Pedras que curam ou fé inabalável? Bem-vindos ao mundo encantado dos cristais

Pedras que curam ou fé inabalável? Bem-vindos ao mundo encantado dos cristais

Texto Carolina Figueiredo

Edição Teresa Abecasis

Uns acreditam plenamente na sua capacidade protetora e curativa, outros recorrem à ciência e à geologia para apontar as suas fragilidades. Cristais e pedras semipreciosas conquistaram uma fatia importante de uma gigantesca indústria do bem-estar na última década.

A loja Guarujá Esotérico, em Massamá, surge como uma realidade paralela ao mundo lá fora. Paira no ar uma mistura de incensos indecifráveis e, de uma prateleira, ecoa o gorgolejar de fontes luminosas com pequenos budas repousando no topo. Numa estante, tigelas tibetanas e incensos indianos; noutra, estátuas de deuses africanos e defumadores de ervas e resinas. Nem os tradicionais terços católicos são esquecidos. E, claro: uma infinidade de cristais com os respetivos nomes e significados.

Há cristais de todas as formas e tamanhos, e os mais pequenos estão concentrados perto da entrada, numa estante de vários pisos. Cor-de-rosa, azuis, verdes, roxos, vermelhos, multicolores, brilhantes. Todos esteticamente fascinantes, mas são as descrições que os acompanham que fazem a maioria dos clientes deter-se e procurar, nem que seja apenas por mera curiosidade, aqueles com que mais se identificam. “Quartzo rosa: pedra do amor; incentiva e regula as energias emocionais”, lê-se num pedaço de cartão plastificado; “turmalina negra: altos poderes de cura e rejuvenescimento; protege contra energias negativas”, lê-se noutro. Qualquer desejo ou receio, mais ou menos íntimo, pode ser encontrado ali, numa daquelas pedras, dotadas de promessas de cura, proteção, realização.

“As pedras são o que causa o primeiro grande impacto ao entrar na loja”, reconhece Fátima, a gerente do espaço. “As pessoas levam sempre uma pedra ou outra – e porque não?” O preço é acessível (os bestsellers vendem-se ao preço de um café e de um pastel de nata) e “todos precisamos de alguma coisa”. Proteção, dinheiro, saúde.

“As pessoas neste momento estão tão desacreditadas, nestes tempos que estamos a viver, e há que haver um alento qualquer.” É aqui que entra a magia dos cristais – termo apropriado pelo esoterismo para toda uma enorme diversidade de elementos como minerais, cristais e rochas. Vêm nas mais diversas formas, para satisfazer todos os gostos: ou em pedras isoladas (quer em bruto, diretamente da Natureza para a loja, quer polidas pela mão humana), ou ornamentando pulseiras e colares. Não importa a forma, a eficácia é a mesma. Em qualquer dos casos, as pedras prometem ajudar na concretização dos objetivos, quando usadas em consonância com um pensamento positivo e uma fé inabalável.

No entanto, até agnósticos e descrentes se deixam seduzir. Por um lado, por questões estéticas: “algumas pedras até parece que têm vida por dentro, de tão lindas”, afirma Nádia, uma das colaboradoras, com os olhos a cintilar. “Uma vez vi uma opala de tal beleza que parecia que o sol estava lá dentro”. Mas mesmo que desconfiados da autenticidade destas oferendas da natureza tornadas objetos de cura, alguns clientes compram-nas de qualquer modo porque, pelo menos, “mal não faz”. É uma aquisição confortável, da qual só poderão advir duas possibilidades: ou a concretização dos desejos, ou absolutamente nada. Desapontante, mas, ainda assim, inócuo.

  • Medos, ambições, obstáculos. Cada pedra promete atuar em diferentes áreas. O quartzo hialino apresenta-se como purificador da mente e corpo, com especial foco na visão (física, espiritual e intelectual). Fotografias: Adobe Stock
    Medos, ambições, obstáculos. Cada pedra promete atuar em diferentes áreas. O quartzo hialino apresenta-se como purificador da mente e corpo, com especial foco na visão (física, espiritual e intelectual). Fotografias: Adobe Stock
  • Quartzo rosa. Símbolo de amor incondicional, em quaisquer das suas vertentes: romântica, familiar, amor-próprio… ou até o amor pela própria vida
    Quartzo rosa. Símbolo de amor incondicional, em quaisquer das suas vertentes: romântica, familiar, amor-próprio… ou até o amor pela própria vida
  • Quartzo verde. Atua a nível físico e emocional, harmonizando o sistema endócrino e atuando como poderoso antídoto contra desilusões amorosas
    Quartzo verde. Atua a nível físico e emocional, harmonizando o sistema endócrino e atuando como poderoso antídoto contra desilusões amorosas
  • Jade. De reputação milenar, ajuda o utilizador a manter os pés assentes na terra e proporciona uma sensação de confiança e sabedoria ao apurar a intuição
    Jade. De reputação milenar, ajuda o utilizador a manter os pés assentes na terra e proporciona uma sensação de confiança e sabedoria ao apurar a intuição
  • Ametista. Possui propriedades curativas a nível físico. A palavra grega "améthystos" é literalmente traduzida como "não intoxicado", supostamente ajuda a prevenir os efeitos da embriaguez
    Ametista. Possui propriedades curativas a nível físico. A palavra grega "améthystos" é literalmente traduzida como "não intoxicado", supostamente ajuda a prevenir os efeitos da embriaguez
  • Turmalina negra. Amuleto essencial à protecção de energia negativa, repelindo-a e formando uma barreira intransponível entre quem a usa e os demais
    Turmalina negra. Amuleto essencial à protecção de energia negativa, repelindo-a e formando uma barreira intransponível entre quem a usa e os demais
  • Obsidiana. Não é recomendada a principiantes, por desafiar o utilizador a encarar as suas maiores inseguranças e fragilidades
    Obsidiana. Não é recomendada a principiantes, por desafiar o utilizador a encarar as suas maiores inseguranças e fragilidades
  • Jaspe. A intensa cor avermelhada funciona como uma ponte de conexão ao mundo físico e sensorial, simbolizando força e sexualidade
    Jaspe. A intensa cor avermelhada funciona como uma ponte de conexão ao mundo físico e sensorial, simbolizando força e sexualidade
  • Topázio azul. Permite uma conexão com a sabedoria mais íntima e instintiva. A cor azul promove tranquilidade e encoraja o utilizador a aceitar a sua verdadeira personalidade
    Topázio azul. Permite uma conexão com a sabedoria mais íntima e instintiva. A cor azul promove tranquilidade e encoraja o utilizador a aceitar a sua verdadeira personalidade
  • Selenite. Simboliza leveza, liberdade, purificação e uma visão espiritual ilimitada. Serve como depurador de frequências baixas ou negativas, tanto no utilizador como nos outros cristais
    Selenite. Simboliza leveza, liberdade, purificação e uma visão espiritual ilimitada. Serve como depurador de frequências baixas ou negativas, tanto no utilizador como nos outros cristais
  • Citrino. Destila positividade e determinação, para além de sugerir a ideia de crescimento - seja espiritual, financeiro ou emocional
    Citrino. Destila positividade e determinação, para além de sugerir a ideia de crescimento - seja espiritual, financeiro ou emocional
  • Opala. Pedra de forte energia espiritual que atrai o amor e dá uma sensação de paz profunda. Acalma as emoções, desperta a intuição e ajuda a encontrar novas saídas para todos os tipos de problemas
    Opala. Pedra de forte energia espiritual que atrai o amor e dá uma sensação de paz profunda. Acalma as emoções, desperta a intuição e ajuda a encontrar novas saídas para todos os tipos de problemas
  • Pirite. Como a sua aparência brilhante deixa adivinhar, atrai riqueza, prosperidade e sucesso
    Pirite. Como a sua aparência brilhante deixa adivinhar, atrai riqueza, prosperidade e sucesso

Uma cliente interrompe e pergunta, com alguma ansiedade na voz: “têm amazonite?” Tinha dado voltas e voltas à loja, sem sucesso. Não, por enquanto não está disponível, só quando receberem as próximas amostras. “Mas eu preciso mesmo de andar com uma amazonite”, repete a mulher, enfatizando as palavras com gestos das mãos. Há ali uma ao fundo, só que é em forma de pendente. A cliente agradece e dirige-se com passos apressados ao expositor de pendentes. Não se trata de apenas de querer a amazonite, pedra associada ao sistema nervoso e ao fortalecimento da mente. Ela parece “precisar” dela, como se de um medicamento se tratasse.

“As pessoas cada vez mais procuram tudo o que tenha a ver com bem-estar, mas mais voltado para os produtos naturais”, indica Andréia Silva, responsável pela cadeia de lojas Guarujá Esotérico. Desde há “cinco, sete anos”, as pessoas têm-se esforçado por ser “menos materialistas, mais conetadas com a natureza” e também mais recetivas a tratamentos alternativos ou complementares à medicina ocidental. E nestas pedras cintilantes e chamativas encontram um conforto para a mente, conta Andréia.

“Temos aqui muitas situações de pessoas doentes, com problemas graves, e andam com a pedrinha na mão ou levam-na ao coração”, acrescenta Fátima. “Isto, parecendo que não, dá-lhes um pouco mais de alento”. E, ainda mais do que resultados concretos, é em alento e esperança que se baseia o mundo do esoterismo. Concluem: “A necessidade de combater o stress diário, a ansiedade, a incerteza da sociedade atual, leva as pessoas a procurar alternativas, e os cristais tomam cada vez mais importância nesse sentido”.

As peças mais vendidas revelam os medos, as ambições e os obstáculos de quem as compra. A ametista é dos cristais mais vendidos, por estar relacionada com o “chakra coronário” (um suposto centro de energia localizado no topo da cabeça) e proporcionar um poder “curativo, calmante”, tão refrescante como a sua cor roxa intensa. A turmalina negra funciona “como um filtro” de absorção de energias negativas. O citrino e a pirite apontam para o dinheiro e o sucesso profissional. A selenite é a pedra que purifica todas as outras. E o amor surge incorporado no brilho pálido do quartzo rosa.

Uma moda sobretudo feminina

Num dos cantos mais recônditos da loja de Massamá, uma estátua de bruxa, apesar de imóvel, parece avançar em direção ao cliente. Reúne todos os estereótipos dos contos de fadas: chapéu afunilado no topo da cabeça, pele enrugada, nariz aquilino com uma verruga de lado, a face contorcida numa expressão enigmática – talvez sábia, talvez ameaçadora. Numa das mãos, empunha uma tocha sem chama, que de vez em quando é polvilhada com folhas de sálvia para defumar o ambiente. Inicialmente estava à porta da loja, conta Fátima, mas a receção nem sempre era positiva. Os cães passavam e ladravam perante aquela figura curvada, tenebrosa, e os potenciais clientes também se mostravam reticentes. “As pessoas diziam ‘ai, que horror’, e acabámos por mudá-la aqui para trás”. Tudo o que remeta a bruxaria, ocultismo e esoterismo é encarado com receio e, também, algum preconceito. Os cristais acabam por ser uma ponte harmoniosa entre uma força do além, pouco aceite socialmente, e um objeto leve, simples e apelativo.

Ilustração do início do século XX para o livro de Contos dos irmãos Grimm onde se pode ver a imagem estereotipada de uma bruxa. O esoterismo associado às mulheres está presente no imaginário coletivo há bastantes séculos. Imagem: Universal History Archive/Universal Images Group via Getty Images

Homens e mulheres fazem escolhas diferentes. Eles – um público menos expressivo e confortável com o mundo esotérico – preferem pedras escuras, como ónix, hematite e pirite, relacionadas com força, coragem e dinheiro. Usam as duas primeiras em pulseiras discretas; a última, mais brilhante, preferem “esconder num saquinho”. E elas? Fátima sorri. “As mulheres querem tudo e mais alguma coisa”.

Joana Pinto, presidente da Associação Portuguesa de Cristaloterapia, corrobora: o público é esmagadoramente feminino. De facto, desde os primórdios da História que a mulher se vê ligada a arquétipos de bruxa e feiticeira, de “intuição” e “sexto sentido” particularmente refinados. Serão estes apenas lugares-comuns ou terão um fundo de verdade? Joana Pinto não tem quaisquer dúvidas. “Uma mulher nasce curandeira. Ponto. Quando nascemos no sexo feminino, temos uma coisa que nos torna únicas: somos capazes de gerar vida, de criar e de curar. Há uma tendência para a mulher estar com uma ‘antena ligada’, diferente do que acontece com o homem.”

Mulheres ou homens, “todos somos energia”, relembra Andréia. As colaboradoras da loja de Massamá sublinham que é necessário “limpar as vibrações que vamos absorvendo”, caso contrário “vamos acumulando cada vez mais até que acabamos por rebentar”. Neses momentos, uma loja de cristais assume-se como um “espaço seguro” para os clientes. “Há pessoas que vêm cá e se sentem muito bem aqui. Muito protegidas”, reforça Fátima, olhando em redor para a abundância de cristais e de outras “divindades”. E, quando não basta contemplar ou comprar cristais, fala-se com as colaboradoras como se falaria com um psicólogo.

Andréia Silva, na qualidade de responsável por todas as cinco lojas do país, atesta-o sem hesitação: “as pessoas falam sobre tudo, pedem orientação, conselhos. E não têm pudor de nada, mesmo nada”, confidencia, trocando olhares expressivos com as colegas com um sorriso cúmplice. “Sempre aconteceu, mas depois da pandemia ainda mais. As pessoas ficaram muito tempo fechadas e tiveram a necessidade de se expressar, de desabafar, no regresso à normalidade”. Afinal, há coisas que a magia dos cristais não pode proporcionar.

Bem-estar, uma tendência

As celebridades, eternas ditadoras de tendências, ajudam a impulsionar este encanto coletivo pelos cristais. Se antes eram associados à excentricidade dos movimentos hippie e new age das décadas de 60 e 70, hoje fala-se sem tabus daquilo que se tem vindo a tornar muito mais do que um ramo do esoterismo – uma moda, e uma indústria incrivelmente lucrativa. Anya Taylor-Joy exibiu orgulhosamente a sua vasta coleção de cristais num vídeo da Vogue britânica, uns para proteção contra energias negativas e outros para acalmar a ansiedade.

Anya Taylor-Joy mostrou a sua vasta coleção de cristais num vídeo da Vogue britânica. Foto: Axelle/Bauer-Griffin/FilmMagic

Após sofrer um ataque de pânico antes da digressão de 2016, Adele revelou ter recorrido a cristais para combater o medo e conseguir protagonizar um dos melhores concertos da sua carreira. As celebridades recomendam; os fãs e seguidores inspiram-se. “Apercebi-me de que não é apenas uma cena de Los Angeles”, afirma Kim Kardashian ao promover o seu perfume Crystal Gardenia, cujo frasco relembra um pedaço de quartzo. É uma tendência à escala global.

A internet também ajudou a impulsionar este movimento. O mundo virtual tem possibilitado o propagar do conceito moderno de wellness – que, apesar da tradução literal, é muito mais do que apenas “bem-estar”. Como definido pelo Global Wellness Institute, é uma filosofia de vida que pressupõe a harmonia entre as componentes física, emocional e espiritual como ferramenta indispensável à felicidade humana. Para além do exercício físico e das exaustivas rotinas de skincare, são igualmente promovidas ideias previamente desvalorizadas como pseudociências. Fala-se de “energias” e “vibrações” como os fios condutores do universo; relaciona-se bem-estar ou desconforto com o (des)equilíbrio dos chakras; acredita-se que a vida ideal poderá concretizar-se através do pensamento positivo; assume-se orgulhosamente o signo astrológico como bandeira identitária. Todas estas vertentes convergem numa indústria incrivelmente lucrativa e avaliada em triliões de dólares, dentro da qual o mercado dos cristais representa uma generosa fatia bilionária. Rituais de beleza passam a incluir pedras de propriedades quase mágicas. Lojas abundam de clientes em busca de estabilidade, prosperidade, auto-estima – enfim, felicidade, que se pode comprar num pequeno fragmento cristalino.

“As pessoas agora têm acesso a tanta informação que acabam por compreender que isto não é como a dita ‘bruxaria’”, argumenta Andréia Silva, responsável pelas lojas Guarujá Esotérico. Há algumas décadas, a pesquisa autónoma por “cristais” ou “esoterismo” obrigaria à leitura de sites obscuros ou de livros empoeirados; agora, a informação está à distância de um clique. Por exemplo, uma mera pesquisa por “cornalina” no motor de busca Google revela resultados quase exclusivamente relacionados com o seu alegado significado metafísico e não com as suas caraterísticas mineralógicas ou geológicas. Lê-se: é revitalizante, revigorante, estimulante. Na primeira página de resultados, só a Wikipedia a descreve como uma "variedade da calcedónia mineral de sílica colorida por impurezas de óxido de ferro”.

O dragão de Carl Sagan

A cristaloterapia, tal como a maioria das áreas de estudo esotéricas, defende que o mundo existe e opera para lá do que conseguimos apreender logicamente. Joana Pinto, agora cristaloterapeuta de referência em Portugal, enveredou inicialmente pelas ciências médicas – até começar a questionar-se sobre “se haveria algo mais” e decidir “estudar a vida numa vertente mais ampla”. As conclusões das suas pesquisas, garante, alteraram para sempre o rumo dos seus percursos espiritual e profissional. “Há muito, muito mais do que julgamos, a animar o nosso corpo”. Será, então, a visão crua da ciência incompatível com o mundo colorido dos cristais, acessível apenas aos que ousam levantar o véu e descortinar para lá da racionalidade?

Não, não é verdade, vinca Mário Gonçalves, professor de Geologia na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Garante: se realmente existissem evidências, “os cientistas seriam os primeiros interessados” em estudá-las. Não é a ciência que é teimosamente cética; é a metafísica que se recusa a testar as hipóteses que infere, de imediato, como factos. “Se esse tipo de fenómenos existisse, claro que seria estudado sob o escrutínio da ciência”. O problema, continua, é que o esoterismo pretende isentar-se dos critérios de verificação que são, de resto, aplicáveis a qualquer outra ciência. Afinal, “a ciência é um processo contínuo de pôr ideias à prova”, seguindo métodos específicos de verificação e análise. Se não houver forma de testar determinada hipótese, qual dragão na garagem de Carl Sagan, essa hipótese não pode ser cientificamente considerada.

Mário Gonçalves destaca o papel da internet na propagação da mensagem da cristaloterapia, sobretudo durante a pandemia, uma altura “particularmente difícil” e introspetiva. Foto: Adobe Stock

Algumas afirmações da cristaloterapia são puramente baseadas na fé; na crença imperturbável de quem a ela recorre. Outras, porém, dizem-se baseadas em estudos que (alegadamente) detetaram a “energia” do cristal com máquinas de ressonância magnética e que comprovaram a sua interação terapêutica com o corpo humano. O geólogo confessa, com algum humor na voz, já ter pesquisado algumas destas investigações. Os resultados? Estudos conduzidos por uma só pessoa, ou por uma equipa reduzida numa única parte do mundo. Conclusões inferidas a partir de um único estudo. Materiais que subitamente desaparecem ou ficam inutilizáveis. “Há sempre umas dificuldades tremendas que levam a que seja difícil” testar estas teorias, “mesmo que nós queiramos ou tenhamos o espírito o mais aberto possível para o fazer”.

E depois há a ciência empoeirada, estagnada algures no passado. O esoterismo orgulha-se muitas vezes de seguir os mesmos procedimentos e tradições terapêuticas aplicados em civilizações ancestrais, como a egípcia. “A ciência, desde então, evoluiu imensuravelmente”, faz notar Mário Gonçalves. Fenómenos naturais viram-se fundamentados; monstros marinhos e criaturas tenebrosas do imaginário dos Descobrimentos deixaram de fazer sentido à medida que o conhecimento geográfico e faunístico evoluía. “Este tipo de afirmações, muito fora do que é o conhecimento científico atual, necessita de um fundamento que não seja o mesmo que seria há séculos, quando, digamos, ainda se estava a descobrir a eletricidade”. A percepção do mundo muda – “e deve mudar” - de acordo com o renovar e o alargar do conhecimento científico.

O professor destaca outro ponto importante: o invocar de “áreas científicas extraordinariamente complexas”, defende, é muitas vezes usado como escudo de conhecimento e argumento de autoridade, que o “comum dos cidadãos” não consegue rebater por não compreender profundamente. Como refutar afirmações de que a física quântica legitima o poder terapêutico dos cristais se a física quântica é tão pouco compreendida por não-especialistas?

O poder da mente

O interesse pelas propriedades metafísicas dos cristais não é um fenómeno recente, apesar do revigorado interesse coletivo. É, pois, uma das inúmeras formas de manifestação de algo indissociável à experiência humana: a tentativa de explicar e de obter orientação face ao desconhecido. Os antigos egípcios decoravam os túmulos dos faraós com escaravelhos-sagrados, produzidos a partir de rochas e minerais como jaspe, serpentina e basalto, para assegurar a ressurreição do regente. A comunidade indígena Maori, nativa da Nova Zelândia, ainda hoje valoriza as “pounamu” (ou pedras verdes, entre as quais se incluem jade ou serpentinito) como talismãs que promovem qualidades como prosperidade, harmonia e força interior. E, falando em jade, é obrigatório referir a cultura chinesa: desde os primórdios desta civilização (e até à contemporânea Medicina Tradicional Chinesa), o jade sempre foi conotado com pureza, integridade moral e até imortalidade. Afinal, “ouro tem um preço, mas jade é incalculável”, como já ditava um ancestral provérbio chinês.

Até ao momento, nenhum estudo conseguiu comprovar que a composição química, cor ou ressonância dos cristais tenham qualquer impacto no corpo humano. As investigações científicas que partem à descoberta de elementos metafísicos como chakras – alegadamente, os centros de energia do corpo humano – têm sido igualmente infrutíferas. Mas um estudo de 2001, liderado por Christopher French na Universidade de Londres, teve resultados mais surpreendentes: a crença em cristais parece, de facto, proporcionar um efeito benéfico nos utilizadores. Será a magia dos cristais e da sua “energia” curativa? Talvez não. A magia do efeito placebo e da sugestão da mente? Bem mais provável.

“Os investigadores descobriram que os efeitos reportados por aqueles que seguravam cristais falsos enquanto meditavam não eram diferentes dos efeitos reportados por aqueles que seguravam cristais verdadeiros”, lê-se no relatório publicado pela Universidade. Ainda assim, “aqueles que acreditavam no poder dos cristais (como medido por um questionário) tinham duas vezes mais probabilidade de sentir efeitos do que os não-crentes”. O elemento-chave aqui é a fé, não a ciência. Ela parece ser suficiente para produzir efeitos em determinadas pessoas. E, para a maioria dos crentes, isto basta.

“É o que nos salva: o pensamento positivo”, afirma Fátima, acarinhando com os dedos a pulseira de selenite que lhe adorna o pulso. “Só não conseguimos aquilo que não queremos, porque a nossa mente é incrivelmente poderosa”. E os cristais, pequenos fragmentos de natureza onde se depositam esperanças, sonhos e ambições, “claro que ajudam a atingir os objetivos”.