Octávio Machado, "mister" dos bombeiros de Palmela: “A única coisa que eu quero que lhes falte é o fogo para apagar”

Octávio Machado, "mister" dos bombeiros de Palmela: “A única coisa que eu quero que lhes falte é o fogo para apagar”

Texto Maria João Caetano

Fotografia Miguel Mateus

Octávio Machado está sentado num canto, de olhos postos no chão. Está cansado. A barba por fazer, o cabelo desgrenhado, as olheiras profundas. Não tem dormido, praticamente não tem ido a casa, tem o telefone sempre ligado e há sempre alguém a precisar de lhe falar. Só esta sexta-feira de manhã é que conseguiu, finalmente, sentir-se um bocadinho mais aliviado. “Há sempre reacendimentos, há o vento, não consigo ainda ficar completamente descansado, mas as notícias desta manhã são animadoras.”

O homem que se tornou conhecido como jogador de futebol - começou a jogar, precisamente, no Palmelense Futebol Clube, ainda jovem - e depois como treinador, tendo ajudado o FC Porto e o Sporting a conquistar alguns títulos, voltou a aparecer nas televisões nos últimos dias, dando a cara pelos Bombeiros Voluntários de Palmela, de que é presidente há 27 anos. “Isto é algo que já vem de família. O meu avô foi comandante interino; no início da associação, o meu pai e o meu tio estiveram no primeiro corpo ativo; portanto é uma paixão de muitos anos. Não conseguimos desligarmo-nos disto”, conta Octávio Machado, de 73 anos, explicando a sua ligação a uma atividade que, quando tudo corre bem, não é notícia, e é assim que se quer que seja.

Octávio nunca foi para a frente do fogo. O seu combate faz-se de outras maneiras: “Eu trato da parte logística, a parte operacional é com o meu comandante. Sempre foi assim. Quer estejam aqui ou noutro lado qualquer. É fundamental os homens estarem no terreno e saberem que têm na retaguarda alguém que está preocupado com eles. A única coisa que eu quero que lhes falte é o fogo para apagar. Porque o resto não lhes vai faltar nada, em apoio, em logística, se depender de mim nada vai faltar aqui a ninguém”.

O problema é que nem tudo depende dele, há coisas que não controla. Quando o incêndio de Palmela teve início, por volta do meio-dia de quarta-feira, o presidente dos bombeiros foi o primeiro a pedir meios aéreos. “O pedido de meios aéreos, numa primeira intervenção, foi recusado. Não me venham com subterfúgios e habilidades comunicacionais. Comigo, não. Quando peço uma coisa e não me dão, é recusado”, desabafa. “Agora, podem ser dadas justificações. Muito bem. Mas a justificação que é dada para a recusa é que não havia meios disponíveis. E isso é triste. Perante este estado todo de alerta, sabendo-se as previsões meteorológicas, sabendo-se que esta é uma zona com uma orografia complexa, com habitação rural dispersa, com parque natural. É triste não ter havido essa prevenção.” 

O homem que se tornou conhecido como jogador de futebol é presidente dos Bombeiros Voluntários de Palmela há 27 anos. Foto: Miguel Mateus/CNN

No quartel dos bombeiros, o ambiente agora é mais calmo. Muito diferente do que aconteceu nos últimos dias. Praticamente terminada a operação, é preciso redistribuir todos os bens doados e que não foram necessários. Um monte enorme de garrafas de água, pacotes de bolachas, sacos de maçãs e laranjas, caixas de mangas, pacotes de sumo e de leite. Estão a ser contactadas outras corporações de bombeiros e associações do concelho para que tudo chegue a quem precisa e nada se estrague. “É nestes momentos que é reconfortante para nós, não o que se passa lá fora, não a destruição, mas a onda de solidariedade da população para com os bombeiros portugueses”, diz Octávio Machado, sublinhando, neste caso, as muitas ofertas das grandes cadeias de supermercados.

Vontade de ajudar e uma certa dose de loucura

Os bombeiros de Palmela têm mais de 70 operacionais, cerca de metade são profissionais, “mas são todos voluntários”, explica o presidente, “porque, acabando o seu horário de trabalho, depois fazem piquetes de voluntariado”. No incêndio desta semana, contaram com a ajuda de muitos outros operacionais: vieram de Lisboa, Santarém, Beja, de corporações vizinhas como as de Setúbal ou Pinhal Novo. No total, estiveram no “teatro de operações” mais de 500 elementos. “Uma coisa que para mim não é surpresa: a solidariedade das pessoas e a complementaridade entre equipas. Este dispositivo que tem como base os bombeiros, embora tenha outras forças, responde sempre”, afirma Octávio Machado.

À frente da corporação está João Guerreiro, de 36 anos, um homem forte, de barba cerrada. Quando chega ao quartel, vindo de uma ronda pelo terreno, são muitos os que o abraçam, outros tantos os que ele quer abraçar. Trocam-se “obrigados” e existe uma sensação de dever cumprido. Mas o comandante não baixa a guarda: nesta sexta-feira, ainda havia bombeiros de prevenção em vários pontos do concelho. “A situação ainda não está totalmente resolvida, nós mantemos os nossos meios empenhados no teatro de operações, em vigilância e também no rescaldo de alguns pontos quentes no local. Só quando todos os meus operacionais estiverem de volta ao quartel é que poderei descansar”, diz.

  • Mesmo depois de terminado o combate às chamas, o comandante João Guerreiro não baixa a guarda
    Mesmo depois de terminado o combate às chamas, o comandante João Guerreiro não baixa a guarda
  • É preciso redistribuir todos os bens doados e que não foram necessários
    É preciso redistribuir todos os bens doados e que não foram necessários
  • Outras corporações de bombeiros e associações do concelho estão a ser contactadas para que nada se estrague
    Outras corporações de bombeiros e associações do concelho estão a ser contactadas para que nada se estrague

João Guerreiro assumiu o comando há pouco mais de um ano, mas já tem mais de 12 anos de experiência como bombeiro. Aliás, ele continua a ser bombeiro, faz questão de dizê-lo. “Tenho esta função mas continuo a ser bombeiro voluntário. Se tiver que ir com os meus homens para o terreno, puxar mangueira ou seja o que for, estou pronto, porque acima de tudo sou bombeiro.” Não se lembra bem como é que começou a apagar fogos, o que o levou a ser voluntário. A vontade de ajudar, sem dúvida. Uma certa dose de loucura, talvez. Só sabe que no momento de enfrentar o fogo nada disto importa: “É para fazer, é para fazer, na altura não pensamos que temos que salvar isto ou aquilo, não se pensa nada, não olhamos para trás.”

“O que me fez querer ser bombeiro foi isto como o que a gente apanhou agora, estes dias de grande emoção e de entreajuda entre camaradas, para proteger a nossa população.”

“Foram dois dias bastante intensos”, confessa. “Vou ser muito sincero: já apanhei aqui alguns incêndios, já fui para incêndios no norte e no sul do país, mas como este incêndio nunca tinha vivenciado.” Não consegue dizer qual foi o momento pior – “num fogo todos os momentos são maus” – mas tem a certeza de que nunca mais se vai esquecer daquele momento em que “o fogo chegou a penetrar as muralhas do castelo, ou seja, entrou na nossa vila, isso assustou-nos bastante”.

O mais difícil? “O mais difícil foi ver o sofrimento na cara das pessoas da minha vila de Palmela. A preocupação com os meus camaradas que se encontravam no local e saber que colegas meus, bombeiros de outras corporações, se magoaram neste incêndio. E, depois, na resolução, olhar para o cenário, todo cinzento.”

Em oito horas terão ardido 400 hectares de floresta e culturas. Foto: Miguel Mateus/CNN

 

Um pastor inconsolável

Tudo cinzento. Sobe-se ao cimo do castelo e a paisagem é desoladora. Em oito horas terão ardido 400 hectares de floresta e culturas. Eram pinheiros, zambujeiros, tojeiros, oliveiras, vinha, mata, uma diversidade de vegetação agora reduzida a cinzas. O cheiro a queimado é intenso.

No meio da terra negra, uma casa branca parece ter sido salva por milagre. Trata-se de uma moradia antiga, muito pobre, dividida em três habitações com três inquilinos. De uma das portas sai Alexandre Alberto. Tem 70 anos e mora ali desde 1990. “Não há palavras para uma coisa destas”, diz, apontando o terreno à sua volta, completamente destruído. “Quando o fogo chegou aqui deviam ser umas duas e meia, mais ou menos. Quando passou do castelo para cá, isto foi um relâmpago. Não demorou tempo nenhum. A sorte é que os bombeiros já cá estavam, com três carros, estavam prevenidos, e não se foram embora enquanto isto não acabou, sempre a defender a casa.”

"Quando o fogo passou do castelo para cá, isto foi um relâmpago." Alexandre Alberto tem 70 anos e mora ali desde 1990. Foto: Miguel Mateus/CNN

Alexandre e a família tiveram que sair dali. Ficaram no Miradouro Sequeira Paula, vendo o fogo cá em baixo. Assistindo ao incêndio como quem assiste a um filme de terror. Salvaram-se as vidas e a casa mas tudo o resto ardeu. O fogo chegou a entrar pelas traseiras, queimando umas divisões mais antigas e que não eram habitadas, devorou o barracão onde estava guardada a palha para o gado – “tinha o suficiente para todo o verão e para o inverno” – queimou todo o pasto em redor.

“Tinha aí umas cabrinhas anãs, coisa mais linda do mundo, desapareceram quase todas. Não as encontro em lado nenhum.” Já percorreu os montes, andou pelo meio das cinzas, e nada. Das 14 ovelhas, só quatro escaparam. Das 47 cabras anãs, sobram pouco mais de 20, com os pés chamuscados, feridas. O pastor está inconsolável. “Estas cabrinhas eram a minha sobrevivência. A minha reforma são só 200 euros, mas eu vendia as cabras e isso ajudava-me a sobreviver.” Agora, em vez de solução, as cabras são um problema. A voz de Alexandre embarga-se: “O que lhes vou dar de comer? Não tenho dinheiro para comprar ração. Eu até as dava, mas a quem? Palavra de honra que não sei o que hei de fazer.”

  • Das 47 cabras anãs, sobram pouco mais de 20, com os pés chamuscados
    Das 47 cabras anãs, sobram pouco mais de 20, com os pés chamuscados
  • A voz de Alexandre embarga-se: “Não tenho dinheiro para comprar ração."
    A voz de Alexandre embarga-se: “Não tenho dinheiro para comprar ração."
  • O fogo chegou a entrar pelas traseiras, queimando umas divisões mais antigas e que não eram habitadas
    O fogo chegou a entrar pelas traseiras, queimando umas divisões mais antigas e que não eram habitadas