Portugal está a perder os médicos de família: o último dia de Alberto Tavares da Costa no SNS

Portugal está a perder os médicos de família: o último dia de Alberto Tavares da Costa no SNS

Jornalista Sara de Melo Rocha

Repórter de imagem Nuno Bayer

Edição de imagem Carlota Paim

Adaptação do vídeo para digital Sofia Marvão

Mais de 1,3 milhões de utentes não têm médico de família em Portugal. E a situação tende a agravar-se: a Ordem dos Médicos contabiliza 8233 médicos com esta especialidade e 40% têm mais de 65 anos

Há 40 anos que o despertador de Alberto Tavares da Costa toca à mesma hora. A rotina começa cedo para este médico de família. É um homem organizado e metódico. No último dia de trabalho não podia ser diferente.

A mesa já está posta. Helena, a mulher, preparou um pequeno-almoço rápido porque Alberto não tem muito tempo para comer. Quinze minutos de manhã, quinze minutos ao almoço.

“Precisas de alguma coisa que eu te traga logo?”, pergunta Alberto. Não é preciso nada mas Helena vai marcar um restaurante para jantarem com a filha mais nova e com o genro. “Vamos comemorar o último dia dos 40 anos do SNS.”

"Hoje é o último dia no centro de saúde"

Quando chega à Unidade de Saúde Familiar (USF) Rodrigues Miguéis, em Benfica, Lisboa, todos ficam atentos. O médico que conhecem há mais de três décadas já não vem na segunda-feira.

Portugal vai assistir a um pico de aposentações de especialistas de medicina geral e familiar até 2024. Este ano, mais de mil médicos de família atingem a idade de reforma. Em 2023 e 2024 podem ultrapassar os 700 clínicos.

“Já temos um milhão e 200 mil portugueses sem médico de família e este pico de aposentações era esperado há muitas décadas”, afirma Nuno Jacinto, presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar.

O governo admite a dificuldade. No mesmo dia em que Alberto Tavares da Costa se despedia do centro de saúde, a ministra da Saúde partilhava os números desta realidade na audição perante a Comissão de Saúde. “Sabem quantos Médicos de Medicina Geral e Familiar estão inscritos na Ordem dos Médicos? 8233. Sabem, porventura, quantos têm mais de 65 anos? Quarenta por cento”, afirmou Marta Temido perante as críticas dos deputados sobre a falta de médicos de família no Serviço Nacional de Saúde.

No dia 30 de junho, Marta Temido esteve no Parlamento para responder às críticas à gestão do SNS

Quem atinge a idade de reforma tem ainda a possibilidade de estender o tempo de serviço até aos 70 anos, mas Nuno Jacinto admite que a maioria vai sair porque os médicos estão cansados. A pandemia foi a gota de água para muitos.

Alberto recupera uma frase que repetiu muitas vezes em casa, junto da mulher e das filhas: “Quando o pai se reformar, a medicina vai bater no fundo”. O médico lembra que após o 25 de Abril, nos anos de 1974 e 1975, houve uma grande entrada de alunos para Medicina que ajudaram a dinamizar o SNS. O médico considera que a entrada na profissão ficou muito estrangulada desde então. Há poucas vagas e só entram os alunos com as melhores médias, mas não são suficientes para preencher todas as necessidades. 

“Isto é dramático. Só formamos 500 médicos de família e não temos capacidade de reter todos”, alerta o presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar. 

Em 2016, António Costa chegou a traçar como objetivo garantir que todos os portugueses teriam médico de família passado um ano. A meta não foi cumprida e já este ano, em plena campanha eleitoral para as legislativas, o primeiro-ministro acabou por reconhecer a falta, argumentando com a escassez de profissionais e a existência de mais utentes.

Mais de 1,3 milhões de utentes não têm médico de família em Portugal. Os dados são do ministério da Saúde e dizem respeito a maio de 2022.

Alberto tem 66 anos e sete meses. Quando recebeu o email da Segurança Social não teve dúvidas. Estava na altura de parar, aproveitar a vida e a família. Passou ao lado das reuniões de pais, do ir levar à escola e trazer para casa, das atividades da escola. Foi a mulher que se encarregou da educação das duas filhas. “Têm de agradecer à mãe e não ao pai.”

A família sabia que, no Natal ou na passagem de ano, o pai podia estar de banco. Saía cedo e chegava tarde. Entre o centro de saúde e as consultas no privado, trabalhou doze horas por dia nos últimos 40 anos, muitas vezes mais. “Agora, vai ser uma grande diferença”, afirma Helena Tavares da Costa. 

Alberto começa as consultas às 10h e termina às 20h. Uma consulta a cada quinze minutos. Tem 1750 utentes e conhece-os a todos. Há uns que mudam de cidade ou emigram e Alberto vai-lhes perdendo o rasto. 

João Abílio, um dos utentes da manhã, está na sala de espera. Ainda nem recebeu senha para a consulta, já Alberto está na porta a chamá-lo. Vai sempre à sala buscar os utentes, não gosta de usar o intercomunicador.   

João dá os bons dias e Alberto já lhe vai perguntando pela família. A neta está na Grécia a fazer Erasmus. O médico pergunta se é a filha do João ou do Márcio. É do Márcio, o mais novo.

Alberto Tavares da Costa acompanhou três gerações da família de João Abílio

João descobriu que está com artroses. Alberto receitou-lhe medicamentos para as dores e quis saber se resultaram. “Às vezes tomo, outras vezes não”. O médico olha por cima dos óculos e João escangalha-se a rir. “É um senhor que é uma simpatia mas como doente é para esquecer.” 

Alberto fica satisfeito por recebê-lo em consulta no último dia de trabalho mas não é por acaso. João marcou consulta com o intuito de desejar uma boa reforma ao médico que acompanhou três gerações da família. “Vai ficar sempre connosco”, diz João. 

A carreira de clínica geral permitiu a Alberto uma grande realização a nível profissional. “Nós somos obrigados a tocar em todas as áreas. O que para mim foi um dos grandes motivos que me levou a escolher a medicina geral e familiar.” 

Conhecer o contexto familiar do doente permite aos médicos entender problemas de saúde mas também sociais, que acabam por influenciar o bem-estar dos utentes.

Alberto admite que muitas consultas não se cingem apenas a passar receitas ou a examinar doentes. Os médicos são assistentes sociais, são psicólogos, são família.

Em quatro décadas de serviço, passou por várias funções, incluindo a de coordenador da USF Rodrigues Miguéis. Foi responsável pela contratação da maioria das pessoas que hoje trabalham no centro de saúde, incluindo o atual coordenador. “O Dr. Alberto foi o médico que me recebeu enquanto recém-especialista. É um médico muito experiente. É sempre com alguma mágoa que o vemos sair” , conta João Pedro Nobre.

"No dia em que o pai se reformar, a medicina vai bater no fundo"

Alberto tem pensado muito sobre os últimos dias de trabalho. Comove-se com as demonstrações de carinho por parte de colegas e utentes. Muita gente chorou quando anunciou que aquela seria a última consulta. Muitos pediram-lhe um abraço à saída. “É uma boa recompensa.”

No último dia de trabalho, esvazia as gavetas, arruma utensílios, dobra a bata branca. Deixa alguns livros na prateleira. “Já não preciso deles”. Abre a porta do consultório que agora vai passar para uma nova médica que fez internato naquela USF. Olha à volta, respira fundo, desliga a luz e sai.

”Comparo à sensação de quando acabei o curso. E agora?” Agora é tempo para fazer exercício, voltar a andar de mota, dar mais atenção à família. “É um dia muito especial para mim. Quero ser feliz.”

 

 

*Artigo atualizado a 21/07 com dados atualizados sobre o número de utentes sem médico de família em Portugal