O Psicólogo Responde: A depressão pode surgir do nada? Quais os sinais de alerta?
Depressão

O Psicólogo Responde: A depressão pode surgir do nada? Quais os sinais de alerta?

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Filipe Moreira
Psicólogo, Delegação Regional do Norte da Ordem dos Psicólogos Portugueses

Antes de tentarmos perceber a origem da depressão será importante desmitificar algumas ideias que podem prejudicar a sua compreensão. A verdade é que o termo “depressão" faz cada vez mais parte do vocabulário comum das pessoas. Ouvimos, frequentemente, “estou deprimido” ou “que depressão”, o que remete para um uso vulgarizado daquilo que podem ser os principais sinais de alerta. Muitos destas expressões, compreendidas até de forma ligeira ou socialmente aceitáveis, assumem significados que, na sua maioria, são utilizados de uma forma errónea. É habitual utilizar-se a expressão “estar deprimido” como sinónimo de tristeza. E este é um real perigo já que esta ideia pode invalidar a sintomatologia da depressão e reter a procura de ajuda profissional.

Desta forma, é importante clarificar que, nalgum momento da vida, qualquer ser humano pode sentir-se triste, ansioso ou com menos esperança no futuro. Mas estes sentimentos duram pouco tempo e devem ter uma função adaptativa a momentos negativos específicos. A tristeza efetua um trabalho importante de integração e de reparação.

Contudo, quando a pessoa sofre de depressão tende a ter estes sentimentos com maior intensidade, frequência e com repercussões bastante negativas em múltiplos aspetos da sua vida. A pessoa deprimida sente-se (e efetivamente está), por exemplo, menos capaz de sentir satisfação em atividades de vida mesmo naquelas que gostava e lhe traziam prazer, sendo muito difícil abandonar o humor depressivo em que se encontra. A tristeza começa a fazer parte da sua própria existência e, assim, ocorre interferência com as atividades do dia-a-dia, associada a um sofrimento intenso. A depressão, embora comum, é uma doença grave. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, é o problema de saúde mais prevalente na União Europeia, afetando cerca de 50 milhões de pessoas. As estatísticas revelam ainda que 11% da população irá sofrer um episódio depressivo ao longo da vida e que esta é a segunda maior causa de incapacidade. Note-se que Portugal ocupa a 5ª posição entre os países com mais casos de depressão. Excluído destes números a associação com outras patologias.

O desenvolvimento da depressão não se deve a uma causa específica. Sabemos hoje que pode resultar de causas multifatoriais, isto é, um conjunto de fatores, nomeadamente biológicos (por exemplo, traços genéticos), psicológicos (por exemplo, traços de personalidade, crenças distorcidas) e experiências de vida difíceis (por exemplos, traumas na infância e adolescência, divórcios, dificuldades financeiras, perdas de emprego, morte de alguém significativo), problemas interpessoais (por exemplo, conflitos em casa ou no trabalho, falta de apoio da família ou de amigos) e, ainda, condições médicas (por exemplo, doenças crónicas, doenças infeciosas, alterações hormonais,  doenças cancerígenas, entre outras). A interação destes fatores ou o aparecimento de um deles pode contribuir para o desenvolvimento e/ou manutenção da depressão.

Embora qualquer pessoa possa desenvolver sintomatologia depressiva, existem algumas situações ou experiências de vida que podem fazer com que a pessoa se torne mais vulnerável, como ter história familiar de depressão, já ter tido uma depressão previamente ou algum acontecimento de vida muito difícil no último ano. Note-se que a existência destas vulnerabilidades não significa necessariamente que a pessoa venha a desenvolver depressão. Devem ser considerados como fatores mais vulneráveis e aspetos que podem ser essenciais para a sua prevenção.

As pessoas podem experienciar os sintomas de forma diferente, quer em termos da sua frequência, quer intensidade. De facto, alguns sintomas podem ser temporários, enquanto outros podem durar até anos. Alguns podem ser pouco intensos, enquanto outros podem ser bastante intensos. A promoção do autoconhecimento ajuda as pessoas a compreenderem o carácter mais subjetivo destes sintomas, ou seja, o que é normal para mim pode não ser para outra pessoa.

Nesta linha de pensamento, podemos dizer que a depressão envolve três áreas distintas que estão relacionadas:

  • Pensamentos

As pessoas com depressão têm, frequentemente, pensamentos negativos sobre si mesmas, sobre a vida e sobre o seu futuro (por exemplo, “sou uma falhada”, “uma desilusão” ou “nunca serei feliz”).

  • Sintomatologia física

As pessoas deprimidas apresentam, frequentemente, sintomas físicos debilitantes, como por exemplo, dores de cabeça, cansaço, palpitações, baixa concentração, choro fácil, dificuldades na tomada de decisões.

  • Comportamento

​​​​​​​As pessoas deprimidas sofrem alterações importantes no seu comportamento, como por exemplo, ausência de motivação antes e/ou durante a ação, sensação de que tudo requer um enorme esforço, isolamento social até de pessoas significativas, evitamento de atividades de prazer ou mestria (algo que era feito com competência).

Os pensamentos, sintomas físicos e o comportamento influenciam-se entre si, criando, desta forma, um círculo vicioso que contribui, na maior parte das vezes, para a manutenção da depressão. E estes podem ser os principais sinais de alerta:

  • Tristeza e visão negativa da vida
  • Perda acentuada de interesse e prazer nas atividades do quotidiano
  • Isolamento social
  • Aumento ou perda de apetite
  • Insónia ou hipersónia, ou seja, dificuldade em adormecer ou dormir mais do que habitual
  • Agitação e inquietação ou apatia
  • Diminuição ou perda do desejo sexual
  • Frequente sentimento de culpa, desmotivação e baixa autoestima
  • Dificuldades de concentração e tomada de decisão
  • Pensamentos ruminativos sobre a morte e tentativas de suicídio

Sugestões

  • A depressão é uma perturbação do humor que não deve ser confundida com sentimentos de tristeza, geralmente reativos a acontecimentos da vida, temporários e que, de um modo geral, não são incompatíveis com uma vida normal.
  • É importante também que exista um conhecimento melhor da doença e que o estigma seja diminuído para facilitar a deteção mais precoce da doença. É fulcral a consciencialização da patologia e desmistificar algumas crenças erradas como, por exemplo, “é normal sentir-me assim e isto vai passar”.
  • Pode ser importante encontrar formas de gerir o stress normal do dia a dia e promover formas de aumentar a resiliência. Enraizar a ideia que cuidar da saúde mental é tão importante como cuidar da física. Não há saúde sem saúde psicológica.
  • Cuidar bem de si: dormir o suficiente, adotar uma alimentação saudável e praticar exercício físico. Um padrão alimentar saudável e a prática de atividade física regular poderão ser eficazes na redução do risco de depressão.
  • Cercar-se de pessoas que lhe dão apoio também é um cuidado importante para se sentir fortalecido e prevenir a depressão. Tornar hábito a procura de apoio na família e amigos nas alturas mais difíceis. Os hábitos são difíceis de mudar, mas reconhecer é a base da mudança. Pedir ajuda é um sinal de autocuidado, não de fraqueza.
  • Fazer consultas de rotina com regularidade e consultar o seu médico de família se não se sentir bem. É preferível tirar as dúvidas a viver com elas. A dúvida, para além de aumentar sintomatologia ansiosa, agrava, muitas vezes, os sintomas depressivos.
  • Procurar ajuda se se sentir deprimido. Esperar muito tempo poderá piorar a situação e intervenção. O acompanhamento psicológico pode ser vital. Temos todos a responsabilidade de normalizar a ida ao psicólogo. Os Psicólogos procuram compreender e melhorar o funcionamento e o bem-estar das pessoas, compreender os seus pensamentos, sentimentos e comportamentos, sem crítica ou julgamento e com aceitação total. Um psicólogo pode ajudar.

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