O que guardam os palácios onde ainda vivem nobres em Portugal

O que guardam os palácios onde ainda vivem nobres em Portugal

Texto Henrique Magalhães Claudino I Catarina Guerreiro

Fotografia António Pedro Gonçalves

Vídeo Fábio Alexandre

Têm peças com centenas de anos, recebem convidados da alta sociedade em jantares formais e até fazem casamentos no mesmo sítio onde os seus antepassados viveram. A CNN falou com nobres que lutam para manter estes palácios na família, mas há quem esteja a ponderar colocá-los à venda

Em cima do grande muro de uma das ruas que sobe para o Castelo de São Jorge, em Lisboa, estão colocados vários estilhaços de vidros verdes, que parecem ser de garrafas. Estão ali o ano todo, estrategicamente colocados pelos donos do edifício. “É uma tradição que aprendi da minha avó”, conta Lourenço Vilhena de Freitas, um advogado e professor, que, fruto da herança de família, ali vive, num dos mais importantes palácios da cidade. Usa o título de conde, tem anel de brasão e é um dos poucos nobres com registo reconhecido no Instituto da Nobreza de Portugal (INP) que ainda hoje reside em palácios. “Nos anos 20, houve um assalto enorme ao nosso palácio e levaram pratas raras e loiças chinesas, tudo avaliado, na época, a 30 contos”, continua, explicando que mais tarde se veio a descobrir que tinha sido um dos empregados. O edifício do século XVIII ainda hoje mantém muito do que foi, incluindo as 50 divisões onde Lourenço, de 50 anos, reside após dividir a propriedade com os primos. “O panorama que tenho da nobreza portuguesa, com muita pena minha, é que há uma grande degradação do património cultural”, diz.

Quem são os nobres que ainda vivem em palácios portugueses

Um estudo inédito, de maio de 2022, da Associação Portuguesa das Casas Antigas concluiu que manter hoje em dia uma casa histórica no país ascende, em média, a 56 mil euros por ano. Muitos dos 394 nobres registados no Instituto da Nobreza vivem hoje longe dos locais onde os antepassados davam festas e recebiam importantes personalidades da sociedade e da política. E onde, como membros da nobreza, foram deixando sinais do papel que tiveram ao longo dos séculos na história do país. Lourenço, 12.º Conde de Vila Flor, 3.º Duque da Terceira, 6.º Conde de Azarujinha e 4.º Conde de Alpedrinha, habita no meio de todas essas recordações. Numa das salas mais perto das escadas de pedra que dão acesso à entrada está uma Nossa Senhora de madeira com um longo terço à volta do pescoço. Há 359 anos, o seu antepassado, D. Sancho Manoel, primeiro conde de Vila Flor, ajoelhava-se perante ela antes de dirigir o Exército português contra as tropas castelhanas, numa das maiores e mais importantes vitórias das guerras da Restauração - a batalha do Ameixial - que permitiu recuperar Évora a D. Filipe IV, o terceiro e último dos Filipes de Portugal. “Está determinado, pelo meu trisavô, que, se um dia o herdeiro mais velho já não conseguir manter condignamente a Nossa Senhora, a devo entregar à Sé de Évora.”

A biblioteca do Palácio Vila Flor tem vários registos dos antepassados de Lourenço Vilhena de Freitas

Ao percorrer o interior do edifício, com as paredes parcialmente forradas de diferentes painéis de azulejos, entra-se numa sala com uma mesa de madeira comprida e retangular com um candelabro ao centro, que, conta Lourenço, está repleta de memórias dos almoços e jantares de cerimónia e nos quais se seguia à risca protocolo e etiqueta. “Era aqui que a minha avó sentava os convidados que recebia em jantares. Lembro-me de ter cá o professor Cavaco Silva, quando ele era primeiro-ministro, ou o presidente Mário Soares”, conta, recordando que a avó “fazia muita questão”, talvez por ser o mais velho dos netos e o "futuro representante da casa”, que ele estivesse presente à mesa. “Mas dizia-me para não falar, ou para não interromper.” A ideia, por vezes, era também conseguir entender o peso do título e do património que viria um dia a herdar. Hoje, garante, sabe-o bem. “É evidente que pertencer a uma linhagem histórica dá-nos um dever reforçado de ter uma conduta que não ponha em causa a memória dos nossos antepassados.”

Esta capela está colocada no interior do palácio e foi nela que casaram muitos familiares de Lourenço

Há três anos, decidiu ir viver para este palácio, comprado pela família em 1907, depois de terem vendido um outro palácio em Arroios, onde residiam, em 1898 - que acabou por ser demolido em julho de 1957. De pé, mas já fora da posse da família, está também o palácio de São João da Praça, vendido no século XIX ao comerciante José Camilo de Mendonça e parte do palácio da Palhavã, onde hoje está localizada a embaixada de Espanha. O palácio onde Lourenço reside é uma das 2.169 casas históricas de Portugal, maioritariamente localizadas na Região Norte e Centro.

O palácio que acolheu Eça e onde foi encontrado um inédito de Gil Vicente

Fachada do Palácio Sabugosa, em Alcântara

“Para se ter e viver numa casa deste género, tem de se estar a viver cá desde pequeno.” António Vasco de Mello, 91 anos, tem o título de Conde de São Lourenço e é o proprietário do Palácio Sabugosa, erguido no Século XVI, na Rua 1.º de Maio, em Alcântara, atualmente posicionado mesmo por baixo da Ponte 25 de Abril. Mora aqui desde que entrou no liceu. “É preciso existir uma ligação ao palácio para que a pessoa fique agarrada e queira suportar esse peso”, justifica. O peso não só financeiro, como também de falta de conforto. “Não é nada cómodo. No verão é quente, não há maneira de arrefecer isto. No inverno é frio, porque pouco se pode aquecer, exceto um quarto ou outro.”

António Vasco de Mello partilha o palácio com os seis filhos e noras e os 11 netos. Ao todo, são 25 pessoas que percorrem todos os dias o palácio que, reza a lenda, terá servido de inspiração a Eça de Queirós para criar o Ramalhete. Como a casa dos Maias, também a residência de António tem estreitas varandas de ferro no primeiro andar e outrora a vista do terraço estendia-se até ao mar. Esse “horizonte esplêndido”, como escrevia Eça, está tapado por prédios, um condomínio privado, bares e restaurantes. “Não temos a certeza que seja a casa dos Maias, mas estamos a investigar.” Certo, conta, é que Eça de Queirós frequentava o palácio para conviver com o bisavô de António - António Maria Vasco de Mello Silva César e Meneses, o 9.º Conde de Sabugosa.

António Vasco de Mello é o atual Conde de São Lourenço. Juntamente com o filho estão a levar a cabo uma operação de modernização da biblioteca do Palácio Sabugosa

 

Este era um homem das artes e da política e o seu estilo ainda hoje está marcado no palácio, desenhou muitas das escadas e dos candeeiros que ali se encontram. E foi na magnânima biblioteca da casa que, em 1906, este conde encontrou um inédito de Gil Vicente, o “Auto da Festa”.

António Vasco de Mello e Meneses morreu em 1923, deixando um legado de contos, crónicas, poemas e assinaturas na Revista de Portugal, editada por Eça de Queirós, que estão quase todos preservados na biblioteca do Palácio Sabugosa. Mas se em tempos essa divisão da casa, que nasceu de um pátio, era um conhecido acervo de obras raras e inéditos, quando o atual Conde de Sabugosa nasceu ela estava fechada a sete chaves. Mesmo assim, havia quase um chamamento que o puxava para a memória do seu trisavô.

“Quando eu era criança, a biblioteca e o arquivo estavam fechadas por questões sociais da época, nomeadamente durante as convulsões da Primeira República, um livro chegou mesmo a ser atravessado por uma bala e, por isso, o meu avô não queria que as pessoas soubessem, por medo de ser assaltada ou arrombada”, diz António Maria de Mello, hoje com 63 anos, ao mesmo tempo que lança um sorriso sagaz. “Mas somos miúdos e há sempre aquela vontade de saber o que é proibido. Entrava muitas vezes às escondidas na biblioteca e apanhava um raspanete do meu avô que me dizia “Ah! O que é que está aqui a fazer?!”

 

António Vasco de Mello utiliza o brasão da família nos dedos. No arquivo, analisa documentos com centenas de anos que tem na sua posse

Agora, António Maria, 13.º Conde de Sabugosa e o pai, António Vasco, Conde de São Lourenço, estão a conduzir uma operação de reabertura da biblioteca e do arquivo do palácio. Com a ajuda de um grupo de investigadores da Universidade Nova de Lisboa, estão a catalogar, informatizar e a digitalizar os livros, cartas e documentos ancestrais que têm na sua posse. “Vai fazer 100 anos que o nosso antepassado morreu e queremos organizar também aqui palestras e colóquios para dar a conhecer ao país a sua figura, não só como nobre, mas também como um político e um grande empresário”, diz António Maria.

Há 378 títulos de nobreza em uso em Portugal

Como têm vários títulos nobiliárquicos na família, estão distribuídos por várias gerações. António Vasco de Mello é Conde de São Lourenço, o título mais antigo; o seu filho mais velho, António Maria, é Conde de Sabugosa, e o filho deste, quando casou, tornou-se o Marquês de Sabugosa. “Os títulos só são dados na família quando as pessoas se casam. É uma tradição.”

Segundo dados a que CNN teve acesso, há 378 títulos em uso em Portugal, com o aval do Instituto da Nobreza Portuguesa. Duques são 7, marqueses 35, 129 condes, 149 viscondes e 58 barões. Ao contrário do que sucedia no tempo da monarquia em que os valores a pagar pelos títulos dependiam da sua importância, hoje há um preço fixo: 399,75 euros (325 euros mais IVA). Segundo o INP, registar um brasão custa 369 euros. “Mas os títulos não se vendem. Só pode ser registado pela pessoa que demonstre ter o melhor direito sobre ele”, explica fonte do instituto. Ou seja, aqueles cerca de 400 euros são pagos apenas uma vez e não estão acessíveis a qualquer um: é preciso provar que se descende do nobre em questão.

 

A biblioteca do Palácio Sabugosa, onde foi encontrado um inédito de Gil Vicente

António Vasco de Mello de 91 anos, engenheiro e antigo presidente fundador da Confederação da Indústria Portuguesa, garante que tudo o que quer é que a casa continue na família e que a família continue a viver no palácio onde estão há quase 500 anos. “É preciso mesmo viverem aqui, porque se existe o pensamento de arrendar a casa para depois ir-se viver para um sítio mais cómodo, então aluga-se e, passado uma geração ou duas, foi-se embora”, acredita. Outro dos seus desejos é que o Palácio Sabugosa nunca vire uma fundação, como por exemplo, a Fundação das Casas de Fronteira e Alorna, instituída por Fernando Mascarenhas. “Ao fazer isso, estou a deserdar as gerações futuras, não é? O meu objetivo é passar isto arrumadinho, sem dívida aos meus filhos e eles que tomem conta do assunto. Na geração deles encontrem uma solução e assim sucessivamente”, afirma.

É ao filho mais velho, António Maria, que cabe “a maior fatia de responsabilidade” na manutenção da casa. Encontramo-lo numa das salas principais sentado num sofá branco parcialmente em capitonê. Um candeeiro ilumina um quadro da família e um conjunto de estantes de cristal adornadas com pratos decorativos, candelabros e uma máscara branca com uma tatuagem vermelha inspirada pelo Mike Tyson. A sua casa, como muitas das casas históricas em Portugal, está “isenta de pagar IMI, por ser classificada como Monumento de Interesse Público”, explica, acrescentando que este é um apoio “insuficiente”. “Uma das coisas que eu tenho estado a pensar, é que os estrangeiros vêm muito para Lisboa, Porto e para o país, pelo charme do país e o charme vem também das casas históricas. Ninguém quer ver fachadas todas podres, por isso gostávamos de ter apoios públicos para pelo menos conseguirmos manter a parte exterior destes edifícios em bom estado e bem arranjados.”

António Maria é o mais velho de seis irmãos e é o atual presidente da Associação Portuguesa das Casas Antigas

 

O atual Marquês de Pombal pondera vender o seu palácio

A fachada do Palácio Quintela, uma das residências do atual Marquês de Pombal

Um tapete vermelho estende-se ao longo de toda a sala, pontuada por cadeirões com padrões florais e uma robusta mesa de madeira maciça no centro. Ao longo das paredes de cunho neoclássico, todas decoradas com quadros da família em posições solenes, Sebastião caminha com determinação até uma secretária com o topo em mármore e aponta para uma peça decorada com um tritão a defender-se de um monstro marinho. “Este foi o tinteiro com que, muito provavelmente, foi assinado o decreto de reconstrução de Lisboa”, diz o contabilista financeiro, de 67 anos, que hoje tem o título de Marquês de Pombal. É o representante atual da distinção que foi dada ao secretário de Estado do Reino durante o reinado de D. José I e que permanece até hoje na sua família. Sebastião José de Carvalho Daun e Lorena, que durante anos trabalhou na agência imobiliária Remax, é o 11.º Marquês de Pombal. Os últimos marqueses viveram no Palácio Quintela, no Chiado, onde está agora o tinteiro. “É um pedaço de história particular e quis tê-lo comigo”, explica, acrescentando: “O tinteiro representa a entrada de Portugal na modernidade.” Antes tinha estado no Palácio de Oeiras, edifício que pertenceu à família, mas que, entretanto, foi vendido em 1942, pelo seu bisavô. Neste momento, o atual Marquês de Pombal e os outros herdeiros estão a ponderar vender também este Palácio Quintela, onde a mãe de Sebastião ainda reside. “Algumas partes do edifício estão arrendadas, como é o caso do restaurante Palácio Chiado.”

Uma das divisões interiores do Palácio Quintela, no Chiado

Apesar de passar grande parte do tempo numa casa em Azeitão, Sebastião Lorena sente grande ligação ao Palácio Quintela. Foi ali que casou a sua avó e mais recentemente a sua filha, em 2009. “Casaram na igreja do Chiado e depois entrámos pelos portões do jardim, colocámos uma tenda e mesas numa das salas”, conta, recordado que por a música estar tão alta chegaram a pensar que ali existia uma discoteca. 

Lorena herdou o seu primeiro título nobiliárquico quando tinha 11 anos, no caso o de Conde de Oeiras. Este é dado a quem está na linha de sucessão para vir a receber mais tarde o título de Marquês de Pombal. Por isso, quando o avô morreu, o contabilista financeiro passou a ser o Conde de Oeiras. “Tenho uma ótima lembrança do meu avô, que me fez sócio do Benfica aos 8 anos por me ver a correr na sala a imitar o Eusébio.”

O peso da descendência carrega-o desde pequeno. Mas sem grandes problemas.  Andava no Liceu Pedro Nunes em Lisboa e lembra-se de quando os professores diziam o seu nome, todos os colegas olhavam para ele curiosos e espantados. “Mas depois aquilo passava”, recorda.

O tinteiro que terá sido utilizado pelo Marquês de Pombal para assinar o plano de reconstrução de Lisboa, após o terramoto de 1755, ainda está na posse da família

Sebastião Lorena estudou em Paris e depois trabalhou em várias empresas norte-americanas na área da contabilidade financeira. É discreto, não gosta de ser fotografado, mas frequenta alguns círculos mais restritos, como o Grémio Literário. Gosta de ler, em especial Raymond Aron, e é um apreciador de música, seja clássica ou rock. É também frequente ir a exposições sobre o seu antepassado que ganhou o título de Marquês de Pombal por um decreto de setembro de 1769, altura em que era primeiro-ministro.  

“Tive muito tempo para me preparar para ser Marquês de Pombal”, diz, sublinhando que o pai faleceu com 91 anos. Os dois falavam muito sobre política e sobre o estado do país. “Toda a vida votei CDS e hoje em dia voto Iniciativa Liberal, porque creio que a questão mais importante de todas é o empoderamento da sociedade civil para impedir um estado tão pesado.” Aliás, acredita que seria essa a opção do primeiro detentor do título. “Tenho a certeza de que se o Marquês de Pombal vivesse hoje, se não fosse um liberal, andava muito perto disso.”

Cada vez que passeia pela capital, Sebastião recorda-se do seu antepassado e explica que as alterações que o Marquês de Pombal fez nas ruas de Lisboa após o terramoto de 1755 fizeram mudar o pensamento dos lisboetas. “As ruas nos tempos medievais eram estreitas e tortas, hoje são larguíssimas e fundas por causa dele e, psicologicamente, os horizontes dos lisboetas alargaram-se, tornaram-se muito mais universais.” 

O jardim interior do Palácio Sabugosa, onde António Maria de Mello se apaixonou por engenharia

 

Já Lourenço Vilhena de Freitas, o Conde de Vila Flor, devota grande parte do seu tempo a descobrir mais detalhes sobre o seu antepassado através de livros, documentos e fotografias que foi herdando através das gerações. Ultimamente tem-se dedicado cada vez mais a perceber os enredos e as intrigas palacianas de Jorge da Costa, o Cardeal Alpedrinha, arcebispo de Braga e de Lisboa que chegou a ser eleito Papa em 1503, mas que não aceitou o lugar. “Independentemente de não ter sido Papa, teve um papel muito importante no Tratado de Tordesilhas, deu-se mal com quase todos os reis da sua época e o próprio D. João II ter-lhe-á dito que um cardeal tão mal nascido e tão presumido pode um dia morrer neste reino que nunca se irão lembrar dele, isto enquanto lhe agarrava as rédeas do cavalo numa ponte.” 

Também António Vasco de Mello, o conde de São Lourenço, refere que passar longas horas no arquivo do Palácio Sabugosa, a explorar a vida dos seus antepassados, ajudou-o a entender melhor o título que recebeu e o peso que carrega. “Caiu-me nos ombros o facto de ser quem sou, não fui eu que escolhi.”