O Psicólogo Responde: Menopausa e problemas de saúde mental. Qual a relação?
Menopausa

O Psicólogo Responde: Menopausa e problemas de saúde mental. Qual a relação?

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José Alberto Ribeiro-Gonçalves
Psicólogo especialista em Psicologia Clínica e da Saúde e Vogal da Direção da Delegação Regional da Madeira da Ordem dos Psicólogos Portugueses

A menopausa refere-se à última menstruação e, em termos clínicos, diagnostica-se após um ano de amenorreia (ausência de fluido menstrual). Esta acontece habitualmente nas mulheres entre os 45 e os 55 anos, sendo que pode também acontecer de forma precoce, entre os 40 e os 45 anos, ou de forma tardia, após os 54 anos. Inclui um período relevante, que abrange o tempo de transição menopáusica e vai até ao primeiro ano depois da amenorreia, designado de perimenopausa ou muitas vezes conhecida como “pré-menopausa”, e que se reveste de particular importância quanto à vivência de sintomas característicos deste período de vida da mulher. A menopausa constitui-se como um biomarcador que delimita a fase reprodutiva das mulheres e o seu termo absoluto, mediado pela redução de hormonas como o estrogénio e a progesterona, mas apresenta repercussões diversas e destacadas no bem-estar psicológico geral.

As principais queixas relativas à menopausa são relatadas na perimenopausa e inclui as irregularidades menstruais. Estas alterações do ciclo menstrual podem iniciar-se entre 4 a 8 anos antes da menopausa, com um posterior aumento da duração dos ciclos menstruais e culminando em amenorreia. Contudo, uma das queixas mais frequentes remete para os sintomas vasomotores (suores noturnos e afrontamentos), mais bem conhecido como “calores”, e que afetam mais de 70% das mulheres. Em 30% das mulheres estes sintomas se apresentam como frequentes e/ou intensos, e podem estar associados a calafrios, tremores e sensação de ansiedade. Outra queixa importante é a perturbação do sono, sobretudo o despertar noturno, e a enxaqueca, que tende a ser mais frequente devido às flutuações hormonais. Entre 25% e 85% das mulheres, aproximadamente, também revelam a síndrome geniturinária da menopausa, que pode incluir secura, ardor e irritação vaginal, tal como infeções urinárias de repetição e dor sexual. Estes sintomas derivam da diminuição do estrogénio. Ainda, pelo menos metade das mulheres indicam também problemas na função sexual, tal como diminuição/perda de desejo sexual e perturbação do orgasmo. Outras alterações somam-se a estas, incluindo a diminuição da espessura e flexibilidade da pele.

Sintomas cognitivos e relativos ao humor também são frequentes na menopausa. Dificuldade na concentração, falhas na memória e na atenção são frequentes, tal como um maior risco para depressão. A irritabilidade e sintomas de ansiedade também podem ser referidos. A relação entre a saúde mental e a menopausa está amplamente estudada e, apesar de se saber que nem todas as mulheres apresentam problemas de saúde mental, verifica-se que há um risco acrescido para a manifestação de sintomatologia no âmbito da saúde mental neste período de vida. Uma das evidências mais importantes é que muitas vezes, durante

a menopausa, os problemas de saúde mental nas mulheres não estão associados necessariamente e apenas à dinâmica da menopausa em si, mas sim a um conjunto multifatorial que atenuam ou intensificam a vivência deste momento de transição para a vida não reprodutiva das mulheres. Combinam-se fatores hormonais e fatores físicos, como já indicados, a fatores psicossociais que muitas mulheres vivenciam neste período de vida, como as mudanças na dinâmica familiar (saídas de casa dos filhos) ou exigências na dinâmica laboral/profissional. A estes juntam-se os fatores pessoais, como a personalidade ou o histórico de problemas mentais prévios (ex. já ter tido depressão), que podem aumentar o risco de manifestação sintomatológica. Isto quer dizer que a menopausa em si não é a responsável pela maioria problemas de saúde mental nas mulheres de meia-idade, mas pode efetivamente configurar-se um fator de risco ou de maior sensibilidade.

Perante esta complexa relação entre os problemas de saúde mental e a menopausa importa saber distinguir quando a adaptação à menopausa está a ser saudável ou quando está a ser problemática. Sem esquecer que é frequente sentir algum grau de instabilidade emocional e estranheza devido aos sintomas característicos do período menopausico. Para fazer esta avaliação pode auxiliar-se no exercício FID (frequência, intensidade e duração), esta sigla serve de rastreio e permite consciencializar e identificar sinais de alerta. O FID consiste em identificar se os sintomas de saúde mental que está a sentir no dia a dia podem ser considerados muito frequentes (F) e/ou muito intensos (I) e/ou muito duráveis (D). Quanto mais letras das siglas estiverem presentes na sua autoavaliação, mais atenção deve dar aos sintomas. Estes sintomas podem incluir um estado de humor persistente por um período superior a duas semanas, períodos/momentos de ansiedade frequente ou desproporcionada, perda de interesse em atividades que anteriormente valorizava ou sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva. Após a autoavaliação do FID, e a ocorrência de uma ou mais letras da sigla, deve, de seguida, perceber se o sintoma em causa está a originar mau estar, incómodo ou sofrimento. Se a resposta for “Sim”, pode ser sinal de que precisa do apoio de um profissional de saúde mental.

Sugestões:

  • Explore técnicas de gestão de stresse que funcionem consigo: A prática de mindfullness, estratégias de relaxamento (ex. relaxamento muscular progressivo) e/ou técnicas de respiração podem reduzir a sintomatologia menopáusica, particularmente os afrontamentos, promover uma maior qualidade de vida e reduzir a ansiedade.
     
  • Fortaleça as suas redes de apoio: Investir no contacto social e partilhar experiências com outras mulheres que estejam em fases do ciclo de vida semelhantes pode ser particularmente estimulante para o seu bem-estar e promover filiação.
     
  • Identifique e evite situações que espoletem os afrontamentos: Identificar situações que ativam os afrontamentos é um passo importante para os reduzir. Para muitas mulheres estas situações podem ser calor, bebidas quentes, comida picante, álcool, cafeína, zanga ou stresse. Reduzir o stresse ou evitar estes consumos podem ajudar a diminuir os afrontamentos.
     
  • Adote uma alimentação saudável: Uma dieta diversa e rica em componentes como ómega-3, magnésio e vitaminas B pode ajudar na menopausa.
     
  • Adote práticas de exercício físico: Alguns estudos indicam que os sintomas vasomotores são 50% menos comuns em mulheres que praticam exercício físico regular em comparação com mulheres sedentárias. A prática de exercício também promove bem-estar emocional.
     
  • Mantenha-se fresca: Vista-se em camadas, podendo assim remover peças de roupa para ajustar-se face aos afrontamentos, e regular melhor a sua temperatura corporal.
     
  • Compreenda a sua medicação: Alguns tipos de medicação, como o raloxifene (evista), usado para tratar ou prevenir osteoporose, ou o tamoxifene (nolvadex, soltamox), usado para tratar cancro de mama, podem causar afrontamentos. Conversar com o seu médico e discutir a possibilidade de efeitos secundários da medicação nos afrontamentos pode ser importante.
     
  • Tenha atenção ao tempo: Na maior parte das mulheres, os sintomas caraterísticos da menopausa tendem a desaparecer naturalmente com o tempo.

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