PME em Portugal: desafios do crescimento e caminhos para o investimento
Portugal é, indiscutivelmente, um país de PME. Atualmente, estas empresas totalizam cerca de 1 milhão e 400 mil, representando quase 99% do tecido empresarial português. A sua importância para a economia nacional é inegável, assim como o papel crucial que desempenham no desenvolvimento do país. Por isso, fomentar o crescimento das PME não é apenas desejável, mas essencial para assegurar a sustentabilidade e o progresso da economia portuguesa.
Em Portugal, uma média empresa emprega entre 51 a 250 pessoas e tem um volume de negócios anual inferior a 50 milhões de euros. Entre 11 a 50 pessoas trabalham no que se considera uma pequena empresa, cujo volume de negócios anual não excede os 10 milhões de euros. Mas a maioria das empresas em Portugal são microempresas, onde trabalham menos de 10 pessoas e o volume anual de negócios é inferior a 2 milhões de euros. Mais de 96% das empresas em Portugal correspondem a esta tipologia, enquanto apenas 0,6% são médias e 3,3% são pequenas.
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A dificuldade no acesso ao financiamento
Sejam médias, pequenas ou microempresas, as PME nascem de boas ideias de negócio. No entanto, para transformar essas ideias em realidade e alcançar os seus objetivos de crescimento, precisam de recursos financeiros. E é precisamente aí que enfrentam um dos seus maiores desafios: o acesso ao financiamento. Quando o capital próprio, normalmente a primeira fonte de financiamento, se esgota, muitas empresas recorrem à banca em busca de soluções. Contudo, esse caminho nem sempre é simples, sendo comum enfrentarem barreiras para obter o apoio necessário.
A verdade é que as PME dominam os mais diversos setores de atividade em Portugal, desempenhando um papel central na vida económica do país. O seu impacto reflete-se diretamente no dia-a-dia da população, uma vez que são responsáveis por cerca de três quartos de todo o emprego nacional. Esta realidade evidencia, de forma incontestável, a sua importância para a economia e para o bem-estar social.
Como ajudar, então, as PME portuguesas a conseguir o tão almejado financiamento, e potenciar o seu crescimento? Para responder a estas questões, falámos com Cláudia Custódio, Professora no Imperial College e Nova SBE, e autora do estudo “O Financiamento das PME Portuguesas”, promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.
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O impacto das crises financeiras no crescimento das PME
Cláudia Custódio explica, desde logo, que não é um problema que o tecido empresarial português seja composto, na sua maioria, por PME: também no Reino Unido e noutros países da Europa se verifica o mesmo panorama, mas com valores diferentes no que se refere aos volumes de negócio. O problema é, de facto, a dificuldade de acesso aos empréstimos bancários, uma realidade que tem oscilado ao longo do tempo. “No seguimento da crise financeira e da crise soberana, a seguir a 2007/2008, houve uma grande dificuldade para as PME acederem a crédito bancário. Houve uma espécie de efeito dominó: os bancos também ficaram afetados e estavam relutantes em financiar, não só PME, mas também grandes empresas”.
Com efeito, em períodos de crise, as PME estão entre as mais afetadas, enfrentando maiores dificuldades no acesso ao financiamento. Segundo Cláudia Custódio, após a crise financeira e da dívida soberana de 2007/2008, foram implementados mecanismos para mitigar esse problema, como as garantias do Estado associadas a programas de certificação das PME. Essas iniciativas representam uma das formas mais eficazes de apoiar estas empresas a superarem desafios e alcançarem os seus objetivos de crescimento.
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Como Resolver
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Transição digital: um passo essencial para a transparência
Cláudia Custódio partilha um exemplo do que pode ajudar neste aspeto: “Temos visto na economia portuguesa uma tendência para uma maior digitalização. Temos, por exemplo, o programa e-fatura: os pagamentos estão a ser feitos cada vez mais de forma digital e isto cria um rasto de informação, que é útil não só para as grandes empresas, mas também para as pequenas empresas”. Deste modo, acrescenta a especialista, “um financiador pode, por exemplo, ver o registo de pagamentos, chegar mais facilmente aos fluxos de caixa de uma empresa e pode assim fazer uma melhor avaliação do risco das mesmas”.
Estas são algumas das medidas necessárias para conseguir uma melhoria na alocação de capitais e para fazer com que as empresas tenham melhores oportunidades de crescimento. Cláudia Custódio partilha que, num inquérito realizado às PME em 2019, cerca de 30% referiu dificuldades ou dificuldades muito graves no acesso a financiamento.
A boa notícia é que, de acordo com os números mais atualizados do World Bank, que a especialista consultou, hoje falamos de uma proporção mais pequena: apenas cerca de 10% das PME tem dificuldades muito graves de acesso a financiamento. Contudo, é essencial continuar a trabalhar para reduzir este número: como diz Cláudia Custódio, “não podemos fazer crescer um país negligenciando este conjunto de empresas”.
Para terminar, Cláudia Custódio enumera algumas formas de resolver o acesso das PME ao financiamento: “tudo o que possa reduzir a tal assimetria de informação entre as empresas e os bancos, como a digitalização de informação e a automatização de pagamentos, por exemplo. Também a melhoria de práticas de gestão e de práticas de gestão financeira, como tornar os gestores destas empresas mais sofisticados, para que a sua interação com as instituições financeiras seja mais facilitada”.
Para uma leitura mais aprofundada sobre o tema, saiba que o estudo “O Financiamento das PME Portuguesas”, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, está disponível, para download gratuito, na página: https://ffms.pt/pt-pt/estudos/o-financiamento-das-pme-portuguesas
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O papel do Estado no apoio às PME
Cláudia Custódio esclarece que “as garantias são uma forma do Estado intervir na economia, dando segurança às empresas em caso de incumprimento. São uma forma de tentar aliviar o risco que os financiadores acabam por suportar, quando emprestam dinheiro às PME. Fizemos um estudo sobre um programa muito específico de garantias, no período pós-crise, e concluímos que resulta”. O programa estudado foi o PME Líder, que segundo Cláudia Custódio, ajudou as empresas a conseguir financiamento a taxas mais reduzidas e teve impacto também em termos de emprego e de exportações. “Houve empresas que começaram a exportar graças a esse programa”.
Segundo a Professora do Imperial College e Nova SBE, e autora do estudo “O Financiamento das PME Portuguesas”, “no período de 2008 a 2013, uma PME típica tinha um custo de financiamento de cerca de 8%, a taxa de juros dos financiamentos era de cerca de 8%, e por via da garantia reduziu 2 pontos percentuais, ou seja, de 8% para 6%. Isto fez com que o investimento, quer em capital fixo, quer em fundo de maneio, tivesse aumentado. Estamos a falar de um aumento de 1% em capital fixo para uma redução também de 1% na taxa de juros, que não são efeitos negligenciáveis. Falando também de exportação, o impacto nas exportações foi bastante significativo: foram aumentos de cerca de 10% para a amostra das empresas que eram elegíveis para o programa”.
Porém, seria ideal que as empresas fossem capazes de dar garantias sem precisarem desse aval do Estado. Para isso, de acordo com Cláudia Custódio, seria necessário reduzir as assimetrias de informação. É preciso combater “a ideia de que os empresários e gestores das empresas sabem mais sobre o valor da própria empresa e sobre as suas oportunidades de crescimento do que os financiadores. Tudo o que possamos fazer para reduzir esta assimetria de informação e que torne o financiamento a estas empresas menos arriscado por parte dos bancos, pode ter um efeito positivo”.