"O que fez a minha filha para que eles a odeiem?" Dentro do complexo de supremacia branca escondido - à vista de todos

"O que fez a minha filha para que eles a odeiem?" Dentro do complexo de supremacia branca escondido - à vista de todos

GRANDE REPORTAGEM   Por Rob Picheta

TELLICO PLAINS, Tennessee, EUA — No leste do Tennessee, no fim de uma estrada sinuosa de terra, uma mãe olha para a floresta onde costumava brincar quando era criança. É uma visão profunda e dramática: uma colcha de retalhos de pinheiros e carvalhos que desaparecem na interminável cordilheira de Blue Ridge.

"Costumávamos andar de motas de quadro rodas pela floresta", conta a mulher, que falou com a CNN sob condição de anonimato por temer pela sua segurança. "Tínhamos esconderijos secretos, ficávamos fora durante horas... os nossos pais nem sabiam onde estávamos."

Mas agora as coisas são diferentes.

"Tenho medo de deixar os meus filhos fazerem as mesmas coisas que eu fazia", diz a mãe de três filhos, que adverte severamente os seus filhos: "Façam o que fizerem, não vão para aquele lado. Porque não sei o que eles vão fazer."

"(Eles) estão a deixar-nos com medo de sair de casa."

A mulher tem medo dos seus novos vizinhos: um grupo de supremacistas brancos associados ao grupo Patriot Front (tradução à letra, Frente Patriota).

Imagem CNN

Uma vizinha da propriedade no Tennessee usada pelo Patriot Front disse a Rob Picheta, da CNN, que tem medo de deixar os filhos brincarem perto do local. A CNN concordou em não mostrar o rosto da mulher devido a preocupações com a sua segurança. 

O grupo é uma das organizações nacionalistas brancas mais ativas nos Estados Unidos, de acordo com especialistas entrevistados para esta reportagem, com as suas contas nas redes sociais e a frequência dos seus comícios. Os membros da organização — que o Southern Poverty Law Center [organização não governamental pela justiça racial com foco no sul dos EUA] designou como um grupo de ódio — realizam comícios com centenas de pessoas em cidades de todo o país, usando máscaras, empunhando escudos anti-motim e agitando bandeiras dos Estados Confederados.

Agora, a CNN acompanhou o progresso do grupo na construção de uma base nos Apalaches, num complexo de cerca de 50 hectares fora da pitoresca cidade de Tellico Plains.

Ao longo desta reportagem de vários meses, surgiu uma imagem dos personagens radicais envolvidos na propriedade, incluindo uma conhecida família neonazi e um lutador pagão de artes marciais mistas (MMA).

 

CNN

Mas a nossa reportagem também serviu para salientar as divisões cada vez mais profundas que a sua presença provocou entre os residentes locais e a ameaça persistente do ativismo de supremacia branca em todo o condado. Apenas três estados – Texas, Alabama e Pensilvânia – tiveram mais eventos de supremacia branca no ano passado do que o Tennessee, de acordo com dados compilados pela Liga Antidifamação (uma organização não governamental judaica internacional com sede em Nova Iorque).

"Eles fazem parte de uma rede mais ampla", garante à CNN Daryl Johnson, ex-analista sénior do Departamento de Segurança Interna dos EUA e especialista em extremismo interno, sobre a Patriot Front. "Seja em comícios, reuniões fechadas (ou) clubes de luta, (os membros) podem conviver com membros de outros grupos."

Na pior das hipóteses, afirma Johnson, "é assim que uma célula terrorista secreta se pode formar".

O líder do grupo, Thomas Rousseau, não respondeu aos repetidos pedidos da CNN para comentar esta matéria. Em poucos anos, o jovem de 27 anos tornou-se um dos porta-estandartes do movimento nacionalista branco.

Ele defende que apenas pessoas brancas de ascendência europeia podem considerar-se americanas. O manifesto do seu grupo afirma que "os americanos estão à beira de se tornarem um povo conquistado". O grupo defende o retorno a uma sociedade ultraconservadora; Rousseau afirma que as mulheres não devem envolver -se com política e, em entrevistas, pediu a deportação tanto de cidadãos quanto de não-cidadãos.

"Os estrangeiros podem ocupar um estatuto civil nas terras ocupadas pelo Estado e podem até ser cidadãos cumpridores dos seus deveres, mas não podem ser americanos", afirma o manifesto.

A Patriot Front descreve-se como um grupo não violento, mas os seus protestos têm como alvo a Parada do Orgulho, e o grupo foi considerado responsável este ano por um ataque violento e brutal contra um homem negro durante uma manifestação em Boston.

Jason Lee Van Dyke, um advogado do Texas que já representou Rousseau várias vezes, rejeita a ideia de que a Patriot Front é violenta.

"Tenho uma relação profissional com o Sr. Rousseau e tive a oportunidade de conhecer alguns destes senhores. Não posso dizer que tenha havido uma única vez em que eles tenham sido encorajados a fazer algo violento", diz Van Dyke, que acrescenta que não é membro do grupo.

AP Photo/Michael Dwyer, File
AP Photo/Michael Dwyer, File

Pessoas com o emblema do grupo supremacista branco Patriot Front em formação em frente à Biblioteca Pública de Boston, na Copley Square, a 2 de julho de 2022, em Boston. À frente à direita está Thomas Rousseau, líder do Patriot Front, rodeado de mascarados

Imagens de drone captadas pela CNN em novembro, juntamente com imagens de satélite que remontam a vários anos antes de a Patriot Front começar a gerir a propriedade em 2021, mostram que pelo menos cinco edifícios foram erguidos na remota propriedade no Tennessee, incluindo um ginásio semelhante a um celeiro onde são realizados clubes de luta.

Vizinhos relatam à CNN que a eletricidade foi instalada no complexo e que ruídos elevados enchem o ar quando o grupo realiza eventos.

E vídeos que membros da Patriot Front partilharam online — que foram vistos pela CNN — mostram o treino, os rituais espirituais e as lutas sangrentas e violentas que acontecem lá dentro.

A Patriot Front foi fundada por Thomas Rousseau após o comício "Unite the Right" em Charlottesville em 2017, ao qual Rousseau assistiu enquanto estudante do ensino secundário. O grupo nasceu de um grupo anterior, o Vanguard America, e rapidamente desenvolveu um senso apurado para a imagem: Rousseau é conhecido por submeter os seus membros a um programa de treino físico rigoroso, e o seu grupo está presente em vários canais de redes sociais pouco moderados para alcançar jovens do sexo masculino.

As marchas recentes do grupo contaram com a participação de cerca de 250 membros, de acordo com uma análise da CNN. Apenas homens brancos de ascendência europeia podem aderir ao grupo.

Van Dyke, advogado de Rousseau, diz à CNN: "Acho que a noção de que este é um grupo violento é um disparate." Van Dyke garante que conheceu Rousseau porque ambos eram Eagle Scouts (Escoteiros Águias) e passou a defendê-lo várias vezes.

Foto de Thomas Rousseau, tirada após ele ter sido preso juntamente com dezenas de pessoas no Idaho em 2022, após uma manifestação da Patriot Front perto de uma Parada do Orgulho (Gay Parade) em Coeur d'Alene. O processo contra Rousseau acabou arquivado.

Imagens mostram os 31 membros do grupo supremacista branco Patriot Front que foram detidos após serem encontrados amontoados na parte traseira de um camião da U-Haul com equipamento anti-motim perto de uma Parada do Orgulho LGBTQ em Coeur d'Alene, Idaho, a 11 de junho de 2022. 

A Patriot Front realiza há muito tempo eventos num local no Texas, o estado norte-americano natal de Rousseau. Mas, mais recentemente, as fotos e vídeos que partilham online indicam que se expandiram para a propriedade no Tennessee.

O grupo é altamente secreto; os membros, com exceção de Rousseau, são obrigados a usar máscaras nos seus comícios, e os seus rostos são desfocados em qualquer material publicado nas redes sociais. Eles não divulgam publicamente a localização do local no Tennessee, mas a CNN identificou várias fotos e vídeos do local analisando o ambiente físico e comparando a cordilheira ao fundo de um vídeo de treino com as colinas que cercam Tellico Plains.

A instalação é gerida por Ian Elliott, uma figura importante da Patriot Front que também atua como guarda-costas de Rousseau durante os comícios do grupo.

Elliott não respondeu aos repetidos pedidos de comentários da CNN. A CNN solicitou uma entrevista com Elliott e uma visita ao complexo; o recurso de confirmação de leitura do Telegram mostra que alguém viu as nossas mensagens, mas não respondeu.

Num curta-metragem que publicou nessa aplicação de mensagens no início deste ano, ele debateu os seus planos para a propriedade, que chama de "terra tribal".

"Tribal Land foi um projeto que começou há quase uma década", diz Elliott, que dentro do grupo usa o nome "Norman". "Ele surgiu de alguns dos mesmos desejos que muitas pessoas com ideias e sangue semelhantes têm por uma comunidade intencional, (uma) propriedade privada, propriedade autossustentável."

 

 

Estas imagens de satélite mostram o progresso que foi feito na construção de estruturas na propriedade. A imagem à esquerda foi capturada em 2021, antes da propriedade ser comprada por uma família neonazi. A imagem à direita foi capturada no ano passado, 2024.

"A construção e a vida a tempo inteiro nessa propriedade começaram há cerca de quatro anos, e eu próprio estou lá a tempo inteiro há cerca de dois anos», diz Elliott. Ele explica que os seus planos para a propriedade são inspirados no Odinismo, uma religião pagã baseada em antigas crenças nórdicas que se tornou popular em alguns círculos nacionalistas brancos.

As obras na instalação ocorreram rapidamente. Vários vizinhos falaram com a CNN, mas recusaram-se a ser entrevistados oficialmente; e disseram que pessoas, veículos e abastecimentos têm chegado e partido nos últimos anos e que a eletricidade foi instalada.

Imagens de satélite mostram que vários terrenos foram limpos para a construção de edifícios, e o vídeo partilhado por Elliott mostra mais de 40 pessoas a trabalhar no local. "Temos estado lá em todas as estações, em todos os tipos de clima, a fazer telhados, trabalhos em betão, madeira, serrações, a colocar paredes, a instalar circuitos elétricos, canalizações", declara Elliott no vídeo.

"Quando chegámos lá inicialmente, não havia estradas. Não havia nada."

Num vídeo partilhado com os membros da Patriot Front no Telegram no início deste ano, Rousseau contesta a cobertura da comunicação social local sobre a propriedade. "Isto não é um complexo. Não há muros ao redor, não há torres de vigia, não há holofotes, não há arame farpado", diz.

Quando a CNN visitou o local, vimos placas de "Proibida a entrada" no acesso à propriedade e não pusemos o pés no terreno do grupo.

CNN

Mas a presença do grupo está a alimentar tensões na comunidade.

O complexo fica nos arredores de Tellico Plains, uma pacata cidade nos Apalaches com cerca de 800 habitantes. Há uma padaria, alguns restaurantes e bares e várias igrejas.

A presidente da câmara da cidade, Marilyn Parker, explica à CNN que alguns dos residentes estão preocupados com a presença do grupo.

"Recebo e-mails periodicamente sobre eles", avança. "As pessoas estão preocupadas, (perguntando) o que eles estão a fazer lá? ... Eles são milicianos ou apenas pugilistas?"

A presidente da câmara de Tellico Plains, Marilyn Parker, diz à CNN que recebeu e-mails preocupados sobre as instalações. Imagem CNN

E a uma curta distância a oeste, na cidade de Athens, uma escola de jiu-jitsu quase foi forçada a fechar as portas depois de a comunidade ter descoberto que Elliott e um grupo de amigos — que se tornaram frequentadores assíduos da escola — eram membros da Patriot Front.

"Pedimos-lhe, a ele e às pessoas que estavam com ele, que não viessem cá mais", afirma Benjamin Timm, que gere a escola, à CNN. "Ele ficou descontente com isso."

"Por causa de toda a situação, a escola quase fechou", dizTimm. "Era um assunto muito polémico." Os alunos expressaram descontentamento por terem treinado ao lado de Elliott, e a escola recebeu críticas negativas online de pessoas de todo o país, recorda o proprietário.

CNN

Membros da Patriot Front lutam num evento realizado pelo grupo dentro do complexo no Tennessee. Imagens Patriot Front

Em vídeos partilhados nas suas contas do Telegram, pode ver-se novos membros da Patriot Front a praticar táticas no complexo que mais tarde replicariam nas ruas dos Estados Unidos.

Um vídeo mostra um grupo de novos recrutas a marchar em sincronia, empunhando escudos anti-motim e empurrando membros que atuavam como contra-manifestantes.

Essas são cenas de que Charles Murrell III se lembra muito bem. Em 2022, Murrell, um músico negro, estava a caminho para tocar saxofone do lado de fora da Biblioteca Pública de Boston quando foi confrontado por um grupo de manifestantes mascarados da Patriot Front durante uma marcha não autorizada pela cidade.

Um dos manifestantes chamou-lhe de "tar baby" (bebé de alcatrão), como um juiz relataria mais tarde. Os membros da marcha bloquearam a calçada e cercaram Murrell, empurrando-o para trás o equivalente a duas distâncias de carro, enquanto um membro gritava "Não deixem romper as nossas fileiras!".

"Rousseau gritou então “Right Screen” (Pela Direita), e o grupo começou a empurrar Murrell para a direita do grupo, para a rua", onde "o pressionaram contra um poste de luz de cimento, derrubaram-no no chão e bateram-lhe e pontapearam-no", concluiu o juiz, após uma audiência na qual a Patriot Front e Rousseau não compareceram para apresentar defesa.

Charles Murrell III defende-se dos manifestantes da Patriot Front durante um ataque em Boston em 2022. AP Photo/Michael Dwyer, Arquivo

"O meu avô contou-me histórias sobre o pai dele ser perseguido pelo KKK", contou Murrell à CNN numa entrevista recente. "Este não é um acontecimento isolado com o qual eu estou a lidar."

Murrell recebeu 2,75 milhões de dólares (2,33 milhões de euros ao câmbio atual) de indemnização em janeiro, depois de processar Rousseau e a sua organização no tribunal civil. Segundo então testemunhou, Murrell pensou que iria morrer durante o ataque; ele ainda tem dificuldade para dormir à noite e ocasionalmente acorda coberto de suor.

Mas a decisão e a indemnização monetária não trouxeram paz a Murrell – em parte porque nenhum membro da Patriot Front, incluindo Rousseau, compareceu ao tribunal. Além de Rousseau, os membros envolvidos foram processados como John Does ("Zé Ninguéns"), porque estavam mascarados e não puderam ser identificados. Segundo diz, ainda não recebeu nenhum dinheiro do grupo.

"Fiquei meio que abandonado, sem qualquer retribuição, qualquer pedido de desculpas, qualquer tipo de reconhecimento formal de ninguém”, explica Murrell à CNN. "E estou a lidar com isso dia após dia num país onde a situação continua a piorar para os negros."

A Patriot Front afirma que os seus membros usam escudos anti-motim e cobrem os rostos com máscaras para autodefesa, e Rousseau afirma que a sua organização é não violenta. Mas grande parte da sua retórica inclui alusões mal disfarçadas à violência racial histórica. Numa entrevista recente num podcast, ele afirmou: "Não vou apoiar todos os linchamentos que já aconteceram, é claro. Mas os homens costumavam estar muito mais dispostos a arriscar a pele pelo que acreditavam."

Andrew Caballero-Reynold/AFP/Getty Images

Rousseau também minimizou o ataque a Murrell numa entrevista ao mesmo podcast. "Eles estão a dizer: “Oh, eles estão a atacar pessoas”", disse ele durante a conversa. "Um homem negro atacou-nos e magoou o dedo no caminho.»

Van Dyke, advogado de Rousseau, não o representou no caso de Boston. Mas contesta a decisão numa conversa telefónica com a CNN, descrevendo o veredicto como "sinalização de virtude".

E acrescenta: "A sentença contra a Patriot Front, especificamente, é inútil, porque não existe nenhuma entidade jurídica chamada Patriot Front. Não sei como pretendem cobrar (os danos)."

Van Dyke, que também representou outros grupos extremistas, incluindo os Proud Boys e a rede neonazi Aryan Freedom Network, diz ainda à CNN: "Parte da razão pela qual represento esses tipos, quando posso, é porque ninguém mais o faz... Se a Patriot Front não tem direitos da Primeira Emenda [da Constituição dos EUA], então ninguém tem direitos da Primeira Emenda."

O advogado insiste que a Patriot Front é um grupo não violento.

"O comportamento violento é, na verdade, explicitamente proibido para os membros", declara. "Quanto a ser ou não um grupo supremacista branco, nacionalista branco ou fascista... Eu já nem tenho a certeza do que essas palavras significam. Muitas delas são palavras usadas como hipérbole como parte do vocabulário político."

Três anos depois de uma agressão violenta que o deixou ensanguentado e em choque, Murrell afirma que ainda sofre de trauma.

Ele tentou encontrar empatia dos seus agressores. "Luto com isso, porque não quero chamar essas pessoas de meus irmãos", desabafa.

"Eles andam por aí quase ilesos... Ainda andam por aí a marchar. Ainda estão no seu complexo a fazer o que fazem”, afirma Murrell. "Isso, para mim, é a ameaça."

AP Photo/Manuel Balce Ceneta

Membros do autodenominado Patriot Front marcham perto do Monumento a Washington e perto da manifestação March for Life no National Mall, a 24 de janeiro de 2025, em Washington. 

 

Rousseau tem feito um grande esforço para falar tanto com os neonazis radicais à sua direita quanto com os membros insatisfeitos do movimento MAGA à sua esquerda, dizem analistas, e a Patriot Front é frequentemente vista como uma espécie de ponte entre os dois. O grupo afirma que não está envolvido na política eleitoral e não apoiou o presidente Donald Trump.

Mas manter essa delicada estrutura tem sido, por vezes, um desafio. Em algumas ocasiões, Rousseau deu a entender que gostaria de injetar a sua ideologia na arena política. "Precisamos de criar uma organização, precisamos de criar espaços culturais, institucionais, sociais e comunitários, que possam criar a próxima geração de estadistas", afirmou ele num podcast este ano.

Além disso, atividades e figuras associadas ao seu grupo revelam as inconsistências em relação à sua marca.

Numa entrevista em podcast com Patrick Bet-David, Rousseau — que prontamente menciona as teorias raciais e sociais de filósofos que remontam a séculos atrás — foi questionado sobre a sua opinião sobre Adolf Hitler.

"Não tenho nenhuma opinião forte sobre Hitler", respondeu. "Nunca me interessei por ele."

Na mesma entrevista, questionado sobre um antigo grão-mestre da Ku Klux Klan, respondeu: "Não sei muito sobre a vida de David Duke... Diria que não estou muito familiarizado com o homem."

Mas meses depois, a Patriot Front organizou uma festa de 75.º aniversário para Duke noutra instalação no Texas, da qual o ex-líder da KKK participou. Na reunião, Duke foi homenageado com música ao vivo, discursos e um bolo de aniversário de três andares decorado com bandeiras confederadas e ilustrações do capuz da KKK.

Um bolo de aniversário para David Duke, o antigo grão-mestre do KKK, fotografado num evento este ano e partilhado pela Patriot Front no Telegram. Partes desta imagem foram ocultadas pela fonte. Imagem Patriot Front

 

Membros da Patriot Front fotografados no mesmo evento. Partes desta imagem foram ocultadas pela fonte. Da Patriot Front

A Patriot Front obscurece os rostos dos seus membros, com exceção de Rousseau, em praticamente todo o seu material, incluindo nas fotografias do aniversário de Duke. Não é claro pelas fotografias do evento se Rousseau estava presente. Numa publicação no Telegram para os seus membros para marcar a ocasião, a Patriot Front elogiou a "longa e notável carreira política" de Duke e a sua "campanha ao longo da vida pelo realismo racial na América".

Eventos como estes, e uma conferência que a Patriot Front organizou este ano, são mais do que apenas celebrações: são eventos de networking, com a participação de indivíduos e grupos de todo o espectro da supremacia branca e neonazi. E podem fornecer um modelo para o uso do site do Tennessee pela Patriot Front.

Um grupo convidado para participar do aniversário de Duke, por exemplo, era uma pequena organização nacional-socialista emergente chamada The New Way, de acordo com uma mensagem que o fundador do grupo publicou no Telegram. Esse grupo posiciona-se como sucessor do regime nazi.

"Por mais que amemos Hitler e o NSDAP (partido nazi), temos que admitir que eles falharam", escreveu o grupo numa publicação no Telegram no mês passado. "Temos de aprender com os erros deles e garantir que os vingamos."

Os encontros acontecem num contexto nacional de crescente atividade supremacista branca. De acordo com a ADL, 233 eventos supremacistas brancos ocorreram nos Estados Unidos no ano passado. Esse número foi ligeiramente inferior ao de 2023, mas superior a qualquer outro ano desde que o grupo começou a acompanhar os eventos em 2017.

CNN 6 Nos bastidores do complexo de supremacia branca que está escondido à vista de todos

"Quando um grupo extremista compra uma propriedade e começa a criar um local de encontro... chamamos a isso comunidades insulares, e essas são particularmente preocupantes", explica Daryl Johnson, que alertou para a ameaça do extremismo doméstico num relatório histórico de 2009.

"É a próxima fase (de) tornar-se mais radical e linha dura, porque está a criar um espaço de encontro que é privado, isolado, onde as pessoas podem vir (e) fazer praticamente o que quiserem."

Na primeira conferência nacional da Patriot Front, realizada este ano nas suas instalações no Texas, Rousseau disse aos participantes: "Estamos numa luta. Às vezes, uma trincheira é exatamente onde tu precisas de estar. Tu vais sujar as botas de lama. Às vezes, essa é a ideia."

Grande parte da marca Patriot Front é voltada para a construção de comunidades, direcionada a meninos e jovens descontentes. "É extremamente importante nesses espaços comunitários que construímos e que oferecemos ajuda a jovens que não têm família", disse Rousseau ao podcaster de extrema direita Jake Shields numa entrevista no ano passado.

Depois de umas cheias terem devastado o centro do Texas em julho, membros da Patriot Front estavam no local a prestar ajuda humanitária. Mas havia uma condição: era preciso ser branco para recebê-la.

“Priorizamos, quase à exclusão de todos os outros – praticamente à exclusão dos outros – o nosso próprio povo", disse Rousseau a Shields sobre esse trabalho.

O grupo tem os seus inimigos. Rousseau é um líder notoriamente controlador e meticuloso, obcecado com a aparência e rigoroso quanto à aptidão física dos seus membros. "Tu podes entrar para a organização comendo mal, fora de forma e talvez menos instruído e menos viajado, mas não podes permanecer assim", disse ele no podcast PBD.

Essa natureza autoritária faz com que muitos membros deixem o grupo, muitas vezes indo para espaços mais extremos, neonazis.

Um rumor persistente de que a Patriot Front está infiltrada por agentes federais tem perseguido a sua marca, e um grupo de extrema-direita no Telegram dedicado a ridicularizar Rousseau e a sua organização tem 170 assinantes – quase tão grande quanto as estimativas do número de membros do grupo. "Alguns ativistas não querem que a Patriot Front controle tudo", diagnostica Jeff Tischauser, analista de pesquisa do Southern Poverty Law Center, especializado em organizações nacionalistas brancas.

"Quando uma grande loja chega à cidade, é a única opção que tens para fazer compras."

Mas o local no Tennessee permitiu ao grupo aceder diretamente a um importante pool de recrutamento nacionalista branco: o treino de artes marciais mistas (MMA).

PatriaGloria/Telegram

Grupos de MMA conhecidos como clubes ativos têm laços estreitos com organizações nacionalistas brancas, e vários clubes ativos visitaram o complexo de Elliott para eventos de luta livre. Elliott criou uma academia de MMA no complexo, que treina num grande celeiro usado como ginásio. Fotos e vídeos publicados dentro desse prédio mostram lutas sangrentas com as mãos nuas. A maioria das pessoas presentes tinha os rostos desfocados nessas imagens.

"Muitos clubes ativos nos Estados Unidos são, na verdade, grupos de fachada para a Patriot Front", afirma Tischauser à CNN. Eles oferecem uma maneira suave de entrar no movimento para os jovens, explica. "Você não consegue de facto entender a crença nacionalista branca que esses grupos defendem até estar online nos seus espaços privados."

Numa publicação sobre o seu grupo de MMA este ano, Elliott escreveu: "Mesmo enquanto a primeira Academia estava a ser construída, nós nos reuníamos, muitas vezes à luz de fogueiras e tochas, para lutar e saturar os ossos da escola com barbárie." Ele anunciou outro evento de MMA no Telegram em abril, prometendo "treino, competições e um banquete depois".

"Estaremos situados nas profundezas das montanhas Apalaches, longe da civilização moderna", escreveu sobre o local em Tellico Plains, garantindo aos membros que "a terra é segura e pertence aos nossos".

"Essas montanhas são antigas, e a violência está longe de ser estranha a elas. Não perca essa oportunidade."

Embora Elliott faça a gestão do local, ele não é o proprietário. O terreno foi comprado em 2021 por Liudmila Culpepper, de acordo com a escritura da propriedade. Ela era metade de um casal neonazi notório que exercia influência particular nos círculos extremistas do Tennessee.

O seu marido, Brian Culpepper, liderava a filial estadual do Movimento Nacional Socialista, outrora o grupo neonazi mais proeminente dos EUA. Tanto ele como a sua muçher foram fotografados a fazer saudações nazis aos seus pares. Numa entrevista em 2015, ele disse que Dylann Roof, o neonazi que matou a tiro nove fiéis negros numa igreja em Charleston, tinha "argumentos válidos" e disse ao entrevistador: "Sou racista, sem dúvida que sou."

E no seu livro "Republic of Lies", a jornalista Anna Merlan citou Culpepper dizendo-lhe: "O judeu nunca dorme... Ele trabalha 24 horas por dia, 365 dias por ano para nos erradicar."

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O envolvimento público de Liudmila no movimento neonazi tem sido menos proeminente, mas grupos ativistas divulgaram fotografias que aparentemente a mostram em eventos neonazis, muitas vezes ao lado do marido.

Mas, nos últimos meses, as aparições de Brian Culpepper em reuniões neonazis tornaram-se mais raras, e cresceram as especulações nos círculos extremistas de que ele não estava bem de saúde. No final de outubro, Culpepper morreu em sua casa em Tellico Plains, de acordo com um obituário publicado por uma funerária perto do seu local de nascimento, na Virgínia.

A sua morte cria incerteza sobre o futuro das instalações. Pouco antes de Culpepper morrer, o celeiro que abriga o ginásio de Elliott foi colocado à venda. O anúncio imobiliário mostra que a Patriot Front pretende separar o edifício do resto do complexo, mantendo cerca de 47 dos 50 hectares do terreno.

Não é claro como essa venda afetaria os planos do grupo de sediar lutas de MMA e outros eventos. A CNN perguntou a Elliott sobre as suas intenções para a propriedade, mas não obteve resposta. A CNN também perguntou à Patriot Front se pretende continuar a usar a propriedade.

Muitos dos vizinhos do grupo no Tennessee esperam que a Patriot Front se vá embora.

"Tenho uma filha pequena", afirma o vizinho da propriedade à CNN. "Se eles não gostam de mulheres... o que é que ela lhes fez para que a odeiem? O que é que eu lhes fiz? O que é que uma pessoa negra lhes fez?"

"Porquê aqui?"

 

 

 

 

 

 

Meridith Edwards, da CNN, contribuiu para esta reportagem.

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