Mobilidade em Portugal: o presente e o futuro dos transportes
Quanto tempo por dia passamos em deslocações, de casa para o trabalho e vice-versa? No ritmo vertiginoso em que vivemos, o sistema de transportes tem um papel preponderante nos nossos dias. Atualmente, procuram-se soluções que respondam à necessidade de melhoria de qualidade de vida das populações, coesão territorial e sustentabilidade. Sem esquecer, é claro, o desenvolvimento económico do país. É preciso descobrir como resolver os desafios do presente e do futuro do sistema de transportes do nosso país.
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Rede rodoviária, ferroviária, metro e transporte aéreo: avanços e contrastes
Sabia que, nos últimos 30 anos, o número de automóveis ligeiros triplicou em Portugal? Contavam-se 185 automóveis por 100 mil habitantes em 1990 e passaram para 530 em 2019. De facto, houve um investimento assinalável na rede rodoviária: Portugal continental ganhou 2800 quilómetros em autoestradas e algumas viagens encurtaram em mais de uma hora. Já a rede ferroviária não conseguiu a mesma atenção: o continente perdeu 600 quilómetros de ferrovia nos últimos 30 anos.
Por outro lado, a linha de metro aumentou 100 quilómetros. Em Lisboa, o metro passou de três linhas para quatro e de 16 para 44 quilómetros. Inaugurado em 2002, o metro do Porto era composto por uma linha e 12 quilómetros – hoje, conta com 67 quilómetros e 6 linhas. Já o metro do sul do Tejo, em 2007, tinha uma linha e quatro quilómetros. Em 2019, alcançou 12 quilómetros e três linhas.
No que se refere ao transporte aéreo, hoje em dia voamos duas vezes mais longe e multiplicou-se por seis a frota de aviões de companhias aéreas licenciadas em Portugal. A acompanhar este crescimento, está o número de passageiros transportados, que é cinco vezes superior: de 4,3 milhões para 19,1. Um valor em constante ascensão, que demonstra a importância da discussão sobre o novo aeroporto de Lisboa. Também no transporte marítimo há mais viajantes: de facto, o número de navios de passageiros aumentou dez vezes.
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Como Resolver
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O panorama dos transportes: desafios e estratégias de melhoria
Importa, assim, perceber se Portugal tem as infraestruturas adequadas a estes valores, no que se refere a estradas, ferrovia, portos e aeroportos e quais as prioridades para o necessário investimento em infraestruturas, dado que a estimativa é que estes números continuem a aumentar. Carlos Oliveira Cruz, Professor no Instituto Superior Técnico, autor do estudo “Sistemas de Transportes em Portugal”, promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, falou com a CNN Portugal sobre as principais conclusões desta investigação e quais as possíveis soluções para as problemáticas dos transportes em Portugal.
Segundo o especialista, Portugal tem, hoje em dia, uma das melhores redes rodoviárias do mundo. A rede ferroviária encontra-se, porém, em contraciclo com as economias mais avançadas do mundo. No que se refere a aeroportos, falta também investimento. Salienta, por isso, que é preciso “aproveitar as infraestruturas e potenciar o investimento”.
Carlos Oliveira Cruz explica que é necessário olhar para um novo ciclo de investimentos, nomeadamente nos sistemas ferroviários urbanos das áreas metropolitanas. Em Lisboa, no Porto, na região de Coimbra ou do Algarve, existe um problema de capacidade, que faz com que as populações não considerem a oferta de transportes públicos e usem cada vez mais o automóvel nas suas deslocações diárias. Numa altura em que a sustentabilidade está na ordem do dia, é urgente inverter essa tendência.
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Mudança de paradigma: da dependência do automóvel à mobilidade integrada
Uma das conclusões do estudo “Sistemas de Transportes em Portugal”, promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, foi que o investimento de estradas que foi feito no final da década de 80, 90 e até 2010 e 2012, beneficiou principalmente a região de Lisboa e Vale do Tejo. Ou seja, foi um trabalho contrário ao objetivo da coesão territorial. É importante, por isso, não cometer o mesmo erro na rede ferroviária. De acordo com o especialista, “a estratégia ou a política para a expansão ou para o aumento de capacidade da rede ferroviária não deve passar por esta visão cega de levar o comboio a todas as capitais de distrito; tem que ser muito mais rigorosa, criteriosa, e encontrar as ligações que fazem sentido do ponto de vista do sistema ferroviário”.
O especialista reforça, assim, que é necessário estabelecer prioridades no que se refere aos investimentos no sistema de transportes em Portugal. “Quer a ligação de alta velocidade de Porto-Lisboa, quer o novo aeroporto de Lisboa, são necessidades de investimento em infraestruturas que estão identificadas há mais de 30 anos – e no caso do aeroporto, há 40 ou 50 anos. No dia de hoje, ainda não fomos capazes de as colocar no terreno. No caso da ligação ferroviária estamos mais adiantados: há já um concurso que foi lançado para o primeiro troço da linha de alta velocidade; mas estes são exemplos da dificuldade que o país tem tido no ponto de vista da execução dos investimentos”.
Carlos Oliveira Cruz considera que a melhoria da ligação entre as cidades de Lisboa e Porto é absolutamente essencial. “O tempo que demoramos de Lisboa ao Porto, de comboio, é hoje o mesmo que demorávamos na década de 80. Entretanto, o país desenvolveu-se, a tecnologia dos sistemas de transportes melhorou, e não fomos capazes de aproximar estas duas cidades, que continuam a três horas de distância no transporte ferroviário”.
Segundo o professor do Instituto Superior Técnico, o país criou um sistema de mobilidade excessivamente dependente do transporte individual, nomeadamente do automóvel. “Lisboa e Porto são, provavelmente, as únicas cidades na europa em que nos últimos 20 anos a percentagem de pessoas que utilizam o automóvel aumentou, ao contrário daquelas que utilizam o transporte público. E esta escolha que as pessoas fizeram, foi induzida pela forma como planeamos os sistemas. Isto é, as pessoas sentem que o automóvel é o meio de transporte que melhor se adapta às suas necessidades de mobilidade”. Por isso, assistimos cada vez mais a uma escalada do congestionamento em Lisboa e no Porto, que se reflete também na própria gestão urbana.
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Investimentos e os desafios da transição ambiental
Para resolver este problema, para Carlos Oliveira Cruz é necessário implementar medidas de longo prazo. Nos últimos anos, já foram aplicadas algumas medidas de curto prazo, como a redução do preço dos transportes públicos, mas é preciso também apostar na qualidade e capacidade. Os transportes públicos têm de responder às necessidades da população de forma mais eficiente e sustentável.
De forma a atingir este objetivo, é preciso um considerável investimento. De acordo com Carlos Oliveira Cruz, “a Comissão Europeia, num estudo que publicou nos últimos dias, identificou até 2050 uma necessidade de 1,5 trilhões de euros para atingirmos os objetivos da transição ambiental que esperamos até 2050. À escala de Portugal, o investimento também vai ser muito significativo, até porque precisamos de recordar que temos aqui que recuperar um atraso de investimento, nas últimas duas décadas, nos sistemas urbanos”.
Porém, o volume do investimento obriga a que sejam criados mecanismos de subsidiação cruzada. Por exemplo, o princípio do poluidor pagador, que segundo Carlos Oliveira Cruz, “vai ser inevitável”. “Quem preferir utilizar e deslocar-se para os centros da cidade com o seu automóvel, sozinha, vai ter que, de alguma forma, subsidiar as opções mais racionais do ponto de vista ambiental”. Será necessária, também, a participação do setor privado para melhorar a mobilidade urbana.
Em suma, para Carlos Oliveira Cruz é urgente que Portugal reflita nas prioridades do sistema de transportes e que a execução das suas melhorias seja feita com critério. É importante trabalhar, sobretudo, a nível do planeamento, colocando o sistema ferroviário, a melhoria da mobilidade nos centros urbanos e o novo aeroporto de Lisboa no topo da lista de preocupações do país.
Por fim, deixamos apenas a nota que o estudo “Sistema de Transportes em Portugal”, da autoria de Carlos Oliveira Cruz, promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, está disponível para uma leitura mais aprofundada, por download gratuito, nesta página: