O Psicólogo Responde é uma rubrica sobre saúde mental para ler todas as semanas. Tem comentários ou sugestões? Escreva para opsicologoresponde@cnnportugal.pt
Este é um tema que muitas vezes é subestimado ou até mesmo ignorado quando falamos sobre saúde mental: os efeitos do álcool na saúde e em particular na saúde mental. O álcool é uma substância profundamente enraizada em muitas culturas, frequentemente associada a celebrações e momentos sociais. Portugal não é exceção, e, sendo um país produtor de álcool, temos ainda a acrescentar as dimensões do impacto para a economia nacional.
Sensações de bem-estar, descontração e relaxamento são alguns dos efeitos atribuídos ao consumo de álcool. No entanto, é crucial reconhecer que o álcool pode ter um impacto significativo e negativo na nossa saúde mental, que muitas vezes passa despercebido. Por outro lado, quando falamos sobre saúde mental, é também essencial compreender que não está separada do nosso bem-estar físico. Na verdade, as duas estão intrinsecamente ligadas, e o consumo de álcool pode afetar ambas (saúde física e mental) de maneiras complexas e negativas.
Efeitos do álcool na saúde mental
O álcool pode ter vários efeitos na saúde mental, tanto a curto como a longo prazo. A curto prazo, o álcool pode criar uma sensação de relaxamento, desinibição e euforia. Algumas pessoas até referem que dormem melhor quando bebem álcool. Aqui há uma associação entre bem-estar e consumo de álcool. Contudo, à medida que os seus efeitos começam a diminuir, pode promover mudanças de humor, irritabilidade e ansiedade. Isto é facilmente compreendido se pensarmos nos sintomas característicos
de ressaca. Mesmo uma pessoa que não tenha uma dependência de álcool, se tiver um episódio de consumo excessivo experimentará alguns destes sintomas: dores de cabeça, náusea e vómito, fadiga, tonturas, dificuldades de concentração… Estes efeitos podem ser explicados pelos efeitos de desidratação e pelas ações do álcool no cérebro e no sistema nervoso central.
O álcool tem vários efeitos no funcionamento do cérebro, afetando áreas responsáveis pelo pensamento, emoções, memória, coordenação e outras funções importantes. Quando uma pessoa consome álcool, este entra rapidamente na corrente sanguínea e ao chegar ao cérebro afeta vários neurotransmissores e áreas cerebrais responsáveis pelas emoções, comportamento e funções cognitivas. Funcionando como um depressor do sistema nervoso central, diminui a atividade cerebral, podendo a longo prazo aumentar os sentimentos de tristeza e desesperança, incluindo a possibilidade de suicídio. Além disso, pode também interferir nos padrões de sono, levando a problemas que afetam negativamente o humor e a saúde mental.
Se pensarmos em episódios de consumo excessivo (binge drinking), os mesmos podem resultar em perda de coordenação, lapsos de memória e problemas de julgamento, aumentando comportamentos de risco, como condução sob o efeito de álcool, relações sexuais desprotegidas, comportamentos agressivos ou maior exposição a outras situações de vulnerabilidade.
O consumo de álcool pode também induzir estados de psicose, caracterizada por alucinações e ideias delirantes. Um tipo de delírio comumente associado ao consumo de álcool é o delírio de ciúmes, em que uma pessoa desenvolve ideias irracionais e persistentes acerca da infidelidade do parceiro, exacerbadas ou desencadeadas pelo consumo de álcool. Esse tipo de delírio pode ser explicado por
vários fatores neurobiológicos e psicossociais ligados ao efeito do álcool no cérebro. É importante salientar que a suscetibilidade a psicose varia entre indivíduos e depende de fatores como manutenção do consumo, vulnerabilidade pessoal, história prévia de psicose e uso concomitante de outras substâncias.
Relação bidirecional entre álcool e saúde mental
Apesar de haver um impacto do consumo de álcool na saúde mental, a relação entre saúde mental e consumo de álcool é bidirecional e complexa. Assim como o consumo de álcool pode desencadear problemas de saúde mental ou agravar situações já existentes, dificuldades na saúde mental podem aumentar o risco de consumo problemático de álcool. Por exemplo, algumas pessoas podem recorrer ao consumo de álcool como forma de lidar com sintomas de stress, ansiedade, depressão ou trauma. Embora possa oferecer uma sensação de alívio temporária, essa utilização pode levar ao desenvolvimento de padrões problemáticos de consumo, que podem resultar em quadros mais graves, nomeadamente dependência do álcool e outros problemas de saúde.
Fatores como a história familiar de perturbações mentais e comportamentos aditivos, experiências traumáticas na infância e predisposição genética podem aumentar o risco para o desenvolvimento tanto de problemas de saúde mental quanto problemas relacionados com o consumo de álcool.
Além dos efeitos diretos, o uso nocivo de álcool está também associado a problemas sociais que podem impactar negativamente o bem-estar mental, como problemas familiares, dificuldades financeiras, problemas legais e isolamento social, ou de saúde, como problemas associados ao fígado ou diversos tipos de cancro.
Conclusão
Embora o álcool possa parecer fornecer alívio temporário para o stresse ou outras questões emocionais, o seu uso excessivo e continuado pode promover ou agravar problemas de saúde mental. É importante desenvolver uma literacia para o consumo de álcool, compreender que não há consumo sem risco, e procurar ajuda se o seu consumo estiver a afetar negativamente a sua qualidade de vida e saúde física e mental.
Não estamos aqui a tentar diabolizar o álcool, mas a investigação mostra que qualquer quantidade de álcool consumida comporta riscos para a saúde física e mental. Ao mesmo tempo, o estigma em torno das questões de saúde mental pode dificultar a procura de ajuda para aqueles que enfrentam problemas relacionados com o consumo de álcool.
Portanto, convido-o a refletir sobre o impacto do álcool na saúde mental, não apenas a um nível individual, mas também como uma questão de saúde pública que merece a nossa atenção e ação coletiva. Um trabalho focado na promoção e prevenção da saúde mental é também um trabalho focado na prevenção do consumo de substâncias, onde se inclui o álcool.
Sugestões
Cada pessoa deve considerar o seu próprio contexto de saúde, histórico familiar e estilo de vida ao decidir sobre o seu consumo de álcool. Ainda assim deixo aqui a indicação do que constitui um consumo moderado de álcool, ou seja, a quantidade de álcool que pode ser ingerida sem causar danos significativos à saúde e mantendo um baixo risco de desenvolvimento de problemas relacionados com o álcool.
A quantidade máxima consumida varia de acordo com o género, e o consumo deve ser repartido nas principais refeições e de modo descontinuado sendo aconselhável não beber pelo menos dois dias da semana. Assim, um consumo moderado refere-se a até duas unidades de bebida padrão/dia (aprox. 20g de álcool – equivalente a cerca de 2 copos de vinho) para os homens (com idade inferior a 65; a partir dessa idade passa a 1 unidade) e para as mulheres até uma unidade de bebida padrão/dia (aprox. 10g de álcool). De salvaguardar que grávidas, menores, e pessoas com determinadas condições de saúde ou a tomar medicação psiquiátrica não devem consumir álcool.
Manter uma relação saudável com o álcool é uma combinação de autoconsciência, educação e prática de hábitos que promovem o bem-estar geral. Cada pessoa é única, portanto, é importante encontrar um equilíbrio que funcione para si. Respeitar as directrizes de consumo moderado, evitar beber por pressão social, praticar um consumo consciente em que intercala o consumo de bebidas com álcool e água ou outras bebidas não alcoólicas e conhecer os riscos do consumo excessivo são algumas das indicações que o poderão ajudar na criação e uma relação mais equilibrada com o álcool.
Se quiser saber mais sobre o tema do consumo de álcool e outras questões de saúde mental pode consultar os documentos disponibilizados pela Ordem dos Psicólogos Portugueses, nomeadamente: “Perguntas e Respostas: Consumo (Problemático) de Álcool” e “Checklist: O Meu Consumo de Álcool é Problematico?”.
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