Portugal envelhecido: desafios e oportunidades de uma população com maior longevidade
Portugal é, atualmente, um país cada vez mais envelhecido. Três fatores explicam esta realidade: o aumento da esperança média de vida, a diminuição da natalidade e a emigração, sobretudo de jovens em idade reprodutiva.
De facto, a esperança média de vida tem vindo a aumentar, e hoje ronda os 81 anos. Após ultrapassarem os 65 anos, os portugueses podem esperar viver, em média, mais 20 anos. A longevidade aumentou – uma ótima notícia, mas seria ainda melhor se viesse acompanhada de um crescimento da natalidade. Contudo, apenas 27% das famílias portuguesas têm crianças e 62% têm somente um filho; 32% têm dois filhos e apenas 6% têm três ou mais. Portugal é, assim, um país de filhos únicos.
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Baixa natalidade: um obstáculo ao equilíbrio demográfico
O número médio de filhos por mulher em idade fértil é de 1,44, um valor insuficiente para contrariar o envelhecimento demográfico, que se tem vindo a acentuar. Em 2023, registavam-se 188 idosos por cada 100 jovens, uma situação que se torna ainda mais impressionante quando recuamos até 1970: nessa altura, apenas 10% da população portuguesa tinha mais de 65 anos, enquanto atualmente esse número ronda os 23%. As projeções indicam que, em 2080, poderá atingir quase 37%. Com efeito, Portugal apresenta um saldo natural negativo desde 2009.
Hoje, as mortes superam os nascimentos no país. A chegada de imigrantes, desde 2019, tem contribuído para atenuar a quebra populacional, mas o índice de envelhecimento continua a subir, sem sinais de abrandamento. Mais de 2,5 milhões de portugueses têm atualmente mais de 65 anos, representando cerca de um quarto da população, e este grupo etário tem crescido a um ritmo de 2% ao ano.
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O desafio demográfico: entre oportunidades e soluções
Embora o cenário seja alarmante, para Alda Botelho Azevedo, demógrafa e investigadora do ICS, autora do estudo “Dinâmicas demográficas e envelhecimento da população portuguesa”, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, é tempo de mudar a perspetiva e encarar o atual quadro demográfico como uma oportunidade para mudar o paradigma.
A especialista explica que, de facto, “somos um dos cinco países do mundo mais envelhecidos” e é preciso procurar soluções. Mas existem vários caminhos para lidar com esta situação, e um deles é mudar a forma como como se mede o envelhecimento. “Continuamos a basear-nos na população com 65 e mais anos, quando isso já nem corresponde à idade estatutária de reforma, que se situa nos 66 anos e 4 meses. Há alguns autores que dizem que o envelhecimento da população não se torna tão sério se, em vez de continuarmos a medi-lo a partir da idade cronológica, ou seja, dos 65 anos, medirmos a partir do tempo em que as pessoas ainda podem viver. Estas duas visões podem ser complementares e as políticas públicas devem, cada vez mais, considerar esse aumento da esperança média de vida”.
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Reforma e longevidade: trabalhar mais e melhor
Alda Botelho Azevedo acredita que a primeira solução para reduzir o impacto do envelhecimento seria “acabar com a barreira dos 65 anos, até porque muitas pessoas com 65 anos não se sentem velhas. Muitas pessoas com 65 anos hoje, felizmente, gozam de muito boa saúde”. Assim, apesar de ser uma medida impopular, que os governos tentam evitar, faz sentido falar no aumento da idade da reforma. Como explica Alda Botelho Azevedo, “a verdade é que, se começamos a ter sinais de envelhecimento cada vez mais tarde, faz sentido que nos mantenhamos ativos até mais tarde”.
Para a demógrafa e investigadora do ICS, manter-se ativo no mercado de trabalho não significa continuar num trabalho a tempo inteiro. “Pode ser apenas a tempo parcial. Se tornássemos o trabalho a tempo parcial mais comum nas empresas, nos diferentes setores em Portugal, provavelmente conseguiríamos reter algumas pessoas que não querem continuar a trabalhar a tempo inteiro, mas não se importam de fazer uma jornada de quatro horas”.
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Como Resolver
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Saúde e qualidade de vida: a chave para um envelhecimento ativo
Mas para que os portugueses se possam manter ativos até mais tarde, é necessário que tenham saúde e acesso a cuidados de saúde. Segundo Alda Botelho Azevedo, “tem de existir uma aposta na especialização em geriatria. Desde logo, nos cuidados primários e nos cuidados hospitalares: precisamos de equipas multidisciplinares, que abordem a pessoa com mais idade de uma forma mais holística. Esta ideia de uma visão mais integrada, não só conduz a uma melhor gestão da saúde das pessoas com mais idade, como também uma otimização de recursos. Depois, nos cuidados continuados, há um trabalho imenso a fazer, porque a oferta é muito reduzida e precisamos muito que essa rede seja alargada”.
Para Alda Botelho Azevedo, a perspetiva de uma maior longevidade deve vir acompanhada de uma boa qualidade de vida. “A maioria da população está no litoral, nas grandes cidades, e assim é também com os idosos. Por isso, precisamos de melhorar as cidades, para que sejam mais amigas dos idosos. Temos de investir na rede de transportes e na reabilitação urbana. Muitos dos idosos residem em habitações que não foram tendo manutenção ao longo dos anos. Isso significa que, se viverem num prédio sem elevador, despejar o lixo é um pesadelo, quanto mais pensarem em ter vida social”. Há que apostar também em jardins, onde “os idosos possam ter contacto com a natureza e encontrarem-se com outras pessoas, para terem uma vida mais ativa. Que seja uma vida mais longa, mas sobretudo uma vida melhor”.
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Aposta na imigração e na juventude: um equilíbrio necessário
Outra solução, para Alda Botelho Azevedo, são saldos migratórios positivos: “nós devíamos ter uma política de imigração consistente, que olhasse para os grupos populacionais que queremos atrair. Precisamos de imigrantes qualificados e menos qualificados, de homens e de mulheres, e de promover a reunificação familiar”. A especialista esclarece que, ao contrário de países como o Dubai, que precisam de imigrantes para trabalhar na construção, e que depois de juntarem dinheiro voltam aos seus países, Portugal precisa de pessoas que fiquem, “que tenham menos precariedade laboral e que ganhem salários melhores, para que possam trazer as suas famílias ou formar cá a sua família. Não nos podemos esquecer que 22% dos nascimentos em 2023 foram de mães estrangeiras, ou seja, mais de um quinto”.
A especialista acredita que apostar na imigração é melhor do que continuar a investir em medidas pró-natalidade, que não têm funcionado. Para Alda Botelho Azevedo, a razão da sua falta de eficácia é simples: deve-se à alteração das prioridades das famílias. “Os estilos de vida alteraram-se. O que a mulher quer hoje é diferente do que aquilo que a mulher queria há 50 anos. Hoje exige-se muito das famílias, em termos de carreiras profissionais, de cuidados à infância e tarefas domésticas. Esta distribuição, em Portugal, continua a estar muito enviesada: recai sobre a mulher a esmagadora carga dos cuidados. Por isso, a mulher pensa primeiro em consolidar a sua carreira e só depois em ter filhos. O que se reflete, por exemplo, na idade média da mulher no primeiro filho, que é bastante elevada”.
Sabendo que a sustentabilidade do sistema de pensões pode ser posta em causa com o atual cenário demográfico, Alda Botelho Azevedo aponta mais uma solução que pode contribuir para equilibrar a balança: a redução da idade de entrada no mercado de trabalho. “É preciso aumentar a taxa de emprego, principalmente nos grupos em que é mais baixa: as mulheres e os jovens. Existem muitos países europeus em que é natural para os jovens, enquanto tiram o seu curso superior, conjugarem os estudos com empregos, mais ou menos relacionados com a área, consoante as oportunidades que têm. Os jovens que o fazem, em Portugal, são aqueles que, infelizmente, precisam disso para poder custear os seus estudos. E isso leva a outro problema, que é o facto de os jovens entrarem no mercado de trabalho sem qualquer tipo de experiência profissional”.
Para ler mais sobre o assunto, saiba que o estudo “Dinâmicas demográficas e envelhecimento da população portuguesa”, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, está disponível para download gratuito, na página: https://ffms.pt/pt-pt/estudos/estudos/dinamicas-demograficas-e-envelhecimento-da-populacao-portuguesa