O Psicólogo Responde é uma rubrica sobre saúde mental para ler todas as semanas. Tem comentários ou sugestões? Escreva para opsicologoresponde@cnnportugal.pt
Chamar todos, olhar para cada um.
Provavelmente é mais fácil desmotivar uma pessoa ou um grupo do que o motivar, e não é fácil conciliar as exigências de produtividade com o bem-estar de cada um. Recentemente, durante um momento em que procurava aperfeiçoar a capacidade das chefias no acompanhamento contínuo dos seus trabalhadores em matéria de segurança, motivação, qualidade, consumos e produtividade, notamos que um destes líderes não conseguiu ouvir todos os seus trabalhadores no tempo que dispunha para o fazer (nesta empresa existe a boa prática de o líder de turno reunir 10 minutos diariamente com a sua equipa). Quando confrontado por um dos pares com o facto de não ter conseguido ouvir todos, o líder respondeu que não conseguiu chamar todos, mas que tinha tido o cuidado de olhar para cada um dos participantes e aferir sobre a sua intenção de participar naquela reunião breve.
Precisamos de desenvolver práticas de monitorização diária de indicadores laborais. Criar reuniões regulares ou recorrer, com elevado sentido ético, às novas tecnologias, permite-nos recolher este tipo de informação. Podemos e devemos chamar todos, mas não podemos deixar de olhar para cada um. Manter as pessoas motivadas é um esforço contínuo e exige trabalhadores e lideranças sensíveis, bem como organizações e famílias comprometidas com a conciliação da vida pessoal e profissional.
Os desafios quotidianos, as pressões organizacionais e as desigualdades estruturais podem minar a capacidade dos trabalhadores para se manterem motivados e produtivos. Precisamos de trabalho, mas que este seja satisfatório e sustentável. Precisamos de trabalhadores motivados, mas que saibam reconhecer os seus limites.
A motivação no trabalho é moldada por uma interação complexa de fatores internos, de natureza mais intrínseca, e outros externos, mais ligados às condições do trabalho. A evidência é robusta quanto ao impacto do significado atribuído às tarefas, do apoio da liderança e das condições laborais na forma como os trabalhadores se sentem nos seus contextos profissionais. Trabalhar num ambiente que fomenta a autonomia, onde se recebe apoio e feedback construtivo, e onde existe a possibilidade de conciliar a vida profissional com a pessoal, são aspetos necessários para gerar um elevado nível de satisfação e desempenho.
Mas não basta estar motivado, é preciso que o trabalho seja sustentável. Para isso, é necessário que as condições de trabalho e de vida permitam que os indivíduos permaneçam ativos profissionalmente por mais tempo. Esta perspetiva realça a importância de criar ambientes que apoiem a longevidade da carreira, combatendo a desmotivação e promovendo o bem-estar a longo prazo. E sabemos que a perceção da sustentabilidade do trabalho não é uniforme entre os trabalhadores. Os estudos indicam que, em média, as mulheres enfrentam maiores dificuldades em perspetivar os seus empregos como sustentáveis, em grande parte devido a interrupções nas suas carreiras, frequentemente associadas a responsabilidades familiares. Para além disso, tendem a exigir muito mais de si próprias em termos de competência, o que pode comprometer o desenvolvimento e progressão das suas carreiras.
Curiosamente, embora as mulheres reportem, em média, mais dias de baixa por doença do que os homens, também demonstram um nível mais elevado de motivação intrínseca. Este dado sugere que, apesar das barreiras estruturais, muitas encontram significado no seu trabalho e valorizam a sua contribuição para a sociedade. Uma maior autonomia e reconhecimento podem fortalecer a perceção de sustentabilidade no trabalho feminino. Um estudo muito recente realizado pela
Direção-Geral da Administração e do Emprego Público (DGAEP) sobre a motivação dos trabalhadores da administração pública da União Europeia aponta para a importância de fatores como equilíbrio entre vida profissional e pessoal, segurança no emprego, autonomia e trabalho significativo como principais impulsionadores da motivação neste setor e, contrariando a ideia de que as diferentes gerações possuem expectativas laborais radicalmente distintas, os resultados indicam que tanto os trabalhadores mais jovens como os mais experientes valorizam fatores semelhantes, incluindo um bom ambiente de trabalho, oportunidades de desenvolvimento e reconhecimento profissional.
Em síntese, quer olhemos para o setor público, quer para o privado, a motivação para o trabalho é sempre um processo dinâmico, influenciado por diversos fatores. A implementação de estratégias para promover um "trabalho sustentável" é essencial para garantir que os trabalhadores/as possam desenvolver-se profissionalmente e manter o seu bem-estar a longo prazo, de modo a que todos possamos encontrar significado e estabilidade nas nossas carreiras.
Quando nos sentimos desmotivados profissionalmente, a resposta não pode ser apenas estrutural ou tecnológica. Ela deve ser, acima de tudo, humana. A desmotivação nasce muitas vezes da sensação de invisibilidade, da falta de reconhecimento ou da desconexão entre o indivíduo e o propósito do seu trabalho. Podemos, e devemos, construir ambientes laborais sustentáveis, oferecer flexibilidade, garantir equidade e promover o desenvolvimento contínuo. Mas, no fim, a verdadeira chave está na capacidade de cada organização e de cada líder de equilibrar a visão macro com o olhar atento para o micro. Chamar todos, sim, mas sem deixar de olhar para cada um, pois é no reconhecimento individual que reside a motivação coletiva.
No entanto, também cabe ao indivíduo um papel ativo na construção do seu próprio caminho profissional. Face à desmotivação, é essencial olhar para dentro e identificar as origens desse sentimento: trata-se de um desalinhamento com os valores pessoais, da falta de desafios ou do esgotamento físico e emocional? Resgatar o significado do trabalho passa por procurar autonomia, estabelecer limites saudáveis e investir continuamente no próprio desenvolvimento. A reflexão sobre o propósito, o diálogo transparente com lideranças e colegas, bem como a capacidade de ressignificar dificuldades como oportunidades de crescimento, são passos fundamentais. No final, a motivação não é apenas algo que recebemos do ambiente, mas algo que também construímos a partir das nossas escolhas e atitudes e não estamos sozinhos: podemos e devemos contar uns com os outros.
Sugestões
A nível organizacional:
1. Avaliar de forma regular o bem-estar dos trabalhadores, cumprindo a lei. Esta avaliação não deve ser intrusiva, mas deve corresponder às exigências do cargo. Deve ser efetuada por profissionais de saúde, mas podem sem ser desenvolvidas estratégias de prevenção e promoção da saúde em articulação com as chefias e trabalhadores.
2. Manter os canais de comunicação abertos com todos os trabalhadores (chefias diretas, Departamentos de Recursos Humanos e de Higiene e Segurança no Trabalho, Saúde Ocupacional, Médico/Psicólogo do Trabalho).
3. As chefias e os trabalhadores devem ter formação regular sobre o tema de forma a que possam desenvolver-se de forma contínua e sejam eles próprios os Champions of Well-Being das suas equipas e das suas vidas.
4. Promover e facilitar estratégias de conciliação da vida pessoal e profissional.
A nível individual:
1. Identificar as emoções e sentimentos que o trabalho está a causar no dia-a-dia.
2. Avaliar se o stress e a carga de trabalho se adequam ao seu nível de saúde, energia, formação e motivação para as tarefas que desempenha. Aferir se o esforço que está a fazer é sustentável e se não está a depender exageradamente do consumo de café ou outras substâncias.
3. Avaliar se consegue recuperar depois de um dia de trabalho e se mantém um nível de energia adequado para corresponder às suas responsabilidades familiares, outros projetos importantes e se consegue reservar tempo para descansar e para o lazer.
4. Identificar estratégias para abordar positivamente as situações que estão a causar-lhe insatisfação, conflitos ou sintomas de perda de saúde física ou psicológica (má qualidade do sono, dores nas costas, cabeça ou problemas intestinais).
5. Ponderar falar com os colegas de trabalho ou chefias para resolver as fontes de descontentamento, frustração, estagnação ou geradoras de apatia e estados de tristeza mais permanentes.
6. Aceitar ou pedir ajuda na empresa e em casa. Ser assertivo relativamente às suas necessidades. Respeitar a necessidade de descanso no trabalho e em casa.
7. Pedir ou aceitar apoio psicológico profissional que já possa existir na organização onde trabalho. Caso não exista, marcar consulta psicológica.