O Psicólogo Responde é uma rubrica sobre saúde mental para ler todas as semanas. Tem comentários ou sugestões? Escreva para opsicologoresponde@cnnportugal.pt
Do ponto de vista psicológico, o divórcio pode ter efeitos a curto e longo prazos em diferentes áreas do desenvolvimento da criança. O divórcio frequentemente representa uma perda de estabilidade (sobretudo emocional) e uma perda das suas rotinas. A curto prazo, em termos emocionais, a criança frequentemente experimenta emoções como tristeza, medo, ansiedade, raiva e confusão. Algumas crianças podem sentir-se culpadas, acreditando que o divórcio é culpa delas (por ex., uma criança pequena pensar que desobedeceu aos pais e considerar que o seu comportamento conduziu à separação). Os impactos emocionais podem ser acompanhados de alterações de comportamento. Mudanças como agressividade, comportamentos regressivos (ex.: enurese), dificuldade em dormir ou alterações no apetite são comuns. Podem também surgir dificuldades na escola, incluindo problemas de concentração ou rendimento académico, ou isolamento. Nos adolescentes o consumo de substâncias e sentimentos depressivos têm sido também descritos. É, deste modo, essencial dar tempo à criança para que esta possa fazer a gestão emocional do divórcio.
Importa, no entanto, destacar que o impacto do divórcio pode variar significativamente dependendo da idade da criança, do seu temperamento, do contexto familiar e da forma como o processo de separação é gerido. Em concreto, em contextos onde a criança é exposta a violência interpessoal (familiar ou nas relações de intimidade), e, neste sentido, ela própria é vítima de violência, a vivência de uma situação de violência acarreta em si importantes impactos negativos, pelo que o divórcio dos pais nem sempre é vivenciado como algo negativo, ou como uma perda. Por outro lado, o modo como o processo de separação é gerido é por si só uma variável que influencia a forma como a criança vai sentir a separação dos pais: conflitos abertos e regulares entre os progenitores são uma fonte de stress para a criança.
Para minimizar os impactos de uma separação importa:
- Promover estabilidade e segurança: segundo a teoria da vinculação, a criança precisa de se sentir segura - Dizer à criança que o divórcio não é culpa dela e que ambos os pais continuam a amá-la é fundamental; Explicar as mudanças que vão ocorrer, de forma clara, é um aspeto importante; Manter uma rotina consistente, garantindo que ambos os pais e outras figuras familiares com as quais a criança tenha uma boa relação (por ex., avós) continuam envolvidos de uma forma ajustada, i.e., sem usarem os momentos de interação com a criança para falar mal do outro progenitor ou dos assuntos que conduziram ao divórcio, ajuda a preservar esse sentimento de estabilidade e segurança. Proteger a criança de discussões ou críticas entre os pais é essencial, resolvendo desentendimentos em privado. Numa situação de divórcio a criança pode sentir-se muito ambivalente e pressionada para tomar partido; importa assegurar que tal não acontece, para assegurar a sua estabilidade.
- A criança deve sentir-se amada de forma incondicional: é, por isso, fundamental que a criança sinta que a “casa da mãe” e a “casa do pai”, são também a sua casa. Importa assegurar que a criança tem o seu espaço (sobretudo emocional) em cada contexto, mesmo que haja outros adultos ou crianças (por ex., nas famílias reconstruídas), e tempo de qualidade com cada progenitor.
- Assegurar que não existe uma parentificação da criança. A parentificação é um fenómeno psicológico em que uma criança assume responsabilidades emocionais ou práticas que, normalmente, seriam da competência de um adulto. Por outras palavras, existe uma inversão de papéis, que ocorre mais frequentemente quando os pais dependem da criança para obter suporte emocional (por ex., consolar a mãe/pai) ou para desempenhar tarefas práticas que excedem as suas capacidades e a sua maturidade (por ex., tomar conta de irmãos pequenos de forma muito frequente, comprometendo tarefas escolares ou atividades de lazer).
- Promover interações positivas como planear conjuntamente aniversários, ou estarem ambos presentes em eventos escolares pode reforçar que ambos continuam presentes.
- Promover uma coparentalidade positiva, assegurando que em aspetos essenciais (por ex., regras nos adolescentes) existe um entendimento entre ambos os progenitores.
- Reforçar o envolvimento de outras fontes de suporte como a escola ou outras, associadas ao lazer ou à prática de atividades extracurriculares, para que a criança se sinta apoiada e compreendida nos seus diferentes contextos de vida.
- Consultar um psicólogo quando surgem sinais de sofrimento emocional intenso é importante para que se encontrem estratégias especializadas (não só para a criança como muitas vezes também para os pais) que promovam um desenvolvimento emocional saudável da criança.