011, 2012, 2013, 2018, 2020 e 2022)
  • 15 Taças de Portugal (1984, 1988, 1991, 1994, 1998, 2000, 2001, 2003, 2006, 2009, 2010, 2011, 2020, 2022 e 2023)
  • 22 Supertaças (1983, 1984, 1986, 1990, 1991, 1993, 1994, 1996, 1998, 1999, 2001, 2003, 2004, 2006, 2009, 2010, 2011, 2012, 2013, 2018 e 2020 e 2022)
  • 1 Taça da Liga (2023)

O poderio do FC Porto acabou por se tornar quase avassalador. Entre 1995 e 99, os azuis e brancos conquistaram o primeiro pentacampeonato do futebol português, ultrapassando assim o até então recorde do tetra do Sporting com o mítico quinteto "Cinco Violinos", feito que o Benfica acabou por igualar em 2017, com Rui Vitória.

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"No meio do grito 'campeões', vamos ignorá-los com o desprezo que merecem os vermes": as polémicas

Jorge Nuno era filho de uma tradicional família burguesa do Norte. Estudou no Colégio Jesuíta das Caldinhas, em Santo Tirso, mas o génio traçado para feitos maiores associado à rebeldia da ideia, culminaram no abandonar dos estudos. Chegou a jogar futebol no Infesta e chegou mesmo a usar a camisola às riscas com o símbolo do leão no Sporting de Coimbrões, mas sem grande sucesso. No FC Porto aconteceu o oposto e os sucessos foram aparecendo, entre eles o feito raro no futebol de ter sido capaz de unir todos os adeptos em torno do emblema.

O que também se foi sucedendo durante a vida de Pinto da Costa foram as polémicas em torno dele próprio, das companheiras e do FC Porto. Do caso Apito Dourado - que resultou no Apito Final -, às bocas aos rivais, nem governos, primeiro-ministros e ministros escaparam às polémicas com Pinto da Costa. Pelo meio, houve ainda o livro "Eu, Carolina" - escrito pela ex-mulher do então presidente do FC Porto -, que expôs vários episódios da vida privada de Jorge Nuno Pinto da Costa e sustentou os casos que decorriam na Justiça.

A 24 de janeiro de 2004, a Polícia Judiciária interceta um telefonema entre Pinto da Costa e António Araújo, nas vésperas de um FC Porto -  Estrela da Amadora. Na chamada telefónica, o empresário falava de "fruta" (nome de código para prostitutas, acreditava a investigação) para ser entregue ao árbitro da partida, Jacinto Paixão. E assim nascia o caso Apito Dourado. O processo transformou-se num escândalo no desporto nacional que acabou por se arrastar durante vários anos. 

Já durante o julgamento, a 1 de dezembro de 2006, a ex-mulher do então presidente do FC Porto, Carolina Salgado, lança o livro "Eu, Carolina", que voltou a inflamar os ânimos e as manchetes dos jornais nacionais. O caso acabou por não dar em nada para Pinto da Costa, mas dele decorreu um novo processo da justiça desportiva, no Conselho de Justiça da FPF, batizado de Apito Final.

Deste novo julgamento, em 2008, o Boavista chegou a ser rebaixado para a II Liga e o FC Porto penalizado com a perda de seis pontos, na época 2003/04, decisão que aos dragões não fez qualquer diferença uma vez que tinham vencido esse mesmo campeonato por diferença pontual superior.

A reação de Pinto da Costa não se fez esperar e surgiu no fim de semana em que o FC Porto acabou por conquistar o segundo tricampeonato da história do clube: “No meio da nossa euforia, no meio da nossa grande vitória, no meio do grito 'campeões', nós vamos ignorá-los. Com o desprezo que merecem os vermes, com o desprezo que merece quem não presta, com o desprezo de quem faz do ódio a sua razão de viver. Nós vamos ganhar, nós vamos continuar a ganhar, porque nós somos unidos".

E não ficou por aqui. “Por mais pontos que façam, por mais milhões que nos levem, por mais que nos hostilizem, por mais que nos esqueçam, nós haveremos de mostrar que daqui nasceu Portugal e que aqui será o baluarte número um da Nação que todos amamos, do Norte esquecido, do Norte perfeitamente hostilizado”, culminou o presidente do FC Porto, reavivando a luta contra a capital: "É no poder local que nós temos de fazer a resistência para com o centralismo cada vez mais absurdo, para com um centralismo que cada vez mais quer fazer de nós os parentes pobres de um Portugal que nós fundámos”.

Apesar das sentenças que tantas páginas de jornais ocuparam, no acórdão final de 5 de julho de 2017, tanto o FC Porto como Pinto da Costa acabaram por ser absolvidos. Os seis pontos também voltaram a ser devolvidos.

Também em 2017, ano em que o FC Porto celebrava o 125.º aniversário, Jorge Nuno voltou a visar os centralismo da capital e a postura dos decisores políticos. O problema foi nunca ter chegado um postal de parabéns ao Dragão vindo de São Bento e Pinto da Costa não perdoou o governo, o primeiro-ministro António Costa e o ministro das Finanças Mário Centeno, ambos conhecidos adeptos do rival da Luz: “Os governos, e este em particular, ignoram todos os clubes menos um. O FC Porto pagou, no ano passado, de imposto 42 milhões de euros. Nem um simples envio de parabéns fez através de qualquer um dos seus membros, nos 125 anos do clube, podia ao menos o seu ministro das Finanças ter mandado a felicitação a um bom cliente.

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"Quero que Benfica perca sempre" e o "espalha brasas injustiçado" de Alvalade: os rivais

Sempre que pôde aproveitou para lançar farpas aos rivais, os tempos de maior tensão entre os três grandes de Portugal ocorreram quando na Luz mandava Luís Filipe Vieira e, em Alvalade, Bruno de Carvalho. Em agosto, em declarações à TVI, revelou que se "dava bem com os dois". "O Luís Filipe Vieira conhecia-o antes de ser presidente do Benfica, porque foi presidente do Alverca e tivemos uma boa relação", começou por recordar, fazendo uma mera ressalva: "Tive uma boa relação que depois, quando foi para presidente do Benfica, se deteriorou e entrámos até em guerra, mas hoje temos uma relação normal".

Já quanto a Bruno de Carvalho, lembrou, que, nos primeiro tempos como presidente do Sporting, era "como dizem agora do Francisco Conceição: um espalha brasas". "Depois começámos a dar-nos muito bem e achava-o muito engraçado, ainda hoje mantemos contacto", referiu, considerando que "foi muito injustiçado", porque "fez uma coisa que o Sporting não tinha nem pensava ter que foi um pavilhão e quando lançou a ideia toda a gente dizia que era maluco, que era impossível".

"O que é certo é que o pavilhão está lá e, na gerência dele, ganhou os títulos todos em todas as modalidades. É um individuo que foi muito injustiçado no Sporting, mas é das pessoas que mais gostei de conhecer", contou.

Há ainda uma semelhança entre Bruno de Carvalho e Pinto da Costa pouco usual no futebol moderno: ambos se sentaram várias vezes no banco de suplentes enquanto presidentes sob o estatuto de delegado de jogo. Jorge Nuno manteve religiosamente esta tradição durante 24 das 42 épocas à frente dos dragões. Na época 1995/96, este hábito deu aso a algo inédito e de certo modo cómico no futebol nacional, porque depois de uma troca de palavras com o então presidente do Sporting Pedro Santana Lopes, em que o responsável leonino disse que Jorge Nuno não se poderia sentar no banco, o dirigente azul e branco disse que então precisava de poltrona. Pedido esse que acabou por ser concedido pela direção leonina e que surpreendeu todos os presentes, ao lado do banco de suplentes lá estava a dita poltrona, como explica na altura um mais jovem Joaquim Sousa Martins, agora jornalista da CNN Portugal/TVI.

Com o Benfica a relação foi mais ácida, sobretudo nas últimas décadas, repleta de piadas sobre o Estádio da Luz ser o "salão de festas" do FC Porto e com recorrentes referências ao "apagão" da época 2010/11 - quando o FC Porto treinado por André Villas-Boas venceu o Benfica por 2-1 no Estádio da Luz, se sagrou campeão e durante os festejos o clube da casa desligou as luzes e ligou a rega.

Tudo começou mal acabaram os festejos, questionado pelos jornalistas logo após os festejos portistas na Luz, Pinto da Costa reagiu ao seu estilo: com ironia, humor e sarcasmo. O presidente do FC Porto começou por reproduzir o som de um galo no telemóvel e à pergunta "como foi festejar um título no balneário do Estádio da Luz", respondeu:  “Foi diferente, porque eu nunca tinha festejado um título às escuras. Foi uma novidade. Conquistar um título, festejá-lo à luz apagada e com um chuveiro, acho que é inédito e foi muito interessante. Foi uma experiência nova e eu julgava que já tinha visto tudo, mas isto nunca. Realmente, de repente fez-se escuro e de repente desatou a chover, mas de baixo para cima. Foi giríssimo, acho que foi muito engraçado”.

Todavia nem sempre a animosidade entre Pinto da Costa e Benfica foi assim.O próprio Jorge Nuno Pinto da Costa reconheceu em variadas ocasiões que "tinha com Fernando Martins uma amizade sincera", ex-presidente das águias entre 1981 e 1987.

"Até ao último dia 25 de janeiro fui sempre um privilegiado ao estar presente nas festas dos seus aniversários, em que ele fazia, como dizia, uma seleção dos amigos. Ter estado até ao último aniversário nessa seleção é uma honra e um privilégio que não esqueço. Era fundamentalmente, e para além de tudo o que se possa dizer, um homem bom e um homem de família. Recordo-o com muita saudade e queria enviar a toda a sua família um grande abraço de pesar e muita amizade", recordou Pinto da Costa, citado pelo jornal Record a 29 de julho de 2013, após a morte do amigo benfiquista. Fernando Martins era o fundador e dono do grupo de hotéis Altis e é por isso mesmo que sempre que pernoita em Lisboa, a equipa do FC Porto fica hospedada no Altis da capital.

Tal como também aconteceu, em dezembro de 2017, depois de o Benfica de Rui Vitória terminar a fase de grupos da Liga dos Campeões com zero pontos, um golo marcado e 14 sofridos. Jorge Nuno reagiu assim: "Acha que o Benfica pode falar de futebol? O Benfica tem de falar de qualquer coisa nem que seja da guerra civil de Espanha. Agora, de futebol é que não pode falar. Então, em cinco jogos tem zero pontos, nunca houve um cabeça de lista do pote 1 que tivesse um score de 1-14 e zero pontos, acha que o Benfica pode falar de futebol? Se fosse ao Benfica até falava da batalha de Aljubarrota, agora de futebol é que não podem falar", ironizou.

Já este ano, em abril, confessou à Rádio Renascença: "Naturalmente que não vou ser hipócrita, em Portugal quero que Benfica perca sempre, mas quando qualquer equipa nacional está a jogar no estrangeiro eu quero que ganhe", disse. O rival Benfica era o alvo preferido de Pinto da Costa e nem Nuno Gomes escapou, como aconteceu em 2004, no Estádio da Luz, quando o presidente do FC Porto optou por adiantar uma conferência de imprensa, culminando numa discussão e nas frases: “Oh Nuno, queres falar primeiro? Senta aqui, oh Nuno”.

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"O meu maior orgulho? Transformei o FC Porto num dos maiores da Europa"

Em abril de 2003, datada em que celebrava o 21.º aniversário como presidente do FC Porto, Jorge Nuno Pinto da Costa, acompanhado pela sua então companheira Carolina Salgado, rumou à Praça de São Bento, no Vaticano, para uma audiência com o Papa João Paulo II. Depois do encontro, o presidente azul e branco não conseguia esconder a satisfação pelo momento: “Foi um sonho que concretizei com muito orgulho”, disse Jorge Nuno. “Nunca escondi que o Papa é uma das figuras que mais admiro e foi com grande emoção que vivi este contacto. Não poderia desejar melhor prenda que esta, no dia em que celebro 21 anos de presidência no FC Porto. Costumava dizer que tinha dois sonhos para cumprir: um era ter uma audiência com o Papa e um novo estádio para o FC Porto. Um já está e outro está a poucos meses de se concretizar. Depois está tudo...", disse o líder dos dragões e, sete meses depois, a 16 de novembro de 2003, lá teve o tão desejado Estádio do Dragão.

Pinto da Costa nunca escondeu que este foi um “momento especial de muita alegria”, lembrando “ele sabia que estava a falar com o presidente do FC Porto e desejou-me felicidades”. Ao Papa, Jorge Nuno ofereceu uma Nossa Senhora em prata com um discreto emblema do clube e uma bola e uma camisola autografadas pelo plantel azul e branco, João Paulo II agradeceu “apertando-me a mão três vezes”, contava o orgulhoso presidente do FC Porto.

E depois da reforma a batalha contra o centralismo morreu? Não, essa foi até ao último suspiro. Em entrevista à Rádio Renascença, em abril deste ano, foi questionado sobre se "ficava mais tranquilo" por saber que tanto o primeiro-ministro, Luís Montenegro, como o líder da oposição, Pedro Nuno Santos, eram portistas e resposta foi ao estilo inimitável de Pinto da Costa: "Todos aqueles que têm sido do FC Porto, de qualquer partido, afastam-se parece que têm vergonha de ser do FC Porto", disse o próprio enumerando somente Manuel Pizarro, ex-ministro da Saúde de António Costa, "que nada tendo a ver com o futebol se assumiu sempre como portista e continuou a acompanhar a vida do FC Porto".

Pinto da Costa a votar nas eleições que o levaram à presidência do FC Porto.

Para além dos discursos intemporais, das picardias contra os rivais e o poder de Lisboa, dos mais de 1.200 títulos a contar com as modalidades, do novo Estádio do Dragão, Pinto da Costa deixa quatro livros, três deles autobiográficos e escritos pelo próprio:

“Largos Dias Têm 100 anos”, publicado em abril de 2004 – sinopse: “[Trata-se] da minha vida desportiva e vocês conhecem-na. Tudo o que está relatado é correto, com exatidão e com verdade. Não haverá muitas surpresas".

“31 Anos de Presidência, 31 Decisões”, publicado em dezembro de 2013 – sinopse: “Haverá sempre uma era pré-Pinto da Costa e uma era pós-Pinto da Costa. Esta é a fibra de um presidente.”

“Até ao Mar Azul”, uma coletânea de textos publicados na ‘Revista Dragões’, publicado em outubro de 2018 – sinopse: “Nenhuma conquista coletiva depende de uma pessoa só, mas uma liderança forte pode fazer toda a diferença.”

“Azul Até ao Fim”, publicado em outubro de 2024 – sinopse: “O primeiro dos meus últimos dias. Sim, o tumor que tem é maligno.”

Livros de Jorge Nuno Pinto da Costa (Fonte: Wook)

No adeus à presidência do FC Porto, Jorge Nuno Pinto da Costa lembrou em várias entrevistas que tinha a consciência plena "não ia puder cumprir o mandato até ao fim" e que ficaram dois objetivos por cumprir: "Quando saísse queria deixar a academia da Maia em bom caminho para funcionar e que o Sérgio Conceição fosse o treinador do FC Porto".

À TVI confessou que o diagnóstico era maligno e que já tinha sido feito há três anos, contou que agora a vida era mais calma e que "o que o alegrou foram os meus amigos": "Uma dúzia e já é muito bom ter uma dúzia de amigos, estão sempre comigo e é um prazer enorme, porque das coisas que eu gosto mais na vida é conviver e conversar".

Para além de tudo isto, falta responder à segunda pergunta do primeiro parágrafo deste artigo: que legado deixa Jorge Nuno Pinto da Costa? Esta é a resposta simples, quer se goste ou se não goste, é inegável a pegada de Jorge Nuno está e vai permanecer por largos anos no futebol nacional e europeu. "O meu maior orgulho foi ter transformado um clube que internacionalmente nunca tinha ganhado nada, num dos maiores da Europa", garantiu o próprio Jorge Nuno Pinto da Costa há TVI, em agosto deste 2024, explicando, de uma vez por todas o segredo para o sucesso de um clube: "O segredo foi conseguir ter a massa associativa e os adeptos completamente unidos à volta do emblema do FC Porto e para mim foi muito importante tê-lo conseguido".

 

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A última grande entrevista

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