Pai e filho dão aulas da mesma disciplina e na mesma escola: "Aqui, sou o filho do professor Vítor!"
Vítor e Nuno são pai e filho e dão aulas na mesma escola

Pai e filho dão aulas da mesma disciplina e na mesma escola: "Aqui, sou o filho do professor Vítor!"

“Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades

para a sua produção ou a sua construção.”

Paulo Freire

Reportagem: Manuela Micael. Fotografia: Sérgio Miguel Santos 

Legenda

Vítor conhece bem cada recanto da Escola Secundária Leal da Câmara, em Rio de Mouro. Circula nos corredores como quem anda entre divisões da própria casa. Sobe as escadas com as certezas de quem sabe de cor quantos degraus tem de escalar. Cumprimenta alunos e assistentes operacionais como quem cumprimenta os vizinhos.

- Alguma sala livre para conversar com estes senhores? – pergunta à assistente operacional à porta de entrada do pavilhão.

- A cinco professor! Hoje de manhã não há lá aulas e estão à vontade. A five!

- É a sala onde costumo dar aulas – explica – Daquele lado é a minha “oficina”. Depois se quiserem, vamos lá fazer uma visita.    

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De técnico de som na RTP a professor de Informática

Vítor Alves, 61 anos, foi parar ao ensino por acaso, há mais de 30 anos. Desses anos todos, só um não foi vivido aqui.

Começou a trabalhar aos 18 anos, na Central de Cervejas, no Cacém, enquanto tentava dar a volta ao Francês que tinha deixado pendurado no 12.º ano. Depois, veio a faculdade, a tropa (“não pedi adiamento…”) e, depois do serviço militar, um curso de formação na RTP.

“Acabei o curso na RTP e nunca mais me chamavam para trabalhar. Fui dar aulas. Comecei a dar aulas em setembro de 1987. Estive um mês e meio a dar aulas de eletrotecnia ao ensino básico. Mas, entretanto, chamaram-me para a RTP e os números falaram mais alto. Trabalhei dois anos como operador de som na RTP. Os números voltaram a falar mais alto e fui trabalhar para uma empresa de informática. Entretanto, terminei o curso de eletrotecnia no ISEL”, recorda.

Aos “25 aninhos”, era diretor técnico de uma empresa e estava num ponto alto da sua vida profissional. Mas veio a Guerra do Golfo, que arrastou muitos países para uma crise económica e muitas empresas para a falência. Foi o caso da empresa onde trabalhava.

“Tinha acabado de casar e a minha mulher estava desempregada. Havia falta de professores nessa altura. Eu sempre gostei de ensinar, mas nunca tinha encarado isto como uma opção. Abriu uma vaga aqui na Leal da Câmara, ao pé de casa, com um horário que parecia que tinha sido feito para mim. Concorri e fui contratado. Fui ficando a contrato, porque naquela altura não havia grupo recrutamento de informática ainda. Ao fim de seis anos, lá abriu o grupo de informática e efetivei”, relata.

Vítor Alves dá aulas na Escola Secundária Leal da Câmara, em Rio de Mouro, há mais de 30 anos. (Sérgio Miguel Santos/CNN Portugal)

Só no ano em que efetivou é que esteve a dar aulas noutra escola. Em todos os outros, atravessou diariamente os portões da escola de Rio de Mouro. Agora não quer outra vida, garante que não se arrepende e até pondera ficar para além da idade de reforma: “Eu gosto de ensinar. Quando sinto que do outro lado estão a aprender então… Agora não estou nada arrependido. Tive algumas oportunidades para sair e não o fiz. Quando chegar a hora da reforma, se calhar vou continuar. A minha mulher é mais nova do que eu. Eu reformo-me e ela continua a trabalhar. O que é que eu vou fazer para casa?”.

É ao lado do filho Nuno que Vítor desfia o rosário da vida. É ao lado do colega Nuno que recorda a vida como professor. Nuno e Vítor dão aulas na mesma escola e fazem parte do mesmo grupo de recrutamento. O filho Nuno dá aulas de TIC (Tecnologias da Informação e da Comunicação) aos alunos do ensino básico. O pai Vítor dá aulas de Informática aos alunos do secundário e do ensino profissional.

Nuno (à esquerda) dá aulas de TIC aos alunos do Ensino Básico. Vítor (à direita) dá aulas de informática ao Secundário e Profissional. (Sérgio Miguel Santos/CNN Portugal)

 

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"Nunca fui um aluno de estudar muito"

Também Nuno, que nem queria prosseguir os estudos quando acabou o 12.º ano, foi parar ao ensino por acaso. Também ele conhece os corredores da Leal da Câmara como a palma da própria mão. Foi aqui que fez o ensino secundário.

“Não é que não gostasse de estudar, mas nunca fui um aluno de estudar muito, sempre fui um aluno médio”, recorda.

Terminou a licenciatura em Multimédia, em julho de 2019. Em dezembro, começou a trabalhar numa empresa de consultoria, mas veio a pandemia e os contratos não foram renovados: “Fiquei outra vez desempregado. O meu pai disse-me ‘já que não estás a fazer nada, ao menos vai dar aulas’”.

Concorreu a uma oferta de escola e ficou colocado no mesmo estabelecimento em que tinha sido aluno e onde o pai sempre foi professor. Em plena pandemia.

“Dei aulas a sétimos, nonos e dois profissionais. Quando acabou o ano letivo, o meu pai sugeriu que eu fosse fazer o mestrado em ensino”, recorda.

Nuno Alves, 29 anos, dá aulas na escola onde foi aluno do Ensino Secundário. (Sérgio Miguel Santos/CNN Portugal)

 

  • Vítor Alves tem 61 anos e dá aulas na Escola Secundária Leal da Câmara, em Rio de Mouro, há mais de 30 anos. (Sérgio Miguel Santos/CNNPortugal)
    Vítor Alves tem 61 anos e dá aulas na Escola Secundária Leal da Câmara, em Rio de Mouro, há mais de 30 anos. (Sérgio Miguel Santos/CNNPortugal)
  • Além de dar aulas, Vítor é responsável pelo sistema informático do agrupamento. (Sérgio Miguel Santos/CNNPortugal)
    Além de dar aulas, Vítor é responsável pelo sistema informático do agrupamento. (Sérgio Miguel Santos/CNNPortugal)
  • Vítor confessa que, mais do que orgulho por ver o filho seguir-lhe as pisadas, sente alívio por vê-lo "orientado na vida". (Sérgio Miguel Santos/CNNPortugal)
    Vítor confessa que, mais do que orgulho por ver o filho seguir-lhe as pisadas, sente alívio por vê-lo "orientado na vida". (Sérgio Miguel Santos/CNNPortugal)
  • Nuno regressa aos bancos da escola onde foi aluno e o pai era professor. (Sérgio Miguel Santos/CNNPortugal)
    Nuno regressa aos bancos da escola onde foi aluno e o pai era professor. (Sérgio Miguel Santos/CNNPortugal)
  • Em casa, Vítor e Nuno garantem que não falam da escola. (Sérgio Miguel Santos/CNNPortugal)
    Em casa, Vítor e Nuno garantem que não falam da escola. (Sérgio Miguel Santos/CNNPortugal)
  • Vítor apresenta a sua "oficina", na Escola Secundária Leal da Câmara, onde vêm parar todos os computadores do agrupamento que avariam. (Sérgio Miguel Santos/CNNPortugal)
    Vítor apresenta a sua "oficina", na Escola Secundária Leal da Câmara, onde vêm parar todos os computadores do agrupamento que avariam. (Sérgio Miguel Santos/CNNPortugal)
  • Vítor e Nuno são pai e filho e dão aulas na mesma escola. (Sérgio Miguel Santos/CNNPortugal)
    Vítor e Nuno são pai e filho e dão aulas na mesma escola. (Sérgio Miguel Santos/CNNPortugal)
  • Vítor e Nuno junto ao armário onde estão expostos os aparelhos eletrónicos mais antigos do agrupamento. (Sérgio Miguel Santos/CNNPortugal)
    Vítor e Nuno junto ao armário onde estão expostos os aparelhos eletrónicos mais antigos do agrupamento. (Sérgio Miguel Santos/CNNPortugal)
  • Vítor e Nuno competem para ver quem é mais paciente com os alunos. (Sérgio Miguel Santos/CNNPortugal)
    Vítor e Nuno competem para ver quem é mais paciente com os alunos. (Sérgio Miguel Santos/CNNPortugal)
  • Vítor e Nuno dão disciplinas do mesmo grupo de recrutamento, mas a níveis escolares diferentes. (Sérgio Miguel Santos/CNNPortugal)
    Vítor e Nuno dão disciplinas do mesmo grupo de recrutamento, mas a níveis escolares diferentes. (Sérgio Miguel Santos/CNNPortugal)
  • Vítor e Nuno são pai e filho e dão aulas na mesma escola. (Sérgio Miguel Santos/CNNPortugal)
    Vítor e Nuno são pai e filho e dão aulas na mesma escola. (Sérgio Miguel Santos/CNNPortugal)
  • Nuno diz que não consegue tratar por tu aqueles que foram seus professores e agora são seus colegas. (Sérgio Miguel Santos/CNNPortugal)
    Nuno diz que não consegue tratar por tu aqueles que foram seus professores e agora são seus colegas. (Sérgio Miguel Santos/CNNPortugal)
  • Nuno foi parar ao ensino por acaso e agora vê-se numa sala de aula até à reforma. (Sérgio Miguel Santos/CNNPortugal)
    Nuno foi parar ao ensino por acaso e agora vê-se numa sala de aula até à reforma. (Sérgio Miguel Santos/CNNPortugal)

Nuno descobriu o gosto pelo ensino e confirmou o prazer de colaborar com a comunidade escolar. Quando era aluno no secundário, pertencia ao Núcleo de Produção, um grupo extracurricular que organiza e apoia eventos no agrupamento no que diz respeito aos meios multimédia. “Era muito ativo e adorava! Agora sou um dos coordenadores do grupo, como professor. Tenho outras responsabilidades. Mas não só isso, também tenho sido mais participativo nas atividades da escola”, diz envaidecido.

Além do Núcleo de Produção, colabora com o projeto Escola Embaixadora do Parlamento Europeu. Conta, divertido, que “às vezes são oito da noite e a minha mãe a ligar-me a saber onde é que eu ando, porque quer jantar e eu ainda estou na escola”.

“Isto passa. O voluntariado passa. O cansaço vem e a vontade de fazer voluntariado passa”, interrompe o pai.

Nuno confessa que não consegue tratar os professores que lhe deram aulas e agora são seus colegas por "tu". (Sérgio Miguel Santos/CNN Portugal)

No corredor, Nuno cruza-se diariamente com colegas que, em tempos foram seus professores. Ainda não consegue tratá-los por tu. “Já tive uns dois ou três professores que me dizem ‘podes tratar-me por tu’. Não consigo. Não consigo, porque é a força de hábito. Às vezes, antes de chegar ao pé de uma pessoa, tenho de pensar ‘ok, qual é que é o nome?’. Então, vamos chamar pelo nome, porque senão eu corro todos a ‘stor. Chego ao pé deles e digo: ‘então, stor?!’”, brinca.

- E tu não apanhaste coisas como eu apanhei, que entrava na escola e vinha o funcionário ‘oh menino?! Onde é que vai?!’ e eu tinha de esclarecer ‘eu sou professor’!
- Aqui não, porque me conhecem. Sou o filho do professor Vítor!

Nuno diz que ainda é conhecido na escola por "filho do professor Vítor". (Sérgio Miguel Santos/CNN Portugal)

 

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"O que me cansa mais é a burocracia"

Nuno tem 29 anos e a reforma ainda está longe. Mas confessa que o acaso se revelou uma paixão e que a intenção é de ficar no ensino até ao último dia de trabalho. É um professor atento e exigente.

“Já tive problemas de ter dado negativa a um aluno e os pais vieram falar com o diretor de turma a perguntar porque é que o filho teve negativa. Tento colocar alguma pressão para os alunos fazerem as coisas. Mas, no final do dia, não posso fazer nada. Se eles não quiserem fazer, não posso fazer nada”, lamenta.

Diante de um corpo docente envelhecido e de muitos que foram seus professores, por vezes, bate alguma insegurança: “O meu maior medo quando comecei a dar aulas era que as minhas notas fossem muito diferentes das dos meus colegas. Que os meus alunos tivessem 5 a tudo e 2 a TIC. Felizmente, isso não aconteceu. Os bons alunos são bons a tudo…”

“Tento ser um professor de ter alguma coisa para fazer”, resume Nuno.

“És um chato...”, provoca o pai.

“Admito. Sou um chato”, responde o filho.

Recém-chegado à carreira, Nuno já identifica a burocracia como um dos grandes problemas da profissão. (Sérgio Miguel Santos/CNN Portugal)

Nem tudo é um mar de rosas e Nuno aponta defeitos ao sistema de ensino que são velhas queixas dos professores: “O que me cansa mais é a burocracia. Tanto eu como o meu pai não gostamos de burocracia”.

“E tu não és diretor de turma. Se fosses…”, responde-lhe o pai.

Se Vítor tem poucos alunos, porque tem no horário um peso significativo de componente não letiva, uma vez que é o responsável pelo sistema informático de todo o agrupamento, Nuno tem “uns 300 ou 400”. Confessa que não sabe o nome de todos: “Não consigo. Sei os nomes dos bons e dos maus. Os outros tenho de olhar para fotografia”.

“O nome dos maus é impossível de esquecer. E o dos bons alunos também. Os bons alunos são os que nos desafiam sempre a aprender mais”, justifica Vítor Alves.

Em casa, não se fala da escola, numa espécie de acordo tácito. “Quando muito, um desabafo ou outro sobre o comportamento de um aluno”, sublinha Vítor Alves.

“Nem sei se ele prepara aulas ou não. Não me meto. E ele nunca me pediu ajuda”, acrescenta.

Na escola, não deixam de ser pai e filho, mas garantem que são sobretudo dois colegas. Ainda assim, conta Vítor que há quem lhe venha fazer queixas do filho: “Já recebi recados de colegas que a mim me incomodam. Colegas que me vêm dizer ‘o teu filho está a dar esta matéria ou aquela e o que é que eu dou para o ano?’”.

“Eu digo sempre que não tenho nada a ver com isso. Há programas para dar, mas cabe ao professor decidir como os vai dar. E depois, há insegurança de pensarem que os alunos gostam mais de um professor do que do outro, sabe?”, acrescenta Vítor.

Mais do que ter orgulho de o filho lhe ter seguido as pegadas, Vítor diz ter “orgulho de o ver com a vida orientada”. “Tenho dois filhos. Cresceram com computadores em casa. São os dois da área informática. O mais velho trabalha numa empresa e o Nuno veio para esta vida”, acrescenta.

Vítor e Nuno dizem que raramente falam da escola quando estão em casa. (Sérgio Miguel Santos/CNN Portugal)

 

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Os "sapos" que um professor tem de "engolir"

Vítor diz que está a entrar numa fase da vida em que valoriza mais a qualidade de vida e a possibilidade de ir almoçar todos os dias a casa com a mulher do que a conta bancária recheada. Mas lamenta que o trabalho de um professor não seja “valorizado pelo sistema”. “Um professor trabalha ao sábado e ao domingo”, alerta.  

Nuno garante que também não é de “ligar aos números”: “É óbvio que tenho de olhar para o que ganho, mas tento não olhar para o salário”.

É prontamente interrompido pelo pai: “Não ligas porque estás em casa dos pais e não pagas renda… se tivesses de comprar uma casa, não pensavas assim”.

Se Nuno garante que tem “mais paciência para os alunos e para as atitudes dos alunos”, o pai lamenta que “a bitola dos comportamentos” esteja a descer. “Há 30 anos, quando eu entrei no ensino, os alunos eram mais adultos. Tinham a mesma idade, mas eram mais maduros”, assegura.

Nuno concorda que um professor “tem de engolir muitos sapos” e, se tem “turmas muito certinhas”, tem outras “onde basta um aluno ou dois” para “estragar o resto da fruta”.

E há sempre um dilema que se lhe levanta: “quem vamos deixar para trás. Os melhores ou os problemáticos?”.

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