“Não foi só o que se perdeu, mas aquilo que poderá estar para vir.” Depois do incêndio, Alcina e os outros pastores da Serra da Estrela temem pelo queijo

“Não foi só o que se perdeu, mas aquilo que poderá estar para vir.” Depois do incêndio, Alcina e os outros pastores da Serra da Estrela temem pelo queijo

Texto Maria João Caetano

Fotografia Miguel Mateus

Sem pastos para as ovelhas bordaleiras, os pastores da Serra da Estrela receiam que o incêndio afete a produção de leite e a qualidade do queijo deste inverno. Por entre as cinzas, encontramos Alcina, que faz os queijos mais famosos de Videmonte, e Ana e André, que, a par do pasto, querem plantar carvalhos e outras folhosas no seu terreno: “Sabemos que os incêndios vão ser mais frequentes, por isso temos de nos preparar”

Não bastava a seca. Alcina não se lembra de nenhum ano em que as nascentes secassem como aconteceu este ano. “Era impensável eu ter as ovelhas num sítio e ter de as levar para outro para beber água, isto nunca me aconteceu”, lamenta-se a pastora. Não bastavam os javalis, “essa praga horrorosa”. Alcina odeia os javalis que lhe destroem o centeio e o milho e lhe causam tanto prejuízo. Não bastava a língua azul, uma doença que começou a afetar as ovelhas e que já preocupa alguns criadores. Não bastava isto tudo e a vida no campo que já é difícil como é, agora ainda mais os incêndios.

Quando o incêndio começou na Serra da Estrela, a 6 de agosto, Alcina e António andaram uns dias “a guardar o fogo” de longe, que é como quem diz a controlar os avanços das chamas, até decidirem irem buscar os animais que andavam na serra e trazê-los para perto de casa, em Videmonte, município da Guarda. As vacas nunca tinham saído do seu pasto, nunca tinham pisado alcatrão. Foi preciso aliciá-las com “rebuçados” e acalmá-las durante todo o caminho, vá, venham lá, está tudo bem, repetia Alcina enquanto encaminhava os animais. Com as ovelhas valeu-lhes os cães. As ovelhas – as Bordaleiras, com cujo leite se produz o famoso queijo da Serra da Estrela - estão habituadas a percorrer a serra toda no verão e a pastar à sua vontade. Mas “como isto estava tão feio, tive que as trazer para perto”, explica Alcina. Colocou-as entre cancelas, junto ao charco a que aqui se chama barragem, e achou que ali estariam seguras. E estavam. O fogo ficou a poucos quilómetros da aldeia.

O incêndio manteve-se a poucos quilómetros de Videmonte, na Guarda
À medida que as chamas se aproximavam, Alcina aliciava as vacas com “rebuçados” para as encaminhar até casa

Mas depois vieram os bombeiros. Com o posto de comando montado no campo de futebol de Videmonte, foram dias de rebuliço de carros, de sirenes, de luzes. Dia e noite. As vacas nunca tinham visto luzes. “Ficaram agitadas com tanto movimento, partiram a rede, tivemos que ir lá acalmá-las.” E as ovelhas, então, que estavam numa vedação arrumadas à barragem, “quando veio o helicóptero encher, foi um caos”. “Animais sossegadinhos, habituados na sua rotina, levarem ali com aquele barulho sempre em cima deles, é claro que ficaram assustadas. Desataram a correr, atropelaram-se umas às outras, coitadas, umas ficaram por baixo e tiveram as outras a passar-lhes por cima. Iam contra a rede, tentavam fugir, foi terrível ver os animais naquele sofrimento.” Alcina encolhe os ombros, resignada. 

Não bastavam os incêndios que queimaram o pasto, ainda mais isto. Algumas ovelhas ficaram feridas e se calhar ainda terão de ser abatidas. “E agora iremos ver como correrá a parição com este stress todo. Se começarem a fazer abortos vai ser muito complicado.” E mesmo que não façam abortos, é provável que, por causa do stress e da alteração na alimentação, o leite seja menos ou tenha menos qualidade. “Vamos ver. Não foi só o que se perdeu, mas aquilo que poderá estar para vir.”

O fogo queimou o pasto e algumas ovelhas ficaram feridas

O que se perdeu está à vista. Chegamos ao Vale Formoso e à nossa volta instala-se um extenso manto negro. Em vez de pastos, cinza. Em vez dos badalos dos animais, o silêncio. Em vez do verde do vale glaciar do Zêzere, árvores queimadas. Vamos por ali. Sameiro, Manteigas, Folgosinho, Valhelhas. Tudo queimado. O incêndio que lavrou entre 6 e 17 de agosto na Serra da Estrela “originou um conjunto de danos e prejuízos em áreas de vegetação natural, nos cursos de água, na floresta, nos matos e matagais, no mosaico agroflorestal, nos prados e pastagens, nos habitats naturais e, ainda, em muitos geossítios classificados”, lê-se na Resolução do Conselho de Ministros que declara a situação de calamidade no Parque Natural da Serra da Estrela. 

Os concelhos de Belmonte, Celorico da Beira, Covilhã, Gouveia, Guarda e Manteigas foram os mais afetados. Segundo dados do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, estima-se uma área total ardida naqueles concelhos de cerca de 22 mil hectares do Parque Natural e na Zona Especial de Conservação. Isto corresponde a cerca de 25% do território protegido. Da área percorrida pelo incêndio, 16% tinha utilização agrícola, 10% corresponde a águas interiores, 33% a floresta, 20% a matos e pastagens, 9% é utilização urbana e 12% é improdutiva.

“O Governo reconhece, assim, a necessidade de declarar a situação de calamidade no Parque Natural da Serra da Estrela, com o intuito de reposição da normalidade na respetiva área geográfica, atendendo em especial à dimensão e aos prejuízos da área ardida, aos municípios afetados e ao facto de o Parque Natural da Serra da Estrela ser uma área protegida de âmbito nacional e um geopark mundial.”

Fogo destruiu 25% da área total da Serra da Estrela. Várias espécies de animais foram atingidas

A primeira preocupação: arranjar comida para os animais

Alcina orgulha-se de nunca dar ração às suas ovelhas. Elas pastam na serra, livremente, depois no inverno comem o feno, centeio e milho, as ramas das batatas. A diversidade da alimentação das ovelhas é um dos segredos do queijo. Mas este ano ela não sabe como vai ser. O palheiro estava cheinho de feno, “não cabia nem mais nada”, era para os animais comerem no inverno. E agora, só nestas últimas semanas, já se começou a gastar.  “Estão a comer agora o que tínhamos armazenado para o inverno. Mas pelo menos até vir a época das chuvas, para procurarmos algum sítio onde possam comer, temos de as deixar aqui.”

O segredo para o queijo de Alcina está na diversidade da alimentação das ovelhas, mas preocupam-na as alterações que se avizinham

“É gravíssimo”, confirma Manuel Marques, presidente da Associação Nacional de Criadores de Ovinos da Serra da Estrela (ANCOSE). “Preocupa-me a produtividade, porque se as ovelhas forem subnutridas produzem menos leite, mas também a qualidade. A ovelha deve pastar na Serra da Estrela e comer toda aquela diversidade de vegetação que temos. Para termos o queijo da Serra da Estrela, temos de ter, primeiro, estas ovelhas, a Bordaleira ou a Churra Mondegueira, mas, depois também temos a flora e o microclima da serra. Se não, não é queijo da Serra da Estrela, é outro queijo qualquer.”

O advogado de 65 anos, filho de pastores, desdobra-se em contactos e reuniões com autarcas e com “Lisboa”. Com ou sem apoios institucionais, a ANCOSE, assim como outras associações regionais, está já a distribuir feno e ração aos pastores mais afetados. “Tivemos aquela desgraça em 2017”, diz, referindo-se ao último grande incêndio na Serra da Estrela, na região de Seia e Gouveia. “Nessa altura, a associação teve de doar duas mil e tal borregas para repor o efetivo animal perdido. Agora o problema é outro. A principal necessidade é a alimentação. Os fenos arderam, os pastos arderam e os animais não podem comer cinzas. Temos de agir depressa.”

A ANCOSE estima em cerca de 80 mil as ovelhas que estão registadas e que todos os anos produzem cerca 5,6 milhões de litros de leite, mil toneladas de queijo e 2 milhões de requeijões. Mas entre os mais de 220 pastores certificados, há já quem considere abandonar a profissão. “Há cada vez menos pastores na serra. Isto é muito bonito, mas as pessoas têm que ter do que viver.”

Manuel Marques (à direita), na companhia de um pastor

Em Videmonte, basta perguntar por Maria Alcina para nos indicarem o caminho. “Vão comprar queijo?” É subir a rua a partir da igreja e a casa dela é a última do lado esquerdo, antes do campo da bola. Batemos à porta mas Alcina aparece-nos vinda dos campos. Estava a trabalhar. “Já sou filha de pastores e depois casei-me também com um pastor”, conta. Tem 51 anos e começou a trabalhar no campo ainda criança, devia ter uns dez anos. “Não era só eu, éramos todos.” Nos dias de hoje, explica, os pais vão trabalhar e deixam os filhos nas creches. Naquele tempo, não havia creches. “Não havia onde ficar, toda a gente ia para o campo e as crianças tinham de ir também.” Na hora do calor, lembra-se, os miúdos empinavam os molhos de centeio e faziam “um agachicho” para terem um bocadinho de sombra. “Nós não passámos a fase da criancice. Não me lembro de ter um brinquedo. Só uma vez, eu e a minha irmã tivemos uma boneca, puxávamo-la cada uma para seu lado.” Cresciam depressa as crianças, antigamente, e começavam logo a ajudar os pais. “Sempre, desde que me lembro. Mesmo gaiatos, mesmo pequenitos, nós, podendo ir com o jarrito da água, já íamos para o campo dar água a quem lá andava”, recorda. “Havia sempre coisas que podíamos fazer.” E no campo ela aprendeu a fazer de tudo.

António e Alcina casaram-se há 31 anos. De prenda de casamento, o pai ofereceu-lhe dez ovelhas. “Isto já era para eu aprender a trabalhar forte e feio”, remata. O noivo trouxe consigo algumas cabras. Foram comprando ovelhas, vendendo as cabras e arranjando terras até chegar ao que têm hoje: 13 vacas, quase 200 ovelhas, seis cães, alguns gatos, umas quantas galinhas, hectares espalhados pela serra com sementeiras, pasto, horta. “Não é uma vida rentável ao início, porque temos de trabalhar muito. Por exemplo, neste momento, trabalhamos o verão todo e gastamos mas não ganhamos nada. Enquanto as ovelhas não parirem, que deem leite, que faça o queijo e que ele esteja bom para sair, eu não consigo ter lucro nenhum.”

Viver um dia de cada vez: “Ainda há de faltar primeiro a boca do que a sopa”

No dia em que o fogo se aproximou, Alcina andou na serra, para cá e para lá, vendo os terrenos, ajudando os animais, fazendo o que podia até que, toda suja, toda preta, desceu a rua em passo apressado, sem tempo sequer de passar por casa e ajeitar as roupas, para chegar à igreja a horas da missa que tinha encomendado para a filha. “Cheguei lá toda embuseiradinha de chorar, mas ao fim de uma hora saí com uma calma, parecia outra.” A fé que tem em Nossa Senhora tem sido como um cajado em que se apoia sempre que a vida lhe prega alguma rasteira. Há três anos, quando a filha morreu num acidente, Maria Alcina entrou na igreja zangada. “Porque me fizeste isto?”, perguntou à santa, e é bem capaz de pelo meio lhe ter lançado uns quantos impropérios, porque quando falamos com alguém que nos é assim tão próximo, como Alcina é de Nossa Senhora, não estamos com meias medidas nas palavras. “Porque me fizeste isto?” Desde então, veste-se sempre de preto. E mesmo destruída por dentro, Alcina encontrou sempre conforto na Nossa Senhora, ela que também perdeu o seu filho e que saberá bem o quanto dói esta dor. Nos dias piores, nos dias em que ninguém lhe podia dizer nada, descarregava a sua raiva na massa do pão. “Ai, o bem que aquilo nos faz.” Transformava a tristeza em pão de centeio com milho, cozido no forno a lenha. O cheiro do pão a invadir a casa e a aliviar-lhe os pensamentos.  “Teremos de viver um dia de cada vez”, diz.

Destruída pela morte da filha num acidente, a pastora encontrou sempre conforto na Nossa Senhora

Se alguma lição aprendeu com os tropeções da vida foi que não adianta amofinar-se com o que aí vem. “Costumo dizer que ainda há de faltar primeiro a boca do que a sopa”, brinca. E, depois, mais esperançosa: “Pode ser que até venham chuvas, que abone a erva e os animais não precisem tanto de feno”. Daqui a dias está aí a Feira Farta da Guarda e Alcina há de lá estar a vender queijos e pão e talvez também deliciosas bolas de carnes, biscoitos, broas e filhoses. Assim não lhe doam os braços. E depois, não tarda, começa tudo de novo. Se olhar agora as ovelhas, Alcina já lhes vê “uma manchinha de amonjo”, o que significa que, a meio de setembro, mais ou menos, irão parir. Pouco depois, começa a ordenha e é altura de começar a fazer queijo. De manhã cedo, logo às seis da manhã, e à noite, quando o sol se está a pôr, a cada ordenha – manual, claro - faz uma leva de queijos até encher todas as prateleiras da queijaria.

Pelo meio, há todo o trabalho do campo. Enquanto um vai tratar das terras o outro leva o rebanho a pastar. “Geralmente sou mais pastora do que o meu marido, é um serviço que gosto muito de fazer”, conta Alcina. As ovelhas são muitas mas “são amigas”. “A gente atira-lhes um berro quando se começam a afastar e levamos um milho no bolso para as mais ariscas. Há aquelas que acodem à mão, chamamo-las pelos nomes e elas vêm. Se eu chamar a Flor ou a Meiguinha ou a Boneca elas levantam a cabeça".

Alcina prepara-se para vender os seus queijos na Feira Farta da Guarda

Alcina aprendeu a fazer o queijo com a mãe e, “embora as condições sejam diferentes”, ainda o faz “exatamente da mesma maneira”. Queijo coalhado com sal e cardo, espremido vagarosamente pois, como dizem os antigos, “o queijo quer-se dorminhão”. São meses e meses a cuidar dos queijos, virando-os de um lado para o outro, lavando-os duas vezes por semana e mudando-lhes a roupa suja, pelo menos até ficarem secos. “Todos os dias mexo nos queijos”, explica. Um queijo leva uns dois meses até ficar pronto a vender. E a Alcina não lhe faltam clientes. “Vendo tudo aqui à porta, as pessoas vêm e depois, se gostarem, voltam e recomendam aos amigos. Por isso é que não posso baixar a qualidade. Tenho clientes de há anos. Já aceitei encomendas para o natal, vamos ver se corre tudo bem. Os médicos têm-nos estragado um bocadinho a vida, dizem que faz mal ao colesterol, mas se formos a ver tudo nos faz mal, não é?”

Ainda há pastores. E jovens que sonham transformar a paisagem

Na arte do queijo, Ana ainda é uma principiante. “Uma vez que se apanhe o jeito não é muito difícil, mas há muitas variáveis, um dia é mais quente, outro dia é mais húmido, outro dia há uma trovoada ou vem mais vento e o queijo engelha, tudo influencia”, conta. Ana passou uns meses com a dona Ângela e o Ti Manel, em Passos da Serra, Gouveia, no âmbito da Escola de Pastores. E depois também esteve com a dona Gabriela, na Queijaria Alfredo e Saraiva. Ouviu as histórias e os conselhos que os mais experientes tinham para lhe passar e fez muitas perguntas antes de, no ano passado, se sentar também ela a ordenhar as suas ovelhas e depois fazer o seu primeiro queijo. “Foi uma aventura. Eu ia experimentando, uns dias saía melhor, outros pior. Mas é normal, temos de ir afinando.” Esses primeiros queijos foram para a família e para os amigos. Para a próxima espera ter mais sorte. Talvez este ano já dê para vender alguns.

Ana e André mudaram-se para a Serra da Estrela em 2018

Ana Teresa Matos tem 31 anos, cresceu em Mafra e estudou Biologia e Engenharia Florestal, André tem 30 anos, vem de Vila Franca de Xira e estudou Arqueologia. Em 2018 mudaram-se para a Serra da Estrela. São pastores mas não são só pastores.

Os pais de Ana são ambos biólogos e foram eles que lhe incutiram o gosto pela natureza e pela montanha. “As nossas férias eram passadas no interior, vínhamos muitas vezes para a Serra, não éramos tanto de praia”, conta. Quando escolheu o curso já tinha algumas noções de ecologia e das questões ambientais e, à medida que se foi apercebendo de todos problemas associados ao abandono rural e aos incêndios, decidiu que queria trabalhar na conservação da natureza “mas não queria ir para uma empresa ou uma instituição, queria mesmo pôr as ideias em prática.” A decisão pode parecer radical mas não foi difícil de tomar. Venderam uns terrenos “lá em baixo” e compraram outros “cá em cima”: arranjaram 100 hectares, pediram ajuda aos amigos para reconstruírem a casa e compraram ovelhas, primeiro duas, depois mais três, depois mais 15 e mais umas quantas, até às 50 que hoje têm. O objetivo está bem definido: “Aquela paisagem estava abandonada há 15 anos, tinha giestas maiores do que pessoas, com pouca diversidade, muito susceptível aos incêndios. O nosso projeto é transformar esta paisagem degradada numa paisagem biodiversa, heterogénea e resistente ao fogo”. Foi assim que nasceu a Reserva Etnoecológica do Vale do Velho.

O casal procura transformar a paisagem degradada numa paisagem biodiversa

Primeiro, desmataram cerca de 30 hectares para criar pastagens naturais para as ovelhas comerem e potenciar a biodiversidade local nessa parte. “Elas vão comendo e vão puxando mais o crescimento da erva, as pastagens vão melhorar gradualmente, com o pastoreio rotativo e a estrumação”, explica Ana. Depois, começaram também a fazer sementeira para recuperar a floresta autóctone e, ao mesmo tempo, veem a fauna a mudar: já têm muito mais perdizes, coelhos e outros animais. “Demora muito tempo, mas temos de começar por algum lado. É um projeto para a vida.”  

“Sabemos que os incêndios vão ser mais frequentes, por isso temos de nos preparar”

No dia em que o incêndio começou, Ana e André viram logo uma coluna de fogo lá ao longe. Foram dias muito stressantes. “Todos os dias víamos a coluna maior e maior. E houve um dia em que já se via uma coluna de fumo mesmo por cima de nós e começou a cair a cinza preta. Estava em casa e comecei a ouvir bater no telhado, como se fosse chuva.” Até que um dia o fogo que parecia lá longe começou a aproximar-se e a descer rapidamente. Já não dava tempo para retirar as ovelhas. “Tínhamos um terreno lavrado, mais limpo, colocámos lá as ovelhas, com umas cancelas e um aspersor por cima. Elas ficaram ensopadas. Entretanto chegaram os bombeiros e a GNR e disseram-nos que tínhamos de ir embora.” Só tiveram autorização para regressar no dia seguinte. As ovelhas estavam bem e a casa estava intacta. Mas o terreno ardeu todo. “Com a velocidade a que o fogo vinha, mesmo com o terreno limpo não era possível evitar”, diz Ana. “Tínhamos começado a fazer alguma sementeira, todos os anos apanhávamos bolotas e atirávamos para a terra, era ainda muito pouco mas se não fosse isso provavelmente a nossa casa teria ardido e assim foi um fogo lento que subiu e deu tempo para os bombeiros conseguirem protegê-la.”

No Parque Natural da Serra da Estrela arderam cerca de 22 mil hectares

O incêndio não os surpreendeu. “Sabemos que com as alterações climáticas estes incêndios vão ser mais frequentes, por isso temos de nos preparar.” Agora, vão aproveitar que o terreno ardeu todo para fazer uma limpeza e, depois, “fazer uma grande sementeira para mudar aquela paisagem”. “Vamos pedir ajuda aos vizinhos, amigos e associações, para recolher sementes locais de carvalho-roble, carvalho-negral, castanheira, e depois outras espécies em menor número como o freixo, a cerejeira de água, o mostajeiro." O objetivo, além de recuperar a floresta, é que as árvores funcionem como corta-fogo para os incêndios. “As folhosas têm uma grande quantidade de água no seu interior e têm um efeito de criação de humidade. Ao contrário dos pinheiros, que são árvores de fogo, os carvalhos e as faias podem ajudar a combater os incêndios. Para a próxima vez que o fogo passar, as árvores ainda devem estar pequenas, mas para a outra já estarão grandes. Dentro de 20 anos esperamos já ter ali um efeito de barreira.”

“Os ciclos de fogo vão ser cada vez mais intensos. Não os poderemos impedir, mas podemos agir na prevenção, para que os incêndios não sejam tão extensos nem tão severos”, confirma Sara Boléo, dos Guardiões da Serra da Estrela, que fala na importância de criar “mosaicos” – ou seja, criar zonas de plantação de folhosas que alternam com zonas de pinhal - para melhor combater os fogos. “O ordenamento do território e o desenho da paisagem têm de ser diferentes. Isto é algo que não pode ser adiado.” Essa é uma das suas grandes batalhas.

Nos próximos tempos, vão aproveitar o terreno ardido para fazer uma limpeza

 

“A nossa zona foi muito fustigada no incêndio de 2017. Nessa altura, nas redes sociais, começou um movimento que surgiu dos sentimentos de impotência e revolta por não termos podido fazer nada. Queríamos recomeçar a fazer diferente, contribuir para a sustentabilidade e a biodiversidade da Serra da Estrela”, conta Sara Boléo, 45 anos, doutorada em Energia e Bio-Energia e membro da direção dos Guardiões da Serra da Estrela. A associação, nascida da sociedade civil e baseada no voluntariado, tem procurado ser uma voz ativa e interventiva. 

Uma das suas primeiras atividades foi precisamente uma formação sobre como recuperar as áreas ardidas. A primeira coisa a fazer, explica Sara, “assim que o solo arrefecer e antes das primeiras chuvas”, é estabilizar os solos e proteger as linhas de água. “O incêndio destrói toda a vegetação, deixa de haver a camada de manta morta onde a água se infiltra e também as raízes que agarram os solos. Por isso, o principal perigo é que, ao chover, e porque o território é muito declivoso, a água escorra levando consigo os solos e as cinzas. Isto é mau por causa da erosão mas também porque as cinzas podem poluir as águas. Não podemos esquecer que são na Serra da Estrela as cabeceiras dos rios que abastecem Lisboa”, diz Sara. 

Contaminação dos solos na Serra da Estrela pode pôr em causa abastecimento de água a milhões

É preciso, portanto, estabilizar os solos e preparar o terreno para que, daqui a dois anos, mais ou menos, se possa começar a semear. Mas é preciso, acima de tudo, mudar a maneira de pensar. “Defendemos que, para tornar os ecossistemas sustentáveis, temos que apoiar as pessoas que vivem na Serra da Estrela, como é o caso dos pastores e pequenos agricultores de subsistência. Os pastores são agentes de gestão do território, os animais são sapadores, comem mato, ajudam a diminuir a carga combustível. E é preciso valorizar as outras culturas, não só o pinheiro. Mesmo sabendo que as vantagens dessas culturas só vão chegar mais tarde. Porque, se continuarmos assim, o que vai acontecer é um abandono do território. Então, o terreno não será cuidado, não será limpo, não será tratado e vai ser muito pior”, explica Sara. 

“A floresta pode ser uma grande fonte de riqueza também. Mas leva algum tempo”

Para Ana, a principal preocupação agora é que os animais tenham o que comer. Nestas últimas semanas, as ovelhas não puderam ir pastar. Se comerem cinza isso pode fazê-las abortar e não querem arriscar. “Os Guardiões da Serra arranjaram-nos fardos de feno e de palha, e rações, nós não costumamos ração dar mas agora tem de ser, se não elas vão emagrecer muito.” Só destas duas semanas, já estão mais magras, porque estão habituadas a andar livremente e a comer de tudo, e a palha não é tão nutritiva. Valeram-lhe os vizinhos Frederico e Teresa, que lhes cederam o seu terreno, perto de Folgosinho. Na segunda-feira, logo de manhã, Ana e André saíram com o rebanho e percorreram sete quilómetros até ao novo pasto. Para as ovelhas é dia de banquete. “Estão mesmo felizes, já há tanto tempo que não viam uma erva assim verdinha.” A cadela Urze anda por ali nas suas pesquisas enquanto as ovelhas se alimentam. Os pastores conhecem todos os animais: esta é a Nikita e a outra a Pedrinha, esta mais mansinha é a Amiga e a outra, mais aventureira, é a Lambisgoia. Apesar de todos os cuidados, Ana sabe que vai haver consequências: “Os borregos devem vir mais mirradinhos e o leite também será menos. Vai ser tudo pior. Temos guardada a comida que é para o inverno, até lá espero que já tenha rebentado alguma coisa para elas comerem.”

As ovelhas estavam habituadas a andar livremente e a comer de tudo
Agora recorrem a fardos de feno e de palha, mas não são muito nutritivos

 

Mas mesmo com estes revezes, Ana e André têm muitos planos. Querem aumentar o rebanho. As ovelhas dão o carneiro e a lã e ainda dão o leite que há de ser transformado em queijo. Com os vizinhos mais antigos estão sempre a aprender. Para além de como fazer queijo, aprenderam os cuidados principais com as ovelhas, como fazer a ordenha, como preparar as camas, o maneio, como melhor plantar e aproveitar o que a serra lhes dá. “Queremos aprender os costumes de antigamente porque eram muito mais ecológicos, era uma vida mais sustentável. Achamos que faz todo o sentido recuperar algumas dessas técnicas. Na escola, aprende-se a fazer as coisas com tratores e fertilizantes, e nós queremos saber fazer de outras maneiras, sem máquinas nem químicos. Queríamos ser o mais independentes possível de energias fósseis e de agro-químicos. Talvez um dia a gente arranje umas vacas e consigamos fazer o cultivo do centeio, ter uma horta, cogumelos.” Ana e André gostavam de apostar “um bocadinho” no turismo, mas tendo sempre como base a agricultura. “Talvez fazer uns eventos, uns passeios ecológicos, fazer educação ambiental.” Por agora, o dinheiro “dá à continha” mas isso não os preocupa, vê-se nos seus sorrisos. A paisagem agora pode ser desoladora, mas a regeneração já está a acontecer. Eles não têm pressa. Os seus dias são regulados pela natureza e não pelos relógios, aprenderam a desfrutar do silêncio e a viver isolados. “Não custa assim tanto”, diz Ana. “A floresta pode ser uma grande fonte de riqueza também. Leva algum tempo, claro. Uma pessoa tem mesmo de gostar disto e querer.” Eles querem.