O Psicólogo Responde é uma rubrica sobre saúde mental para ler todas as semanas. Tem comentários ou sugestões? Escreva para opsicologoresponde@cnnportugal.pt
“Trabalhar Cansa” (“Lavorare Stanca”, no original) é uma conhecida obra de Cesare Pavese, cuja primeira edição reúne poemas escritos entre 1933 e 1935. Sendo distante o conceito para Pavese, a síndrome de burnout decorre especificamente da exposição a factores de stress no trabalho que afetam o bem-estar físico, psicológico e social, bem como o desempenho global da pessoa.
O burnout caracteriza-se por sentimentos de desespero e dificuldades em lidar com o trabalho ou em realizá-lo de modo eficaz. Tendo tipicamente um início gradual, neste fenómeno estão presentes a exaustão emocional, com a pessoa a poder sentir “esvaziamento emocional” ou revelar menor capacidade de empatia (não sendo atípico o emergir/agudizar de dificuldades relacionais com chefias, colegas ou equipa), redução da realização profissional e envolvimento pessoal no trabalho, por o considerar gerador de stress e frustração. Aliada a dificuldades de concentração e diminuição da criatividade, o desempenho profissional pode ficar comprometido, sendo comum a percepção de que os esforços desenvolvidos não fazem qualquer diferença, o volume de tarefas é excessivo face aos recursos e tempo disponíveis ou o ambiente de trabalho pouco apoiante. A existência de sintomatologia física é também frequente (como exemplo, dores musculares, fadiga, cefaleias, mudanças no padrão de sono e sua qualidade, ...), exacerbando a experiência de menor qualidade de vida e bem-estar geral.
Se até aqui foi salientada a dimensão individual da experiência de burnout, é também certo que este fenómeno tem dimensões que extravasam a pessoa. Um estudo do McKinsey Health Institute (2023) reporta a experiência de sintomatologia de burnout em 22% de trabalhadores de 30 países, tornando clara a magnitude do problema, a que se associam elevadas taxas de absentismo e impacto económico para as organizações, local e globalmente. Assim, o impacto do burnout não se restringe ao próprio, mas atinge a entidade empregadora e a comunidade como um todo. Neste enquadramento contextual, de destacar ainda possíveis repercussões na qualidade das relações (não apenas laborais, mas também) pessoais, nomeadamente familiares ou de amizade.
Como podem a pessoa e a entidade empregadora contribuir para a prevenção do burnout?
Pessoa
Promover o auto-cuidado. Focar-se no seu bem-estar é uma prioridade. Tal pode passar por (re)organizar tarefas, definir de modo claro horários e rotinas de trabalho, mas também de lazer e sociais, geradoras de prazer. Desenvolver estratégias de gestão de stress, estabelecer um ritual para “desligar” do trabalho, preservar rotinas de sono, fazer exercício físico, realizar hobbies e actividades com pessoas que lhe são próximas podem ser formas de minorar a probabilidade de experienciar burnout e promover um melhor equilíbrio trabalho/vida pessoal. Dizer “sim” ao bem-estar exige frequentemente dizer “não”. Estabelecer e comunicar limites permite gerir o tempo, recursos e energia, priorizando o que tem efectiva prioridade.
Entidade
Operar de modo simultâneo em dois eixos, focados no trabalhador e na organização.
O foco no trabalhador pode incluir a disponibilização de programas de desenvolvimento de competências de gestão de stress e promoção de bem-estar (no contexto ou em articulação com outras entidades) ajustados às reais necessidades das pessoas, que devem, pois, ter voz na sua selecção (o trabalhador ter voz, isto é, saber que a sua opinião é ouvida e considerada, que efectivamente conta – ou seja, que o trabalhador conta -, é em si mesmo promotor de bem-estar). A disponibilização ou apoio no acesso a consultas de psicologia pode constituir-se, também a nível preventivo, como um recurso relevante.
Porém, a investigação mostra que os aspectos mais frequentemente referidos pelos trabalhadores como prejudicando a sua saúde mental e o seu bem-estar são i) a sensação de dever estar-se permanentemente disponível, ii) o tratamento injusto, iii) a carga de trabalho excessiva, iv) a baixa autonomia e v) a falta de apoio social, pelo que acções focadas exclusivamente no trabalhador e em programas de bem-estar não apenas são insuficientes, como podem ser profundamente desajustadas.
Assim, o foco na organização deve contemplar políticas flexíveis de trabalho, oportunidades de progressão de carreira, formação de lideranças promotoras de desenvolvimento individual e de equipas, remuneração adequada, processos claros e adequados às especificidades das funções desempenhadas, volume de trabalho compatível com a exequibilidade do seu cumprimento nos prazos acordados e definição colaborativa de objectivos e expectativas entre a entidade e o trabalhador.
Ante o burnout, o que podem a pessoa e a entidade empregadora fazer?
Pessoa
Promover o auto-cuidado. A prevenção é também útil quando o problema é experienciado. Adicionalmente, partilhar com colegas e chefia a dificuldade permite o potencial ajuste de tarefas, a sua estruturação e derivação conjunta de estratégias a pôr em marcha.
Procurar ajuda: recorrer a família e amigos que sejam suporte e a ajuda profissional de um psicólogo é de inequívoca importância.
Entidade
Acolher a dificuldade. Disponibilizar suporte no acesso a consultas de psicologia, e rever o volume, prazos e condições (físicas e sociais) de trabalho que respeitem a pessoa e as suas necessidades.
Sentir-se cansado depois de um dia de trabalho é normal, não o é se tal for reiterado e tiver associados os sinais descritos. “Trabalhar Cansa”. A edição portuguesa de 2023 (Penguin RH) do livro de Pavese tem como imagem de capa a obra de Van Gogh “The Siesta (after Millet)” (1890), onde dois trabalhadores rurais repousam numa sombra que os protege do calor do meio-dia.
Identificar formas de minimização do que pode constituir-se como risco em contexto laboral é de todos responsabilidade.
Para mais informações: https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/doc_perguntas_respostas_sobre_burnout_vf.pdf
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